Impressões luso brasileiras. Dois dias em Coimbra.

mai 11, 2009 by     13 Comentários    Postado em: Cultura

escrita22

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Há vantagens em receber visitas de amigos, para além da obviedade da possibilidade de revê-los. Uma delas são as viagens que se programam para animar e ocupar a estada do visitante. Então, posso dizer que nosso estimado Daniel levou-nos a Coimbra, na medida em que esta cidade antiga, à margem do Mondego, constitui ponto de interesse turísitico.

Estive nesta acidentada urbe há cinco anos passados, mas por poucas horas apenas e cumprindo o ritual de visitar a universidade e nada mais. Realmente, se houver tempo curto, disponível para uma só visita, a famosa universidade é uma boa escolha. Todavia, dispondo o viajante de mais alguns momentos, haverá muita coisa bonita a ver-se, para além da cidade alta.

Saímos de Braga pela manhã, cedinho, quase de madrugada, depois de caminhar calmamente os quarenta e cinco minutos que nos separam da estação dos comboios. Uma hora e quinze minutos até o Porto, parando em todas as estações do caminho. Então, comboio para Coimbra, rápido e confortável, parando somente quatro vezes. Chegamos à Briosa antes do meio-dia, de um dia auspiciosamente nublado, meio húmido, nem frio, nem quente.

Perdidos à saída da estação, pusemo-nos a caminhar na direção que veio primeiro à imaginação. Claro que os resultados das primeiras imaginações têm tudo para indicarem os sentidos errados. De fato, íamos para o lado contrário ao centro da cidade, até que abordamos um senhor que passava. Se fosse apenas gentil, não seria tão atencioso. Sorridente, indicou o caminhou e repondeu-me que se tratava de uma caminhada agradável, de meia hora.

Duas ocorrências punham Coimbra em agitação – na verdade, três – a queima das fitas, a passagens de peregrimos rumo a Fátima e a presença massiva de turistas, notadamente franceses. O fim do semestre acadêmico é marcada pela simbólica queima das fitas, que, uma de cada cor, identificam os cursos universitários. É uma festa enorme, a semana inteira de concertos de bandas e monumentais bebedeiras estudantis. Os três grupos de interesse ocupam a cidade muito democraticamente, até porque ocupam horários meio diferentes.

O primeiro impulso, depois de deixar as mochilas no hotel, é procurar onde comer, vencer a preguiça do início da digestão e rumar sempre para a parte alta. A escalada vai oferecendo ao alpinista urbano o espetáculo dos prédios bonitos sucedendo-se, escondidos entre ruelas charmosas e íngremes. Séculos de pedras cuidadosamente empilhadas, que sempre me deixam a pensar no enorme trabalho de construção desses burgos sentados na parte mais alta de um vale. Os reis e os padres sabiam bem da necessidade de se porem longe das margens do rio.

Não creio que o cronista seja ajudante dos fazedores de guias turísiticos, mas não é razoável deixar de registar que vale a pena parar ao pé da estátua de D. João III, olhar o Mondego lá em baixo e lembrar o quanto essas vistas devem ter ajudado os acadêmicos a clarearem as idéias, no intervalo de estudos e disputas sofísticas. E, já que de D. João, o terceiro, falei – ao menos de sua estátua – lembro que a biblioteca com seu nome é uma verdadeira jóia de beleza interior. Uma preciosidade de arte decorativa de interiores, um prédio vulgar por fora e belíssimo por dentro.

Um maratonista também se teria cansado das andanças que fizemos, subindo e descendo ladeiras e escadarias, umas mais monumentais que outras. Haja disposição para fazer-se essa visita como ela deve ser feita, ou seja, a pé e lentamente. Esse ritmo torna todos os intervalos para um breve descanso preciosos, assim como valiosos todos os copos de vinho verde fresco e o mais comum dos sanduíches de carne assada. A essência de uma peregrinação deve estar aí, o cansaço valorizando tudo e lembrando que geralmente o caminho vale mais que o destino.

Caminhando na margem do Mondego, surpreendi-me um pouco com um restaurante auto-intitulado Indo-Paquistanês. Não que haja poucos locais de culinária indiana, mas esta fusão de coisas tão próximas deixou-me curioso. Não me ocorria que, em termos estritamente culinários, a diferença entre indiana e paquistanesa fosse marcante a ponto de ser destacada. Claro que fomos almoçar lá no dia seguinte.

Entramos no salão vemelho e vazio e ouvimos os bons dias de um senhor alto, moreno, cabelos muito pretos e muito lisos, nariz bem fino. Lembrava meu pai, excepto pela altura. Enfim, sentamos, escolhemos e comemos bem. E compreendi a razão da duplicidade de nacionalidade do restaurante, pelo cardápio.

As culinárias são realmente as mesmas e no fundo a matriz é indiana. Mas, os donos evidentemente eram paquistaneses, pois indianos não ofereceriam carne de vaca e paquistaneses islamitas não oferecem carne de porco. A primeira estava lá e a segunda não, o que é sumamente estranho tratando-se de um restaurante indiano em terras lusas.

Terminamos sendo convidados para a inauguração de outra casa dos mesmos donos, no Porto. E felizmente o islamismo dos senhores paquistaneses não chegou a ponto de proscrever o vinho, que realmente vai bem com a comida indiana, embora tenham proscrito o saboroso porco. Mas, o Profeta deve ter-se dado por satisfeito com essa relativização, que aproxima as pessoas e atrai os clientes.

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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.

26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.

27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.

28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.

29 – Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.

30 – Impressões luso brasileiras. O sol de Lisboa.

13 Comentários + Add Comentário

  • Andrei
    Estas suas perigrinações nas terras luzitanas são de dar inveja a qualquer um.Com este seu espirito observador ,nada se perde nestas suas andanças como um verdadeiro peregrino >Espero que tenhas muitos amigos a te visitar,assim teremos belas e detalhadas crônicas .Um grande abraço
    Aghata

  • É interessante notar com essas crônicas a evolução de seu estilo de escrita.

  • Complementando, nota-se também a mudança na sua percepção dos acontecimentos, agora eles têm algo de poético.

  • Concordo com voce ddolgo.
    Aghata

  • Andrei, as comparações com o nosso país persistem insistentemente a cada visita, a cada novidade, ou, ao longo dos dias, esquece-se as comparações, restando apenas a beleza aos olhos do observador?

  • Ubiratan,

    As comparações persistem porque não consigo abandoná-las. São uma forma de ver as coisas entranhada na minha percepção.

    Mas, há um relaxamento depois de certo tempo, o que certamente ajuda a ver mais apuradamente as belezas.

  • Andrei,
    Nunca visitei Portugal, mas já conheço um bocado dessa terra das nossas origens, pelos relatos que tenho tido o prazer de ler a cada semana. Obrigado, especialmente por sua percepção atilada, bem transmitida nesses artigos, sobre tantos aspectos da vida portuguesa. Confesso que tem espicaçado a minha curiosidade e vontade de conhecer essas paragens, agora, com uma bagagem que certamente vai me permitir uma muito melhor percepção das terras lusitanas.
    Abraço
    Luciano

  • Andrei,

    Realmente de uma fineza muito bela esta crônica. Gostei muito de quando escrevestes:

    “A essência de uma peregrinação deve estar aí, o cansaço valorizando tudo e lembrando que geralmente o caminho vale mais que o destino.”

    Trata-se, penso, de uma bela epígrafe. Fez-me lembrar de uma daquelas máximas de Borges (que não me canso de repetir), dos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo:

    “Busca pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar…”

    Abraço!

  • Eu gostei mais da parte que fala do vinho! rsssss

    Brincadeiras a parte, foi uma pena nossa ida a Braga ter dado errado. Tão logo termine nosso período de docência gostaríamos muito de visitar os amigos e a gata das orelhas enormes!
    :D

  • Luciano,

    Venha a Portugal e traga na bagagem a curiosidade, um pouco de paciência e vontade de provar muitas comidas diferentes. Assim, uma viagem provavelmente se revelará agradável.

  • André,

    Agradeço-lhe as palavras. Pois é isso a mesmo, a busca é prazerosa, ainda que nada se encontre.

    Eu, pessoalmente, não acredito muito em originalidades e divirto-me a investigar quem eu reproduzi, geralmente sem saber.

    Outro dia desses, pus-me a pensar no que havia dito ao colega que me presentou com um livro de Vergílio Ferreira. Disse-lhe que parecia poesia em prosa. Nesse caso, não sabia mesmo que Baudelaire fez o que chamou de poesia em prosa.

    Quanto ao caminho, após ler o que disseste, lembrei-me que Cervantes também, a par com Borges, disse algo nesse sentido. Nesse caso, não lembrava conscientemente, mas sabia.

  • Thiago,

    Foi uma pena mesmo. O fato é que andamos viajando muito, segundo um acerto com o Daniel, o nosso amigo que está aqui. Chegamos hoje de Madrid, como já tinha dito. Foi a viagem mais cansativa que já fiz na vida. Valeu a pena porque Madrid vale a pena, sempre.

    Abraços

  • [...] III, olhar o Mondego lá em baixo e lembrar o quanto essas vistas devem … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).