Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Espanha é somente um nome, que deve ter sido escolhido pelos castelhanos, afinal eles triunfaram sobre os outros reinos. Obra política de inegável sucesso, algo de que se podem gabar, ao contrário do morticínio e espoliação que promoveram do México à Patagônia.
Hoje, qualquer formulário de contrato na Espanha – serviço de internet, por exemplo – tem cinco campos para o indivíduo apontar em que língua deseja se relacionar com a operadora. O contratante tem à sua disposição galego, castelhano, catalão, euskadi e inglês, que afinal pode nem ser espanhol. Isso parece uma grande bobagem? Bem, sugiro a quem assim pense que experimente dizê-lo a um basco.
O General Franco era um fascista, antidemocrático, violento, mas não era burro, nem descuidou da manutenção da unidade do país. Compreendeu que a única saída era um rei que fosse soberano de todas as regiões. Não um rei castelhano impondo sua soberania aos outros, mas um rei de todos os ibéricos não portugueses. E isso tem funcionado relativamente bem, mas o rei não é eterno.
E ficaram ricos. E parecem terem se esquecido que foram pobres, há pouco mais de duas décadas. E vivem o dilema do empobrecimento que se avizinha com a crise do dinheiro de mentira. É que a tal crise não é de brincadeira em Espanha, como não é aqui, nem em França, nem na Alemanha e nem nos paraísos fugazes que a liberalização financeira extrema produziu mais ao norte.
Com crise, ou sem ela, eles, os castelhanos, sempre tiveram uma postura peculiar diante da vida e de seus desafios. Poucos queimariam seus navios, como fez o extraordinário assassino Hernán Cortés, que afinal veio a perecer pobre, depois de entregar ao rei vastas extensões de um México meio asteca, meio maia, meio cristianizado e muito rico.
Poucos países veriam Cervantes pobre, na rua, depois de lutar em Lepanto e, principalmente, depois dos dois volumes das viagens do fantástico Fidalgo Dom Quixote, aquele que Jorge Amado disse ter esgotado todas as possibilidades do gênero que chamamos romance. Poucos teriam mandado o general Astray – preposto do fascismo de Franco – calar-se, como fez o já velho Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, pois não se proclama a burrice no templo do estudo.
Eis que fomos visitar dois amigos que estão em Salamanca, estudando na célebre universidade. Alugamos um carrinho e vencemos os quatrocentos quilômetros que separam esta húmida e verde região minhota do seco e amarelento planalto castelhano. Tranquilíssimos quilômetros de estradas perfeitas – melhores em Portugal que em Espanha – e muito bem sinalizadas. Os problemas começam quando se entra na cidade, que não é propriamente pequena.
Marcamos de nos encontrar-mos no campus da universidade, que afinal é perto da entrada da cidade. Não convém se aventurar nos centros das cidades européias, pois o trânsito é intenso, um erro implica uma volta ao mundo, é difícil encontrar vagas de estacionamento e as multas cobram-se imediatamente. Campus Miguel de Unamuno é como se chama o enorme complexo universitário de Salamanca.
As cidades eminentemente universitárias têm níveis de tolerância com as diferenças bem maiores que o comum das outras. Tratando-se de Castela, isso é uma vantagem enorme, já que a gentileza não é propriamente uma caracterísitica por que eles façam questão de serem reconhecidos. Nessa belíssima cidade, fria e seca, tem gente do mundo todo e notadamente muitos sulamericanos andinos. Se fossem pagar pelos absurdos que fizeram na América teriam que receber ainda mais dos descendentes dos povos invadidos. Mas alguma coisa é melhor que negar a dívida toda.
Eu já estive antes nesse planalto seco castelhano e sabia das peculiaridades de seus hábitos cronológicos. Mas, a gente vê, lê e ainda se surpreende com as coisas. Os horários são completamente diferentes na Espanha, não só em Castela, mas no país todo. O dia começa às dez da manhã e não se pode dizer com rigor que chegue mesmo a terminar alguma hora. Exceto aos domingos, há gente nas ruas e bares por todo o período em que o sol anda escondido.
Não é mito nem folclore a parada quase total das atividades entre uma e quatro horas da tarde. Se as pessoas ainda vão para casa dar aquele cochilo chamado siesta não sei, mas que tudo parece estar parado, em estado de latência, parece mesmo. Os bares começam a encher-se de gente a partir da meia noite e a frequência é itinerante, pois não se vai a um bar e fica-se lá. Vai-se a todos os bares das redondezas, passando-se pouco tempo em cada um deles. Muito democrático para os bares.
E praticamente não se come, como nós entendemos esse hábito. Come-se de forma continuada uma sucessão virtualmente interminável de pintxos e tapas – que são afinal a mesma coisa por duas palavras diferentes – variados e sempre presentes nos balcões de bares, cafés e restaurantes. Bem, vistos os prezados amigos, conhecida a bonita cidade, eis-me gostando de voltar a dormir cedo, acordar cedo, almoçar à uma hora da tarde e parar de tentar falar castelhano.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
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ha! Muito bom!
FIque por aí Andrei, aqui, as coisas parece que estão se encaminhando para o próximo golpe.
Parece mesmo, obrigatório, lamentavelmente.
Não há apreço real pela democracia no Brasil, só pelo nome.
Conheço algumas pessoas que gostariam muito de viver em e como Espanha. É isso mesmo, tudo que é diferente de nós mesmo é estranho.
Hábitos bem diferentes dos nossos .A siesta é bem interessante mas não precisava ser tão longa.Se eles começam a vida noturna a meia noite então violência zero.Muito interessante e curiosa esta crônica sobre os vizinhos dos luzitanos.
Aghata
Andrei,
Muito interessante a visão dos costumes espanhois. Imagino que a violencia perpretada nas Américas, como pude ver no ressentimento ainda forte entre os povos de Bolivia e Peru, terá sido determinada pela cultura moura misturada ao sangue latino. Quanto à siesta, em menor tamanho parece muito bom. Só que cientistas, recentemente decretaram haver forte vínculo dessa prática com a da diabetes. Será? Um hábito tão atraente!
Luciano
Andrei,
Se eles estão com esse ar de se-fui-pobre-não-me-lembro, esbanjando prepotência, imagino que este sentimento deve ter inflado com o sucesso de seleção de futebol. Por isso, deve ser traumático o fato de que um português tenha sido escolhido o melhor jogador, hehehehe
Quanto aos costumes, interessante observar que as peculiaridades no horário não são tão marcantes na América Espanhola, como já tivemos oportunidade de observar. Será um aspecto da rejeição do jugo colonizador?
Daniel,
Pensei nisso que você lembrou. Na américa espanhola os horários não são os mesmos da Espanha, nem mesmo na Argentina, que se quer tão espanhola.
Luciano,
O hábito é quase imperioso para eles, que dormem tão tarde e acordam tão tarde. Curioso é que todo o comércio e serviços pautam-se por este horário.
As aulas dos amigos que lá estudam são de 10:00 às 14:00 e depois de 17:00 às 20:00. Tudo tem sua coerência própria.
É bem possível que estes hábitos não tenham se estabelecido na América por conta exatamente da rejeição às violências do colonizador, que você bem apontou.
Aghata,
É curioso que Portugal não tenha assimilado os hábitos espanhóis, afinal as influências aqui são enormes, pelo menos as econômicas.
Mas, Portugal dificilmente copiaria modelos espanhóis mesmo.
E a xenofobia com os brasileiros Andrei? E convenhamos, eles tem muitos negocios no Brasil! Eu particulamente procuro, hoje em dia, não comprar nada da espanha, infelizmente a celpe é deles!!!!
Andrei, boa crônica e um tema muito interessante para se comentar.
Gostei muito desses “horários” da Espanha em Madrid e em Barcelona e não conheço os outros; por lá só estive mais dias nessas duas cidades e me lembro bem das “paradas salutares ” depois do almoço; do calmo café da manha depois das 8:30h em bons hotéis e do jantar bem tarde da noite. Nunca foi dos meus prazeres acordar cedo, não ter sono depois do almoço e não ir dormir tarde da noite.
Quando trabalhava por aqui de “carteira assinada”, e tinha obrigatoriamente que trabalhar começando às 8h da madrugada, sofria muito para tentar ir dormir cedo e ter algumas horas de sono. Ainda hoje, em forçadas reuniões de trabalho pela manhã, só me sinto “lúcido” depois das 9:30h.
Com relação ao resto da cultura espanhola, são realmente fascistas e intolerantes para com as suas próprias tribos e para com nós latinos. Diria até, também, que cidadão português para eles é como cidadão boliviano para os brasileiros. Nisso os espanhóis são parecidos com os alemães e mais diferentes dos italianos.
Penso que há também um componente de burrice (ou de culpa histórica) quando ainda importam mão-de-obra barata muçulmana marroquina e rejeitam latinos que foram muito mais aculturados por eles e entendem mais rápido as suas ordens.
Acho que vão se lascar com uma população muçulmana crescente e agressiva, como está acontecendo na Alemanha, Inglaterra e França…. e aí a arrogância da nova nobreza de Castela vai mesmo ter que passar a viver encastelada, como já estão fazendo os ingleses da aristocracia londrina, cercados de paquistaneses em seu próprio terreiro.
Na guerra civil espanhola, depois da tomada do poder pelos golpistas, os generais se reuniram e entenderam preliminarmente que qualquer um deles poderia ser eleito o “caudillho de España por la gracia de Dios”, menos Chico Franco.
Na hora da decisão, desentenderam-se de novo, definitivamente, e a Espanha sobrou para Franco por 40 anos. Nesse período, Franco também “programou” umas duas gerações de espanhóis para o fascismo, o que é muito difícil de se desfazer sem outra guerra civil.
Quando Franco morreu, a sua esposa e a filha tentaram viajar (fugir) para a Suíça levando as joias do estado e mais algumas obras de arte do palácio governamental onde moravam. Foram interpeladas no aeroporto em Madrid e “não entenderam” quando os funcionários lhes disseram que aquilo que estavam carregando para fora do país era patrimônio do estado espanhol e não das herdeiras de Franco. Procuraram falar com o rei mas aí as coisas já tinham mudado rapidamente e levaram só as suas roupas e pertences realmente pessoais.
Há um livro bem interessante que trata da guerra civil espanhola e da dificuldade de terminá-la. Chama-se “Metade da Espanha morreu” e não me lembro o autor; vale ser lido.
Com relação a me expor “à (falta de) gentileza espanhola”, já entendi que não há gentileza de colonizador para colonizado. Os americanos, esses realmente ricos, tratam ingleses, franceses e espanhóis com condescendência mas, não necessariamente, com gentileza natural.
Por outro lado, fazer turismo organizado na Espanha é uma verdadeira aula de arquitetura, história, arte e cultura… desde que não entremos em discussões provocadoras com os guias e que não tentemos suburbanizar a organização deles “furando fila”, fazendo barulho” e atrasando programações com horários pré-estabelecidos e supostamente aceitos.
Terminado o turismo pela Espanha, aí vamos para a Itália onde pode-se falar alto nas ruas, atrasar um pouquinho a programação e falar mal da seleção de futebol deles que não vão lhe dar porrada; no máximo, baterão a sua carteira com um mínimo de violência, sendo isso mais frequente nas quartas-feiras nas aparições públicas do papa na praça de São Pedro.
Imagino que parte do apurado deve ir para os patrocinadores da festa….
Um abraço.
Sidarta,
Esse problema – à falta de outra palavra – dos magrebinos islamitas gera situações complicadas. Há duas cidades, perto de Sevilha, em que as populações magrebinas já são a metade.
Por isso, não se concede cidadania, pois ganhariam eleições para onde fossem!
O estado espanhol tem sido muito sóbrio com relação às feridas do franquismo. Há um mês retirou-se a última estátua de Franco que restava em praça pública.
Em Salamanca estão os arquivos dos proscritos do franquismo, inclusive toda a maçonaria.
Se não fizessem isso, não havia quem fizesse a Catalunha e o país Basco participar da brincadeira.
Fred,
A xenofobia dos espanhóis em Madrid não é brincadeira. Em Salamanca, provavelmente por haver uns trinta mil estudantes de tudo quanto é lugar, não se percebe tanto.
Saiu no Jornal do Comercio de hoje a notícia de que, na troca de comando de uma unidade do exercito brasileiro essa semana, o general que se retirava saiu “atirando” contra a democracia brasileira e louvando as virtudes “da revolução de 1964″ – o golpe militar ocorrido há exatos 45 anos – quando o retirado general era cadete de uma academia militar e teve a honra de servir com o general Garrastazu Medici.
Penso que isso não é mais um caso isolado no meio militar reformado (os militares da ativa não costumam falar publicamente), mas vai ser meio difícil encontrar comunistas para se jogar a culpa se partirem para um novo golpe; por outro lado, talvez os políticos menos ávidos e menos burros entendam que não podem esticar demais a corda da corrupção para não justificarem um golpe militar para moralizar o governo; é bem melhor que partam para um processo de auto-depuração.
Essas manifestações “pró-golpe militar contra a corrupção” estão aparecendo sutilmente com mais frequencia na imprensa e é bem possível que uma eventual tentativa “purista” de dar uma sacudida na sujeira do congresso nacional não vá ser repudiada por toda a população do Brasil.
Se tiver oportunidade leia um livro meio antigo chamado de “Sete dias de maio”, que trata de um golpe militar nos USA; as justificativas para a iniciativa são muito bem articuladas.
Voltando ao tema, as justificativas para a derrubada do regime republicano na Espanha basearam-se, também, no expurgo dos comunistas e dos corruptos eleitos.
Caro Amigo Andrei, como tu já deves ter notado, não sou muito de comentar, mas dessa vez tenho que admitir que são mesmo estranhos, são uns paneleiros do car….
Amigo Andrei, adorei a crônica desta semana, suas impressões da terra de castela foram bem acertadas. A visita foi muito agradável, venham mais vezes e sempre que quiserem.

Só acho q faltou você dizer que o povo daqui desta terra é preguiçoso, isso mesmo, preguiçoso. Eles sempre dão um jeitinho de fechar lojas e coisas do genero meia hora antes da hora marcada…
Esses espanhóis são uns paneleiros do c…
rsss
Severiano e Thiago,
A gente quer voltar aí sempre. Mas, queremos também que vocês venham a Braga.
Aqui há menos paneleiros.
Vontade não nos falta de ir por aí, o problema são EUROS…rssss
mas vamos nos organizar…
Ah….. me lembrei da doce infância!
Como era bom judiar dos gatinhos e gatinhas que me apareciam. Gostaria que vocês trouxessem a gatinha para o Brasil, só assim eu poderia dar um presente para o cachorrinho de minha irmã.
Ótimas lembranças, muito obrigado!
ops.. crônica errada!