Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Portugal é um país de velhos e de população estável há anos. Desde que me passa pela cabeça pensar no número de habitantes desta terra, fala-se em dez milhões de pessoas. Pelo que ando lendo, as taxas de natalidade e de mortalidade são mais ou menos as mesmas e, consequentemente, a população não aumenta.
Claro que isso, visto sob a perspectiva numérica, não é inconveniente algum. Para a extensão territorial deste pequeno país, há bastante gente, embora mal distribuída. As cidades maiores são densamente povoadas, enquanto as áreas rurais encontram-se meio desertas. Nesse panorama demográfico, é fácil concluir-se que as crianças são seres raros.
Acontece que Braga, onde estou, oferece o fenômeno inverso. Esta que já foi a cidade mais beata, mais conservadora, mais velha do país, hoje é a mais jovem. Essa curiosa mudança, segundo se diz por aqui, é recente e deve-se basicamente à instalação da universidade. Bem, acho de bom alvitre advertir que não vai aqui um juízo negativo quanto ao que pode ter sido antes. Apenas, chama a atenção o dinamismo que o centro acadêmico significou.
As crianças estão por toda a parte, o que não é fato sem importância quando se consideram os elevados custos delas por estas bandas. Além disso, por aqui é relativamente rara aquela loucura a que chamamos gravidez indesejada, tão frequente no Brasil. Daí que as pessoas que têm filhos, geralmente os desejam e planejam. E isso, sabem os que têm algum juízo, dá um trabalho danado.
Os pequenos não são o modelo de contenção, silêncio e boas maneiras que o cronista gostaria de relatar. São crianças, feitas da mesma matéria que em qualquer lugar, mas notavelmente mais obedientes. Parece possível aos país estancar a correria, a gritaria e a voluntariedade quando lhes parece que já foi demais. Assim, poupam o espectador daquele espetáculo triste de país reféns de filhos voluntariosos e mal criados.
Nos finais de semana, seja nas ruas centrais, seja nos centros de compras, veem-se muitos pais e avós com seus pequenos. Dedicam-lhes uma atenção e têm uma paciência invejável. Algo que me parece diretamente relacionado com a realização de uma opção bem pensada, em que se levaram em conta os trabalhos e aborrecimentos já esperados.
Essa postura de encarar os óbvios inconvenientes parece-me bastante responsável e a tarefa é desempenhada sem contar com a profusão de serviçais que se agregam às famílias brasileiras. Até agora não vi uma babá cuidando dos filhos alheios. Óbvio que deve existir e que não frequento os muito ricos. E, por isso mesmo não atribuo à minha percepção ares de verdade absoluta.
Os ricos devem ter lá suas governantas, arrumadeiras, mordomos, cozinheiros, professores particulares e outros. Se o resto da população pudesse, certamente contaria com tais serviços. Mas, até isso é situação diferente, pois se trata de serviços profissionais, contratados segundo as regras de trabalho, diferentemente da figura do serviçal, ainda bem visível nas estruturas familiares médias brasileiras.
A questão é que não dá para assalariar uma pessoa para trabalhar dois turnos de quatro horas, cuidando de uma criança. Ainda que isso fosse possível, não sairia tão conveniente como no paraíso tropical. Imagine-se a cena, às seis horas da tarde, a babá despedindo-se dos seus empregadores, o pirralho chorando, os pais cansados, a comida por fazer…
As relações profissionais e impessoais custam mais caro e, ao menos no meu parecer, são mais dignas para ambos os lados. Nós temos, na curiosa figura da empregada doméstica e da babá, uma peça de arqueologia social preciosa. Nela, são visíveis os traços das relações escravistas e dos agregados familiares. Seres admitidos ao convívio familiar, desde que se dedicando a tarefas domésticas, como uma espécie de favor magnânimo.
Essa etapa, cumprem-na todas as sociedades de matriz cultural grega e ocidental. O peculiar no caso brasileiro e noutros, na América do Sul, é a persistência do modelo. O que deveria ser uma etapa tornou-se uma continuidade. Convivem, na terra de vera cruz, um sistema bancário avançadíssimo e serviçais trazidas do interior, semi-analfabetas, ao preço da subsistência.
Assim, as famílias aliviam-se da estafante tarefa de popular o país de pessoas responsáveis e com noção básicas de igualdade entre os seres. E o sujeito tem grandes chances de vir ao mundo percebendo-o, desde sempre, como o lugar onde sua mãe dá ordens a um ser submisso que troca suas fraldas!
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
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Pois é Andrei , aqui no Brasil temos o ranço escravista ainda.Sou motivo de piada entre os amigos porque sempre nos feriados dispenso a empregada mesmo antes da alteraçao na legislaçao, e quando preciso quel ela venha tais dias pago pelo trabalho como extra,pela folga semanal e não quinzenal.Sou motivo de piada também porque sempre aos finais de semana estou com os meus filhos, sendo que uma deles é um bebê de 6 meses, sem babá.
Não delego a função de educar a babá.O bebê de 6 meses dorme sozinho, a babá é mais para brincar durante o dia , dar comida etc.
Vejo nas pessoas do meu conv´vio pessoal atitudes que chocam, empregados domésticos que não podem entrar nos lugares em que os patrões estão, jornada estafante de trabalho(5 e meia da manha até ‘as 22:00h) e mais absurdos por aí.Muitos tratam seus empregados domésticos como escravos, humilham , não os tratam como seres humanos que estão ali prestando um serviça ‘a fam´lia.
ANDREI
MUITO BEM OBSERVADO,ENCONTRAMOS PESSOAS RACIONAIS QUE CONTRATAM SUAS EMPREGADASHONESTAMENTE COM TODOS OS DIREITOS TRABALHISTAS .MAS A GRANDE MAIORIA AINDA SE COMPORTA COMO NOS VELHOS TEMPOS. OS EMPREGADORES NÃO RESPEITAM A JORNADA DE TRABALHO NEM O SALÁRIO CORRETO.COMPORTAM-SE COMO SENHORES DE ENGENHO.
AGHATA
Pois é. Nessa matéria de empregados domésticos, cumprir a lei torna-se motivo de piada para os outros.
E a maioria das pessoas trata como seres inferiores mesmo, lastimavelmente.
Gilberto Freyre – acho que em Sobrados e Mucambos – chamava a atenção para a existência de peixes de 1ª, 2ª e 3ª, no Brasil. Isso, sem que se saibam bem os critérios estratificadores dessas qualidades.
Tudo é muito nitidamente estratificado socialmente.
O emprego doméstico ainda hoje parece não ter a dignidade de um emprego mesmo. Há sempre uma postura de estar-se fazendo favor.
Andrei,
excelente texto.
A partir dele, tentarei tecer uma crítica de duplo alvo: cultural e acadêmico.
Certamente, os aduladores médios de Gilberto Freyre pensarão (de acordo o mestre) que a manutenção da figura informal da empregada doméstica/babá (dentro do padrão que você elencou, vinda do interior ou das periferias, semi-analfabeta, porque não dizer, negra também, etc.) é uma típica ilustração da nossa “democracia racial” (e, social, claro).
Isso seria uma forma de integrar a sociedade, aproximar ricos e pobres numa convivência de ‘troca de valores’. Em tese, perfeito, não?
Na prática, o que se percebe é bem diferente. Vejamos.
A empregada, ou babá (o que muitas vezes é a mesma coisa, pois dificilmente se estabelece no contrato -quando ele existe no papel, para além do acordo tácito de palavra – os serviços que a funcionária do lar deverá prestar, misturando tudo e tendo de fazer de tudo, desde lavar roupa/louça, cozinhar, até trocar fraudas e levar cachorros e crianças para passear), como ia dizendo, a empregada/babá vem de sua comunidade, geralmente periférica, tem acesso à vida média de seus patrões, é inserida naquele convívio, naquela realidade, seus valores, etc.
Em tese, as crianças e patrões classe média fariam uma troca cultural com a funcionária do lar, que vem ‘de sua terra’ narrando suas his(es)tórias fantásticas, praticando assim um convívio democrático.
Eis aí a fórmula da nossa democracia social (e racial, claro).
Um inserindo-se na realidade do outro. E, assim, todos convivemos, integrados, em paz…
Mas, não acham que falta alguma coisa? …
Vejamos algo que parece óbvio. Enquanto a funcionária do lar inseriu-se no contexto classe média, o contexto da funcionária (a realidade de sua periferia) permanece vivo apenas como uma ficção das conversas da funcionária, seus relatos de realismo maravilhoso-fantástico. Isso mesmo, uma ficção, muitas vezes vista apenas como um mero devaneio de uma mente perturbada por tão caótica realidade…
Bem, pelo que expus, entende-se apenas uma coisa: a nossa tão vangloriada “democracia racial e social” é unilateral.
Ou seja, ficção maior não são os devaneios narrativos da empregada, mas, sim, o nosso modelo de aproximação social.
Alguém ousaria dizer que conhece uma família que permite à funcionária do lar levar seus filhos para passar uns dias turistando na periferia da empregada, para conhecer a realidade dela?
Andrei,
Belíssimo tema e texto. A herança escravocrata brasileira no trato com os empregados domésticos é ainda mais acentuada em nossas terras de Casa Grande & Senzala. O mesmo cidadão de classe média que briga por seus direitos de trabalhador torna-se patrão explorador da porta de casa para dentro, com jornadas estafantes, salários ilegais e negação de direitos.
A prova da resistência da sociedade brasileira em se livrar desta mazela pode ser vista na legislação.
Primeiro, na definição da atividade profissional: “Considera-se empregado(a) doméstico(a) aquele(a) maior de 16 anos que presta serviços de natureza contínua (freqüente, constante) e de finalidade não-lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas”.
Finalidade não-lucrativa? Pelo que eu saiba os empregados domésticos servem para que o patrão se livre das tais atividades indesejadas e não-lucrativas para realizar atividades lucrativas e prazerosas fora de casa.
Mas vamos adentrar mais na legislação. Só em 1972 (Lei nº 5.859) os empregad@s doméstic@s passaram a ter alguns (poucos) direitos que a CLT já outorgara para os demais trabalhadores na era Vargas, na década de 1942, como o registro em carteira profissional, por exemplo.
Só com a Constituição de 1988 esses trabalhadores puderam celebrar o salário mínimo, a irredutibilidade salarial, repouso semanal remunerado, gozo de férias anuais remuneradas (com 1/3 de abono), aviso prévio, a aposentadoria e a integração à Previdência Social.
Só em 2006 (Lei n.º 11.324), o trabalhadores domésticos conquistaram o direito a férias de 30 dias, a estabilidade para gestantes, direito a folga nos feriados civis e religiosos, proibição de descontos de moradia, alimentação e produtos de higiene pessoal utilizados no local de trabalho.
Até hoje, senhoras e senhores, o depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para empregados domésticos é considerado benefício opcional e fica a critério do empregador.
Por conseqüência, só têm direito ao seguro-desemprego aqueles empregados cujos patrões foram benevolentes e depositaram o FGTS.
Há tempo tomei a decisão de só contratar empregados quando puder pagar a plenitude de seus direitos. Para escárnio geral dos amigos e da nação.
A crônica da semana é um monumento à minha noite mal dormida.
Sempre tive certa resistência para procriar. Depois desta noite, será difícil convencer-me a gerar herdeiros.
Recebo visitas esta semana. Crianças correndo no apartamento. Paciência sucumbe, razão pela qual por pouco tempo estou em casa.
A menor, de pouco mais de um ano, passou a noite em histeria; parece-me que água se alojara no tímpano da guria. Este episódio é absolutamente previsível para quem se propõe a procriar. Mas, não parecia. A mãe rogava e injuriava todo o panteão.
Aí está o problema. Não nos responsabilizamos pelas nossas próprias atitudes. Quem, voluntariamente, procria deveria presumir que nos três anos vindouros, no mínimo, não existirão noites serenas. Então, quem pode pagar o mínimo – que parte das vezes sequer é o mínimo – o faz para livrar-se da perturbação.
Percebamos o subdesenvolvimento dos lares brasileiros minimamente providos enquanto organismo empregador.
Programamos viagens ao exterior; festejamos (regrados pelo mais puro malte escocês) os cursos de graduação dos nossos filhos vencedores da gincana social – não de qualquer cínica meritocracia, como acreditamos muitos –; clamamos por uma carga tributária menos avultosa e reclamamos dos índices de violência e marginalização, nada obstante cultivemos em suas casas as senzalas do século XXI.
Não queremos pagar o preço, simplesmente. As mentes mais perniciosas ainda sustentam que a contratação é um grande favor.
A condição de uma empregada doméstica no Brasil é ultrajante. A assinatura da carteira de trabalho é um sonho intangível para a maioria desta legião de trabalhadores, sem esquecer, muitas vezes, da rotina fadigante e indigna de trabalho e a natureza benevolente dos repousos quinzenais. A carga laboral, inclusive, é absurdamente desproporcional ao salário percebido.
As condições de moradia, em decorrência direta, não poderiam ser outra: aglutinação habitacional acelerada e periférica, refletindo a flagrante segregação urbana.
É um exército, como dito, de semi-escravizadas, sujeitas às variações de humor dos novos capitães do mato, que clamam por um Brasil melhor e mais “democrático”.
Quando a histeria infantil dissipa a paciência da serviçal, esta agride a criança; logo, mais uma comoção nacional. Antes da cruz e dos pregos, não estou defendendo qualquer agressão contra menores, oportuno ressaltar.
Às vezes, imagino que seria injusto condenar o hábito. De fato, é preciso sutileza e perspicácia para perceber a contribuição particular ao panorama geral. Contudo, se perguntarmos aos hodiernos capitães de preferem continuar assim, ou assumir a conseqüência de suas ações, não contratando alguém senão observando todos os preceitos trabalhistas, temo que a resposta seria a primeira. Sendo assim, o hábito tornar-se-ia conveniência e hipocrisia pura!
Andrei,
O tema do seu artigo dessa semana está muito interessante e dois pontos me agradaram comentar:
- as relações entre patrões e empregados domésticos (babás e outros tipos de empregados) no Brasil e em Portugal;
- a educação das crianças aqui e aí.
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Com relação ao primeiro ponto, não vou entrar na discussão da legislação nem dos aspectos humanitários ou históricos que regem essas relações; não sou especialista no assunto e comentários anteriores a esse meu estão muito bons sobre esses aspectos.
Lembro-me, entretanto, do tratamento “diferenciado” (pelo menos em relação ao “normal ” por aqui) que era dado “à criada” na casa das primas legítimas de Laura em Lisboa: cozinhava, preparava a mesa, trazia os pratos e sentava-se à mesa junto com as “primas aristocratas” e as visitas (o pai “das primas”, em outros tempos, chegou a ser um dos ministros do SUPREMO de Portugal e muito amigo do primeiro ministro pós-salazarista Marcelo Caetano) .
Uma vez sentada no seu lugar não era mais solicitada a se levantar e a ir buscar água ou coisa parecida até terminar a refeição… e se servia com uma “altivez” invejável, se bem que não fosse muito boa com os números nem com Camões.
Isso pode não ser nada de excepcional em “humanidades” mas chamou-me a atenção em Portugal, principalmente naquele extrato social onde estávamos convivendo por uns dias, e pela lembrança que eu tinha da diferença “dessas coisas” nas casas dos meus avós no interior de Pernambuco.
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O outro ponto é com relação às crianças ruidosas.
Por informações de um conhecido, que durante quatro anos educou o filho pequeno em uma escola pública francesa, o miúdo apanhou um bocado dos professores e dos pais para que aprendesse a ficar quieto.
Um casal de amigos que estuda em Paris relatou-nos, recentemente, que a escola francesa infantil e primária estava ficando “menos rigorosa” no adestramento das crianças e o filho deles ainda não tinha apanhado da professora.
Os mestres franceses devem ter melhorado em psicologia infantil ou estar utilizando uma evolução das técnicas de recondicionamento mental para marginais incuráveis, sem bater, apresentadas no filme “Laranja Mecânica”.
A abordagem tradicional francesa é (ou era…) mais ou menos como tentar quebrar a alegria e a indisciplina natural de um jovem cão foxterrier que adora brincar com crianças e, de vez em quando, derruba um jarro de cristal ou rasga um tapete persa na sala. Porrada nele !!!
Por outro lado, chego a pensar que o culto à espera do rei D. Sebastião e aos lamentos nos fados tenha algo a ver com uma certa tristeza e melancolia que dizem ter os protugueses na sua programação genética, fazendo as crianças naturalmente mais quietas (não estou desenvolvendo cientificamente essa tese, ah,ah,ah).
Adoro veu o meu neto de pouco mas de 1 ano me mostrar que já sabe mexer no controle remoto da televisão, no celular e nos controles do DVD do pai dele e depois correr para “debaixo da minha asa”, me chamar de vovô e fazer um olhar “gozador” para a autoridade institucional do pai dele…. mas não o incentivo a subverter a ordem da casa dele quando estou por lá.
Contudo, entendo que ficar “debaixo da asa do avô” é o mesmo que refugiar-se na Embaixada do Vaticano…. ninguém vai tirar voce de lá sem um salvo-conduto.
Aqui “na casa do avô” quem fica um tanto constrangido é o meu genro, mas também não tiro dele a autoridade de reclamar do meu neto quando ele está fazendo alguma desordem que pode ser mal aprendida e depois praticada na casa dele sob a alegação de que foi autorizada pelo avô.
Pensei que seria mais fácil ser avô, do ponto de vista de poder liberar a necessidade de reprimir, mas que é infinitamente divertido e gratificante ser avô não há dúvidas…. com a mãe, o pai, a avó ou a babá garantindo a troca das fraldas de vez em quando, ah,ah,ah
Grande abraço,
Sidarta
Ubiratan,
Muito bom mesmo o seu comentário.
Gostaria de acrescentar, somente, que mesmo nos apartamentos mais novos, maiores e mais caros vendidos atualmente “na região dos trópicos (23º acima e abaixo do equador… e em baixas altitudes), o “quarto da empregada” é geralmente bem pequeno, fica virado para o poente, tem uma janelinha minúscula e, muitas vezes, é por onde são canalizados por respiradouros livres os gases dos sanitários internos da área social dos patrões que, felizmente, devido à mais alta temperatura de saída, passam mais para perto do teto.
Também lá são guardados o aspirador de pó, as vassouras, a escada, as ferramentas, a roupa suja para lavar e as coisas que não decidimos ainda se jogamos fora ou não.
Se tiver algum pecado a pagar ou alguma mortificação a fazer, negocie com o padre que converta a penitência em fazer você tentar dormir uma noite de verão nesse quarto (sozinho e sem a empregada, ah,ah,ah) …. e sem ar-condicionado…. sua alma será perdoada e ganhará ainda uma indulgência do Vaticano contra pequenos pecados posteriores…. se tiver muriçoca e você estiver sem LEXOTAN ou similar aí a indulgência será perpétua.
Caro Sidarta,
Seu penúltimo comentário, fez-me, ainda, cogitar a possibilidade de um dia procriar; afinal, quando se é avô, a tolerância das lágrimas, dos grunhidos e das evacuações é voluntária; logo, os sorrisos e as brincadeiras devem ser realmente gratificantes.
O último comentário causou-me uma crise de risos que ainda não contive. Afastou, e muito, o mau humor da noite mal dormida; agradeço-lhe!
Fez-me lembrar, por outro lado, de como o “quarto da empregada” foi o pacificador das lascívias juvenis de muitos amigos meus. Confesso, não foi das minhas, provavelmente, por falta de oportunidade. Hoje vejo como absoluta era a minha cegueira há 10 anos atrás.
Por fim, concordo com você, a superior projeção vertical dos condôminos não modifica o tratamento dos serviçais. Ainda acho que é pior, pois os formalismos e a distância no trato parecem aumentar proporcionalmente.
Um abraço
Andrei, esqueci de mencionar, o remate da crônica foi precioso!
Caro Ubiratan,
A respeito dos “consolos juvenis” no quarto da empregada é mesmo melhor ter amnésia e comentar somente, e sem nomeá-los, as aventuras dos conhecido.
Um empresário meu contou que, quando adolescente, foi flagrado pela avó, no meio da noite, na cama da empregada; depois de ter sido chamado pela avó de “cabra safado”, e sem mais argumentos, disse à avó que “estava procurando o martelo, o alicate e a chave de fenda… que tinha certeza que estavam guardados naquele quarto…”.
O que ia fazer com essas ferramentas no meio da noite ele não conseguiu explicar à avó…
Por outro lado, sugiro que encare a paternidade; é ainda o único caminho para você legitimamente ter a oportunidade e o prazer de ser avô e, como disse um amigo de Joao Pessoa, há um ano também avô, de saber que participou da “perpetuação da eternidade”.
Um abraço,
Sidarta
Ubiratan, uma correção….
Por favor leia assim o meu texto anterior:
……..nomeá-los, as aventuras dos conhecidos.
Um empresário me contou que, quando adolescente, foi …..
Sidarta, o pequeno erro de grafia passou desapercebido.
Não imaginei que sustentavas um império econômico, supervisionado por inúmeros empresários; ou, muito menos, eras o proprietário de um prostíbulo capitalista qualquer (risos). Fique tranquilo.
Pelos comentários que acompanho, você é um Sr. civilizado e extremamente cômico.
Um dia, quem sabe, eu perpetuo a eternidade e nos conheceremos; ou nesta existência mesmo, em Recife ou João Pessoa, quem sabe?!
Até…
De fato, bastante interessante a crônica da vez.
Sobre o tema, expresso meu posicionamento de diferentes pontos de vista.
Do ponto de vista de jurista, o abismo existente entre o tratamento jurídico dado às empregadas domésticas e aos demais empregados brasileiros não há razão de ser. Desde sempre lhe foram negados os mais básicos direitos, que apenas após longo processo de “aprimoramento” legislativo passaram a ser reconhecidos e concedidos; porém, ainda nem todos, vale salientar. Creio que uma justificativa plausível para tal disparate é o fato de que a grande maioria das famílias mais abastadas de nosso país, público-alvo dos legisladores canarinhos, possui empregados domésticos, muitas vezes mais de um, no entanto nem sempre tem empregados enquadrados nas demais categorias.
Na visão de quem convivi com uma doméstica, acredito que o tratamento a ela concedido não seja assim tão usual. Talvez o mais perto do que deveria ser. Desde sempre, teve sua carteira devidamente assinada, tendo-lhe sido pagos todos os direitos que a legislação trabalhista prevê, inclusive depósito no FGTS (benefício este opcional, como já mencionado). Trabalha 8 horas por dia, possui folgas semanais, não dorme em casa (por opção sua) e participa ao máximo da nossa vida cotidiana, tendo, inclusive, sido convidada para meu baile de formatura (para o qual relutou em ir, mas ao final foi) juntamente com todos meus parentes e amigos.
Na ótica de mulher, futura dona-de-casa e mãe, percebo que é a realidade das mulheres, que hoje dão dupla jornada de trabalho, dentro e fora do âmbito residencial, que sustenta a figura histórica da empregada doméstica no Brasil. Sabe-se que os respectivos maridos, que trabalham tanto quanto elas e deveriam arcar com a mesma responsabilidade, nem sempre estão dispostos a ajudar, aumentando ainda mais o peso de quem, muitas vezes, gerencia um lar. Então, nada mais útil do que a velha e boa babá/empregada. Afinal, como sabiamente dizia uma senhora que conheci: bom é ser pai, ruim é ser mãe!
Por fim, expresso o meu repúdio aos moleques, não sei se apenas brasileiros ou também lusitanos, que enxergam a empregada doméstica, que para seus pais prestam serviços, como as negras escravas de outrora. Como um mero instrumento para saciar seus desejos juvenis. É desprezível que pivetes olhem para um ser humano com essa mentalidade e achem perfeitamente normal pensar assim, chegando-se ao extremo de idolatrarem aquele que se iniciou nos prazeres de carne com “aquela empregada gostosinha”. Nem ao menos direito ao pagamento justo por tais serviços àqueles coitadas tiveram direito. Ora, por que não virarem prostitutas? Pelo menos estas veem a cor do direito pelo que fazem!
Falta de oportunidade para uns, correção para outros. Afinal, tudo na vida depende do espectador mesmo.
Ana Angélica,
Quando sugeri que acompanhasse as crônicas de Andrei, não era para você encontrar um meio para remeter indiretas incisivas contra mim. (Risos)
O testemunho sobre a falta de oportunidade juvenil foi fruto do que era habitual em minha adolescência, o velho hábito condicionante. Mas, como sempre, peco pela sinceridade.
Hoje, a cegueira sobre este ponto em particular se foi; comungo do seu repúdio, sem acrescentar comentários outros.
Enfim… seja bem vinda.
Amo-lhe!
André,
Gilberto Freyre, depois da leitura de Sobrados e Mucambos, pareceu-me sempre um conservador genial. A visão dele é muito acurada, embora a escrita seja cansativa, com aqueles parágrafos de um só período e milhões de orações intercaladas.
Há um fator deixado muito de banda por Gilberto Freyre. Não obstante haja essa convivência inter racial e inter social muito intensa, os patrimônios não convivem.
Veja que o tabu social brasileiro não é tanto o casamento de preto com branco, mas de pobre com rico.
Gostei bastante do seu comentário, enfim.
Bahé,
Sua observação quanto ao indivíduo de classe média, sôfrego na luta pelos seus direitos e também na exploração de outros, foi excelente e muito perspicaz.
Lembrei-me, a propósito, de um episódio de Dom Casmurro. Um belo dia Bentinho, passeando no paço, vê o antigo escravo doméstico de sua casa, já liberto, açoitando um escravo dele!
Assim, aprofundam-se as raízes do continuísmo social. Tanto opressores, como oprimidos acham a situação normal. Oprimidos sonham com o dia em que serão opressores. Fecha-se o ciclo.
O diálogo entre os comentaristas Ubiratan e Sidarta está precioso e resta-me apreciar o nível.
Realmente, a segregação da empregada doméstica é perceptível em inúmeros detalhes, que parecem-nos coisa comuns e sem importância no dia-a-dia. O comentário sobre os quartos é notável.
Pois é, Ubiratan, convivem no Brasil elementos muito nitidamente contemporâneos e outros de séculos passados.
A relação senhorial entre patrões e empregados domésticos devia estar sendo estudada em história. Mas, é uma realidade atual.
Ana Angélica,
Como você notou, há relações de emprego segregadas legalmente. Sem mais, nem menos, um absurdo.
Bahé,
Eis um ponto em que se descortina nossa habitual hipocrisia, sempre bem disfarçada com os discursos, principalmente jurídicos.
A relação de trabalho doméstico é tão desprezada que se chegou ao ponto de consagrar esse desprezo na constituição. Em poucos pontos o Brasil rasga tão flagrantemente a fantasia.
Isso numa constituição que é a voz de deus na terra, a constituição cidadã, a carta da redemocratização, o documento que consagra a igualdade, a liberdade, os direitos sociais…
Andrei,
A leitura dos comentários de Ubiratan e Sidarta são tão obrigatórios para mim quanto a de sua crônica semanal. Ana Angélica chegou afiada como punhal e botou ordem na casa – mais uma prova de que não existiria vida inteligente na terra sem a contribuição do sexo feminino.
Fico grato a tod@s pela saborosa leitura.
Caros Ana Angélica e Ubiratan,
Ana Angélica, você tem absoluta razão em repudiar o abuso exploratório para com as empregadas domésticas, seja físico, social, sexual ou financeiro praticado por muitos aproveitadores.
Nenhum argumento, nem mesmo os contextos sociológicos históricos de Gilberto Freire parecem amparar essas ações …. mas que existiram, e ainda existem, existem!
O que fazer efetivamente? …não sei.
No budismo, diz-se que a sua intervenção precisa e indignada sobre uma questão relevante foi como aplicar a “espada de Manjuri”, ou agora o “punhal de Bahé” para por ordem na casa.
Parabéns!
___________________________________________
Ubiratan, sensacional a sua dedução de que não sustento um império econômico nem sou proprietário de um prostíbulo capitalista … mas isso acirrou na minha cabeça a idéia de como seriam as coisas se eu, pretenso budista e em idade avançada, me iniciasse nesse ramo de atividade.
Para não prosseguir no delírio e eventualmente pensar em fazer uma pesquisa de campo e de mercado, correr o risco de ser flagrado com alguma estagiária contratada para a pesquisa e apanhar da mulher quando chegar em casa, estou escolhendo uma sutra de Buda para meditar hoje à noite e me penitenciar na remissão da fraqueza em alimentar esse tipo de pensamento.
Entretanto, quando se é jovem e se está sob o “domínio dos hormônios” é difícil parar a curiosidade e a imprudência com a razão e a ética; penso que até as serviçais exploradas também deveriam ter lá os seus surtos de hormônios em ebulição de vez em quando e eram capazes de esconder nas suas camas os martelos, alicates e chaves de fenda para que os filhos dos patrões viessem procurá-los nas caladas da noite.
Anos atrás, quando morava no interior, eu ouvi dizer que nos seminários religiosos, com muitos internos vivendo juntos, davam chás indutores do sono e inibidores da libido aos futuros padres para que não pensassem em mulheres nos alojamentos coletivos à noite (ou não pulassem os muros dos colégios das freiras…); os templários, menos sutis, acasalavam logo dois cavaleiros pelo resto da vida, que montavam sempre juntos o mesmo cavalo e viviam fiéis um ao outro, e à causa da ordem, até a morte.
Na fase atual do “liberou geral” penso que os quartos das empregadas nos apartamentos estão sendo cada vez menos usados como motel para a “iniciação” dos filhos do patrão, mas continuam minúsculos, sendo colocados no lado do poente e utilizados também para guardar troços.
Os banheiros das empregadas quase nunca têm pia interna, água quente no chuveiro ou ducha sanitária, uma situação que faz com que elas tomem “banhos expressos gelados”, que não lavem sempre as mãos e que disseminem o risco de contaminação com bactérias fecais para toda a casa; isso é também uma burrice e um desrespeito humano que nunca ouvi ninguém comentar.
Sidarta,
Essa dos banheiros dos quartos de empregada foi uma das percepções de detalhes mais acuradas que eu vi nos últimos tempos.
A ânsia segregatória das classes médias brasileiras atenta até contra a própria higiene e saúde alimentar!
Ubiratan,
Longe de mim usar espaço deveras precioso para ser indiretamente incisiva para com a sua pessoa. Acho que até fui bastante direta, não? (Risos)
Amo-lhe igualmente!
Andrei,
Creio que a mudança de legislação tão desigual derive da modificação da mentalidade da população em geral.
Que tal inovação pouse em solo brasileiro antes que sejamos mais parecidos com Portugal!
Marco Bahé,
Agradeço imensamente os elogios a mim dirigidos.
Penso que um olhar feminino é sempre conveniente, principalmente após perceber que apenas eu e Aghata havíamos nos posicionado sobre o tema até aquele momento.
Sidarta,
Sempre observações pertinentes e divertidas as suas!
De fato, também não sei o que se deve fazer para coibir os abusos exploratórios impostos às empregadas domésticas. De minha parte, apenas assumo o compromisso de, como futura mãe de bons rapazes que desejo um dia ser, educá-los com afinco e apenas inserir no meu seio familiar bondosas e gentis senhoras! Sem qualquer preconceito, claro! (Risos)
É sempre um prazer aqui escrever humildes linhas ou, quem sabe, desferir novamente golpes com a famosa “espada de Manjuri”!
Andrei,
Obrigado pelo elogio.
Reconheço, contudo, que foi o seu oportuno e bem abordado tema, e as contribuições dos seus comentaristas, que levaram a discussão a um caminho pouco explorado e que pode vir a estimular uma mudança nas exigências dos compradores de novos apartamentos e na mentalidade dos construtores, mesmo que repassem os pequenos aumentos de custos com a melhoria das instalações sanitárias das dependências das empregadas.
Falando sem fazer humor, nem querendo escandalizar, entendo que usar somente papel higiênico nos banheiros, sociais ou das empregadas, sem aplicar ducha de água, é espalhar o refugo intestinal aderido às partes externas do esfíncter anal em camada que pode tender a espessura infinitamente pequena mas que nunca será extinguida completamente.
Insistir em mais papel higiênico só vai provocar irritação na pele, mau odor nas roupas e maior necessidade de derrubada de árvores para produzir papel.
Terminar essa operação sem lavar as mãos e ir para a cozinha preparar uma refeição parece-me burrice e crime culposo, muito mais do patrão do que da empregada.
Alguns médicos de família já estão recomendando que se tome a droga MEBENDAZOL (posso não estar absolutamente correto do nome) duas vezes por ano, preventivamente, contra a verminose que ataca a todos por aqui e que é tramsmitida e reciclada nas cozinhas das nossas casas.
Isso é mesmo o que geram os projetos de banheiros de empregadas sem instalações sanitárias adequadas e a falta de informação dos patrões.
Ana Angélica, Ubiratan, Sidarta,
Eis que passeamos desde minha sociologia de botequim, passando por história, higiene pessoal, arquitetura, budismo e… declarações de amor entre comentaristas.
Confesso que, mais que impressionado, estou satisfeito com os resultados de uma despretenciosa crônica.
Ana Angélica,
Acredito que firmamos a paz no mais alto nível!
… continuo, entretanto, sem encontrar direito o que lhe dizer sobre “as bondosas e gentis senhoras ” que você vai escolher para cuidar dos seus filhos, ah,ah,ah
Olhando sob a prespectiva de um pretenso budista e avô, só lhe recomendo que não delegue também a essas senhoras a missão de ensinar aos seus filhos valores e ética, nem de lhes incutir preconceitos, dogmas e preceitos religiosos; sugiro que vigie e faça isso você mesmo.
Quanto a dogmas e preceitos religiosos, penso que é melhor só dizer o que pensa quando eles já estiverem bem crescidos e em condições de lhe contestar.
A propósito disso, é bem interessante a um pai ou futuro pai ler a carta do escritor Richard Dawkins à sua filha de 10 anos, que é apresentada no último capítulo do seu livro “O Capelão do Diabo”.
Vou entrar neste comentário de penetra mesmo, mas acho que Andrei, está arretado porque tem que fazer tudo para ele em Portugal(kkkkk), outra coisa as/os empregados domésticos, são os maiores especialistas em direito trabalhista, façam o teste!
50 euros por duas horas…
o preconceito está bem definido por Gilberto Freyre.
Todos nós sofremos preconceitos proporcionalmente a importancia de nossas profissões, quanto mais rara, mas se ganha!
Sidarta,
Espero não ter sido mal interpretada quando mencionei as `senhoras`. De modo algum tinham toques preconceituosos os apontamentos feitos. Apenas quis fazer um contraponto com as empregadas `gostosinhas`antes mencionadas.
De fato, as empregadas domésticas, assim como qualquer outra categoria de empregados, devem apenas executar os serviços para os quais recebem a remuneração devida.
Educar os filhos e ensinar-lhes as mais preciosas lições é indubitavelmente tarefa de pais, sempre com a importante contribuição dos respectivos avós e demais familiares. Espero eu, quando chegar a minha vez, ter a sapiência adequada para ser a melhor mãe possível.
Procurarei ler o livro sugerido. Deve ser uma leitura bastante interessante.
Um toque feminino, na imensa maioria das ocasiões, é muito bem vindo. Mas, por vezes, podem surgir exemplos de demonstrações gratuitas de sentimento em meios públicos de comunicação. Sendo assim, controle-se, Ana Angélica! (Risos escancarados).
Concordo, inclusive, com a contratação de “bondosas e gentis senhoras” no lugar de “empregada gostosinha”. Leia-se: pino é para se bater, oportuna e escancaradamente! (Mais risos escancarados).
Sidarta, a proliferação bacteriana diagnosticada foi de uma perspicácia que ainda não encontrei um adjetivo apropriado. Já dizia um grande sábio regional: quem tem ú tem medo… ou, pelo menos, receio deveria ter, mas não semeio!
Sobre a religião incutida prematuramente, sempre a tive como uma agressão; um estupro intelectual; a condenação eterna daquele que foi inserido nos dogmas canarinhos mais habituais, por meio de despejo de água e um certo óleo celestial.
Pensando bem, o céu, segundo as normas de Pedro e amigos, parece ser intangível até mesmo para Magaiver! Afinal, os pecados nascem de pensamentos, palavras, atos e omissões.
Por fim, não sei se a importância e a remuneração das profissões estão necessariamente vinculadas à oferta, como sugerido. Deve ser, pois não conheço – sequer ouvi falar de – um único proctologista… deve ele se deslocar em helicóptero particular, será?
Andrei,
Que crônica da gota serena foi essa eim ? Muito me lembrou famílias de colegas, e por que não dizer da minha, quando da boa leitura que tive hoje. De fato, esse texto foi um tapa na cara de muita gente “pseudo-educada-civilizada”, digo-lhe que pegou de raspão na minha!
Os comentários de Ubiratan também foram muito bons, além de tudo, engraçados! Ana deu-lhe um cutucão, que até agora eu estou rindo!
Demonstrações públicas, até mesmo internéticas, dos mais nobres sentimentos humanos geralmente são iniciadas pelo sexo feminino, mais dado a manifestações abertas do que lhe passa pela cabeça e pelo coração. Porém, em raras, gratas e sempre louváveis ocasiões, os homens dão o ponta-pé inicial e protagonizam diálogos românticos e memoráveis com suas respectivas companheiras! Só não vale negar tais iniciativas, viu, Ubiratan??? (Risos!)
Realmente, pino é mesmo pra se bater!!!! Coragem, homem!! (Mais risos!)
Acerca da religião incutida prematuramente, talvez seja apenas uma tentativa dos senhores pais, em sua grande maioria, de proporcionar a seus filhos uma maior interação com Deus desde a infância, dentro da religião que mais lhe é familiar.
Quanto à aparente inexistência da figura do proctologista, na verdade não conheço nenhum nem nunca ouvi um único estudante de medicina abrir a boca e dizer que sonha em se especializar nessa área!!! Por que será???
Por fim, no meu primeiro comentário, mais especificamente na antepenúltima linha, onde se lê ‘direito’, leia-se ‘dinheiro’.
Lá vem o “punhal de Bahé”. Mulher… tenha compostura!
Fred,
Já ando habituado, pois moro só há dez anos, sem empregadas. Como prefiro os apartamentos pequenos, ou muito pequenos, eu mesmo cuido de limpeza.
Agora, vou lhe dizer. Sinto falta da lavagem de roupa barata e boa que tinha em Campina Grande, numa lavanderia antiga e tradicional.
Dessas artes domésticas, a mais difícil é passar uma camisa. Lavar roupa na água gelada é questão de coragem, mas passar camisa demanda talento.
Rafael,
Veja você como a coisa está impregnada socialmente. Se você observar ao seu redor, todos ou quase todos os seus amigos terão vivido uma programação semelhante.
Todos ou quase todos chegarão a altos postos, estudam e estudarão em boas faculdades. Nada obstante, há, nas mentes, o germe latente da casa grande, em oposição à senzala.
Já notou que, falo aqui genericamente, quando tratamos bem garçons, empregadas domésticas, sentimo-nos bem, quase a fazer um favor? Mais ou menos como se sente um católico que dá esmolas para garantir seu céu.
Vou reafirmar que estou teorizando e que isso não funciona da mesma forma com todas as pessoas. Você, por exemplo, é uma pessoa com bom senso.
Mas, em geral, é assim.
O comentário que vou fazer não tem nada a ver com o texto, mas com uma observação que venho fazendo desde que Andrei começou a publicar aqui suas crônicas: parece que Machado de Assis baixa nos comentadores na hora de “redigirem” os seus comentários.
Alguns, que em outros posts comentam utilizando-se de linguagem coloquial, como quem escreve uma nota em um “alfarrábio” qualquer, aqui utilizam linguagem extremamente polida, quase pomposa, um verdadeiro “regalo” para as vistas. É curioso como o estilo de escrita de quem redigi o post influencia na maneira como os comentadores se expressarão. Curioso mesmo.
Amanda,
Acho prazeroso ter cuidado com as formas. Claro que, às vezes, a pressa, ou a falta de talento, podem dificultar muito. Contudo, parece um esforço válido, como utilizar um instrumento da melhor maneira.
Às vezes, parece-me que forma e matéria podem fundir-se de maneira a serem indissociáveis. Isso encontra-se na boa literatura.
Há, também, esculturas que deixam o observador com a impressão de que o material e o talhe eram necessários, um ao outro.
Pomposa foi um adjetivo que me preocupou, no seu comentário.
Bem, o seu foi um comentário curioso.
Ana Angélica (…e demais outros comentaristas eventualmente interessados na boa formação dos seus filhos… ou netos).
Em comentário anterior dirigido a Ana Angélica fiz referência a uma carta do escritor inglês Richard Dawkins à sua filha de 10 anos, que está no fim do seu livro “O Capelão do Diabo” e que muito me fez despertar para a nossa responsabilidade ao assumir o papel de “transmissor de tradições” para os filhos e para os netos.
Escaneei hoje todo o texto no livro e fiz um arquivo em PDF com somente uns 50kb.
Se alguem se interessar por esse texto envie-me um mail para o endereço abaixo e mandarei o arquivo com a tal carta; isso pode poupar o custo de adquirir o livro se só houver interesse no texto da carta.
hidroeng@oi.com.br
Sidarta
Cara Amanda Costa,
Isso não é críitica ao seu comentário e apreciei muito a sua observação anterior sobre a baixada do espírito de Machado de Assis no estilo das intervenções que estão sendo feitas.
Na verdade, precisamos mesmo de um alívio dos espiritos depois do surto de “agressões pessoais e da utilização de linguagem de baixo nível”, digna de ser usada em discurso político de beco pequeno e que se manifestou em alguns comentários no blog, na discussão sobre a propriedade ou impropriedade da obra e do nome do “Parque D. Lindu” no fim da semana passada.
Seguir o tom e o estilo, e expor e apreciar as idéias motivadas nessas crônicas de Andrei em forma e escrita elegante e correta (e polida e pomposa, “por que não, minha mui respeitada Senhora”?) pode ser até um surto de vaidade pessoal de alguns ou uma pretensão de conseguir votos para um futuro lugar na Academia.
Por outro lado, além de ser um regalo para a vista, como você bem colocou, pode também ser uma maneira de nos assegurar que voltamos a trabalhar pelo bem da “Qualidade”, passeando no D. Lindu ou em Versailles, visitando o Louvre ou o Museu do Cangaço, ou comendo caviar ou feijoada, desde que estejam bem preparados e acompanhados das bebidas, do ambiente, do clima e dos convivas adequados, …. e de bons formadores de opinião.
Andrei, voce teve educação em casa, e foi acostumado a arrumar a cama, lavar suas roupas íntimas, e por ai vai.
Agora vou lhe ser sincero, eu gosto de fazer as coisas em casa, mas nao como uma rotina ou obrigação, e infelizmente no Brasil vamos ainda ter muita opção de secretários domésticos baratos!
Voce esta na Europa ,como se estivesse nos EUA ou Canadá, hoje eles importam, gente de classe média brasileira para trabalhos domésticos, sejam para sobreviver ou estudar.
Onde eu quero chegar?
Que o preconceito é cultural e da situação de subdesenvolvimento do Brasil, sempre vai ter empregado domestico, a diferença esta na remuneração e no profissionalismo!
Trabalhos domésticos são infindaveis, todos nós gostamos de mordomias.
Sidarta, pode dar nome aos bois, mas eu acredito que exista um pouco de preconceito linguistico, oratória e boa escrita as vezes são dicotomias de formação.
Como o latin é uma forma de segregação nas peças de direito.
Com certeza os comentarios bem postados, são o respeito ao blog, que afirmo com constancia, é um unico espaço que particulamente eu tenho sem uma censura do estado ou de interesses economicos e políticos.
Gostaria muito que os responsaveis pelo blog, consigam se auto-financiar dentro do blog AC e se dediquem ao máximo a este espaço que é muito poderoso, (é o futuro)!
Obama se elegeu, por causa de espaços assim!
Este artigo de andrei, com os comentários acima, foram de alto nível de intelectualidade e competencia de escrever, e mais, me obrigam a evoluir na oratoria da escrita!
MAS O IMPORTANTE É SER ÉTICO E PRATICA-LA.
Fred, você tocou em um ponto que sempre avocou, em especial, minha atenção.
A utilização do latim em peças jurídicas – na imensa e absoluta maioria das vezes – é, ao que parece, mera expressão propositada de vaidade acadêmica. Fato este que me causa certa repulsa, pois neste caso a forma e a matéria são facilmente dissociáveis.
Ora, uma decisão jurídica é uma determinação coercitiva dirigida ao povo; sendo assim, por que ser ela ininteligível para a esmagadora maioria da população? Esta tendência abre margem para que certos patronos, por exemplo, afirmem ao constituinte que “periculum in mora” significa a perda da demanda se aquela parte não antecipar uma custa processual qualquer… logo, mais um mecanismo de extorsão se aperfeiçoa.
A segregação intelectual é muito violenta… sádica ela é.
Pouquíssimas oportunidades fui obrigado a utilizar expressões em latim em meu desiderato, porquanto, realmente, era imprescindível. Minha preferência pelo vernáculo não compromete o sentido do que tenho a dizer em juízo.
Mas, isso não se aplica à parcela considerada dos “operadores do direito”; é como se o latim, o pouco vernáculo, muita jurisprudência e nenhuma criatividade formassem a amálgama mais desejada do conhecimento jurídico.
Vocês, meus caros, não sentem certa indignação quando se deparam com uma receita médica, em que a única coisa legível é o timbre do papel? É esta sensação que tento não cultivar.
É curioso como o cuidado com as formas reflete pedantismo. Nunca foram socialmente constrangidos a falar errado – por mais que o errôneo seja agressivo aos tímpanos – apenas para não ser tido por esnobe?
Também acho prazeroso ter cuidado com as formas, por mais que a desatenção ou ignorância particular insistam em macular crases, partículas sintáticas e conjugações verbais, para ficar em poucos exemplos de minha debilidade.
O importante, acredito, é ser objetivo, se fazer entender e jamais nutrir preconceito intelectual; desde que a ignorância não seja voluntária, lógico. Neste caso, apelamos para a ironia.
Concordo integralmente com a crítica feita à utilização excessiva do latim em peças jurídicas, apesar de ainda delas fazer uso esporadicamente.
Como vim da seara advocatícia, procuro sempre prezar pela linguagem mais direta possível, sem esquecer das formas e da correção gramatical. Afinal, pela experiência que tive, sempre conseguimos melhores resultados juntos aos magistrados e servidores em geral quando nos expressamos do modo menos pomposos e indo diretamente ao ponto nevrálgico da questão.
Aliás, desde sempre acreditei que na vida, de uma maneira geral, a chance de sucesso é sempre maior quando se vai direto ao ponto.
Exatamente, cara Ana Angélica, o importante é o ponto G da questão!
Caros Ana Angélica, Ubiratan e Fred,
Vocês, da área advocatícia, são os guardiões da qualidade dos argumentos e da clareza da escrita para a proteção e o melhor entendimento das decisões jurídicas pelo povo…. e pagamos bem a vocês para manterem as vestimentas, a mística, os rituais e as preconizações dos oráculos dos templos de Isis e de Delfos.
Não abdiquem do direto e da obrigação de bem escrever; o latim parece-me agora dispensável…. mas o oráculo de Delfos, nos melhores tempos, preconizava mesmo em grego.
Com alguma pretenção tento acompanhá-los e melhorar os meus argumentos e o meu estilo.
Sou da área um tanto desprezada da engenharia e tenho uma verdadeira obcessão e necessidade profissional de ser correto e preciso nos meus cálculos e exposições… senão a ponte vai cair mesmo quando for ser construída.
Honestamente, gostaria aqui de poder resumir as coisas com o poder de síntese de um Einstein e escrever E=mc² ou PV=nRT para descrever, de uma forma mais simples e direta, como toda essa discussão teve condições de se originar (…o BIG BANG que nos criou) e como são mantidas as condições para que respiremos e possamos continuar nesse divertido diletantismo (a equação universal dos gases perfeitos, seja o nitrogênio e o oxigênio que respiramos, ou o metano que expelimos).
Vejo que saímos mesmo do tema das “serviçais portuguesas” de Andrei mas penso que são dessas derivações que também surgem idéias úteis ao engrandecimento da humanidade. Como dizia Chico Anysio, “Sic transit gloria mundi”!
Abraços a todos.
Sábia observação, Sidarta.
As vestimentas, a mística e os rituais, realmente, são por demais onerosos ao povo, e a contraprestação do investimento é diminuta. Sacia apenas a vaidade e o ciclo de concessões.
O latim – que muito difundiu, ao que parece, durante as recíprocas perseguições cristãs nos séc. III e IV – era renegado pelos sofistas ortodoxos, que se insurgiam tanto pela estética desagradável do dialeto, como em face dos novéis ditames de salvação; buscando, quem sabe, o resgate do que era belo e verdadeiro: o grego e o paganismo.
Minha rejeição não deriva dos mesmos fundamentos; afinal, não posso – nem sou tão pretensioso ao ponto de – classificar o dialeto como agradável ou desagradável. Parece-me inoportuno pelo anacronismo, pela inconveniência e pelo desiderato: vaidade, tão somente.
Abraço.
Caro Ubiratan,
Parabéns pelo texto e nada a acrescentar, excelente comentário!
A propósito do paganismo, li há uns dias um romance de Christian Jacq, autor da série pseudo-histórica RAMSÉS, chamado de “FILAE, O Último Templo Pagão”.
O tema é ambientado no período em que o catolicismo do império bizantino invadiu o Egito e partiu para destruir todos os templos e a religião dos faraós.
FILAE, um templo pagão dedicado à deusa ISIS em uma ilha do rio Nilo, foi supostamente o último a ser destruído pelo bispo Teodoro, um egípcio convertido ao cristianismo lá pelo ano 600 depois de Jesus.
A trama, de desfecho previsível desde as primeiras páginas, traz descrições bonitas e poéticas das paisagens do Nilo na região de Elefantina, dos costumes do povo, da burocracia dos governos civil e religioso e de alguns rituais pagãos para a cura de doenças e para a previsão de enchentes do rio.
Se você gostar do tema pode ser um livro leve para se ler no fim de semana na praia…. mas não espere que ele lhe ensine como curar doenças complicadas, prever enchentes sem saber onde e quanto está chovendo, ou lhe ensinar o caminho pagão financeiramente acessível para levar a sua alma aos céus.
Do que li, para levar a alma ao céu parece que era muito mais caro o pedágio pago aos pagãos, com a mumificação e a construção de túmulos refinados, do que aquele que os cristãos cobravam para lhe dar uma rápida extrema-unção e encomendação do corpo e celebrar uma missa de sétimo dia pela sua alma.
Foi com esse pragmatismo, e mais alguns golpes de espada, que se montou o poder do Vaticano.
Sidarta, o remate do seu comentário foi primoroso, causou-me risos pela inspiração pura. Parabéns!
Fez-me lembrar de quantos e tantos monumentos, templos e fontes de sabedoria foram destruídos, violentamente tolhidos da humanidade, pela força e inspiração da cruz e das espadas. Uma afronta, um insulto… uma lástima.
Tenho que arquivar tudo, e depois ir a pesquisa!
Não estou sendo ironico.
Cultura tem quer ser prazerosa e não imposta, correndo o risco de deixar de ser RARA. Assim é a profissao de empregados domésticos no caminho inverso.
Servir ao próximo vai ser caro e raro.
Esse é um post com comentários que realmente pedem uma leitura cuidadosa. Muita coisa interessante foi apresentada na crônica de Andrei e em toda a discussão subseqüente. Infelizmente ainda não tive o tempo necessário para ler tudo o que foi dito aqui com o devido e merecido cuidado, posto que a densidade argumentativa aqui presente foi digna dos melhores livros (e como fred, também sem ironias).
Há várias coisas que eu gostaria de comentar, em geral concordando e eventualmente expandindo um pouco a discussão. Mas aluno que chega atrasado a aula deve ficar calado, até ter certeza do que vai dizer.
Enfim, esse meu comentário é uma quase inutilidade, apenas para dizer que gostaria de ter acompanhado essa discussão mais de perto e parabenizar a todos (ou quase) que dela participaram. E me comprometer a ler tudo o que foi dito com atenção, para tentar fazer algum comentário mais útil.
Abraços e mais uma vez parabéns não só ao artigo dessa semana de Andrei, como a toda a discussão que ele conseguiu gerar.