Impressões luso brasileiras. Falar português.

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Pensei em chamar esse texto Lusofonia, mas seriam duas palavras muito parecidas, muito próximas. Dizem que as repetições de palavras devem ser evitadas, pois os efeitos estilísticos são ruins. A regra não deve ser assim tão absoluta e, se for, é desobedecida frequentemente. O primeiro período do texto fornece um exemplo.
Talvez a regra aplique-se às palavras menos comuns, ou cuja repetição é inevitável, mas continuo sem saber como delimitar a sua aplicação. O fato é que me pareceu melhor chamar a língua por seu nome próprio, o nome que serve a ela e à nação onde ela surgiu. De toda forma, a repetição evitada com a utilização de sinônimo termina resultando no mesmo e pode ter sido vã minha preocupação.
A língua está aqui a propósito do signiicado que tem para o povo que a utiliza. Ela pode ser muito mais que o código usado por um grupo para comunicar-se e ainda pode ser mais que um elemento comum de identificação desse povo. Pode ser indissociável desse povo, no sentir das pessoas. O português não é indissociável dos brasileiros, dos moçambicanos, dos angolanos, dos caboverdianos e, principalmente, dos timorenses.
Nós, brasileiros, somos, entre outras coisas, identificados pelo uso do idioma português, mas ele não é originalmente nosso, não foi nossa criação. Talvez pertençamos mais a ele, que ele a nós. Antes que se vejam motivos para me acusar de alguma comparação desfavorável aos recebedores do idioma, quero advertir que não vai aqui algum juízo de valor dessa espécie. Os norte-americanos, por exemplo, ainda são a nação mais poderosa do mundo e poderiam ser objeto da mesma abordagem.
Onde se receberam línguas – tendo perecido as que se falavam antes – não existem muitos problemas de exaltação ou rejeição, de orgulho ou vergonha, de cuidado ou desleixo. As coisas simplesmente não se colocam nesses termos, apenas tem-se a língua como o meio comunicador e um dos elementos de identificação. Acontece que as linguas são vistas diferentemente – talvez menos do que esteja me parecendo aqui – por quem as tem como suas, propriamente suas.
Conversava com um colega português bastante agradável, um advogado que de certa forma não parece exatamente talhado para a advocacia, tal é seu gosto pela literatura. Dizia-me da sua percepção dessa relação com a língua portuguesa, que me fez destilar os parágrafos anteriores. E perguntava-me sobre o que sentíamos. Claro que afirmava mais que perguntava, o que é sempre sinal de gentileza nas pessoas inteligentes e de presunção nas menos aquinhoadas. Ele está no primeiro grupo.
Então, lembrei-me da nossa situação na América do Sul. Somos os únicos lusófonos, imersos em faladores de castelhano e meia dúzia de utilizadores de francês e holandês. Antes que eu articulasse esses pensamentos e os expusesse, meu perspicaz interlocutor disse que a lusofonia isolada do Brasil, na América, tendia a ser mais um elemento de afirmação, uma vez que estávamos enriquecendo a olhos vistos.
Não discordei, porque era o que estava pensando, ainda confusamente. É curioso, se fosse a Argentina a ter um potencial econômico igual ou maior que o resto do continente somado, não faria o mesmo. Não faria porque o castelhano, sozinho, não os distinguiria dos outros sul-americanos falantes de castelhano.
Aí está, o português é para nós um elemento de distinção, muito nítido nas nossas relações sul-americanas, mas não vai ser carregado na bagagem de alguma epopéia brasileira, como tesouro precioso. Se houver uma epopéia brasileira, será um pouco à maneira de Odisseu, ávido por voltar para casa, botar os usurpadores a correr e, quem sabe, contar como triunfou sobre as sereias.
Nós, temos, sim, muitos cuidados com a língua. Nos a estudamos, a enriquecemos, nos a mantemos muito viva, mas não somos seus pais. Por isso, talvez até sejamos menos piedosamente escrupulosos e demos a ela maiores possibilidades vitais. Somos co-proprietários, mas não estávamos presentes aos trabalhos de construção dos seus alicerces.
Não digo, até porque disso não se trata mesmo, que Portugal seja um país de eruditos, de praticantes da mais fina sofisticação linguística, de falantes que extraem do idioma tudo que ele pode dar. Não é disso que falo, muito embora o nível médio do domínio da língua seja sensivelmente maior por aqui que no Brasil, até porque a educação é melhor.
Digo que a língua, para Portugal, é mais que uma forma de não ser espanhol, ou alemão, ou francês. É mais que um meio de identificar o autor de uma obra, seja ela boa ou má. Ela é parte da própria obra.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
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Particularmente, considero o português a mais rica língua que tenho notícia – lexicalmente, mais que semanticamente.
Mas, óbvio, isso provavelmente se deve ao fato de ser minha língua. E, digo “minha” no sentido mais “propriedade” que houver – sem ares economicistas, evidente.
Talvez esse sentimento me seja próprio pelo meu inglês manco, ou meu quase-francês infantil, e meu espanhól de leitura e audição razoável, das quais, a leitura me é bem mais acessível que a fala. O certo é que minha perspectiva é cotó, e assim a reconheço.
Mas, creio que exista uma dimensão maior na própria internidade da língua – aquele que a utiliza. Para tal, a atividade “jornalística” é o nefasto verdugo do estilo.
Essa dimensão consiste nos usos que se faz da mesma, na habilidade de manipulação lexical, do mapa das palavras disponíveis (no qual se sabe onde as lacunas podem e devem ser preenchidas por neologismos, chistes, ou coisas que os valham); isso, claro, a depender das próprias habilidades semânticas do executor do texto, o escritor (o que se dá por inúmeras formas, das quais a poética do olhar e a erudição certamente são decisivas para a composição estilística do texto).
Em Ecce Home, Nietzsche escreveu (em alemão…), no capítulo intitulado “Por que escrevo livros tão bons”:
“Quero dizer, ao mesmo tempo uma palavra geral acerca da minha arte do estilo. (…) Bom é todo o estilo que de fato comunica um estado interior, o estilo que não se equivoca na escolha dos sinais, da velocidade dos sinais, dos gestos – e todas as leis do período frasal são arte do gesto. Um bom estilo em si – pura estupidez, mero ‘idealismo’, algo como o ‘belo em si‘… (…)
A arte do ritmo grandioso, o estilo grandioso do período disposto à expressão de um subir e descer colossal de paixões sublimes e sobre-humanas, fui apenas eu quem o descobriu… Com um ditirambo como o último do terceiro Zaratustra, intitulado ‘Os sete selos’, eu me elevei mil milhas acima daquilo que até hoje foi chamado poesia.”
Um outro germanófilo, Schopenhauer, escrevera o seguinte sobre estilo, em obra intitulada “A Arte de Escrever”:
“O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo. Imitar o estilo alheio significa usar uma máscara.
Por mais que esta seja, torna-se pouco depois insípida e insuportável porque não tem vida, de modo que mesmo o rosto vivo mais feio é melhor do que ela.
Assim, quando os autores escrevem em latim e imitam o estilo dos antigos, é como se usassem máscaras.
A afetação no estilo é comparável às caretas que deformam o rosto. Devemos descobrir os erros estilísticos nos escritos dos outros para evitá-los nos nossos.”
Com isso, penso que a habilidade com o uso da língua, seja ela português, ingles, francês ou alemão, convém mais ao executor que à lingua mesma, embora nenhuma seja tão pobre a ponto de não possibilitar usos de estilos estilosos.
Autores do nível de Saramago se dão ao luxo de perverter regras da língua não por pueril revolucionismo, ou birra estilística, mas criam para si o estilo em si que desejam para expressar-se.
Sinal de vida da língua, língua viva, aquela vida viva que tem na língua o derramar-se em texto.
Uma citação, mais uma, agora de um português:
“Foi grotesto, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá tens dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava adormecida, acordou. Mete medo. E pregam, açulam-se, avançam direitos aos seus apetites, ao saque, à guerra, à luxúria. Continham-na arames enferrujados, o medo da morte, o hábito de crer em Deus (sabendo bem que Deus já não existia), fantasmas, cacos de armadura que derruíram de um dia para o outro. Descobrir que não há Deus, que alegria! Põe a gente à vontade. Respira-se de outra maneira. Descobrir que a morte não é inevitável endurece. O mundo muda de aspecto. Agora é que eu contemplo a vida – e me perco na vida.“
Raúl Brandão – Húmus.
Caro André,
O português tem me parecido a mais bonita língua, de quantas tenho escutado. Claro que o julgamento é de quem escuta mal.
Tem também me parecido a mais bonita de quantas tenho lido. E, claro que esse outro julgamento padece da limitação de ler poucas.
De qualquer maneira, consideradas as limitações de julgamento, assim tem me parecido. A mais bonita.
SE O PORTUGUÊS NÃO FOSSE UTILIZADO PELO BRASIL, ESTARIA A UM PASSO DE VIRAR LINGUA MORTA.
André, o Oxford Reference lista mais de 290 mil verbetes. O nosso Houaiss lista 228 mil.
Português, língua bonita e difícil, por isso estudamos sus gramática até na universidade, coisa que os americanos não fazem com o inglês, por exemplo.
Não creio que o português para nós, brasileiros, seja motivo de distinção; penso que esta distinção se dá apenas pela ingorância mesmo, pois não estudamos outra língua na escola e deveríamos fazê-lo, principalmente o espanhol. Quando digo que não estudamos outra língua na escola, estou falando de verdade, porque o inglês ou espanhol que as escolas ensinam no Brasil não significam muita coisa.
Penso que, quando sabemos nos comunicar corretamente em outra língua, imediatamente passamos a proteger a nossa, mesmo sem perceber. Ou seja, não podemos nos distinguir sem conhecer o objeto da nossa diferença. Quem dera nosso povo falasse e escreve bem não apenas o português, mas também o espanhol, para se comunicar com todos los hermanos latinoamericanos em sua própria língua.
Andrei, a nossa linguagem *falada* é sim tida como nossa, parte da obra, e elemento de identificação regional.
Somos um país de sotaques. Se não fosse o Império, e o regime militar, com suas novelas e imposições cariocas, o sotaque nordestino seria elemento de nacionalismo (“Orgulho de ser nordestino”). O nosso português é na verdade um “creolle” que deixa a tez encarnada qualquer patrício. Tem esse nome por inércia, ou falta de alternativa melhor. Ou talvez pelo fato da nossa língua ter sido usada, até recentemente, principalmente por analfabetos.
Andrei
Preciosa crônica , muito bem colocada.
Aghata
Bruno,
Concordo muito consigo. O nosso é um português de sotaques. Também acontece em Portugal, mas as diferenças são menores, porque menor é o país.
Nosso falar nordestino – digo sem querer reacender regionalismos – encanta mais os lusitanos que o falar dos paulistas, por exemplo. Para um indizível estranhamento deles, paulistas.
Por exemplo, aqui não se pronuncia dia como djia, ou tia como tchia. Como na Paraíba, em Pernambuco e em Alagoas, por ordem de norte a sul.
Talvez pudessemos mudar o nome da língua. Não vejo nisso, porém, grande vantagem.
Penso que o nosso falar encanta aos d’aquém-mar por ter sido derivado direto da língua portuguesa dos séculos XVI e XVII. De Gil Vicente e Camões. Ter sido uma nação isolada e de iletrados têm lá suas vantagens: pouca invenção linguística e pouca influência externa.
De lá para cá Portugal já foi ocupado duas vezes. Por Espanha. Ingenuidade achar que isto não se refletiria na língua. Nós, cá do nosso lado, temos apenas a ocupação da nossa zona da mata pelos neerlandeses, coisa que pouco deixou de duradouro na língua.
Não penso que a solução seja mudar a língua, mas sim torná-la oficial. Não o português brasileiro padrão, esse carioquês para exportação. Mas nosso falar. Se para isto é necessário passar toda a nossa população pelos argúrios da norma culta, com seus anos de escolaridade, tanto melhor.
Olá pessoal,
Sobre o assundo discorrido pelo Bruno, acho que as influências de ocupação são salutares para determinação e evolução os sotaques no Brasil, haja vista que a região sudeste teve uma grande ocupação de italianos e japoneses e o sul ficou repleto de alemães e gente do leste europeu, todos aprendendendo a falar português com seus respectivos sotaques e adaptando os seus costumes aos da nossa pátria. Como o nordeste não teve influências posteriores à ocupação holandesa, fomos capazes de manter costumes e principalmente sotaque.
Recentemente o livro mais bem escrito que lí foi de um escritor português chamado Miguel Souza Tavares, de título Equador.
Vale muito a pena ler essa aula de bom português.
DDOLGO,
O sotaque paulista/paranaense, ao qual penso que você se refira, é principalmente caboclo. A formação do sotaque se deu durante o século XVIII e XIX com a assimilação das tribos indígenas da região. Vale lembrar que, em 1808, quando começou o esforço de uniformização das línguas faladas no Brasil, grande parte da região falava nheengatu, e a vila de São Paulo tinha menos de 2000 habitantes.
Os elementos italiano e japonês entraram na jogada depois, alterando pouco o sotaque dominante. Como, aliás, ocorreu em outras partes do Brasil onde houve imigração em massa.
Excelente artigo. Parabéns!
Bruno,
Foi a essa colonização posterior a que me referi.
Nunca aprendi portugues com prazer, até hoje, não tive professores que encantassem, ensinando a língua!
Gostaria de ter tido a oportunidade de no Brasil, pudessemos falar outra língua!Tambem nunca me esforcei para aprender!Não temos proximidade a lugar nenhum que seja possível usar outra língua.
“LÍNGUA PORTUGUESA”
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…
Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac (1865 – 1918)
Rafa,
Boa escolha. Lembrei-me do falecido pai de um amigo nosso, que declamava Bilac e Augusto dos Anjos. Memória prodigiosa, capaz de reter todo o navio negreiro.
Lembro que mainha botou os 4 filhos para decorá-lo! Não sabia nem o que estava falando! mas hoje sei como é bonito.
O português para mim ainda é a lingua mais bonita e difícil de aprender.
Já tive conhecimentos q a língua portuguesa começou a se desenvolver na Costa Oeste da Península Ibérica com a invasão Romana ( período romanico)em 218 A.C.
O mundo lusófono (que fala portugues)é avaliado hoje entre 170 a 210 milhões de pessoas.
O portugues é a oitava língua mais falada do planeta ( terceira entre as línguas ocidentais, após ingleses e o castelhanos) como tb é a lingua oficial em sete países ( Angola,Brasil, Cabo Verde, Guine Bisau, Moçambique, Portugal, e São Tomé e Príncipe.
Concluindo, eu me orgulho da língua portuguesa.
O português é uma lingua difícil. Isso para além das ortografias, que me parecem o aspecto menos importante.
Difícil, no português é o que tem de lógica, ou seja, de sintaxe. Essa dificuldade evidencia-se mais porque nesse plano o pensamento e seu veículo quase se confundem.