Impressões luso brasileiras. Dormindo no aeroporto.

mai 18, 2009 by     12 Comentários    Postado em: Cultura

escrita22

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Na Europa, companhia aérea de baixo custo não é apenas um nome. Elas vendem passagens realmente baratas, bastando para tanto que o viajante disponha-se a pesquisar com alguma paciência, pois nem todos os dias e horas são promocionais. E muitos destinos são alcançados a partir de aeroportos meio distantes do centro e que não são exatamente os mais conhecidos.

A presença do nosso amigo Daniel levou-nos a planejar uma viagem para além das fronteiras portuguesas, aproveitando as passagens promocionais, pois muitas companhias voam a partir do Porto. Primeiramente, surge a dificuldade de compatibilizar as idas e voltas, pois nem todos os trechos estão pelos menores preços. Mas, depois de alguns dias de buscas nos sítios de internet e de muita cogitação, encontramos ida e volta a Madri por preços baixos e compramos as passagens.

Acontece que a satisfação de encontrar bons preços para uma estada de dois dias e meio perturbou nossa percepção para dois aspectos um tanto conflituosos. Logo de início, constatamos que seria desperdício contratar duas noites de hospedagem em Madri, porque o retorno seria às cinco da madrugada. Heróica e estoicamente, dispusemo-nos a ficar acordados até a hora do vôo e, portanto, economizar uma noite.

Já se anunciava então uma expedição madrilenha meio cansativa, mas nada que levasse ao esgotamento. Estudante deve estar disposto a isso, a bem de poupar euros preciosos, mais bem empregados em alimentação, por exemplo. Dois dias antes da partida, sucede que paramos para uma breve conversa sobre o que ver em Madri e Daniel olha cuidadosamente o papel da reserva dos vôos.

Depois desta olhada mais atenta, pergunta se há trens de Braga para o Porto antes das quatro da manhã. Não, respondo, mas por que? Bem, ele diz, porque o avião sai às seis e meia do Porto. Comecei a entender o tamanho do problema, ainda que o tenha feito com certa resistência, assustado com nossa falta de atenção. Era isso mesmo, não havia como chegar ao Porto de trem antes da hora de embarcar.

A solução era partir no último comboio do dia anterior, pegar então o último metro da estação ao aeroporto e dormir cinco agradáveis horas no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Minha vontade mais sincera é recorrer ao lugar-comum de dizer que não tenho mais idade para isso, mas no fundo seria falso. Não se trata de idade, na verdade. Trata-se de ritmo, de comodismo, de falta de hábito ou qualquer outra coisa, além de idade é claro.

Dormir de verdade, não se dorme. Dois ou três cochilos daqueles na medida exata para dar um jeito no pescoço são plenamente possíveis, a mochila servindo de razoável travesseiro e o cansaço de indutor do sono. Chegamos em Madri ansiosos por um banho e um cochilo de verdade, algo meio remoto, contudo, levando-se em conta que o hostal só estava disponível a partir das duas da tarde.

Andar foi a solução e só foi porque andar numa cidade bonita, limpa e bem planeada é recompensante. E caminhamos e almoçamos e finalmente entramos na hospedagem ansiosos por um banho e pelo famoso cochilo. Mas, Madri estava lá fora e a gente tinha todo o tempo do mundo para dormir depois, portanto o banho já bastava.

Acho que dormi um dos sonos mais pesados de quantos me lembro, ainda meio cedo para padrões castelhanos, mas muito tarde para quem não tem o hábito de passar quarenta e oito horas acordado e andar quase vinte quilômetros em um só dia. Acordar ao meio dia e partir para procurar almoçar onde isso começa a se fazer às duas foi o mínimo necessário para enfrentar a segunda etapa desse empreendimento turístico de baixo custo.

Na volta, o problema se repetiria com um agravante e uma atenuante. O pior é que o aeroporto de Madri não é um lugar muito adequado aos cochilos fugazes. O menos ruim é que o vôo era mais cedo e a noite sem dormir passou mais rápido. Algo que minha compreensão ainda não alcançou é a razão dos aeroportos europeus ficarem fechados durante a madrugada, tornando-se em um amontoado de seres cansados dormindo sobre malas que não foram projetadas como almofadas e lençois.

Chegados a Braga e conversando sobre as belezas de Madri, durante um almoço com colegas de curso, tive ocasião de ouvir a chave para o que buscava e não encontrava. A capital disso que se chama Espanha tem uma beleza estranha, uma beleza só forma, sem charme, uma elegância de vitrine. Muito calmamente, um colega português disse-me que preferia Barcelona à exposição de signos imperiais que é Madri.

Era exatamente disso que se tratava, da exposição de uma grandeza imperial, algo que se sente no hemisfério esquerdo do cerébro, em conexão direta, logo que se entra no pátio do Palácio Real. Uma grandeza que deve fazer com que seja impessoal ser-se madrilheno, embora seja personalíssimo ser-se castelhano. E uma elegância tão estranha que nem mesmo um violonista de rua fantástico tocando Adios Nonino ao lado do Museo do Prado consegue tornar em charme urbano.

______________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.

26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.

27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.

28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.

29 – Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.

30 – Impressões luso brasileiras. O sol de Lisboa.

31 – Impressões luso brasileiras. Dois dias em Coimbra.

12 Comentários + Add Comentário

  • Andrei
    Estou aqui a pensar,quão rica e prazeirosa são estas suas andanças .Se você viaja com o espirito observador ,percebe o que a maioria não consegue.Aquilatar a beleza de um lugar não é fácil e voce o faz com muita sensibilidade .Espero que voce continue conseguindo passagens a baixo custo para nos favorecer com suas belas crônicas e quando eu for visitar tais lugares já vou sabendo o que vou encontrar. Um grande abraço
    Aghata

  • Aghata,

    Penso que as passagens de baixo custo continuarão a existir, até por conta da crise. Não sei se o mesmo acontece com o tempo e os euros.

    Do Porto, há vôos baratos para a Holanda, Bélgica, Irlanda, Inglaterra, França, Espanha, Alemanha. Mais caros um pouco para as Ilhas e para a África.

    Por enquanto, penso em visitar Cabo Verde e o Marrocos. Se der certo, certamente dará crônica.

  • Andrei,

    A idade tem me ensinado que noites mal dormidas, longas esperas em aeroportos e longas viagens de avião “no puleiro” apertado das classes econômicas dos vôos baratos só nos trazem raiva e perda de precioso tempo de fazer um bom turismo.

    Também estou aprendendo a fazer trechos longos e únicos de viagens, resgatar as minhas malas sem muita ansiedade, parar por um dia para descansar e continuar a viagem no dia seguinte. Conexões de voos com tempos curtos nem pensar.

    De tanto ouvir estorias de voos da TAP para Paris, Roma, Londres com conexão imediata em Lisboa, em que as malas foram parar em Zanzibar ou em Katmandu, mudei meus procedimentos de viagem e o objetivo agora não é economizar centavos mas minimizar o estresse.

    Também estou começando a apreciar as excursões personalizadas e organizadas para idosos, com muitos dias em poucas cidades grandes da Europa, hoteis 4 ou 5 estrelas e programação aérea ou terrestre um pouco mais cara e seletiva, sem ter que carregar malas nem me preocupar em procurar hoteis (a palavra hostal me dá arrepio…) ou em como ir para o aeroporto.

    Passei uns dias na Europa em um programa desses de uma companhia inglesa, só para 10 pessoas de diferentes lugares do mundo, com excelente trato, conforto e orientação. E sobrava muito tempo para explorar calmamente as atrações das cidades por conta própria

    É verdade que gastei um pouco mais do que gastaria de trem e ficando nos 2 estrelas com quartos de 2m x 3m, no terceiro andar sem elevador, dormindo em uma cama com um buraco no meio, com vento frio entrando pela janela que não fecha toda, ainda por cima no inverno quando os preços ficam “mais atraentes”.

    Dona Sidarta fez também uma programação de turismo VIP na India para somente 3 pessoas, organizada pela ABREU de Lisboa, com um guia portugues e um auxiliar indiano e, segundo ela, saiu tudo impecável.

    Admito que, parte do meu trauma com essas viagens promocionais se deve a que anos atrás cometi um engano ao me juntar a um grupo de parentes e funcionários “militantes” do Banco do Brasil que tinha conseguido um bom desconto em uma excursao baratinha pela Europa e aproveitaram para convidar alguns “bons clientes” do banco a se juntar à expedição….

    Imagine agora tudo isso controlado por um guia espanhol neurótico e saudoso do franquismo, exercitando a sua fúria para controlar “30 colegas bem identificados” e “6 penetras idosos e fora de sintonia com os interesses etílicos do restante do grupo” durante quase um mês.

    Enfrentamos hotéis vagabundos, refeições corridas e padronizadas e o “delírio suburbano brasileiro” dos companheiros proletários de visitar 20 cidades da Europa em 26 dias para dizer na volta que tinham visto a Torre Eyffel mas tinham dúvidas se ela ficava em Pisa ou na Eurodisney.

    Boa sorte com as suas andanças e com a segurança da sua carteira nessas expedições promocionais.

    Grande abraço,

    Sidarta

  • Sidarta,

    Realmente, corre-se o perigo de fazer turismo de carimbar passaporte e de colecionar destinos.

    Não é isso que tenho feito, apenas tentado fazer os euros renderem mais. Às vezes, esse rendimento acarreta um cansaço muito grande, que não vale a pena.

    Outras vezes, as coisas saem muito bem e relativamente baratas. As refeições padronizadas, por exemplo, podem ser boas se se tratarem de pratos do dia típicos do local.

    A segurança só se põe em risco se se andar muito tarde. E tarde por aqui é bastante tarde para meus hábitos. Ainda bem que os aeroportos são os lugares mais seguros que existem. O de Madri, por exemplo, seria a pior escolha de um carteirista. O do Porto tem a vantagem de além de seguro ser organizadíssimo e limpíssimo. É pena as cadeiras serem duras.

  • Sidarta
    Acho que Andrei deve ter mais ou menos metade da sua idade,assim sendo esta sua experiencia ,impaciência e bolso recheado parece não fazer parte da vida dele .Espero que quando o mesmo atingir esta idade não perca o animo para realizar suas andanças economicas mas ricas em vivências.
    Aghata

  • Agatha,

    Muito perspicaz o seu comentário e deixou-me atrapalhado sobre o que responder… mas o mundo e as suas culturas ainda são grandes e não dá para abraçá-los sem alguma seletividade.

    Também, como aposentado do INSS, não estou de bolsos recheados; as minhas prioridades de “o que ver” e de que forma gastar para isso é que são diferentes… e estão sempre mudando.

    O “muito exótico” e o fora da rota do turista convencional eu vejo pelo History Channel, ah,ah,ah, o Marrocos, por exemplo.

    Vejo promoções em turismo (passagens aéreas e pacotes) como algo que não é muito fácil de vender, geralmente de não muito boa qualidade, com baixa margem de lucro para o vendedor e que objetiva seduzir o turista mais suburbano e acostumado a fazer viagens em grandes grupos, dormindo e comendo em qualquer lugar e tentando viver com brasileiro até na China.

    Tenho repetido em algumas viagens pela Europa o Louvre e o Museu do Vaticano; parei, também, uns bons minutos olhando os prédios e o ambiente e procurando visualizar como seriam os desfiles dos nazistas nos Champs Elysées e em Amsterdam, que já tinha visto isso em filmes e fotos da guerra.

    Paguei caro também para ver o show do Crazy Horse em Paris, uma homenagem a um desejo não realizado do meu pai e um grande fetiche masculino, absolutamente sem nenhum “baixo nível”.

    Por outro lado, Escandinávia, Alemanha, Dubay, China, India, Japão não me seduzem tanto… nos planos estão Grécia, Egito e… Las Vegas (quero conhecer a Hoover Dam, uma das maiores obras de engenharia hidroelétrica do mundo).

    Gosto de história e de tentar sentir como seriam os momentos no Coliseu de Roma e o ambiente dos anos 50/60 na real “Dolce Vita” italiana do pós-guerra, filmada na Via Veneto com Sofia Loren e Marcelo Mastroiani, em Roma.

    Vá conhecer essa pequena rua (tem uma estação do metro bem perto), vista uma roupa que não seja “farda de turista” (um vestido meio “retrô” e sapatos altos são um “must”), entre emocionalmente no clima, sente-se em um café e tome um ou dois Martini’s, observe as pessoas que passam e sinta-se “La Loren” ao entardecer. Sem dúvidas você será notada pelo bom gosto e até confundida com alguma celebridade.

    Para não estragar o álibi, vá com mais alguma pessoa conhecida, também vestida a caráter, que faça fotos suas em estilo e a distância, para que não fique dúvidas de que você está no seu “habitat” e não é simplesmente uma “wanna be”.

    Pode ser que esse tipo de experiência não seja a que Andrei procura ter nas suas viagens pelo mundo; afinal, com duas vezes a idade dele os fatos que marcaram os meus tempos são quase que necessariamente outros.

    Carpe diem!

    Um abraço,

    Sidarta

  • Andrei e Sidarta,

    Humildemente, relato que já vivi em viagens um pouco dos dois tipos de turismo a que vocês se referem.

    Em gratificantes passeios pela Europa, proporcionados pela minha genitora, desfrutei e, principalmente, sofri com excursões que, tendo como lema algo do tipo “conheça 30 lindíssimos países europeus em 15 dias!”, se propunham a percorrer centenas de quilômetros em alguns dias e apreciar paisagens inesquecíveis. Sem dúvida, cada segundo em solo europeu vale sempre a pena, mas o Velho Mundo torna-se imensamente mais agradável se pudermos desfrutar calmamente a Torre Eiffel, tomando uma xícara de chocolate quente servida num dos charmosos restaurantes situados na Champs Elyssés, ao invés de arrastamos malas e mais malas ruas afora. (já que maleteiro é artigo de luxo em certas localidades!)

    Numa outra oportunidade, fizemos uma viagem bem menos estressante para o Chile e a Argentina, desta vez mais bem elaborada e com mais tempo para usufruir das belezas das regiões. Desta vez, não fomos acometidas de sonolências intermináveis nem de persistentes dores de coluna. Com certeza, uma experiência a ser repetida!

    No entanto, como tudo na vida vale como aprendizado, acredito piamente que qualquer viagem que se faça, seja ela pra onde for, deve ser bem planejada e desprovida de qualquer stress, visando apenas o divertimento, o prazer e o enriquecimento cultural dos viajantes…

  • Senhor Budista,

    Permito-me supor que moras em Recife, capital do antigamente próspero estado de Pernambuco. Creio que concordará comigo em algumas coisas.

    Um local onde se assassinam sessenta pessoas por cem mil, onde trinta por cento da população tem saneamento e em que todos os garçons são monoglotas é um local exótico.

    Daí que para o Marrocos merecer tal adjetivação, deveria sê-lo mais que Recife. Sucede que mais exótico que Recife, eu, de minha parte, nunca conheci.

    Em Marraqueche, por exemplo, sempre terás a opção de escolher o que desejas comer em árabe, francês e inglês. As duas primeiras, todos falam realmente, a terceira todos que vendem algo a turistas.

    Seria curiosa a tentativa de falar-se inglês em algum restaurante recifense, ainda que isso se desse nos mais caros. Se tentar francês, provavelmente será objeto de suspeitas de paneleirismo. Isso é muito exótico, onde esiste até uma secretaria de turismo.

    Mas, é bem verdade que os bell boys de hotéis caros do Recife tem-se esmerado em falar paulistês, que nãodeixa de ser quase outra lingua.

  • Ana Angélica,

    Tens toda razão quanto a minimizar os estresses, pois eles acabam por escurecer a visão. Chega uma hora que as dores no pescoço e a sonolência competem com vantagens com as belezas da paisagem.

    As viagens de trinta países em quinze dias parecem-me coisa de quem não quer voltar e pretende poder dizer que já foi, como uma obrigação cumprida.

    Eu gosto de ir muitas vezes ao mesmo lugar, desde que tenha gostado dele. Assim como fico com o firme propósito de nunca mais ir onde não gostei.

    Realmente, quase todas as viagens valem a pena, até porque o caminho muitas vezes interessa mais que o destino. Eu gosto até da viagem de avião, de carro e de trem em si mesmas.

  • Meus caros,

    Como integrante da expedição contada na crônica, não posso deixar de lembrar que o mote da história foi resultado de mero e “pequeno equívoco” (hehehehe) e, por bem ou por mal, contribuíu para a formação do leque de vivências de viajantes apaixonados que somos, ainda que tenha servido de lição para não repetirmos a façanha. Madrid vale, inclusive, outra visita.

    Contudo, viaja-se, em regra, com o que se tem. E é bom que seja assim!!!

    Visitar o velho mundo com 50 euros por dia, ou fazê-lo com 200, não são determinantes para a colheita das impressões. Tudo irá depender da intenção do observador.

    Afinal, ver 30 países em 15 dias, ou passar 2 semanas em duas cidades podem significar a mesma coisa. Por exemplo, estar sete dias em Buenos Aires comprando a cidade inteira para trazê-la ao Brasil vale o mesmo que pisar em 20 cidades européias em dez dias, apenas para mostrar o passaporte fartamente carimbado.

    Ao contrário, pode ser gratificante visitar 20 países europeus numa excursão “turistal”, do tipo barata, se esta é a forma menos complicada operacionalmente para se ter noção da vida melhor que se leva fora do Brasil.

    Enfim, o importante, penso, é comparar e refletir o sobre o estranho, sobre o que é diferente e acrescer à experiência a novidade que leva ao amadurecimento e melhora de vida. E isto se faz dormindo num hostal, numa estação de trem, ou num resort da costa francesa mediterrânea.

    Viver é preciso. Viajar é preciso.

  • Andrei,

    De fato, por inexperiência e no afã de conhecer a Europa, fomos “cobaias” paraibanas nas mãos de agências de turismo que vendem pacotes intermináveis e cansativos, capazes de levar-nos a pedir aos céus para voltarmos logo pra casa. Entretanto, apesar de tudo, nada apaga o encantamento que senti ao visitar o Museu do Louvre, ver “in loco” o Coliseu e a famosa Torre pariense pela primeira vez.

    Quanto a visitar várias vezes os mesmos lugares, creio que certos sítios gravam na nossa alma sensações e impressões tão marcantes que não devem ser ignoradas em viagens futuras. Porém, também tive uma agradável surpresa ao ir a Veneza numa segunda oportunidade e tirar a má impressão que tive daquele lugar tal inusitado.

    Afirmo sempre que o investimento que se faz em viagens é sempre o melhor que se pode fazer. Eu não exitaria em deixar de trocar de carro por um modelo mais novo e embarcar numa bela e engrandecedora viagem.

    Nunca se volta do mesmo jeito que se foi de uma viagem.

  • Andrei,

    Voce tem razao quando diz que exotico é Recife e não Maraqesh.

    Apavora-me ter que morar em Recife mas, por bem ou por mal, é aqui onde trabalho e estou familiarmente e financeiramente estruturado, sendo literalmente refém de obrigações familiares inalienáveis e das necesidades de me deslocar para os diferentes locais de trabalhos em carros cada ano com películas mais escuras.

    Invejo mesmo poder se viajar bem e barato %0 euros/dia, não é Daniel?), dormir na praça ou na calçada da Piazza di Spagna em Roma, tomar um bom porre em Pigalle e ainda chegar com a carteira no bolso no hotel.

    Mas, a idade, as cirurgias, a coluna e a insonia da velhice estão conseguindo me tornar mais refém ainda de Recife: ou saio para fazer uma viagem confortavel e descansada ou fico em casa deitado em um ambiente sanitizado e climatizado vendo o pitoresco das ruas de Delhi, do Cairo e de Marraqesh pelo History Channel, com odor de lavanda.

    Já me disseram que estou me tornando um velho chato….

    Conversando há uns dias com um primo um tanto afastado e um pouco mais velho do que eu,descobri uma incrivel identificação sobre os bons valores da auto-reclusão e os prazeres de curtir os netos e as coisas simples das cidades menores, ou dos grandes programas “em estilo”, que não imaginei existir; ele me disse que está com boa saúde mas que há 4 anos não tem saido da cidade onde mora no interior de Pernambuco. O canal de história e os livros são tambem o seu contato com a Piazza di Spagna.

    Grande abraço, Sidarta

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).