Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

fev 9, 2009 by     15 Comentários    Postado em: Cultura

escrita22

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Arrisco-me com a memória, provavelmente por uma mistura de preguiça com orgulho, pois bastava procurar um pouco numa dessas buscas na internet. É orgulho de pouca memória e muita presunção de deduzir alguma coisa a partir de impressões e indícios. Bem, parece-me que Descida da ladeira saiu no disco Vivo, de Alceu Valença, que deve ser de 1976.

A música do título é contemporânea da esplêndida Papagaio do futuro. Sempre me lembro de ouví-las do mesmo disco e de achar graça nas referências à crise do petróleo e à semelhança com Nixon, por conta da quantidade de microfones, feitas no Papagaio. Devem ser mais ou menos da metade para o final dos anos 1970, portanto.

Na Descida da ladeira, Alceu diz que só acredita em chuva se molhar sua cadeira e se fizer poça na rua. Que só acredita em vento que assanha a cabeleira, quebra portas e vidraças e faz uma assobio esquisito na descida da ladeira. Ele diz isso com uma beleza de versos que não consigo reproduzir aqui, numa enumeração que põe toda a métrica a perder. Ao menos deu para explicar o título do texto.

Mas, o fato é que o vento e a chuva da Braga são de se acreditar, mesmo que as portas e vidraças ainda estejam inteiras. Chove há trinta dias, quase sem interrupções e venta um vento frio que entra pelas bocas das calças e não tem por onde sair. Quer entrar pelas golas do casaco e insiste em virar os guarda-chuvas pelo avesso. Bate à porta dos ouvidos e aumenta minha surdez.

Não é o prenúncio de um dilúvio de vagas caudalosas, mas uma chuva insistente que me deixa a pensar onde vai caber tanta água e a ter preguiça de sair de casa. Agora mesmo, vejo as duas, a chuva e o vento, batendo com força no vidro da sala, que, de tão molhado, deforma todos os pontos de luz que são os postes da rua. Isso há trinta dias, com poucas interrupções que são os dias de mais frio e sol.

Tivemos o janeiro mais chuvoso dos últimos trinta anos. E isso em uma região que já tem um regime de chuvas bem intenso e bem distribuído nos doze meses. Ora, não chega a impressionar quem veio de onde vim, pois chove mais em Recife que aqui, considerando-se o acumulado do ano. A diferença é que uma chuva de um mês, em Recife, seria a eliminação da cidade.

A natureza implica dificuldades imensas para as pessoas, principalmente onde existem as quatro estações. Às vezes é preciso esquentar os ambientes, outras esfriar, é preciso haver abrigos contra o vento e a chuva, é preciso drenar as águas, fazer pontes sobre os rios e por aí vai. O conhecimento das técnicas para conviver com tais dificuldades vem se acumulando há muitos anos e não constitui segredo algum, embora envolva dispêndios enormes de dinheiro.

É claro que não se evitam os inconvenientes, nem as tragédias resultantes dos exageros da natureza. Mas, aquilo que se repete sempre é contornável e não deve acarretar o fim do mundo, a interrupção das coisas, ou a morte de pessoas. Ou seja, com as adversidades frequentes e de intensidade normal, convive-se à custa do emprego das técnicas conhecidas, além de dinheiro, é claro.

Nós brasileiros, andamos em falta de dinheiro e de inteligência, nisso de conviver com tudo que se conhece desde que o mundo é mundo. Basta dar uma olhada em algum sítio de internet noticioso, ou recorrer à memória. Chove em São Paulo e o apocalipse se inicia, democraticamente, nos bairros ricos e nos bairros pobres. Formam-se engarrafamentos de dezenas de quilômetros, carros são levados pelas águas, casas desabam, muita gente morre.

Em Recife, duas horas de chuva param a cidade. Ainda lembro dos quinze a vinte centímetros de água nas ruas do Espinheiro, o que deve dar um trabalho danado aos orgulhosos moradores desse bairro para fingirem que nada está acontecendo. Nos morros, a coisa assume contornos de tragédia, com as barreiras a cairem, soterrando gente sem alternativas.

O estranho disso tudo é que os fenômenos climáticos acontecem desde sempre e, portanto, antes das pessoas se estabelecerem nos lugares. E, ainda por cima, repetem-se com padrões bem estabelecidos, descortinando seus mistérios pouco ocultos. Dão-nos todas as chances de nos acomodarmos a sua força e constância e não nos pedem a sucumbência como forma de expiação ou martírio.

Então, a despeito da chuva e do vento, é possível sair na rua, ir passear, ir para a faculdade, ir para uma livraria, a um café. Claro que se chega molhado, com a cabeleira assanhada, o guarda-chuvas pingando, com tudo que faz uma chuva de vento acreditável. Mas, chega-se e volta-se, a não ser que os céus queiram realmente desabar sobre nossas cabeças.

_________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

15 Comentários + Add Comentário

  • Muito bom o texto, um dos melhores da coluna. Sensível e realista.

    Quer dizer que aí não tem congestionamento nos dias de chuva?

    Ou que independente da chuva, tudo acontece normalmente?

  • Aqui sempre tem trânsito intenso entre as seis e sete meia da noite. Mas, nada que se compare a um engarrafamento que mereça o nome. De toda forma, é uma cidade pequena.

    A chuva não impede o curso das coisas, exceto se sair do comum. E o comum é chover muito.

  • Acho que Recife ainda tem um forte agravante que é a cidade ser plana. Acredito que a água demora mais pra escoar. Mas sem sobra de dúvidas está inserido o componente da omissão do poder público em realizar melhorias que reduziriam os maleficios tão óbvios!

  • O fato da cidade ser plana não é um agravante.
    Tanto é que a parte que menos sofre com as chuvas é justamente a parte plana.
    A omissão do poder público é a mesma omissão do público, esquecemos sempre os subúrbios…

  • Em dias de chuva, nenhum recifense gosta de sair de casa. Os pais não levam os filhos para a escola, quem não tem chefe deixa o trabalho para amanhã… E nos dias de sol só pensamos na praia.
    hahahahahaha

    Belíssimo texto, Andrei. Forte abraço.

  • Andrei

    Chuva contínia traz o banzo de ficar preso em casa.Ainda bem que mesmo chovendo há um mes pode-se sair de casa sem tanto transtorno .Deve ser muito interessante ver a chuva e o vento pela vidraça dando uma visão artistica com seus efeitos na luz noturna desta pequena cidade .
    Aqui em Recife depois de 2 dias de chuva a cidade fica intransitável e as pessoas não param para observar estes efeitos agradáveis .Este problema é antigo aqui e não melhorou quase nada ou melhor nada .
    Belo artigo

    Aghata

  • Andrei e caros comentaristas,

    Com inundação ou sem inundação, com frio ou sem frio a chuva seduz quem a entende e vive dela; e pode mudar até o nosso humor para melhor.

    Aprendi a gostar da chuva quando percebi o meu pai, eng. agrônomo ainda antes dos 40 anos de idade, sorrir, gripado e com febre, molhado e debaixo de um temporal danado, que ele via no agreste/sertão como a mais oportuna fonte de bastante água naquele ano para acumular nos açudes e no sub-solo e assegurar uma boa safra para os agricultores.

    Que seja muito bem-vinda a chuva e que sejam também apreciados os momentos de benesses e de ceu azul depois dela, como bem fala a letra da música “Somewhere over the rainbow” do filme “O mágico de OZ”.

    Procurem ouvir também a melodia junto à letra, é pura poesia musical.
    ……………………………………………………………….
    Dorothy
    Somewhere, over the rainbow, way up high.
    There’s a land that I heard of Once in a lullaby.
    Somewhere, over the rainbow, skies are blue.
    And the dreams that you dare to dream
    Really do come true.
    Someday I’ll wish upon a star and wake up where the clouds are far Behind me.
    Where troubles melt like lemon drops, Away above the chimney tops.
    That’s where you’ll find me.
    Somewhere, over the rainbow, bluebirds fly. Birds fly over the rainbow,
    Why then – oh, why can’t I?
    If happy little bluebirds fly beyond the rainbow,
    Why, oh, why can’t I?

  • Parece-me que as cidades brasileiras têm sido impermeabilizadas com concreto e asfalto. Pelo menos isso foi dito com relação a são paulo. Deve ocorrer o mesmo em Recife.

    A tragédia é que isso pára mesmo a vida nas cidades.

    Aqui, dificulta, mas não pára. Por exemplo, acabamos de levar um banho. Nós e todo mundo que andava na rua. Da cintura pra baixo, apenas.

    O segredo é não se molhar no tronco, que aí é pneumonia na certa.

    E, não obstante a chuva e o vento fortíssimo, as ruas não estavam alagadas!

  • Os efeitos das chuvas – daquelas de rotina – permite a qualquer um ver-se na condição de triste adivinho do futuro. De tão absurdo, ficou fácil.

    Falei que chuvas matam, em São Paulo. Escrevi ontem. vejo, hoje, uns jornais na internet e lá estão as mortes do final de semana em SP, por conta das chuvas.

  • Olá Andrei,
    Gostoso de ler esse artigo. Posso te afirmar que chuva em São Paulo me assusta. Morando na cidade, acabo de viver uma experiência que me assutou. Moro bem perto da Vila Madalena e há poucos dias atrás me senti com vontade de dar uma saída até um barzinho. Olha, para dizer a verdade, foi sorte ter desistido. Não imaginava que uma chuva de relativa pequena duração traria tanto transtorno naquele bairro. Em pouco tempo mesmo, a água já fazia estragos, arrastando carros e jogando-os uns em cima dos outros. Em Recife nunca vi nada parecido. Acho que o excesso de cimento acarreta isso no caso de São Paulo. As galerias simplesmente não dão conta de tanta água, que desce em torrentes bem fortes. Comparando com tua experiência aí em Braga, mesmo considerando o tamanho muito menor da cidade e provavelmente muito menos cobertura de cimento, pode-se afirmar que tanto no caso de São Paulo, como do Recife, o descaso com planejamento, com prevenção, fica evidenciado
    Abraço e parabéns pela sensibilidade fina demonstrada no sentir essa Cidade e compará-la com a nossa realidade.
    Luciano

  • Luciano,

    Obrigado pelas palavras gentis quanto ao artigo.

    Concordo contigo que as tragédias que acontecem, tanto em São Paulo, como em Recife, devem-se a falta de planejamento e de prevenção.

    Chove bem antes de haver pessoas e cidades. É um evento constante e previsível. Exceto pelas chuvas absurdas, convive-se com as demais, nos locais onde se pratica alguma racionalidade.

    Nós, no Brasil, bricamos com a natureza. Os resultados são desastrosos.

    Forte abraço

  • Se a maioria das pessoas que residem nas periférias das grandes e pequenas cidades brasileiras depositassem os lixos nos lugares devidos, haveria muitos menos inundações dos que as já ocorridas,
    Geralmente vemos aqui no Recife , Olinda (onde resido ) as galerias entupidas de lixo ( folhas, palhas de milho, garrafas pet etc,) e por debaixo das pontes (sofá usados, cadeiras quebradas, moveis velhos e etc.)

    As prefeitutas fazem as desobstruções e instrui a polulação, mas infelismente a maioria continua com os mesmos vícios, aí a coisa sempre se complica nos dias de chuvas com os transbordamentos das águas. e o povo sofre novamente.

  • As galerias entupidas certamente tem uma participação no problema, mas há vários fatores.

    A superfície das cidades é muito grande e impermeável. Daí a água tende a levar tudo de enchurada. Para escoá-la seriam necessárias galerias maiores que redes de metro, embaixo da cidade.

  • Andrei,
    O problema não é a natureza, mas a percepção que temos dela e a utilidade que atribuimos aos fenômenos específicos. Você escreve muito bem.

  • A cada verão, a cada inverno ou a cada vicissitude climática, os céus insistem em nos banhar severamente e – por vezes – muitos matar. Chegam-nos as notícias com um perverso, e oportunista, toque de melodrama mexicano.

    A apelação jornalística apenas serve, ao que parece, para vender exemplares aos mais sensíveis ou como instrumento de politicagem vulgar; afinal, novidade alguma existe em asseverar que seres humanos morrem a cada vertigem dos índices pluviométricos no Brasil, há muito tempo.

    Sempre escuto que a culpa dos infortúnios climáticos é de deus – inobstante seja ele brasileiro – em co-autoria, lógico, com a ignorância popular em insistir na obstrução das galerias.

    Nessa hora, não esqueço uma lição que meu saudoso avô me ensinou. Dizia ele que Deus é tão perfeito, que fez o mundo para todos os gostos… desertos e geleiras, exuberantes florestas latifoliadas e bravos cactos da caatinga. Rezar é uma tentativa pretensiosa do homem de querer modificar o cenário que Ele cuidadosamente nos deixou.

    Imagino que – ao contrário de transcender a imputação ou condenar os ignorantes que afogados morrem – melhor seria apontar o dedo um pouco mais abaixo.

    Falando em música, permitam-me transcrever os versos da “Súplica Cearense“ de Luiz Gonzaga.

    “Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
    Que de joelhos rezou um bocado
    Pedindo pra chuva cair sem parar

    Oh! Deus, será que o senhor se zangou
    E só por isso o sol se arretirou
    Fazendo cair toda chuva que há

    Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
    Pedir pra chover, mas chover de mansinho
    Pra ver se nascia uma planta no chão

    Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
    Eu acho que a culpa foi
    Desse pobre que nem sabe fazer oração

    Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
    E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
    Pro sol inclemente se arretirar

    Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
    Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
    Que sempre queimou o meu Ceará”

    Enfim, com ou sem chuva, a culpa é sempre nossa…

    Parabéns pelo artigo.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).