Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Tenho a idade dos cravos, pois somos de 1974. Ainda que não seja pouco tempo, a democracia lusitana estabelecida após os cravos ainda é mais nova que os mais de quarenta anos do regime que foi então superado. Pensando calmamente, percebo que Salazar devia ter muitos encantos e habilidades políticas, além da polícia secreta violenta, é claro.
Oliveira Salazar não teria passado tanto tempo à frente do governo português se não fosse inteligente e apoiado popularmente. Ainda que se tenha servido sistematicamente de fraudes eleitorais e inclusive de assassinatos, teve muito apoio e méritos políticos. Era relativamente discreto e austero e de certa forma foi muito hábil para evitar que uma avalanche fascista de cariz espanhola se espalhasse nesta terra.
A impossível manutenção das possessões ultramarinas inviabilizou a manutenção de seu modelo. Felizmente, para ele, morreu antes de ver o insucesso final do regime. A condução da derrocada coube a Marcello Caetano que, afinal, foi incapaz de mudar os rumos de forma significativa. Este também teve alguma felicidade, na medida em que viveu um curto e tranquilo exílio no Rio de Janeiro.
Seria muito difícil para Marcello deixar de ser ele mesmo, de ser o doutor de Coimbra que sufocara os anseios da mesma Coimbra em 1969. De mudar as coisas a ponto de desmantelar os esquemas de polícias secretas, de acabar pura e simplesmente as guerras coloniais, aceitando o fracasso militar, ele que não tinha coisa alguma de militar. Precisaria ser um traidor do que o colocara na posição que estava e não parecia disposto a tanto ou não compreendera o alcance do que precisava ser feito.
O 25 de abril foi uma revolução pacífica – excepto por alguns tiros – e conduzida pelas forças armadas. Além do apoio popular evidente, a circunstância do protagonismo das forças armadas é riquíssima em significados. Não foi, portanto, uma revolução conduzida por filhos enfastiados de uma classe dominante. Mas, por gente que tinha lutado na África por interesses nacionais. Claro que os doutores de Coimbra apropriaram-se da máquina estatal, depois.
E o que resultou de abril tem sido um sucesso, mesmo que se possam deduzir inúmeras críticas ao cotidiano funcionamento das instituições da república portuguesa até hoje. Sem dispor de um Rei e com dois anos de antecedência fez-se aqui o que em Espanha foi muito mais complicado. Fez-se aqui o que na Grécia ainda não se vê inteiramente terminado, enfim.
De minha parte, fico encantado com o senso de oportunidade que a história às vezes tem. Falo da história e não de seus personagens, propositalmente, para inserir melhor os processos nos seus limites cronológicos e geográficos. Explico-me melhor. Ora, Portugal viria a entrar na UE em 1986 e isso não teria sido possível se vivesse então sob alguma variante tardia do salazarismo. A democracia, tal como desenhada na constituição de 1976, veio em hora fundamental.
Bem, não estou aqui professando alguma forma de jansenismo histórico, apenas apontando que às vezes as coisas parecem não poder andar de forma diversa. Excepto, é claro, se se quiser andar de lado ou para trás. A entrada na UE era o bonde que não podia deixar de ser apanhado e as condições políticas felizmente existiam.
Desde 1976 sucedem-se presidentes e governos de direita e de esquerda, muitas vezes forçados a uma coabitação meio turbulenta. Mas, o jogo político é relativamente estável e desempenhado por figuras de bom nível, se comparadas às personagens do palco político brasileiro. Realmente, os quadros partidários tem alguma formação e alguma coloração ideológica. Muito embora os tempos recentes tenha misturado muito as cores do espectro e dado a impressão de movimento ao centro, os partidos não sofrem mudanças radicais de composição.
No sábado, o presidente da república, que vem sistematicamente arengando com o primeiro-ministro – são de partidos diferentes – proferiu o habitual discurso no parlamento, perfeitamente de acordo ao que se espera de sua posição institucional. Apenas e tão somente como chefe do Estado português, num discurso que pode merecer reparos e críticas mil, mas que não pode ser acusado propriamente de veiculo de política partidária.
Aqui o cronista esforça-se para não se pretender ensaísta político e não começar a cantar loas às vantagens de se ter na chefia do estado e na chefia do governo duas pessoas distintas. Mas, parecem-me deveras evidentes para não serem pelo menos lembradas. Se nós pudessemos, no Brasil, derrubar um governo sem precisar derrubar o estado? Talvez acreditássemos mais no estado e pedíssemos mais do governo.
Bem, por aqui não vi comemorações do 25 de abril. Em Lisboa sempre há, claro, e jogam-se cravos desde o céu, de helicópteros. Um sinal claro da idade do acontecimento, tivemos por um comentário engraçado ouvido no restaurante, no sábado. Uma jovem disse que vinha pelas ruas e viu muitos miúdos com cravos brancos; pensou que tinha chegado o dia das mães e ela nem se tinha dado conta. Depois de uns minutos, lembrou-se, ai meu deus, é o 25 abril!
________________________________
* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.
22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.
24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.
25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.
26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.
27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.
28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.
7 Comentários + Add Comentário
Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!
Enquetes
Qual o próximo tuitaço da campanha do Devolva?
- #DevolvaHumberto (31%, 143 Votos)
- #DevolvaJP (69%, 324 Votos)
Total de Votos: 467
Frase do dia
"Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.", Millor Fernandes.
Comunicação
Esportes
Informação com Análise
- Altino Machado
- Azenha
- Blog da Cidadania
- Blog do Alon
- Blog do Miro
- Blog do Noblat
- Blog do Protógenes
- Blog do Rovai
- Blog dos Perrusi
- Blog Pelejar
- Bodega
- Caótico
- Divane Carvalho
- Inaldo Sampaio
- Leandro Fortes
- Magno Martins
- Nassif
- O Mundo
- OmbudsPE (novo site)
- Paulo Henrique Amorim
- PE Body Count
- Revista Negócios PE
- Rodrigo Graça Aranha
- Rodrigo Vianna
- Sivuca
- Sobre Administração
- Wiki ADVFN
Informação com Humor
LINKS
- 365 Dias
- A Poção de Panoramix
- Agenda do Recife
- Amigos do Presidente Lula
- André Raboni
- Blog PE de Andada
- Cloaca News
- Edmar Lyra
- Escrivinhos
- Fábio Rodrigues
- Geek Café
- Humanitasbrasil
- Monitor dos Blogs Financeiros
- Raphael Tsavkko
- Rádio Pernambucana.com
- Robson Fernando
- Rodolfo Araújo
- Secundum
- Tiana Santos
- Tulio Vianna

Postado em: 
Andrei
Não entendo de politica sei que Portugal conseguiu sua democracia e as reformas a partir do 25 de abril de 1974 , parece um pais pacifico politicamente e sua entrada no UE foi muito oportuna .Mesmo assim depois destas mudanças parece navegar em mares calmos sem muita turbulência .Prefiro não comparar com o nosso Brasil.
Abraços Aghata
Andrei, me parece que, no Brasil, entre setes de setembro e quinzes de novembro, tinha razão Machado de Assis: não importa a nome da padaria, não há o que se comemorar – embora todos os anos as formas e os clamores persistam da capital ao vilarejo mais longínquo. Festeja-se o quê, afinal?
Ficamos com os quadros de Pedro Américo e com a premissa de que faces pintadas redemocratizaram este país.
O remate do penúltimo parágrafo foi sutil…
Aghata,
Pois é. A entrada na UE foi mais vantajosa que problemática. Não me parece que houvesse muitas alternativas.
Há problemas, é verdade. Os preços se aproximaram muito do resto da Europa e as rendas nem tanto. Mas, os investimentos foram numerosos.
A política é relativamernte estável e já se sucederam governos de esquerda e de direita sem ameaças à democracia.
Ubiratan,
Concordo contigo, até na preciosa lembrança de Machado.
A independência, podíamos comemorá-la na data de 1817 ou na de 1824, mas a história é ruim com os ses.
A república, para mim, nunca pareceu mesmo algo digno de comemoração. De toda forma, vários golpes de estado se comemoram.
Já pensaste na vontade que Pedro Américo devia ter de ser Luis David? O que pintou aquela imensa e feia coroação de Napoleão. E foi tentativa de sê-lo com oitenta anos de atraso. Bem, a periferia geralmente anda atrasada.
Os cravos inspiraram a belíssima Tanto Mar. Um Chico inevejoso de quanto se fazia além mar, em comparação com as trevas de Médici.
Andrei,
Salazar teve e ainda tem os seus encantos na cabeça de alguns portugueses.
No inicio dos anos 1970′s trabalhei com um engenheiro portugues que, anos antes, tinha sido membro da PIDE (disse-me que era burocrata e não torturador).
Já deviam ser os tempos de Marcelo Caetano ou algum outro sucessor, a PIDE estava “em baixa” mas o saudosismo dos “bons costumes” não.
Conheci depois em Lisboa, já com a democracia instalada em Portugal, pessoas do convívio pessoal de Marcelo Caetano e bastante indignadas com os socialistas no poder em Portugal.
Alguns casos longos de amor e o beneficamento com favores de ditaduras deixam saudosismo; por aqui os “filhotes da ditadura militar brasileira nos anos 1964 a 1985″ já geraram até netos… que, sem saber muito sobre a origem das suas posições, são também saudosos dos “outros tempos”, festejados em casa pelos seus pais e avós como se pudessem voltar e dar força a eles para gritar mais um “têje preso!!!
Mas, como bem disse Karl Marx, “tudo o que é sólido desmancha no ar” e essas fases passam para dar lugar a outras diferentes.
O que me parece inevitável é o necessário aumento da inclusão das massas mais pobres na distribuição de renda sob pena das “barragens estourarem” e não haver sacos de areia suficientes para segurar o saque.
Grande abraço,
Sidarta
Andrey, li 30 segundos na wikipedia sobre o assunto da crônica da vez, sou péssimo leitor e pior redator, desconheço por completo (ou quase, já que li qualquer coisa a respeito na wikipedia (bem sabemos que seja conteudo duvidoso)) o assunto da cronica, o que fez para mim que esta fosse das mais deliciosas que li desde o inicio delas! Se fosse Rodrigo, e assumindo aqui minhas semelhanças com ele, diria agora: Te amo cara! Do caralho a cronica!
E ai está! Comentario banal, mas de muita admiração! E babação! =))