Impressões luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

dez 8, 2008 by     25 Comentários    Postado em: Cultura

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Gosto bastante de cinema e por isso vou muito pouco. Nos últimos seis anos, estive cinco vezes em cinemas e delas, quatro no último mês. Dito isso, preciso explicar melhor, para não parecer piada. Primeiro, não me apetece muito ir ao cinema por ir, para ver qualquer coisa, como se estivesse obrigado a isso, para ser uma pessoa de perfil normal. Em segundo lugar, ainda quando vou só por ir, quero ver o filme.

Nos últimos seis anos, morando em Campina Grande, fui ao cinema uma vez. Não devia ter ido. Era A Rainha, um filme inglês razoável, muito britanicamente de auto homenagem a eles, britânicos. Ninguém discordará de que não é um filme infantil ou para adolescentes, mas a sala estava cheia deles, gritando e correndo. Ainda acho normal que as mães e pais queiram se livrar dos filhos, mas deviam encaminhá-los para a sala de cinema apropriada. Coitados, no filme certo se divertiriam mais.

Aqui cabe outra explicação: se fosse em Recife ou em João Pessoa seria a mesma coisa. A geografia regional não tem siginificado muito em termos de educação. A diferença seria nas ditas seções de arte, como no cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Nessas, o público é realmente mais educado ou contido, não sei se por achar isso importante ou por ser parte de um papel a desempenhar.

Essa estória toda me lembra algo de que não quero falar, que é o mito da nossa expansibilidade. O fato é que isso, seja lá o que for, é desculpa para todo tipo de excesso comportamental. E para outro mito, de que o resto do mundo é fechado e age como autômato. Aceitamos ser os brasileiros felizes e extrovertidos em oposição ao resto do mundo triste. Um país Carmem Miranda!

Bem, estivemos quatro vezes no cinema, aqui, no último mês. Como não quero sucumbir à vaidade ou à tentação de fazer gênero de cinéfilo intelectualizado, devo dizer que vi Ensaio sobre a cegueira, Madagascar 2, o último 007 – essas coisas não precisam de nome – e Amália. O filme sem nome é fraquinho e os outros são bons. O desenho não é infantil e tem aquelas piadas inteligentes e perversas dos asquenazes da costa leste norte-americana.

Em Madagascar havia, obviamente, uma legião de crianças fazendo barulho, todas com aquelas pipocas imensas e imensamente ridículas quando carregadas por seus pais. Apagaram-se as luzes e fez-se silêncio! E este silêncio durou o filme inteiro! Prova que não é impossível comportar-se adequadamente, sem precisar de hostes de educadores vestidos com uniformes militares e munidos de palmatórias prontas a distribuir sopapos nas desprotegidas mãos dos mais renitentes.

Minhas surpresas têm a ver com minha ignorância, é claro. Surpreendemo-nos com o desconhecido e não foi diferente com o intervalo e com o silêncio quando a projeção se inicia. Sim, nunca tinha ido a filmes com intervalos e aqui todos têm um, de sete minutos. Curiosamente, o lapso médio para uma micção, considerando-se os copos de pepsi-cola de um litro e o tempo de ida e volta ao banheiro.

Os ingressos não me pareceram caros e saem por € 5,00, o normal, e € 4,00, os de estudantes. Ou seja, estudante não paga meia, paga oitenta por cento. Nas segundas-feiras, todos pagam € 4,00 e estudante paga cem por cento, portanto. A despeito dessa violência, os estudantes ainda não ameaçaram uma revolução.

Hoje, domingo, vimos Amália. Não é grande coisa, é muito sentimental, é enviesado politicamente, mas vale pelos fados e pelo bom desempenho de quase todos os atores. A vida de Amália Rodrigues deve ter sido repleta de desventuras e o diretor aproveitou-se disso e de certos episódios de sua simpatia salazarista. Podia ter evitado, mas não chega a comprometer, apenas segue a trilha usual de pintar o personagem com as cores da ingenuidade política.

Tive ocasião de surpreender-me novamente, hoje. Entramos, sentamos e, logo depois, umas pessoas que chegavam perguntaram-nos se eram aqueles nossos lugares. Não entendi. A senhora, sempre muito gentil – com os usuais desculpa e por favor – mostrou-me seu ingresso. Tinha lá o número da cadeira em que eu estava! Peguei o meu – por sorte não tinha jogado no lixo – e vi que tinha um número, “P dezesseis”.

Pedimos desculpas e fomos procurar os Ps dezesseis e dezessete. Estranhei porque nos três filmes anteriores, ou ninguém se preocupou, ou não tinha lugar marcado. Não sei, porque não guardei os papéis, mas inclino-me pela segunda hipótese, pois o mesmo aconteceu depois, com pessoas sentadas nos lugares de outras, certamente porque também não se preocuparam. Pode ter a ver com filme sério, para pessoas supostamente mais velhas, não sei.

A questão é que isso – os lugares marcados – é de uma obviedade absoluta, pois ajuda a ocupar racionalmente o espaço do cinema. Funciona assim em teatros, concertos, balés, em aviões, em trens. Consigo imaginar que num multiplex da vida, em Recife, por exemplo, seria motivo para uma revolução e brados de cerceamento de liberdade. Sempre nos rebelamos contra bobagens, enquanto nos submetemos calados aos grandes cerceamentos.

Nosso Brasil permite tudo, menos não ser o país do futebol e aceitar pequenas e triviais regras que visam a tornar a vida cotidiana mais harmoniosa. Ninguém tem a liberdade de não precisar pagar plano de saúde privado ou de andar a pé na cidade, mas tem plena liberdade para a desordem. Sentimo-nos agredidos pelas bobagens e afirmamos o direito à desorganização. Grandes liberdades, as nossas.

___________________________________________
* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

25 Comentários + Add Comentário

  • Prezado Andrei,

    realmente, para mim é estranho esse nível de civilidade comportamental em cinemas. Mas, também em em teatros, etecetera. Escrevi sobre aapresentação da peça musical Carmina Burana, no teatro da UFPE. Meu texto foi um exemplo disso.

    Aos que não leram, e tiverem curiosidade, neste link:

    http://acertodecontas.blog.br/cultura/carmina-burana-no-teatro-da-ufpe/

    Bem, enquanto lia seu texto, recordava-me daquele velho “jargão” histórico que diz que, no Brasil, os portugueses colonizadores, pelos idos do início do processo de povoamento do interior do continente, mandava pra as terras brasileiras apenas a ralé de sua população (putas, ladrões, vagabundos, entre outros tipos). Ou seja, a ‘nata da desgraça’.

    Para alguns, isso explicaria muito de nosso espírito “desordero” e “caótico”.

    Disso derivou-me agora uma curisosidade histórico-sociológica – um tanto tola e anacrônica, admito…

    Será que nos cinemas mais, digamos, “ralé”, de Portugal, nas cidade menos “desenvolvidas”, periféricas dos grandes centros, a população também se comporta “civilizadamente”, como descrito em sua crônica desta semana, ou seria algo um tanto próximo da “nossa” falta de educação disfarçada de “espírito livre de regramentos comportamentais”?

    Forte abraço!

  • Andrei,
    Gostei da sua crônica de hoje e da sugestão de André Raboni de voce também estender a pesquisa sociológica para validação da sua tese sobre o comportamento civilizado dos portugueses quando a luz da sala do cinema apaga, para algum cinema “mais suburbano” lá por “tras dos montes”.
    Sem brincadeira, arrisquei-me a ver um filme “de ação” em plena Times Square em NYO e tive a pouca sorte de ter sentada em frente ao meu lugar uma afro-american supernutrida, cabelo “black is beautiful” e com uma cartola na cabeça…e que manteve a cartola na cabeça o filme todo…. e eu o pescoço inclinado para um lado só…. e ainda com medo de que a cadeira dela quebrasse com os seus paroxismos e ela caisse em cima de mim.
    Não sei se por conta do tamanho da crioula ou por conta dos direitos civis dela nos USA, ninguém sentado mais atrás de mim também reclamou.
    Dedução: filme de ação é prejudicial à saúde, aqui e em NYO.
    Abração,
    Sidarta

  • Muito bom o artigo, coisas simples, como não bater na poltrona da frente, não comentar o fime para todos na sala, chegar até o filme começar,eu tenho na maioria dos filmes que gosto de assistir, esperar a semana de estréia e às vezes mais do que isso, para ir assistir os poucos filmes que valem a pena, fico desatualizado em relação aos amigos, mas é muito mais saboroso assistir os bons filmes depois e durante a semana, e evitando sempre o fim de semana!
    Os filmes da fundação, quase sempre as pessoas são mais educadas, mas já está ficando cult, ir aos filmes da fundação!

  • André,

    Boa pergunta e boa sugestão. Aqui em Braga, há cinemas em dois shoppings. Oito salas em cada. Não me pareceu elitizado, principalmente no filme supostamente infantil.

    Estávamos passeando há pouco, no centro, que está repleto de gente e conversávamos sobre como as pessoas mais pobres não têm vergonha de sê-lo.

    Explico melhor: os espaços públicos existem, são frequentados por todos e há um acervo mínimo de educação para a convivência, bem praticado.

    Não se trata do sujeito entrar onde não pode pagar – os restaurantes têm o cardápio na porta – e fazer um escândalo de cunho socializante.

    Trata-se da convivência nos espaços públicos de velhos, jovens, adultos, crianças, do cara que estaciona um Porsche e sabe que todo mundo tá olhando, pobres, remediados, enfim todos.

    Isso, sem mais nem menos, não temos. Não é que não se identifiquem as classes sociais das pessoas, o que de resto parece-me muito fácil, antropólogo e sociólogo de botequim que sou. É que isso não é critério de discriminação e de banimento subliminar dos espaços públicos.

  • Sidarta,

    Em Trás-os-Montes tá fazendo um frio tão grande, que acho difícil haver barulho nos cinemas.

    Acho que Nova Iorque é muito performática e as pessoas devem estar zelosamente desempenhando seus papéis.

    O papel do brasileiro civilizado que vai a cinema em Times Square é ficar calado e não se expandir muito! Principalmente dos budistas, portanto acho que você fez bem em não reclamar.

  • Fred,

    Pois é. Como você disse, são coisas simples que resultam num comportamente adequado a uma sala de cinema. Não cai pedaço de ninguém que se comporta assim. Não significa renúncia a qualquer grande liberdade.

    Trata-se tão somente de respeitar as pessoas que querem prestar atenção ao filme. Quem não quer, pode ficar em casa, ir a um bar, a uma boate, a uma festa qualquer, a um parque.

    Por isso, acho que a maioria das pessoas que vai a cinemas nos finais de semana, nos multiplex, vai cumprir um ritual, não assisitir o filme.

  • ANDREI
    ESTA CRONICA LEMBROU-ME DE UMA GRANDE SURPRESA QUE TIVE EM BUENOS AIRES HA ALGUNS ANOS ATRAS .FUI AO CINEMA ,UM FILME INFANTIL LA ESTAVAM MUITAS CRIANÇAS COM SUAS MAES .O SILENCIO DUROU O FILME TODO E PARA MINHA SURPRESA QUANDO O FILME TERMINOU TODOS SE LEVANTARAM E APLAUDIRAM.
    NESTA MESMA ÉPOCA EM RECIFE OS JOVENS COSTUMAVAM LEVAR ATÉ GALINHAS PARA SOLTAR DO BALCÃO,UM VERDADEIRO PANDEMÔMIO.HOJE CONTUDO OS CINEMAS AQUI SÃO MAIS DISCIPLINADOS .NÃO SEI SE O MESMO ACONTECE EM CIDADES MENORES.
    AGHATA

  • Andrei,

    Percebo que a linha de conduta é muito similar, quer nos espaços públicos, quer nos espaços privados. Há uma preocupação mínima em preservar as possibilidades do “outro”, porque, parece-me, enxerga nele a si próprio. É o princípio da empatia, da solidariedade.

    E quanto ao “espaço público” em si, não sei o que significa por aqui. É difícil ver na minha cidade, estritamente falando. Na realidade, ele virou desculpa para poucos se apropriarem e fazerem o que quiserem, com a conivência do Poder Público, sejam ricos ou pobres.

  • Andrei,

    Bela crônica, como sempre. Só para registrar, na exibição do U2-3D, no Box Guararapes, os lugares também eram marcados. Mas concordo que esse desconforto existente nos cinemas brasileiros é desestimulante o bastante para ter me mantido afastado das salas de projeções. Isso é o alto preço dos ingressos para quem não é mais estudante, nem falsifica uma carteira de estudante.

    Lembrei-me de um episódio que vivenciei no Shopping Recife: eu e minha esposa fomos assistir a um filme (não me lembro mais qual, pois já faz muito tempo) e um casal a nossa frente estava conversando já depois de iniciado o filme. Pedimos silêncio e o homem do casal se saiu com a seguinte frase: “O filme é legendado, não é para ouvir, mas para ler!”. Só com a presença do segurança do cinema, que me esposa foi chamar depois de uma dessas, é que pudemos assistir e ouvir o filme tranqüilamente.

  • deslumbramento… Atribuir nossas idiossincrasias a desvios cultural-comportamentais é uma grande besteira. Aliás, é exatamente o produto do ar de superioridade que a classe média (para cima) brasileira sente em relacao àqueles a quem foram, desde o início, negados quaisquer meios. Aqueles para quem é totalmente indiferente se sentir assim “europeu”.
    Eu moro há um ano no norte da alemanha. Pois vejo muita coisa absurda, que imaginava que “só aconteceria no brasil”. Basta prestar atencao um pouco melhor para aqueles que, tb aqui, já comecam a ser excluídos dos benefícios do bem-estar social. Sinceramente, imagino que, em portugal, um pais, economicamente, mais pobre que o brasil (porém nao tao desigual), a realidade nao deve ser tao diferente.
    Temos que tomar cuidado para nao essencializar como “características culturais” aquilo que é produto de uma obra bastante humana, demasiadamente humana, no sentido mais trivial.

  • Danie,

    Espaço público, em sentido próprio, acho que só os shoppings. As ruas e praças são espaço público sem segurança e sem convívio público propriamente.

    Alguns shoppings por seu turno são feitos sutil e estrategicamente para segregar as populações mais pobres, por meio do critério meio de transporte.

    Temos os parques, mas sua ênfase hoje é desportiva. Temos a Rua voltada para o comércio, também. Mas, não são públicos no sentido se serem o objetivo de todos os estratos sociais,no sábado à tarde, por exemplo.

  • Pablo,

    Deslumbramento saindo do Brasil ao exterior, tive-o em 1983, no Canadá. Depois, só com a beleza arquitetônica de São Petersburgo.

    Não atribui idiossincrasia alguma a desvio cultural, até porque não é o objetivo do texto. Falei, isso sim, de relaxamento com pequenas regras cotidianas, como se isso fosse a grande conquista da liberdade.

    Se você vê muita coisa absurda na Alemanha, que esperava não ver, o erro foi da sua esperança. Deve ter utilizado a informação errada ou insuficiente. Ou trabalhado a informação correta insuficientemente.

    Agora, diga-me: você está querendo praticar um certo esnobismo de brasileiro na Alemanha com brasileiro em Portugal? Ou é uma confissão de ignorância voluntária? A primeira hipótese é cômica, a segunda não é problema meu.

    Pergunto, pois a lógica empregada na proposição de que Portugal deve ser parecido com o Brasil porque é mais pobre permite ficar em dúvida mesmo.

    Não me proponho a estabelecer relações de causas e efeitos, entre componentes culturais e práticas sociais. Todavia, sinto-me bastante à vontade para dizer que cultura é sim obra humana, tanto no sentido trivial, quanto no sentido que lhe dava aquele que você quis referir.

  • Márcio,

    Seu comentário aprsenta a chave para ver a face mais grave da falta de educação no dia-a-dia. É que as pessoas, em geral, não acham que estejam sendo mal educadas.

    É o caso do cidadão que redarguiu com a estória do filme legendado para ler-se e, não para ouvir-se.

    Ou seja, não se trata eventualmente de reinserir o respeito por tais ou quais regrinhas óbvias. Trata-se de convencer o cidadão de que isso utiliza-se.

  • No Norte da Europa também é comum os cinemas e teatros terem lugares marcados. A única diferença é que mesmo que não haja bilhete numerado, as pessoas marcam seus próprios lugares e voltam aos mesmos depois do intervalo. Como eu e minha esposa verificamos após darmos uma de “espertos” e voltarmos à sala mais cedo para pegar um lugar melhor.

    É Ordnung, a ordem espontânea, na sua forma mais pura. Me deu a absoluta certeza que, se o governo fosse abolido no dia seguinte, com todas suas leis e regras, a vida continuaria exatamente como antes. Tive também a mais pura impressão de que o mesmo governo montado por gente como aquela não existia para conter a população, mas para representá-la.

    E, algum tempo depois, já de volta, a olhar o cliente do bar da esquina com a tampa da mala do seu carro aberta e som nas últimas alturas, me deu também a absoluta certeza que os brasileiros temos um caminho longo e árduo para chegar neste ponto.

  • Bruno,

    Preciosíssimo comentário.

    Terrível é parar para pensar e concluir que o deputado que está na câmara é o cara do carro com a mala aberta.

    Terrível também é o descompasso entre discursos e práticas. Ora, se nossa idiossincrasia é descumprir as regras, por que ainda insistimos nessa estória de regras?

    Se vivemos, na verdade, uma plutocracia com tênues vernizes oligocráticos, por que insistimos nessa conversa de democracia?

    Se os pobres não têm coisa alguma e os outros caminham para não ter também; se a polícia tortura; se adolescentes são presas junto com adultos; se mulheres e negros ganham menos que homens brancos, por que não queimamos os artigos de direitos fundamentais da constituição?

    Se quem manda realmente nesse país já anda em carros blindados há algum tempo, por que não se assumem ditadores e pronto?

    Acho que devemos essa necessidade de justificação à nossa tradição mosáico platônica, com os acréscimos kantianos posteriores, e a um forte sentimento de culpa.

  • Prezado Lapa,

    A questão é sutil e delicada. Prefiro o sangue quente latino à frialdade e cometimento nórdicos. Todavia, uma maior espontaneidade e abertura emocionais não podem desbordar para a falta de educação e prática de atos atentatórios à saudável e respeitosa convivência em lugares públicos . Espontaneidade, alegria e desinibição em exteriorizar estados de espírito são uma coisa, falta de educação e incivilidade outra. Reconheço, pórem, que nos países de sangue quente a possibilidade de nos depararmos com comportamentos que ultrapassem a linha que separa espontaneidade e educação/civilidade é grande.
    Um abraço

    Ênio Matos

  • “Sinceramente, imagino que, em portugal, um pais, economicamente, mais pobre que o brasil (porém nao tao desigual), a realidade nao deve ser tao diferente.”

    Caro Pablo,

    Ou não estivesse em Potugal ou não estivesse no Brasil.

  • VIVA A EDUCAÇÃO PESSOAL!!!

  • Andrei,

    Não sei se é nosso destino descumprir regras. Pelo contrário, vejo nos meus contatos com a camada mais humilde da população uma obediência quase bovina. Curiosamente, minha maior experiência com comportamentos obtrusos veio de gente da classe média. Principalmente classe média alta. Concordo que apenas minha percepção pessoal não faz um padrão, mas, enquanto estamos falando de episódios: em que parte do trânsito da cidade você encontra os motoristas mais agressivos? Na minha experiência é o eixo Casa Forte/Boa Viagem. Quero acreditar, e minha experiência certamente corrobora isto, que a maior parte da população descumpre regras por desconhecimento. A parte rica as descumpre por indiferença.

    Mas, voltando: o ponto é que este tipo de conduta que relatei no post anterior não aparece de forma imposta, e sim como um contrato entre os indivíduos. Em algum ponto eles notaram que a vida se torna mais fácil se respeitassem os direitos alheios. Logo *depois* surgiu a idéia de que o governo não existe para conter a população, mas para suprí-la das necessidades comuns. Vejam: nesta versão, saúde e educação vêm ‘a posteriori”. Sem esse contrato social firmado, ao educar um sociopata, você só terá um sociopata educado. A quem achar o contrário eu posso apresentar o exemplo de Daniel Dantas, Ph. D..

    Isto que você apontou é realmente fato: somos um povo extremamente hipócrita. Por um lado, esperamos do governo que supra educação e saúde a todos, por outro, nos recusamos a pagar impostos (bem, aqueles que podem se recusar. Os outros simplesmente reclamam). Protestamos contra o descumprimento das leis mas é raro o dia que não cometemos infração, por menor que seja. Reclamamos contra a burocracia, mas queremos que todo acordo esteja “no papel”.

    O que teve de acontecer (inverno, guerras) para que, no Norte da Europa, a sociedade coletivamente tivesse este “estalo” eu não sei. Mas sei que o pré-requisito é um governo verdadeiramente representativo. E mesmo aí chegamos a relativamente pouco tempo.

  • Andrei,

    Li o texto e todos os comentários, e percebi que a boa educação está inseparavelmente ligada às lições domésticas. Nem sempre a educação formal traduz-se em um bom nível de convivência social.

    Discordando de Pablo, entendo que há um cometimento muito maior de absurdos por parte da classe média alta, pelo pequeno burguês, que se sente inatingível pela lei. Quer maior exemplo disso? Estive este fim de semana em uma fazenda no sertão de Pernambuco, e fiquei impressionado com o grau de respeito e educação ambiental das pessoas financeiramente não abastadas, o que obviamente é uma das facetas de uma boa educação.

    A questão está ligada aos princípios e valores. De certo que é muito difícil esperar princípios e valores de quem passa fome, e vê sua família na mesma situação, todavia, isso ocorre amiúde. Mesmo nestas condições não é difícil encontrar pessoas honradas.

    Para clarear mais um pouco, lembro de um fato que me ocorreu semana passada. Recebi minha carteira funcional, e de pronto, um colega servidor disse que eu não mais precisaria me preocupar em pagar entradas em campo de futebol. Ora, faz-se o errado, não por necessidade, mas sim pelo simples fato de sentir reconfortado em burlar o certo.

  • Bruno,

    Hei de concordar com você. Os mais abastados são o pior exemplo de comportamento predatório. Eles não se sentem obrigados pelo contrato social por você referido.

    Rafael,

    Concordo contigo. Começa a faltar, de forma muito evidente, educação doméstica principiológica. Limites na forma simples e clara do termo. O que pode e o que não pode.

    Pego carona nos termos utilizados pelo Bruno. Parece que certas camadas não se sentem obrigadas pelo contrato social. Sentem-se seu fiscal, acima dele. Cumprem-no, ou descumprem-no ao seu alvedrio.

    Acontece que isso é a negativa do conceito de lei.

  • Caro Rafael,

    Se mais portadores de funcionais pensassem como você, já seria um grande começo.

  • Andrei,

    Também não me agrada cumprir o ritual multiplex, notadamente: por achar caro (aqui em João Pessoa custa 14 reais, se não me engano); pelo bulício gratuito – ou pior, pago –; e por achar incrivelmente ridícula a ostentação de pipocas que custam a bagatela de 18 reais, acompanhadas de uma lata de refrigerante de sua preferência.

    Também não sei se a platéia da Fundação Joaquim Nabuco é mais educada por encenar um papel ou por achar importante; como mesmo desconheço se a excêntrica negra norte-americana encenava zelosamente ou foi alvo de uma desatenção fortuita. Como, ainda, ignoro se os espectadores tupiniquins são o que são por mal-educação encravada principiologicamente, ou por manifestações gratuitas e aleatórias da nossa extroversão.

    Como o mito da nossa expansibilidade não foi alvo de discussão, não vou cair na tentação de comentá-lo.

    Também não vou estabelecer relações de causas e efeitos, entre componentes culturais e práticas sociais, por pura impropriedade para fazê-lo.

    Por outro lado, é bastante curioso como as nossas liberdades priorizam os comportamentos positivos e não os negativos. Ou seja, o meu direito ao sossego, à tranqüilidade, sucumbe diante do excesso da livre manifestação de pensamento. Em outras palavras, eu não posso cobrar o silêncio, mas devo respeitar os elevados ruídos, estejam em uma sala de cinema ou com o cliente do bar da esquina.

    Cobrar das autoridades o controle sobre os comportamentos positivos não produz resultado prático algum, como discutimos em outra crônica. E o outro grande problema é que eu não herdei aquele 38, cuidadosamente guardado na gaveta sob a flanela, mas tenho certeza de que o cidadão com a mala do carro aberta, provavelmente, possui um e, certamente, teria menos pudor do que eu em usá-lo.

    O fato é que os julgamentos e as análises sobre as intenções interiores, sobre o laconismo estrangeiro ou sobre a (im)pureza formal de nossa extroversão coletiva não resolvem o meu problema, ou seja, o pandemônio existe.

    Enfim… mesmo sem saber as causas e os efeitos, seria adepto ao laconismo germânico, nórdico ou britânico, se esse fosse o preço para se viver melhor. Quem sabe a espontaneidade não nos impeça, muitas vezes, de perceber o óbvio.

  • Cara Agatha,

    Gostei de você se lembrar das estórias dos vôos das galinhas nos cinemas de Recife. No fim dos anos 60′s não dava para se gritar “abaixo a ditadura” dentro de um cinema em Recife; jogar uma galinha do balcão para baixo era mais ou menos a mesma coisa para nós estudantes amordaçados pelo regime, com a vantagem de ser somente botado para fora do cinema mas não sair preso…. testemunhei uma “galinhagem” no São Luis mas, honestamente, nunca participei diretamente desses delitos… às vezes as galinhas começavam a sujar o “lançador” antes de começar o vôo… ou então não deixavam o colega entrar no cinema com uma galinha viva dentro de uma suspeita caixa de sapatos e comprada recentemente no mercado da Boa Vista (a galinha). Concordo totalmente que isso era delinquencia juvenil … mas que era divertido era!

  • Recentemente estive em Curitiba, no Shopping Estação, e lá os lugares também são marcados. Durante a compra o vendedor mostra num monitor um mapa da sala com os lugares livres pra você escolher. O problema é que as pessoas ignoram. Quando eu abordei o cidadão que ocupava meu lugar, ele estranhou e disse que ninguém seguia a marcação. Como ele estava acompanhado e havia um lugar livre do lado, não insisti, apenas alertei que se alguém reclamasse o lugar onde eu estava sentando ele teria que desocupar o meu. O casal do lado comentou em voz baixa comigo que o certo era cada um sentar no seu lugar, o que é óbvio. Outras pessoas estavam sentando e eu percebi que as poucas que tentavam seguir a marcação não conseguiam. A maioria não estava nem ai, o que só mostra que eles não tem capacidade de viver numa sociedade com o mínimo de civilidade, como observar lugares numerados.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).