Impressões luso brasileiras. Dois dias em Coimbra.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Há vantagens em receber visitas de amigos, para além da obviedade da possibilidade de revê-los. Uma delas são as viagens que se programam para animar e ocupar a estada do visitante. Então, posso dizer que nosso estimado Daniel levou-nos a Coimbra, na medida em que esta cidade antiga, à margem do Mondego, constitui ponto de interesse turísitico.
Estive nesta acidentada urbe há cinco anos passados, mas por poucas horas apenas e cumprindo o ritual de visitar a universidade e nada mais. Realmente, se houver tempo curto, disponível para uma só visita, a famosa universidade é uma boa escolha. Todavia, dispondo o viajante de mais alguns momentos, haverá muita coisa bonita a ver-se, para além da cidade alta.
Saímos de Braga pela manhã, cedinho, quase de madrugada, depois de caminhar calmamente os quarenta e cinco minutos que nos separam da estação dos comboios. Uma hora e quinze minutos até o Porto, parando em todas as estações do caminho. Então, comboio para Coimbra, rápido e confortável, parando somente quatro vezes. Chegamos à Briosa antes do meio-dia, de um dia auspiciosamente nublado, meio húmido, nem frio, nem quente.
Perdidos à saída da estação, pusemo-nos a caminhar na direção que veio primeiro à imaginação. Claro que os resultados das primeiras imaginações têm tudo para indicarem os sentidos errados. De fato, íamos para o lado contrário ao centro da cidade, até que abordamos um senhor que passava. Se fosse apenas gentil, não seria tão atencioso. Sorridente, indicou o caminhou e repondeu-me que se tratava de uma caminhada agradável, de meia hora.
Duas ocorrências punham Coimbra em agitação – na verdade, três – a queima das fitas, a passagens de peregrimos rumo a Fátima e a presença massiva de turistas, notadamente franceses. O fim do semestre acadêmico é marcada pela simbólica queima das fitas, que, uma de cada cor, identificam os cursos universitários. É uma festa enorme, a semana inteira de concertos de bandas e monumentais bebedeiras estudantis. Os três grupos de interesse ocupam a cidade muito democraticamente, até porque ocupam horários meio diferentes.
O primeiro impulso, depois de deixar as mochilas no hotel, é procurar onde comer, vencer a preguiça do início da digestão e rumar sempre para a parte alta. A escalada vai oferecendo ao alpinista urbano o espetáculo dos prédios bonitos sucedendo-se, escondidos entre ruelas charmosas e íngremes. Séculos de pedras cuidadosamente empilhadas, que sempre me deixam a pensar no enorme trabalho de construção desses burgos sentados na parte mais alta de um vale. Os reis e os padres sabiam bem da necessidade de se porem longe das margens do rio.
Não creio que o cronista seja ajudante dos fazedores de guias turísiticos, mas não é razoável deixar de registar que vale a pena parar ao pé da estátua de D. João III, olhar o Mondego lá em baixo e lembrar o quanto essas vistas devem ter ajudado os acadêmicos a clarearem as idéias, no intervalo de estudos e disputas sofísticas. E, já que de D. João, o terceiro, falei – ao menos de sua estátua – lembro que a biblioteca com seu nome é uma verdadeira jóia de beleza interior. Uma preciosidade de arte decorativa de interiores, um prédio vulgar por fora e belíssimo por dentro.
Um maratonista também se teria cansado das andanças que fizemos, subindo e descendo ladeiras e escadarias, umas mais monumentais que outras. Haja disposição para fazer-se essa visita como ela deve ser feita, ou seja, a pé e lentamente. Esse ritmo torna todos os intervalos para um breve descanso preciosos, assim como valiosos todos os copos de vinho verde fresco e o mais comum dos sanduíches de carne assada. A essência de uma peregrinação deve estar aí, o cansaço valorizando tudo e lembrando que geralmente o caminho vale mais que o destino.
Caminhando na margem do Mondego, surpreendi-me um pouco com um restaurante auto-intitulado Indo-Paquistanês. Não que haja poucos locais de culinária indiana, mas esta fusão de coisas tão próximas deixou-me curioso. Não me ocorria que, em termos estritamente culinários, a diferença entre indiana e paquistanesa fosse marcante a ponto de ser destacada. Claro que fomos almoçar lá no dia seguinte.
Entramos no salão vemelho e vazio e ouvimos os bons dias de um senhor alto, moreno, cabelos muito pretos e muito lisos, nariz bem fino. Lembrava meu pai, excepto pela altura. Enfim, sentamos, escolhemos e comemos bem. E compreendi a razão da duplicidade de nacionalidade do restaurante, pelo cardápio.
As culinárias são realmente as mesmas e no fundo a matriz é indiana. Mas, os donos evidentemente eram paquistaneses, pois indianos não ofereceriam carne de vaca e paquistaneses islamitas não oferecem carne de porco. A primeira estava lá e a segunda não, o que é sumamente estranho tratando-se de um restaurante indiano em terras lusas.
Terminamos sendo convidados para a inauguração de outra casa dos mesmos donos, no Porto. E felizmente o islamismo dos senhores paquistaneses não chegou a ponto de proscrever o vinho, que realmente vai bem com a comida indiana, embora tenham proscrito o saboroso porco. Mas, o Profeta deve ter-se dado por satisfeito com essa relativização, que aproxima as pessoas e atrai os clientes.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.
22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.
24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.
25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.
26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.
27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.
28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.
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Postado em: 
Andrei
Estas suas perigrinações nas terras luzitanas são de dar inveja a qualquer um.Com este seu espirito observador ,nada se perde nestas suas andanças como um verdadeiro peregrino >Espero que tenhas muitos amigos a te visitar,assim teremos belas e detalhadas crônicas .Um grande abraço
Aghata
É interessante notar com essas crônicas a evolução de seu estilo de escrita.
Complementando, nota-se também a mudança na sua percepção dos acontecimentos, agora eles têm algo de poético.
Concordo com voce ddolgo.
Aghata
Andrei, as comparações com o nosso país persistem insistentemente a cada visita, a cada novidade, ou, ao longo dos dias, esquece-se as comparações, restando apenas a beleza aos olhos do observador?
Ubiratan,
As comparações persistem porque não consigo abandoná-las. São uma forma de ver as coisas entranhada na minha percepção.
Mas, há um relaxamento depois de certo tempo, o que certamente ajuda a ver mais apuradamente as belezas.
Andrei,
Nunca visitei Portugal, mas já conheço um bocado dessa terra das nossas origens, pelos relatos que tenho tido o prazer de ler a cada semana. Obrigado, especialmente por sua percepção atilada, bem transmitida nesses artigos, sobre tantos aspectos da vida portuguesa. Confesso que tem espicaçado a minha curiosidade e vontade de conhecer essas paragens, agora, com uma bagagem que certamente vai me permitir uma muito melhor percepção das terras lusitanas.
Abraço
Luciano
Andrei,
Realmente de uma fineza muito bela esta crônica. Gostei muito de quando escrevestes:
“A essência de uma peregrinação deve estar aí, o cansaço valorizando tudo e lembrando que geralmente o caminho vale mais que o destino.”
Trata-se, penso, de uma bela epígrafe. Fez-me lembrar de uma daquelas máximas de Borges (que não me canso de repetir), dos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo:
“Busca pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar…”
Abraço!
Eu gostei mais da parte que fala do vinho! rsssss
Brincadeiras a parte, foi uma pena nossa ida a Braga ter dado errado. Tão logo termine nosso período de docência gostaríamos muito de visitar os amigos e a gata das orelhas enormes!
Luciano,
Venha a Portugal e traga na bagagem a curiosidade, um pouco de paciência e vontade de provar muitas comidas diferentes. Assim, uma viagem provavelmente se revelará agradável.
André,
Agradeço-lhe as palavras. Pois é isso a mesmo, a busca é prazerosa, ainda que nada se encontre.
Eu, pessoalmente, não acredito muito em originalidades e divirto-me a investigar quem eu reproduzi, geralmente sem saber.
Outro dia desses, pus-me a pensar no que havia dito ao colega que me presentou com um livro de Vergílio Ferreira. Disse-lhe que parecia poesia em prosa. Nesse caso, não sabia mesmo que Baudelaire fez o que chamou de poesia em prosa.
Quanto ao caminho, após ler o que disseste, lembrei-me que Cervantes também, a par com Borges, disse algo nesse sentido. Nesse caso, não lembrava conscientemente, mas sabia.
Thiago,
Foi uma pena mesmo. O fato é que andamos viajando muito, segundo um acerto com o Daniel, o nosso amigo que está aqui. Chegamos hoje de Madrid, como já tinha dito. Foi a viagem mais cansativa que já fiz na vida. Valeu a pena porque Madrid vale a pena, sempre.
Abraços
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