Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.

mar 30, 2009 by     22 Comentários    Postado em: Cultura

escrita221

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Estas impressões não são propriamente lusas ou, melhor dizendo, não foram absoluta e totalmente colhidas por aqui. Na verdade, fiquei encantado com um episódio contado pelo amigo Severiano, um protótipo de sábio que estuda em Salamanca juntamente com nosso querido Thiago. São os abnegados que nos receberam tão bem em Castela, de quem falei em outra oportunidade.

A percepção que teve Severiano foi mais ou menos confirmada nas minhas coletas de impressões, uma prazerosa e diletante atividade de sociologia de botequim, a que me entrego sem as regras do método. Enfim, nem sempre se pode, ou se quer, seguir o organizado Durkheim.

Nós, as pessoas em geral e os povos, somos muito auto-complacentes. Bem, talvez não seja o melhor termo, mas quase sempre não sabemos a palavra mais apropriada, o mot juste flaubertiano. Podia dizer também auto-referentes ou imersos em nós próprios, ou herméticos, ou crentes em sermos o centro do mundo, ou qualquer coisa que possa significar isso.

Existe, sim, uma forte tendência a vermos as nossas coisas como as melhores, as nossas conquistas como as maiores, a considerá-las isoladamente e, principalmente, a estabelecermos os parâmetros por que aceitamos ser avaliados. Nossas obras devem ser julgadas pelos critérios que postulamos e, no limite, rejeitamos as visões exteriores por enviesadas. Achamo-las extravagantes e injustas.

É um pouco da lógica de que na minha casa mando eu. Tudo bem, nas casas alheias ninguém tem que se intrometer. Mas, se os habitantes desta casa oferecem aos de fora suas fotografias, será difícil impor aos observadores seus próprios padrões de percepção. A saída seria não se mostrar em absoluto ao exterior, mas isso seria contrário a um irrefreável instinto exibicionista dos povos. Está nascida a contradição e exposto o germe da decepção.

Se nos expomos, somos vistos por olhos que não nos vêem como os nossos próprios. Se nos fechamos não somos vistos. No fundo, queremos ser vistos por olhos que captem as mesmas cores e sombras que os nossos captariam. Queremos ser os nossos executivos, legislativos e judiciários, com o problema de pretender violar a soberania avaliativa dos outros. De toda sorte, abundam exemplos de sucesso dessas invasões de soberania. O exemplo quase sempre frutifica, feliz ou infelizmente.

Recentemente o cinema brasileiro tem vivido alguma ressureição, pelo menos em relação ao sucesso comercial destas empreitadas com imagens. Para meus gostos, ressuscitou comercialmente, mas essa volta à vida veio casada com uma estética televisiva e abordagens simplistas daquilo que se chama a crua realidade. Os modelos narrativos são muito calcados nas figuras dos heróis e dos anti-heróis.

De toda forma, devo abster-me de mais aventuras analíticas, porque o último filme brasileiro que vi foi Central do Brasil. De tiroteio e faroeste, urbano ou rural, parei em Sergio Leone, que pelo menos não se pretendia cineasta acadêmico. De combate ao crime, fartei-me dos jornais e do código penal. Da glorificação ou demonização dos bandidos, fardados ou à paisana, também me cansei. Não vi, afinal, os últimos sucessos de bilheteria brasileiros, sobre as tragédias urbanas.

Enfim, contou-me Severiano que teve a fantástica ocasião de ver uma projeção de Tropa de Elite, a propósito de um curso de ciência política, na Universidade de Salamanca. Parece que havia lá alguns professores brasileiros, mas não tenho bem certeza da composição da audiência. Terminada a sessão cinematográfia da conhecida obra brasileira, os expectadores foram convidados a perguntas e opiniões.

Eis que uma aluna faz um singelo comentário, penso que dirigido aos componenentes da mesa de professores, quase uma pergunta. Em resumo, a jovem indagava por que existia a tal tropa de elite da polícia militar do Rio de Janeiro se ela agia por métodos criminosos, se atuava, enfim, da mesma forma que os por ela combatidos. No fundo, eram dois grupos criminosos, um pago pelo estado e outro consistente em uma iniciativa privada.

Parece que a discussão desdobrou-se, provavelmente seguindo um previsível roteiro. Não posso fornecer detalhes porque conto de ter ouvido, mas consigo imaginar os rumos disso. O caso é que essa visão não é exatamente a que se teve no Brasil, nem a que se esperava que tivessem quaisquer espectadores. Escapou dos moldes em que esperávamos ver discutido o tal filme.

Habituei-me com as previsíveis opiniões que passeiam entre o alinhamento com o bando fardado ou com o bando paisano. Quase toda obra acompanha-se da proposta de sua análise. É algo como se se pussesse uma tela cinza para exposição e se perguntasse aos apreciadores se viam preto ou branco. E alguém dissesse: é azul!

________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

22 Comentários + Add Comentário

  • Andrei

    Este é uma assunto que me bloqueia.Me recuso a ver este tipo de filme. Tiroteio e faroeste temos todos os dias nas ruas e na TV .O mundo já tomou conhecimento desta nossa realidade e o nosso povo se acostumou e passou a achar normal(vida boa é aqui ,não tem “guerra”,não tem furacão etc).Muito bom saber que as pessoas em outros paises estão vendo o outro lado e analisando com mais realismo e não com a empolgação do nosso povo pelo sucesso do filme.
    Abraços ,Aghata

  • Aghata,

    Os outros, não comprometidos com a paternidade direta ou obliqua da obra, estão em posição de ver as coisas fora do nosso esquema mental.

    Estranho é estranharmos isso. E costumamos estranhar. Queremos condicionar as audiências aos nossos moldes interpretativos.

  • Sugestão: seria útil para os leitores que os demais textos das “impressões luso-brasileiras” fossem facilmente localizados através de um link geral que remetesse a uma lista com os textos já publicados.

    Sem esquecer do principal: parabéns, Andrei, pelos texto sempre tão interessantes e bem elaborados!

  • Paulo,

    Obigado por suas gentis palavras.

    Creio que havia os links para os outros textos.

  • Paulo e Andrei,

    Existem sim os links para todos os anteriores. Sempre os coloco durante a edição. Hoje, excepcionalmente, não os pude colocar pela manhã porque fiquei sem internet. Devido a isso, também não fiz a clipagem.

    Mas, agora já estão colocados.

    Abraço!

  • André,

    Aproveito o ensejo da sua presença para perguntar se leste o texto de Saramago. Em caso positivo, se te agradou.

    Estimo-te, ainda, caro André, melhores conexões de internet.

    As coisas relativas a estes serviços são meio complicadas por aí. Conheço pessoas que contrataram conexões 3G (celular) da Claro e da Tim. As velocidades e a cobertura são invariavelmente inferiores ao anunciado. Geralmente muito inferiores.

    Existem também problemaspor aqui, evidentemente. Mas, comrelação a volume de tráfego e velocidade, não são escandalosos como no Brasil.

  • André,
    Eu já havia percebido os links antes mas cheguei a pensar que haviam desistido deles – eu acho muito chato colocar links, mas é uma chatice útil!
    Abraço

  • Andrei,

    Estou neste momento abrindo o link do texto de Saramago que me indicaste.

    Realmente, internet ainda tem lá sua limitações, aqui mais que em Portugal, creio.

  • Paulo,

    De fato não é muito agradável colocar os links, ainda mais quando já se vão quase 30 crônicas de Andrei – o que certamente é um motivo de muitas felicitações ao “nosso” cronista.

    Mas, a utilidade compensa qualquer trabalho. Acontece que estou dispondo hoje de uma internet 3G, emprestada por gentileza de um amigo, mas que é bastante lenta e atrapalha bastante o trabalho.

  • Andrei,

    Quanto ao texto de Saramago, é sempre bom os ler – sobretudo quanto mais mal-estar causam. Saramago, como sempre, muito lúcido e perspicaz.

    Este fim de semana fui com minha companheira assistir a um filme na Fundação, bastante interessante. A tradução para o português, de “Entre les murs”, é mais específica que em francês “Entre os muros da escola” – e isso pode não ser tão bom, já que na escola, entre seus muros, práticas e conflitos que extrapolam seus próprios muros são expostos. Só é bom de um ponto de vista comercial.

    Acho que a tradução pode ser lida literalmente mesmo: “Entre os muros”. Faz maior sentido, se visto de forma global com a sociedade francesa.

    O filme mostra muitos conflitos na vida escolar daquele país. Acho que quem pouco ou nada ouviu sobre as escolas poderá se surpreender com o que vai ver.

    A questão da disciplina sempre em pauta, como estrutura reguladora dos trabalhos de seus professores, diretores e funcionários. Um das instituições para instrumentalizar o processo disciplinador, como o “Conselho Disciplinar” expulsa um dos alunos da escola, por ter desacatado a autoridade do professor (que, momentos antes, em um acesso de nervosismo diz que duas de suas alunas se “comportam como vagabundas”), causando uma confusão e saindo da sala de aula sem permissão.

    O filme deixa entrever que este aluno, um jovem negro, provavelmente será mandado de volta para seu lugar de origem: o Mali.

    Os conflitos da escola representados no filme giram basicamente em torno desses dois eixos: o devir disciplinador das posturas dos professores/diretor/Conselho; e os conflitos étnicos e religiosos bastante fortes que existem em França, onde a imigração é bastante significativa – sobretudo por pessoas naturais de ex-colônias, muitos deles muçulmanos.

    Pena você não poder assistí-lo Andrei, salvo se conseguires em uma locadora. Aos que moram em Recife, ainda continuará em cartaz no próximo fim de semana.

    Vale a pena assitir.

    Bem, isso posto, eu vou colocar abaixo o texto de Saramago. Texto curto que fala sobre um curioso dispositivo do governo francês, com um mapeamento étinico para saber quem são e onde estão os negros do país.

    Vou colocar o texto, para que outros também leiam:

    “Questão de cor
    By José Saramago

    Diálogo num anúncio de automóveis na televisão. Ao lado do pai, que conduz, a filha, de uns seis ou sete anos, pergunta: “Papá, sabias que a Irene, a minha colega da escola, é negra?” Responde o pai: “Sim, claro…” E a filha: “Pois eu não…” Se estas três palavras não são precisamente um soco na boca do estômago, uma outra coisa serão com certeza: um safanão na mente. Dir-se-á que o breve diálogo não é mais que o fruto do talento criador de um publicitário de génio, mas, mesmo aqui ao lado, a minha sobrinha Júlia, que não tem mais que cinco anos, perguntada sobre se em Tías, localidade onde vivemos, havia negras, respondeu que não sabia. E Júlia é chinesa…

    Diz-se que a verdade sai espontaneamente da boca das crianças, porém, vistos os exemplos dados, não parece ser esse o caso, uma vez que Irene é realmente negra e negras não faltam também em Tías. A questão é que, ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global. As duas crianças não viam negras, viam pessoas, pessoas como elas próprias se vêem a si mesmas, logo, a verdade que lhes saiu da boca foi simplesmente outra.

    Já o sr. Sarkozy não pensa assim. Agora teve a ideia de mandar proceder a um censo étnico destinado a “radiografar” (a expressão é sua) a sociedade francesa, isto é, saber quem são e onde estão os imigrantes, supostamente para os retirar da invisibilidade e comprovar se as políticas contra a discriminação são eficazes. Segundo uma opinião muito difundida, o caminho para o inferno está calcetado de boas intenções. Por aí creio que irá a França se a iniciativa prospera. Não é nada difícil imaginar (os exemplos do passado abundam) que o censo possa vir a converter-se num instrumento perverso, origem de novas e mais requintadas discriminações. Estou a pensar seriamente em pedir aos pais de Júlia que a levem a Paris para aconselhar o sr. Sarkozy…

    26 de março de 2009″

    Link:

    http://caderno.josesaramago.org/2009/03/26/questao-de-cor/

  • André,

    O intuito de Sarkozy, produzir e armazenar informações detalhadas sobre a imigração, pode levar a algumas violações. Violações, como aponta Saramago, bastante elaboradas.

    Como exemplo de que informações podem ser muito preciosas, apresento o caso do não compartilhamento delas entre os serviços de saúde e o serviço de emigrantes e fronteiras (SEF), aqui em Portugal.

    Explico melhor. Se uma pessoa recorre a um serviço médico de urgência, a circunstância de ser ilegal não será participada ao SEF, embora seja constatada no serviço médico.

    Trata-se de fazer prevalecer o direito à assistência médica.

    Com as polícias já não ocorre isso. Um caso emblemático deu-se com uma senhora, imigrante ilegal, que foi à polícia dar queixa do companheiro, que a agredia.

    Findou notificada para deixar o país.

  • Quero fazer uma correção. SEF significa serviço de estrangeiros e fronteiras.

  • Andrei,

    Um dispositivo como este, que parece estar sendo implementado pelo governo Sarkozy, certamente pode causar ingerências de toda sorte aos imigrantes.

    E, tais ingerências são imprevisíveis, e pode vir a contemplar os objetivos mais inimagináveis.

  • Andrei,

    Arrisco dizer, mesmo de forma precipitada, que voce irá reunir todas essas crônicas num livro, quando retornar ao Brasil.

    Com relação à tropa de elite fluminense, acho que é uma forma de o Estado dar uma satisfação à sociedade da sua própria incompetência. Assim: “temos os policiais corruptos, mas também temos os heróis”. E então ludibria-se a opinião pública com o “heroísmo” dos guerreiros do BOPE.

    Na verdade, a cerne do mal está bem distante dos batalhões. O problema da violência não se resolve com policiais, mas sim com professores.

  • andrei,
    você já deve também ter lido ou escutado comentários referentes a alguns filmes bem recentes, pelo menos em comparação ao central do brasil (rsrsrs), que não fizeram exatamente o percurso do cinemão brasileiro, destes que pertencem a um grande público. amarelo manga e baixio das bestas (claudio assis), o céu de suely e madame satã (karim Aïnouz), deserto feliz (paulo caldas), cinema, aspirinas e úrubus (marcelo gomes), e mais alguns que, certamente, não recordo. você pode encontrar nestes a mesma inquietante “realidade nua e crua” (se preferir assim), mas diferem muito na forma de fazê-lo, e não é a estética televisiva que dita as normas.

    muito bem observado: a auto-complacência nacional através da recepção de um filme no mínimo controverso, como foi o tropa de elite. acho que é bastante difícil de um brasileiro não ver no filme exatamente aquilo que foi o cerne da questão mais assumida: “a lei não dá conta da violência, e, para combatê-la mais eficazmente, tem que dela se esquivar”, ou: “os jovens consumidores (inclusive universitários) são tão culpados quanto os traficantes”, etc. mas difícil não por achar que “é assim mermo”, mas porquê esse mesmo grande público não está preparado para rebater aquelas informações que viram na tela, no escuro. é como se eu estivesse dizendo: “eles caíram direitinho…”, mas é muita pretensão, achar que o cinema por si só tenha tanto poder. teria agora de falar de todas as mazelas sociais, sobretudo as deficiências educacionais, mas não vou fazê-lo. enfim…

    muito bom o texto, parabéns!

  • Daniel,

    Confesso-te que já andei pensando nisso, ou seja, numa publicação. Mas, quando penso, penso com calma e imagino as dificuldades e despesas que isso envolve. Aí, paro de pensar.

    Achei a pergunta de expectadora de Salamanca esplêndida. A atuação policial é igual à dos bandidos. Assim, não se cumpre lei alguma, apenas descumpre-se a soldo do estado.

    E, como você apontou, não ajuda a reduzir a violência. Dá exemplo para mais.

  • Diogo,

    Pareceu-me – e esse pareceu-ma aqui é mais que o vício que tenho com esse termo – que Tropa de Elite foi um filme realmente muito moralista e pequeno. Achei curioso que as críticas muito diretas que sofreu na europa foram repudiadas no Brasil.

    Mas, como disse, não vi este filme. O mais interessante é o repúdio às críticas, como se não fossem possíveis. Ou só fossem possíveis segundo os parâmetros pre-estabelecidos pelos realizadores e público padrão.

    Os filmes de Cláudio Assis, gostaria muito de tê-los visto. Mas pago o preço de estar fora de Recife já há algum tempo. Não passaram em Campina Grande.

    Sempre se pode dizer que poderia ter baixado e visto no portátil. Mas, não me agrada, para além de filmes meio documentários. Um Zeitgeist dá pra ver no computador, porque há pouca cinematografia nele. O que não exclui que seja um filme muito bom.

    Mudando de assunto, estava, depois de ler seu texto, pensando em A Noite. Vi há bastante tempo e achei um grande filme.

    É curioso, na mesma época vi Deserto Vermelho e achei chatíssimo. Acredite, hoje morro de curiosidade de rever Deserto Vermelho.

    Acho que é o fascínio estético do cinema italiano. Impressiono-me com sua qualidade, que não cede a certas chatices academicistas alemães e francesas, nem ao hollywoodianismo.

    Perdoe-me a insistência no assunto, mas andava lembrando também de Tati. Uma figura que a cinematografia acadêmica esquerdista francesa tentou ridicularizar.

    Meu Tio é um dos mais fantásticos filmes que já vi. Lembra a última cena, do acendedor de cigarros do carro do cunhado dele?

  • Andrei,

    Mais uma vez a sua cronica semanal está excelente em tema e muito agradavel em estilo.

    Depois que me tornei sexagenário (já estão, caluniosamente, me chamando de sexagendário), fiquei mais preguiçoso ainda para ir a cinema e não vejo filme brasileiro há muitos anos.

    Como tambem vou muito raramente ao cinema, e só para ver comédia de Woody Allen ou coisa parecida, não me arrisco a comentar sobre cinema.

    Estou em uma idade, fase mental e país em que basta de estresse, mensagens intelectualizadas demais, tragédias, pobreza, injustiça, medo, etc.

    No livro “Zen e a arte da manutenção de motocicletas” o autor diz que ver o mundo pela janela envidraçada de um carro é como ver televisão; de moto sente-se melhor o mundo. Pois é, em sendo assim, já vejo televisão demais quando saio de casa de carro.

    De lembrança dos tempos em que ia ao cinema ficou um dos meus sonhos utópicos de fazer uma festa para os amigos nos moldes daquele baile de máscaras temático do final do filme original “A pantera cor de rosa”, com Peter Sellers, David Nivem e Claudia Cardinale, que se passa em Cortina d’Ampezzo na Itália nos anos 1960′s.

    Naquele evento final do filme, os ladrões se saem bem, roubando os mais ricos, todos se divertem, as mulheres bonitas são mesmo bonitas, a música de Henry Mancini é inesquecível, o suspense é cômico e o show de interpretação dos atores ingleses Sellers e Niven, para mim, ainda está para ser superado.

    Está convidado para a festa com Olívia; se quiserem podem vir fantasiados de gatos mascarados e miando com sotaque português. Prestem atenção a como mia a gata de vocês e aprenderão rápido esse disfarce.

    Um abraço.

    Sidarta

  • hehehehe!
    também adoro o jackes tati, andrei. e me lembro da cena sim, que é hilaria. a sutileza e simplicidade não apenas desta (tem também a do cachorro que implica com o peixe, muito engraçada!) figura entre as grandiosas do chaplin!

    sobre “a noite” (antonioni): concordo também em ser um grande filme, mas acho que são poucas as pessoas que percebem nele uma obra de mestre. o que tem nele, perguntam, para ser objeto de estudos incansáveis? daí a alcunha (talvez frouxa!) de o cineasta da “incomunicabilidade”. bem, talvez até mereça, pois os personagens realmente (também é assim em deserto vermelho e muitos outros filmes de antonioni) falam pouco, ou não falam. acontece que ele era um cara preocupado não com o que dizer, mas com o que mostrar: e na noite tem uma cena emblemática nesse sentido, que é a do elevador (cenas em elevadores serão frequentes em antonioni): nela o casal nem conversa e nem se olha (como em todas as viagens de elevador, na verdade). ele apenas mostra. disse uma vez (nem lembro onde, e cito de memória): “se não sou bom com as palavras, sou com as imagens”. e arte cinematográfica é isso, antes de tudo.

    é uma questão de educação do olhar. sempre existe o estranhamento, mas quando nos aproximamos mais, vamos percebendo sutilizas antes não percebidas. a percepção delas caminham numa outra visão do filme, que ao enriquecê-lo, também nos fortalecemos nossa vaidade… rsrsrsrsrs!

    sobre cláudio assis e outros novos diretores brasileiros… bem, foi uma das experiências mais marcantes com o atual cinema feito por aqui. tendo a oportunidade, dá uma olhada, que, embora fale fale fale por aqui, o importante é ver esses filmes …

  • Sidarta,

    Essa cena da pantera cor-de-rosa é mesmo memorável. Tem um velhinho italiano, sentado na calçada, que ve passarem dois carros diferentes dirigidos pelo mesmo gorila. Acha que tá doido.

    Fomos ver a pantera cor-de-rosa atual. Não é de se achar ruim, mas não é memorável. Sai-se do filme sem qualquer lembrança mais específica.

    Olha, fantasia de gato no calor recifense pode acarretar até morte. Mas, estamos treinando a comunicação com a gata.

  • Andrei,

    Por falar em calor do Recife, dê uma olhada nesse site da CNN:

    http://www.weather.com/outlook/health/achesandpains/weather/tenday/BRXX0195?x=6&lswe=Recife%2C+Brazil&lswa=AchesAndPainsForecast&y=9

    Ele informa o tempo em várias cidades do mundo, 10 dias adiante, indo além da previsão de temperatura e de chuvas, e fornecendo um indicador de desconforto decorrente de dores (principalmente articulares) provocadas pela combinação de alta umidade do ar com calor e ionização positiva do ar.

    Uma valor de Aches&Pains de 3 ou mais já provoca dores articulares nas pessoas mais sensíveis.

    No momento há uma indicação de umidade relativa de 66%, o que é uma grande falácia; deve estar perto de 85%. A temperatura está mesmo em uns 30ºC às 18h e a pressão atmosférica abaixo de uns 1012mb indica que está baixa e que converge umidade.

    Tentarei fazer a festa temática de Cortina d´Ampezzo aqui em Recife em uma casa refrigerada. Preciso da indicação de “um perplexo” para observar atônito o movimento dos gorilas….

    Um abraço,

    Sidarta

  • Andrei, bem sabes que eu gostaria bastante de saber escrever, tanto quanto sabes que não sei! =), o texto traduz com muito bem meu pensamento, bem melhor que meu proprio diga-se de passagem.

    E quanto ao prototipo de sabio, tambem obrigado, tambem gostaria de fazer jus ao elogio! Mas nem por isso meu ego fica menos inflado!!
    Valeu Andrei!! Abração!!! Até a volta a Salamanca, com a gata!! =))

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).