Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Nós, brasileiros, cultivamos o péssimo hábito de copiar alguns maus exemplos e desdenhar dos bons. Somos profundamente invasivos, embora sempre sob o insistente disfarce do calor humano – seja lá o que isso signifique para além dos trinta e seis graus de temperatura corporal. E somos muito individualistas, basicamente porque não pensamos a vida cotidiana como a facilitação das convivências.
Os transportes coletivos fornecem matéria vasta para o assunto sugerido acima, tanto das cópias, quanto do individualismo. Aí, é interessantíssimo notar como esse povo tão caloroso discrimina os seres de segunda classe que precisam recorrer a transportes públicos. Por outro lado quem os utiliza sonha em um dia não precisar mais deles. Parece que poucos sonham que fique melhor!
A coisa funciona como se tudo que existe estivesse assim por disposição divina e imutável. Desta forma, cabe a cada um lutar por algum lugar ao sol. Todavia, sempre é bom lembrar que ascensão social e melhora social são coisas diferentes e que numa mesma sala sempre há um número máximo de lugares. A única saída para caberem mais pessoas é aumentar a sala.
O Brasil, um país enorme, usa trens para transportar minério de ferro e só. Claro que, residualmente, outras coisas se deslocam por via ferroviária, mas é muito pouco mesmo. Não vou, aqui, alinhar os longos, conhecidos, óbvios e enfadonhos argumentos a favor da economicidade dos trens. Tampouco vou negar que se trata de investimento elevado. Observo apenas que o trem, no nosso imaginário, é algo fora de moda, superado, brega, coisa de pobre.
Mas, o culto do automóvel – associado à liberdade de locomoção, a despeito dos engarrafamentos – não tem que excluir os trens. Aqui, na europa, cultua-se o automóvel mais que no Brasil e anda-se de trem. Uma coisa não afasta a outra, a menos que sejam vistas com a usual bipolaridade que importa um modelo e joga o outro fora. A gente faz movimentos de manada, bruscos, como se todos os passageiros de um navio corressem de repente da proa à popa, porque disseminou-se a idéia de que alí estavam as pessoas interessantes.
Insisto muito nessas pequenas comparações porque acredito que esse jogo é muito influenciado por fatores culturais, além dos fatores econômicos usualmente destacados. Ora, em determinado momento pode ter sido mais barato – ou talvez mais vantajoso para quem vende pneus e diesel – fazer estradas e tentar entupi-las de ônibus, caminhões e carros. Mas, poderia ter sido atrativo para os capitais disponíveis investir também em ferrovias e, certamente, teria sido melhor para os usuários.
Decretou-se a caducidade do trem, lá pelos anos sessenta. Junto a essa caducidade, porém, nota-se que não se rejeitaram os metrôs, que não passam de trens! Essa ridícula contradição mostra como nossas mentes e opiniões estão balançando ao sabor dos ventos e das modas. Em locais mais periféricos, como é o caso de Recife, o metrô, tardio, foi celebrado. Deve ser por conta do nome, porque os trens ligando a capital ao interior simplesmente tornaram-se incogitáveis, embora sejam essencialmente a mesma coisa.
Por estas bandas lusitanas, vai-se de trem a quase todos os lugares. Não, não é sempre mais barato, nem mais rápido que ir de avião, dependendo do lugar. Claro que se o cidadão dispuser de tempo e paciência para meter-se numa busca desenfreada da promoção do momento, da companhia de baixo custo em evidência, para uma viagem recreativa, encontrará. Mas, vá servir-se disso para o cotidiano e para distâncias curtas. Não dá.
O danado do trem é seguro – incomparável com ônibus – pontual, limpo, regular e relativamente barato. Vou abordando o assunto, acanhadamente, como se tivesse que afirmar uma superioridade relativa, dependente de muitas circunstâncias. Mas, na verdade, não é bem assim. Na enorme maioria das circunstâncias é mesmo imbatível, sobretudo comparado aos ônibus.
Uma rota extremamente densa, como é o caso de Recife – João Pessoa, seria perfeitamente atendida por trens, tanto para cargas, como para passageiros. Muitas vezes mais racional que viver a loucura de vencer esses cento e poucos quilômetros arriscando a vida a cada curva, na ânsia de cortar caminhões e ônibus que se sucedem quase em geração espontânea.
Cada vez mais me convenço que os transportes no Brasil são pensados por quem se desloca em helicópteros, é dono de empresa de ônibus ou vive do comércio de combustíveis e pneus, além das construtoras, é claro. O custo global e os usuários que se danem, portanto. Acontece que isso é um luxo incompatível com um país que ainda precisa crescer muito e tratar melhor seus cidadãos.
Amanhã, vamos ao aeroporto do Porto. Essa operação demandará tomar um trem urbano, para vencer poucos cinquenta quilômetros, e um metrô que chega dentro do aeroporto. E custará, ao todo, € 3,40. Quem quiser, multiplique esse valor por três e imagine-se planejando a logísitica, por exemplo, para ir de Vitória de Santo Antão para o Aeroporto do Recife.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro. Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
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“Governar é povoar; mas, não se povoa sem se abrir estradas, e de todas as espécies; Governar é pois, fazer estradas”.Washington Luís Pereira de Sousa – E olha que isso foi na década de 20. Até nosso Monteiro Lobato defendia que o ascenso econômico dos EUA era consequência da abertura de novas estradas. Nosso PSI (Plano de substituição de Importação) atraiu principalmente as grandes montadoras, sem falar no lobi necessário para que tal investimento ocorresse. Durante 50 e 60 cerca de 70% do orçamento foi para a infraestrutura do país (Grande parte estradas rodoviárias), e isso até hoje é regra.
Outro Agravante para a descontinuação de novas ferrovias, era a despadronização das bitolas dos trens, o que dificultava a integração nacional.
Não acho que haja no povo brasileiro um pré-conceito quanto ao trem, e sim quanto a qualidade do transporte. E isso tem muito mais a ver com política pública do quê cultura.
Existe algo de ruim na Europa?
Andrei,
Concordo inteiramente com você, mas temos que ressaltar que esta decisão no Brasil foi tomada por uma elite muito incompetente. No nosso caso a influência dos fatores culturais é calaramente percebida, a meu ver, na tentativa tosca de imitação de um mundo que não é o nosso. Nossa elite decidiu imitar o modelo dos EUA e deu nessa porcaria que vivemos hoje: estradas que nem merecem ser assim chamadas, milhares de acidentes, etc. E esta decisão ainda não mudou, continuamos planejando o crescimento do país pelas estradas.
Na questão dos trens, a Europa dá banho nos EUA, onde quem não tem carro se ferra, principalmente fora das grandes cidades, nas quais os metrôs existem. Fazer viagem interestadual de ônibus nos EUA pode ser, algumas vezes, pior que no BRasil, esteja certo disso. A rodoviária de Nova York é um lixo, não tem nem cadeiras suficientes para as pessoas e muitas ficam pelo chão; as poucas viagens de trens de passageiros são muito longas e desconfortáveis. Acontece que lá a imensa maioria pode ter carro e pode viajar em estradas maravilhosas, não precisa sofrer nas rodoviárias, por isso eles nem se preocupam. Já aqui…..
Não creio que a classe média seja tão preconceituosa com transportes coletivos não. São Paulo é um bom exemplo de que a classe média usa muito o metrô porque é um meio decente de transporte. SE eles não usam mais é porque o metrô não cobre a maior parte da cidade, não é suficiente mesmo. Agora, quem vive em Recife não tem escolha, se for classe média: ou anda de carro ou nos ônibus, que apesar de muito ruins já melhoraram um bocado.
De minha parte, estando na cidade, prefereria mil vezes ir de metrô ou a pé ao trabalho, se isso fosse possível. Fiz isso quando morei em São Paulo e faço aqui sempre que posso. Quando morava no Espinheiro fazia muita coisa a pé, porque é um bairro que tem muitos serviços próximos e um péssimo trânsito; até para o cinema ia a pé (o da Rosa e Silva). Infelizmente, agora moro mais longe do trabalho e preciso do carro para me locomover.
ANDREI
SINTO SAUDADES DAS CONVERSAS DA MINHA MÃE QUE ESTAVA SEMPRE INDO E VINDO PARA O INTERIOR DE TREM NA SUA JUVENTUDE.HOJE NÃO SE OUVE FALAR ABSOLUTAMENTE NADA.
SEM DÚVIDA SERIA UM GRANDE INVESTIMENTO MAS PARA A POPULAÇÃO SERIA MAIS SEGURO, MAIS BARATO E MAIS INTERESSSANTE.INFELIZMENTE A NOVA MODA DEIXOU O TREM PARA TRÁS NO NOSSO PAIS
AGHATA
“Não acho que haja no povo brasileiro um pré-conceito quanto ao trem, e sim quanto a qualidade do transporte. E isso tem muito mais a ver com política pública do quê cultura.”
Luciano, vc disse exatamente o que penso. Faz uma ano que eu não entro em um ônibus, e não é por achar que é coisa de pobre, mas porque a qualidade do transporte público é muito ruim. Isso faz a gente desejar profundamente andar de carro, só para ter dignidade, qualidade de vida, chegar nos lugares sem estar suada, amassada e cheirando mal. Quando o transporte público me oferecer esse mínimo de dignidade, eu volto a andar de ônibus.
Luciano,
Parece-me que o componente cultural do problema pode ser visto na facilidade com que se sucumbiu aos lobis das estradas, dos pneus, das montadoras, das empresas de ônibus.
O povo comprou a solução pior para ele mesmo porque julgou o inverso. Eis aí o que acho componente cultural.
O Povo escolheu?
Amanda,
Eu quis dizer que a falta de qualidade e a rejeição dela decorrente são fatores que se retroalimentam.
Faltam condições de se fazer pressão. Ou seja, os usuários de transportes públicos, exatamente os mais prejudicados, não concebem nem mesmo o que poderia ser melhor.
Arthemísia, Amanda e Luciano,
Uma pergunta parece-me fundamental e esclarecedora da situação: a quem aproveita a quase inexistência de transportes ferroviários? Aos donos de empresas de ônibus, basicamente.
Nos EUA, a coisa é menos excludente, porque carros e combustíveis são relativamente baratos. Mas, com o resto do mundo duvidando da possibilidade deles pagarem suas promissórias a coisa pode piorar. Além disso, coisas realmente pesadas, eles transportam de trem.
No Brasil, é um crime condenar a população apenas aos ônibus. São Paulo faz a opção de anéis e anéis viários em vez de mais metrô. Andar, é impossível.
Então Andrei, se elas se retroalimentam, na medida que melhorar a qualidade do transporte diminui também a rejeição. Portanto não é cultural e sim problema de política eficiente de transporte público. E essa melhoria só depende da vontade do governo, pois eles são capazes de observar o que funciona lá fora para implantar aqui dentro. Lógico que com devidas adaptações.
Lembrei-me do que disse Valdecir Pascoal, professor e conselheiro do TCE-PE, em artigo dirigido aos novos prefeitos, circulado em um jornal local ontem. O político simples preocupa-se com o mandato; o estadista com gerações.
Qualquer projeto ferroviário (ou metroviário) eficaz a ser implantado no Brasil não será um projeto de governo, e sim de longo prazo. E então fica difícil tirá-lo do papel porque os governantes, geralmente, não enxergam além dos próprios interesses.
Luciano,
Talvez estejamos dizendo o mesmo com palavras diferentes. Talvez, não.
Claro que se a qualidade aumentar, a rejeição tende a diminuir.
A possibilidade de se implementarem políticas ineficientes (há cinquenta anos, já) e convencer a maioria de suas vantagens, é tomar partido de uma propensão cultural a acreditar em novidades.
Não queria entrar nesse assunto mais detidamente. Mas, já entramos. Parece-me que as políticas governamentais são muito suscetíveis de mudanças consoante quem irrigue com dinheiro os pomares governamentais.
Cultural é a postura de aceitar que isso é melhor que aquilo porque é mais recente, representa o progresso e coisas deste jaez.
Andrei,
Tentando responder sua pergunta: donos sempre haverão, sejam eles de ônibus, trem, dos combustíveis, das montadoras, dos fabricantes de pneus. Continuo achando que é imcompetência mesmo da nossa elite econômica e política. Da parte dos usuários, eles querem pagar o que for mais barato e melhor e isso ficou muito claro quando as passagens aéreas baratearam anos atrás. NInguém queria mais viajar de Itapemirim, mas de Gol não foi?
Nesse sentido, duvido que alguém vá ter preconceito de andar de trem-bala do Rio para São Paulo (se é que isso vai acontecer mesmo). O problema não é ônibus, trem, kombi ou metrô; a questão é não ser carregado como gado em nenhum deles.
Arthemísia,
A questão é que os donos do negócio atual pagam qualquer coisa para não haver outro negócio.
Concordo com você que há muita incompetência das elites econômicas, mas há também muita indiferença, pura e simplesmente.
Quando o assunto é economicamente seriíssimo, como o transporte de milhares de toneladas de minério de ferro, ou soja, os interessados fazem a ferrovia.
O Patrimonialismo é inegável bem como a passividade das massas. Mas se isso for a resposta de tudo seríamos ainda Portugal.
Porém nem tudo que é novo agente aceita como o melhor, caso célebre foi o da Fordlândia em Santarém.
Luciano,
Realmente, nem tudo é melhor explicado por meio de argumentos culturais.
Contudo, a passividade das massas, no Brasil, é a maior e mais longeva obra de exclusão da história moderna. Encontram-se excluídas tanto por desinformação, quanto por aquilo que Umberto Eco chama de carnavalização.
Todos os comentários acima, me deixam muito feliz, com a vontade de todos de que a coletividade seja o mais importante. Vamos ou estamos no limite de trafegar de carro em Recife. o metro que vai até cajueiro seco, passando por toda boa viagem, está pronto, há varios anos, faltam detalhes de acabamento e chamarem os concursados já selecionados, só que a união que se desfazer do metro recife, alegando que dá prejuízo, não entendo que se coloque assim um transporte coletivo e quase perfeito, na minha opinião precisamos cobrar do governo e cia, o inicio mais rápido possivel desta rota nova.
Temos que vencer os interesses da borborema que em qualquer governo domina as rotas mais rentáveis, e praticamente não tem concorrencia, há mais de 30 anos!
Nós temos um caso com os carros, nos dão status, concordo, mas pudemos deixar para os fins de semana e as necessidades esporádicas durante a semana.
A situação acima, talvez seja a mais próxima, que pudemos lutar para mudar o transporte em Recife!
Amanda, existem coisas ruins, sim, na Europa, ainda que bem menos que aqui no Brasil.
Andrei, nessa sua crônica, senti falta de uma honrosa menção aos bondes, que são muito mais baratos que os trens e populam importantes cidades européias, como Viena, Antuérpia, Basiléia e Berna.
Uma outra coisa importante para a democratização do transporte público (fora qualidade e confiabilidade) é a facilidade de seu uso. Aqui em Recife a gente só sabe onde um determinado ônibus passa se for usuário da linha ou perguntar a alguém que o seja. Em Paris e Madri, dentro de cada ônibus tem um mapa com as paradas que o ônibus faz. Em Londres e em Montreal, você pode entrar no site da empresa de transporte público e dizer onde está e para onde quer ir, que recebe o intinerário, inclusive com a hora em que o ônibus e/ou metrô irá passar e o tempo que cada percurso irá durar.
Outra coisa importante é que a passagem ou é válida por um certo período de tempo (como defendia Cadoca – exemplos: Roma e Salzburgo, o que lhe permite trocar de ônibus, para chegar mais rapidamente ao seu destino sem ter que pagar várias passagens, o que ainda reduz a necessidade de um grande número de linhas) e/ou é possível comprar um bilhete que lhe dá direito a quantas viagens se queira por 1 ou 3 dias (depende da cidade), por uma semana, por um mês e até o ano inteiro (caso de Londres).
Quando eu morava na Iputinga e estudava na UFPE, cansei de deixar passa o Rio Doce/CDU vazio, porque eu não iria pagar uma passagem mais cara para fazer o mesmo percurso que eu faria num outro ônibus. Qual a racionalidade disso?
Quanto ao nosso metrô, apesar do nome ele não é um metrô. Ele é apenas um trem de subúrbio, já que não há densidade de estações, e o típico usuário vai do subúrbio para o centro e vice-versa, ao contrário de um verdadeiro metrô, que é utilizado para se locomover dentro do centro.
De qualquer forma, Andrei, excelente tópico.
Lembrei de um livro chamado Crimes Corporativos (de Russel Mokhiber) que conta, entre vários outros episódios bem documentados sobre a canalhice das grandes empresas, como a indústria automobilística americana organizou sua estratégia para retirar os bondes de circulação nas cidades de lá e substituí-los pelos ônibus que fabricavam. Aqui no Brasil fizeram lobby desde a década de 50 para que os investimentos em rodovias aumentassem e promoveram em boa medida o abandono da malha ferroviária. A elite deste país, e a classe média, sua serva, define assim suas prioridades. Quando não estão olhando o próprio umbigo, olham o umbigo de americanos e europeus. Pena que não aprendem com eles a zelar pela própria terra. Embora achem muito bonito.
Márcio,
Eu não posso cronicar sobre Viena ou Basiléia, porque lá não estou.
Há, sim, inúmeras coisas ruins na Europa. Uma delas é a resistência a saldar os débitos da feroz colonização empreendida na América e na Àfrica. Inclusive materialmente.
Outra é prestar-se a coadjuvar os EUA no belicismo disfarçado de causa nobre. Os EUA jogam as bombas e os acadêmicos europeus prestam-se a fornecer argumentos sofisticados e hipócritas.
Para viver, contudo, é muitíssimo melhor que o Brasil. Mesmo.
Arutur,
Existe mesmo um componente mafioso na estória, mas não quis insistir.
Andrei,
Eu sei que em Lisboa, ao menos, tem bondes. Mas não conheço a realidade portuguesa, já que aí nunca estive, excetuando-se as conexões no aeroporto de Lisboa. Mas imagino que outras cidades portuguesas tenham bondes.
Sem dúvida nenhuma, morar na Europa é, em geral, bem melhor do que morar no Brasil, mas eu conheço pessoas (brasileiros e europeus) que preferiram sair do Velho Continente para vir morar por aqui. Ainda que na minha opinião eles sejam insanos, eles têm os seus justos motivos para achar aqui melhor do que aí.
A obviedade dos trens não merece comentários maiores, muito menos para concordar contigo, Andrei, sobre a preferência das rodovias no Brasil – em detrimento daqueles outros – atende, notadamente, àqueles que se deslocam acima do chão, porquanto é mais rápido, seguro, conveniente e dinheiro não é problema, afinal.
O deslocamento Recife – João Pessoa, de fato, seria muito bem atendido por trens. E aos que sustentam a inviabilidade econômica do investimento, tentem calcular o custo da duplicação, em andamento, da BR 101 Pernambuco/Paraíba. Ao final, na inauguração, que venham os tapa-buracos.
Pensei, por fim, na epopéia do caboclo para se deslocar de Vitória de Santo Antão para o Aeroporto do Recife, fazendo uso de R$ 10,20. Ah… problema dele! Quem manda não ter carro!? Seria mais honesto se respondêssemos assim, simplesmente.
Para obras que atendem a minoria o preço pago é justo… são os investimentos do futuro.
Para outras, que poderia atender a maioria, é inviável, deveras oneroso.
É curioso…
Andrei, lê, por favor, “precisa de” no lugar de “merece” na primeira linha do comentário anterior.
Márcio,
É verdade, Lisboa tem bondes. Hoje, porém, eles cumprem mais uma função pitoresca. Trafegam no centro antigo, pela baixa, em trajetos muito charmosos.
Há também os bondes modernos. São elétricos maiores, quase como bondes do tamanho de um ônibus e fazendo linhas maiores. Bastante eficientes.
O metro do Porto é um belo exemplo de racionalidade de transporte urbano. Quase todo de superfície, novíssimo e integrado aos ônibus e aos trens urbanos, regionais e nacionais.
Ubiratan,
A coisa toda é pensada de maneira que se torna quase suicida em pouco tempo.
Veja que passagens aéreas baratearam muito. Pegue, então, o exemplo do cidadão que precisa ir de Vitória apanhar um avião em Recife. Imagine que o feliz cidadão tenha carro.
Vai de carro ao aeroporto e deixa lá o carro estacionado? Custará mais que as passagens. Vai ter que mobilizar alguém para ir deixar e voltar com o carro.
Vai de ônibus ao TIP e pega outro ônibus? Chegará ao aeroporto em tempo de tomar outro banho e talvez sem os pertences.
Vai de ônibus ao TIP e pega um taxi? Deixará uns sessenta reais com o taxista.
Todas as muitas vezes que fui pegar um vôo em Recife foi uma novela, morando em Campina. Fazer o quê com o carro? Liga para um primo e deixa o carro com ele, tanque cheio e tal. E o coitado vai guardar o carro onde?
É uma loucura econômica transportarem-se cargas pesadas entre João Pessoa e Recife de caminhão. Um caminhão cheio de cimento, de óleo diesel, de vergalhão de ferro. Cegonhas viajando milhares de quilômetros com automóveis!
Lembro-me que há alguns anos a Fiat inventou de vender carros no porto do Recife, trazidos, acho que de Santos, de navio. Um navio pequeno vale por ums cinquenta cegonhas, no mínimo. A diferença de frete ficava para o comprador.
O que aconteceu? Aconteceu que nunca mais aconteceu. Os carros continuam vindo desde Betim em caminhões, estupidamente.
Andrei,
Vejo que o debate hoje está quente.
Como não entendo da política nem da econometria dos transportes ferroviários vou aproveitar o saudosismo de Aghata e lembrar que cheguei a viajar do interior de Pernambuco para o Recife em trem com locomotiva a vapor, tomando água e lenha em diversas paradas nas 8 horas de viagem.
Gostaria também de esclarecer que, mesmo parecendo ser um dos mais idosos do seu grupo de interlocutores semanais, não fui contemporâneo de corpo físico do Buda Sakyamuni.
Voltando aos trens, dentro dos vagões se comprava e se vendia até galinha viva, além de cocada, água em quartinha de barro, bolo bate-entope e outras iguarias regionais, que a minha mãe não me deixava experimentar de jeito nenhum…
Na passagem pelos túneis na Serra das Russas colocávamos panos na cabeça e fechávamos as janelas do vagão para diminuir a entrada de fumaça… e de abelhas e de marimbondos pois a velocidade do trem baixava muito.
Era um drama e imagino até que Zé Sarney pode ter se inspirado em uma dessas travessias de trem nos túneis da Serra das Russas para escrever o seu livro “Marimbondos de Fogo”
O trem com locomotiva diesel-elétrica, que chegou no meio dos anos 1950, era o modernismo, sem parar para beber água, subindo a serra que nem um raio e puxando mais vagões.
Podia botar mais de 60km/h naqueles trilhos preparados para locomotivas a vapor e cheguei a ver uma locomotiva diesel virada por excesso de velocidade em uma curva na entrada da cidade de Belo Jardim.
Em viagens nos USA e Europa andei algumas vezes de trem, bastante limpos, pontuais e… velozes.
Certa vez, penso que na Alemanha ou na Holanda, estava com uns amigos em um carro alugado e resolvemos apostar carreira com um trem que passava paralelo à nossa estrada bastante plana: derrota feia, aquele trem ia a bem mais de 160km/h e nos bateu fácil.
Infelizmente o modelo de transportes de massa entre cidades no Brasil divergiu do que parece ser a racionalidade dos trens para o caos dos 900 mil carros que estarão saindo amanhã de São Paulo para as praias e da mágica estatística do “overbooking” praticada indecentemente pelas companhias aéreas com o conluio da ANAC.
Tenha um ótimo Ano Novo e que atinja com Olívia a iluminação das suas mentes na paz civilizada do interior de Portugal, já que em Recife e em Campina isso está ficando cada vez mais difícil de acontecer, mesmo lendo todos os dias as Sutras do Iluminado.
Com um forte abraço de,
Sidarta
Saudosismo maravilhoso de Mr. Sidarta.
Agora imagine todas as estações que se parava, lindas! E ainda existem escondidas no abandono.
Sidarta,
Belo retrospecto histórico ferroviário. A parte de Sarney me deu um acesso de risos de uns cinco minutos.
Aqui, os trens correm em vias de bitola larga. As curvas são suaves e há trens bem velozes, de longo curso.
As janelas estão sempre fechadas e não entram marimbondos. Ou seja, um indivíduo do nível de Sarney não teria chances. Sorte dos lusitanos.
Fred,
Além das estações, sempre me chamaram atenção as caixas d´água, de ferro, onde o trem bebia água.
Em algumas cidades, ainda estão lá.
As estações seguiam o clássico padrão inglês. A estação central do Recife é um prédio lindo. Ainda bem que não puseram abaixo.
Fred,
Quando eu era menino e estava de férias em Belo Jardim descobri que a meninada tinha duas chances por dia de construir uma boa “arma branca” a partir de um grosso prego (menos grosso, talvez, do que o que dizem que os romanos usaram para crucificar Jesus).
Isso era feito colocando amarrado o prego sobre um dos trilhos da linha do trem e esperando que o que vinha de Salgueiro ou o que vinha do Recife passasse direitinho sobre o prego e o amassasse até ficar bem fino e forjado como a lâmina de uma faca.
Muitas vezes as rodas do trem partiam o prego ou o jogavam para o espaço. Quando dava certo era só levar no marceneiro e pedir para fazer um cabo e tínha-se um pretenso homem armado de punhal artesanal como bem ensinava os filmes de farwest da época.
Essa operação tinha que ser feita relativamente perto da estação do trem para que a maior velocidade da composição não estragasse as coisas… e o chefe da estação ficava de olho na meninada para que não houvesse um acidente com algum deles ou, improvavelmente, com o trem.
Nunca tive coragem de encarar a operação mas me lembro muito bem das facas de prego amassado pelo trem, das estações de trem pelo interior, da batida do sino informando que o trem tinha partido da estação mais próxima e logo chegaria, e das muitas e despreocupadas viagens que fiz naqueles trens.
Existem vários projetos para recuperação destas estações em cada munícipio, que outrora o trem passava, mas sempre são postergados em virtude de prioridades, como casas e saúde…
Acredito eu, quando a transnordestina, realmente começar, com certeza a consequencia de mais ramais, vai gerar interesse nestas estações, como a de Gravatá que, hoje é ponto de venda de artesanato!
O caso do metro do Recife, explica muito a falta de interesse nos trens, desde 1997 que começou uma obra que era para terminar em 2000!
Pernambuco se tiver um planejamento a longo prazo, e agora, começar a investir em infra-estrutura logistica com integração de varios modais, vai aproveitar este namoro com o governo federal e vamos melhora o pib do estado.