Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
O peru faz parte das ceias natalinas brasileiras, juntamente com a farofa, o arroz, aqueles presuntos defumados que chamamos tender e as tais maioneses com os indefectíveis cubinhos de maçã. Há também aquela genial galinha gigante, que a Perdigão vende com o nome de chester.
Sentimo-nos dispostos a tomar vinhos e espumantes e um copinho de Porto com a sobremesa. Tudo isso em ambiente de estufa, ou seja, com mais de trinta graus de temperatura e umidade que chega bem perto de cem por cento. Nessas épocas, cometem-se excessos gastronômicos perigosos e não é à toa que acontecem as indisposições e ressacas pós natalícias.
A propósito dessa evidente inadequação dietético-climática, falava sempre um amigo meu que devia ser proibida, no Brasil, qualquer outra bebida que não fosse cerveja gelada. Acho – à parte os excessos da prescrição – que estava coberto de razão. Quando o indivíduo experimenta as propriedades de esquentamento do vinho e das gorduras em geral, passa a perceber que os nutricionistas estão mesmo certos.
Nós simplesmente reproduzimos muitos hábitos europeus relativos a gorduras, doces e bebidas fortes, impróprios para o calor. Experimente o cidadão comer uma feijoada no almoço e não ficar com sono, ou mesmo passando mal, depois. Pretenda o incauto cidadão trabalhar a segunda etapa da jornada com a mesma disposição da primeira. Dificilmente conseguirá.
Mas, retornando ao peru, os hábitos culinários associados a datas comemorativas são fortíssimos e peculiares. Felizmente, carregamos os nossos próprios, evidenciando uma identidade relativamente forte. Vemo-nos procurando farinha de mandioca e farinha para cuscuz, nos supermercados. Ficamos gratamente surpresos com a profusão de feijões e de frutas brasileiras. Enfim, agrada-nos a facilidade de poder reproduzir o que estamos habituados a comer.
Claro que será dificílimo transplantar todos os hábitos de origem, até porque há ingredientes que não se encontram, ou se encontram a preços muito altos. Além disso, não se vai viver isolado, nem se devem perder as boníssimas coisas que se comem por aqui. Eu, particularmente, gosto bastante da cozinha portuguesa, não cultivo nostalgias culinárias, mas sempre fico interessado pelas possibilidades de comer ou reproduzir coisas brasileiras.
Eis que resolvemos, um grupo de brasileiros, fazer uma ceia de natal. Seria quase impossível que não ocorresse a idéia óbvia, nessa época. Escolhe-se uma casa, apta a receber o grupo de dez pessoas e parte-se para planejar o jantar. O planejamento resulta na ementa que se encontra no primeiro parágrafo. Ótimo, tudo resolvido!
Chegados ao supermercado, imbuídos da certeza das facilidades, começamos a perceber que o peru não é o protagonista das festas de solstício de inverno, época em que nascem os messias. Aqui, o lugar central deste repasto comemorativo é ocupado pelo bacalhau! Pensando bem e lembrando a simbologia cristã é até mais razoável que um peixe seja o centro gastronômico dessa festa.
Os bacalhaus estão por toda a parte, mas os perus contam-se nos dedos, estão na prateleira de sempre, sem qualquer indicação especial, sem aumentos ou descontos nos preços. São perus como se vendem e compram todos os dias, inteiros, com cabeça, com pés, com vísceras, faltando somente as penas. Ou seja, muito diferente daqueles imponentes perus eviscerados e temperados, com termômetros que explodem na temperatura certa, nas embalagens decoradas com motivos natalinos.
Aquele peru foi desanimador – nem tanto pela desimportância ritual dele aqui, nesta época – mas pelas dificuldades que representava, além de sua feiúra é claro. Uma reunião de talentos gastronômicos esparsos e diletantes, numa cozinha pequena, imbuídos da tarefa de tratar e temperar um peru, não era algo promissor.
Não desanimamos e achamos um mercadinho com produtos brasileiros. Lá estava, petrificado na geladeira, o peru da Sadia, bem embaladinho, tratado, sem pés, sem cabeça, com o famoso termômetro. Além disso, iguarias como cocada, paçoca de amendoim, carne-de-sol, charque e cuscuz. Mas, a cuscuzeira infelizmente custava € 18,00 e aí não dá.
O mais curioso dessa estória toda é nosso condicionamento pelos hábitos. Ora, por que raios todo um grupo imaginou que peru era o prato principal de natal por aqui? Porque é assim no Brasil e nos filmes americanos todos, é a resposta evidente. Mas, o mundo nem sempre responde exatamente conforme nossas projeções.
Isso pode ser mais perigoso do que o trivial exemplo sugere, pois coisas deveras graves se fazem em nome dessas visões de mundo projetadas. Estava lembrando, neste momento, quantas invasões e morticínios em massa já se fizeram a bem de levar aos mortos as maravilhas da democracia ocidental. Portanto, cautela ao levar as expectativas nas bagagens de viagem!
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro. Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
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Postado em: 
PRECISAMOS EXPORTAR MAIS CULTURA , VAI FAZER BEM A BALANÇA COMERCIAL.
VOCE ESTA CERTÍSSIMO, PODEMOS E DEVEMOS TROPICALIZAR NOSSO NATAL.
Andrei,
Sua tão esperada crônica dessa semana está bem humorada, leve, sintética e bastante ilustrativa das diferenças nas situações natalinas, principalmente nas temperaturas ambientes aí e aqui.
Senti uma certa precaução sua em liquidar com a questão do peru e comprar logo aquele da SADIA que ficou congelado desde o Natal do ano passado, para poupar os seus estômagos dos riscos inerentes às criatividades das mulheres brasileiras de diferentes estados animadas na atividade de temperar um peru europeu com penas, pés etc.
Boa sorte com o seu jantar de Natal. Um beijo para Olívia.
Com um grande abraço de,
Sidarta
Andrei,
Tudo bem que forçamos um pouco a barra no Natal, mas se não fosse peru ou chester, seria cozido, buchada, sarapatel ou bode. Aqui não tem jeito, o povo quer comer pra suar mesmo, não tem moleza. Se formos inverntar de comer só saladinhas, também não será nada autêntico, não?
Já que seu natal será à brasileira, e você não comprou sua cuscuzeira, você pode apelar para a tradição e fazer no pano mesmo, que tal?
Uma curiosidade: de onde veio a tradição do peru? Se não foi de Portugal, como a maioria de nossas tradições, quem lançou a moda aqui? Nos EUA também não é tradicional o peru no natal, e sim no thanksgiving, no natal se come qualquer coisa. Será que copiamos errado?
Feliz Natal.
Sorte nossa que podemos optar por comer peru, chester ou bacalhau na Santa Ceia. Muitos aqui vão esperar pelo famoso sopão, da campanha Natal Sem Fome.
Feliz Natal a todos !!!
ANDREI
MUITO INTERESSANTE SUA SURPRESA QUANTO A DIFERENÇA CULTURAL NAS CEIAS NATALINAS.MINHA SURPRESA AQUI ESTE ANO FOI AO CONTRÁRIO , GRANDE QUANTIDADE DE BACALHAU NOS SUPERMERCADOS.
NÃO ME LEMBRO DE TER TIDO BACALHAU NAS NOSSAS CEIAS DE NATAL.
SUCESSO NA SUA CEIA E NÃO ESQUEÇA A FAROFA.
AGHATA
Arthemísia,
Eu pensava que a tradição do peru era norte-americana. Sabia que é usual – quase imperativo – na ação de graças, mas não sabia que não é no natal.
Talvez você tenha apontado a resposta: podemos ter copiado errado!
Por aqui, o cozido é bastante tradicional e semelhante ao nosso. Afinal, o nosso é o português com variações. Aliás, cozido não é muito pesado, se não se carregar muito nas linguiças. Músculos e legumes bem cozinhadinhos são facilmente digeríveis.
Concordo integralmente com sua genial colocação: comemos para suar.
Fred,
Isso de exportar nossa cultura permeia meus pensamentos. Sempre pensei que somos fracos com produtos bons.
Os mexicanos, por exemplo, convenceram meio mundo de que aguardente de agave é bom, associada a alegria e coisa e tal. Aguardente de cana de açúcar – bem feita, é claro – é muito melhor. Não obstante, só se encontra a porcaria da 51, a preços irrisórios!
O que nós vendemos é uma lástima. Em qualquer seção de CDs de uma loja tem os indefectíveis Sons do Brasil. Consiste numa coletânea de beber cair e levantar da vida e uma mulata de biquini na capa!
Daniel,
Realmente, é um luxo estar-se a falar de perus, bacalhaus e outros acepipes, quando a maioria vai escapar com o sopão da campanha, como você disse.
Acontece que os comedores de bacalhau, peru e outros conseguem manter isso até hoje.
Andrei, voce poderia vender “eleela” a 5 euros neste frio do norte e voltar com dinheiro para trocar o carro,
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Não sei se efetivamente nós brasileiros, especificamente nós nordestinos, comemos via de regra para suar. Ultimamente tenho percebido mudanças nos hábitos alimentares de quem vive próximo ao Equador, notadamente se este alguém habita nas grandes cidades. No corre-corre da semana, com a profusão de restaurantes “self-service”, as opções de alimentação aumentaram e não é raro ver as pessoas fazerem o “sacrifício” de comer algumas verdurinhas aqui, uns legumes acolá. Tudo bem: pode ser resultado das toneladas de programas televisivos e material jornalístico que são despejadas todos os dias abordando os cuidados que se deve ter com a saúde. Ou mesmo pode ser fruto da cada vez maior relevância que a estética corporal vem assumindo nos relacionamentos e no imaginário do povo, pois, afinal, ficar “sarado” pode significar ou transparecer sucesso.
Não quero dizer com isso que estamos realmente ficando interessados na boa nutrição e na escolha correta dos alimentos, de acordo com nosso clima. Não quero dizer com isso que estamos ficando “diets”, “lights” ou algo equivalente, mas não podemos negar que é mais comum hoje ouvir a declarada preocupação em moderar na gordura e nos alimentos de digestão difícil, quer por influência da propaganda, quer por modismo, que mesmo por intenções verdadeiras de vida saudável.
De toda forma, não podemos deixar escapar que nossa culinária tradicional nordestina tem a ver com as dificuldades de sobrevivência. Afinal, coisas como sarrabulho, buchada, feijoada e cuscuz são encontradas com certa facilidade caatinga afora, ou sertão adentro, além de não custarem muito caro, se comparadas ao tradicional peru. Para aqueles que não podem comprar a famosa ave natalina, cujo preço sobe às alturas por estas épocas, resta ficar com a tradição (nordestina). E o bacalhau? Ah, isso é coisa pra português ver….
Rapaz,
Queria estar ai só pra comer um bacalhau! quero comer peru nao! e tomar vinho? pela caridade! aqui no Brasil é complicado!!!
gostei da crônica! foi divertida !
Daniel,
É verdade que há mudanças, mas são muito localizadas nos estratos mais elevados da sociedade. Primeiro que é mais caro alimentar-se adequadamente que alimentar-se fartamente, para suar.
Segundo que a muitos ainda parece um luxo.
Terceiro que as comidas que fazem suar, tirando o maldito suor e o mal estar posterior, são melhores que o alface.
Rafael,
Sugiro-te não desafiar os deuses da digestão e da ressaca. Guarda as garrafas de vinho para os meses em que não se vertem gotas de suor em Campina Grande, depois das quatro da tarde.
Entretanto, preenche os espaços da tua geladeira com belas garrafas de Skol e aprecia com a moderação que te parecer melhor, afinal não vais dirigir.
Estava meia perdida quando me deparei com sua cronica…tens msmo razão em mts coisas e os comentários foram tb otimos…sabe de uma coisa que tenho saudades na ceia de natal? do famoso chester e do presunto defumado lá do Brasil…ja temos algumas facilidades por aqui,coisa que nem sonhavamos ter…apesar de sempre tentar conjugar a comida luso_brasileira em minha casa,mas lá se vão os tempos de um chester bem temperado e de um presunto decorado com frutas em calda…Quem sabe????um dia… Boas Festas a todos.