Impressões luso brasileiras. O Brasil sabe que será protagonista?
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Muita gente romântica, quem preferir pode chamar idealista, prega uma abolição da auto-imposição de regras de conduta nas relações pessoais. Dizem que o comedimento diminui a espontaneidade e aumenta a distância. Ainda que tais efeitos sejam prováveis, acho preferível pautar-me por certos cuidados, principalmente quando se fala do próprio país fora dele e do país em que se está, não sendo este o de meu nascimento. Ademais, algum comedimento é como caldo de galinha, males não traz.
O parágrafo acima serve para explicar alguma parcimônia que tenho em falar de política e de economia brasileiras por aqui. Claro que não se trata de um assunto impenetrável, mas passa pela escolha do interlocutor e pela busca de alguma objetividade. O mesmo serve para abordar assuntos mais sensíveis de Portugal, pois a complacência e boa receptividade que experimento pode subitamente esvair-se no eventual atrevimento em assuntos reservados a iniciados.
Felizmente, tem-me parecido que as pessoas mais esclarecidas e interessantes com quem converso adotam uma lógica semelhante. Há, pois, um ritual a guiar os palestrantes sobre aquilo que se refere sensivelmente a seus países. Ritual, creio, que é sintomático mais de educação que de falta de espontaneidade. Mas, o caso é que o Brasil interessa muitíssimo às pessoas mais ou menos instruídas. Interessa porque é um gigante econômico e, ao mesmo tempo, apresenta dois aspectos caóticos: vastos contingentes de extrema pobreza e níveis de violência realmente desviantes.
Falávamos, outro dia desses que se sucedem tão iguais, sobre China, sobre Estados Unidos da América, sobre Europa e sobre imperialismos. E, como não podia ser diferente, terminamos falando de Brasil. Acontece que o Brasil não é um participante desprezível da economia mundial e meu interlocutor sabia muito bem que tudo quanto se plantar e colher de soja, tudo quanto se extrair e fundir de minério de ferro no Brasil, a China dispõe-se a comprar. Sabia que se fazem mais carros no Brasil – independentemente de serem ou não atrasados tecnologicamente – que na Espanha, que por sua vez já os produz mais que a Itália.
Um interlocutor como este sabe também que o Brasil tem enormes reservas de petróleo e que este mineral meio líquido não deixará de ser queimado tão cedo. Sabe que há rios imensos e uma imensa população que, em termos de lógica de pessoas razoáveis, é uma vasta reserva daquilo que a teoria clássica chama fator de produção. E sabe que tudo isso combinado, ainda segundo a lógica elementar de uma pessoa dotada de faculdades razoáveis, significa um tremendo potencial.
Tendo esses fatores em mente e sempre guiado pela espécie de lógica que nós brasileiros nos empenhamos em invalidar tenazmente, meu interlocutor conclui que a terra brasilis é uma potência cuja emergência é praticamente impossível de deter e que fará contraponto ao decadente império norte-americano. Bem, quanto à decadência norte-americana não havia pontos de atrito, nem mesmo na unanimidade em não se arriscar com datas. Nisso, não era uma conversa de malucos.
Cedendo ao impulso de acrescentar elementos antes estranhos ao assunto, perguntei-lhe se sabia há quanto tempo se falava uma famosa expressão afirmando que o Brasil é o país do futuro. Não sei, disse ele. Nem eu, devolvi, mas faz muito tempo que esse futuro é anunciado e já se vêem céticos a deixarem de esperá-lo.
Primeiro, risadas previsíveis para uma piada ruim e previsível. Depois, silêncio. Como não era uma conversa de botequim, a melhor forma de sair do silêncio foi voltando ao assunto, ao invés de acrescentar outra piada, que seria irremediavelmente pior que a primeira. Então, disse meio acanhadamente que há bastantes diferenças entre riqueza e desenvolvimento humano. E que também há muita dificuldade de se administrar o comportamento de novo-rico no palco em que atuam os países.
Ficava claro que estávamos, civilizadamente, ficando à vontade dentro dos limites de uma conversa que evolui passo a passo. Nesse andar das coisas, meu interlocutor perguntou-me o que achava das classes brasileiras mais esclarecidas. Respondi que achava que ele tinha a resposta e, então, devolvi a pergunta. Cuidadosamente, depois de asseverar que era a impressão de quem dispunha de uma amostragem muito pequena, afirmou que parecia muito inculta e superficial. Gente, enfim, que tinha lido pouco ou nada e que cabia bem nos tipos que se vêem nas novelas.
Não precisei concordar, mas de minha parte não tinha qualquer reparo à percepção do meu colega português e tive aquela sensação de estar ouvindo a mim mesmo no que outra pessoa falou. Realmente, aquele grupo que se pretende formado por pessoas instruídas, no Brasil, em geral é uma reunião de técnicos nas diversas áreas, sem mais conhecimentos que os de sua arte. Nada demais, desde que não se aventurassem em todos os assuntos e não vissem nos Paulos Coelhos parentes de Ariano Suassuna.
Findamos com as perguntas implícitas e afinal não perguntadas. Saberá o Brasil que pode ser de fato protagonista mundial, a sério e não apenas em promessas de frases repetidas por décadas? Saberá acrescentar à riqueza o desenvolvimento humano? Eu não sei, mas era chegada a hora de falar de literatura e tomar um cafezinho.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.
22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.
24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.
25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.
26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.
27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.
28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.
29 – Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.
30 – Impressões luso brasileiras. O sol de Lisboa.
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Pô Andrei, lendo esse texto, como sempre muito bom, da até vontade de voltar pro Brasil!
…
Mas passa logo!!!!! =)
PS: Não que eu não tenha que voltar obrigado, daqui a pouco! =)
Andrei,
Não, o Brasil não sabe que será protagonista e, portanto, não o será. Sabemos todos que é preciso muito mais do que recursos naturais para tal protagonismo. E sabemos também o´papel que a educação (formação humana) tem e como ela está traçada nesse país.
Acho que consigo ser mais pessimista que você e, penso, nosso destino é ser sempre o país do futuro, nunca o do presente. Só não sei quanto tempo mais aguentará o berço esplêndido no qual estamos eternamente deitados.
Vevel,
Do Brasil, tenho sentido saudades do meu salário. Mas, até isso passa. Bem, não falo das pessoas estimadas, apenas do país.
Quem sabe não consegues escapar a certas obrigações?
Arthemísia,
Acho que desafiamos a lógica mesmo. Olhando de fora, percebe-se que as pressões suportadas pelo sistema brasileiro são enormes, incompatíveis até com a resistência do envolucro.
Termino concluindo que, ou o sistema é mais resistente que parece, ou as pressões são menores, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Um dia desses lembrava que as agências do Citibank em São Paulo não têm os vidros protegidos, como acontece por exemplo em Buenos Aires.
Andrei,
Gostei da crônica e da abordagem lúcida de um tema sério.
A conversa paroquiana dos economistas dos bancos e dos donos dos grandes negócios sobre o Brasil do futuro ou sobre o futuro do Brasil é bonita mas o Brasil para eles continua sendo o pedaço que rende abaixo do paralelo mediano entre Salvador e Belo Horizonte.
A economia do Nordeste sempre foi complementar à do Sudeste e é até analiticamente demonstrado que há um retardo de uns 3 meses entre a entrada em recessão no Sudeste e a chegada dos efeitos no Nordeste: as fábricas no Sudeste reduzem a produção por conta da recessão e as do Nordeste ainda continuam trabalhando nos contratos de produção dos parafusos que seriam utilizados na indústria do Sudeste por mais 3 meses, e que irão para o estoque.
Aí o Sudeste pega fogo de novo, tem 3 meses de parafusos para trabalhar e as industrias do Nordeste ficam ao sabor de novas pequisas de preços de parafusos, dessa vez com os chineses, mexicanos, argentinos etc entrando nas licitações.
Conclusões dessa natureza foram tiradas de estudos para separar na economia do Nordeste os efeitos da recessão econômica nacional daqueles decorrentes do racionamento de energia elétrica anos atrás, que só ocorreu no Nordeste. A fábrica de parafusos, por exemplo, era um dos ramos industriais estudados.
A teoria do “retorno do dólar aplicado” de Delfim Neto ainda é aplicada na pratica e o risco é que no futuro o cenário da Belíndia vire mais para India do que para Bélgica….
… sou pessimista quanto aos revenues do petroleo a 10mil m de profundidade no mar e quanto aos da soja ou do álcool; pode até ser que surja o delírio de construir uma Dubai com esse dinheiro mas o seu Zé da Silva, agricultor de subsistência lá do interior do Piauí nunca vai poder botar os pés para usufruir esquiar na neve da Dubai do Sudeste do Brasil sem ter que deixar para sempre seu terreninho no Piauí e ir ser mais um boia fria na construção civil no Sudeste.
Sidarta
Andrei
Meu Brasil, bem brasileiro…È melhor mesmo ter parcimônia quando falamos de politica e de economia brasileira em terras estrangeiras.A prudencia evita de ouvirmos o que sabemos mas não gostariamos de ouvir.Quanto a pergunta ,gostei de sua saida ,falar de literatura e tomar um bom cafezinho.
Aghata
Andrei,
Admira-me muito o seu comedimento nas relações pessoais. Antes a diminuição da espontaneidade do que eventuais constrangimentos, e interrupções imediatas de conversações, decorrentes de minha impulsividade. Peco e perco muito com isso, mas o aperfeiçoamento continua em busca, embora ponderados sejam os frutos.
Imagino que o otimismo – Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza – do nosso hino nacional transcendeu as idéias de Joaquim Osório, influenciando, assim, toda a sociedade. Se o otimismo encontrou terreno mais fértil entre os néscios ou oportunistas, eu não sei responder.
Eu, por outro lado, não vejo maiores esperanças. Ao primeiro sinal da ascensão de uma considerável classe miserável ao mercado consumidor, as sábias vozes dos semanais sustentam que foi construída uma legião de preguiçosos, alheios ao trabalho.
Como bem dito, as vozes letradas aventuram-se em todos os conhecimentos. Mas agora o discurso é o de que o Brasil jamais será o país do futuro, enquanto liderado por apedeutas.
Enfim, o jargão “Brasil país do futuro” serve para todos, embora não sirva para coisa alguma.
Parabéns pela crônica.
Caro Ubiratan,
O comedimento é recomendável estando-se fora. Realmente, as pessoas são um tanto pudicas em relação aos assuntos sensíveis de seus países. Reservam-se a não tratarem muito disso com estrangeiros, exceto segundo certo ritual.
Tente alguém, por exemplo, sem mais delongas, tratar da Irlanda com um inglês. Ou do País Basco com um castelhano.
O fato é que nós, brasileiros, somos mais abertos a intromissões nos nossos assuntos. Abrimo-nos com qualquer estrangeiro e pomo-nos, alternadamente a enaltecer glórias duvidosas e fazer críticas ácidas à vista de quantos se apresentem.
Talvez por isso, mereçamos tão pouco respeito, às vezes.
Acho preciosa sua observação sobre a qualificação, por semanais de qualidade menos que duvidosa, de preguiçosas para camadas que agora consomem alguma coisa. Como se estas mesmas semanais se compusessem de laboriosos eruditos.
Assim, continua o estigma do colosso que um dia será. Será o quê?
Sidarta,
Se nossa Belíndia virar para Índia, ainda será uma grande promessa. A mim, quer-me parecer que vira mais tendencialmente para Nigéria. Um pais também riquíssimo, mas esculhambadíssimo e violentíssimo.
Acho que se nos tornássemos irremediavelmente um país maioritariamente exportador de comodities nada haveria demais nisso. Desde que se produzisse alguma coisa além delas e que se aproveitasse o dinheiro.
A Noruega é essencialmente uma produtora de petróleo. O Dubai, uma ilusão que foi guindada a paraíso terrestre é só petróleo e meio caminho até a Ásia. Petróleo, pedras geometricamente distribuídas no mar e um enorme aeroporto com ar-condicionado funcionando.
Chego, cada vez mais, à conclusão de que o tal complexo de vira-lata é um mal das elites entreguistas. E chego à conclusão de que nada há demais em usar esses termos, que certa proclamada modernidade quis condenar por atrasados.
Se se exporta petróleo, condena-se o país ao atraso de exportador de comodities. Se não se o exporta, condena-se o país a não ter receitas em moedas fortes. Qualquer que seja a opção, há um grupo querendo vender tudo aos estrangeiros.
Curioso país esse. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Mas, há uns paulistas – e meia dúzia de asseclas do resto do país – que detém por comunicação divina a receita infalível.
Queres dar uma risada? vale explorar o lado do humor ou o da ignorância da questão.
Uma conhecida minha que mora em São Paulo, mas é daqui do Nordeste mesmo, mandou-me um mail sobre Dubay dizendo que ali era onde estava o futuro e a modernidade; adiantou que pensava em um dia ainda ir morar lá: praias, shoppings e carrões por todos os lados, ou seja, o paraíso.
Como já está meio fora do mercado de trabalho e não tem rendas para pensar em não trabalhar, fico a pensar em que profissão iria trabalhar em Dubay….
Talvez na soja do Mato Grosso se desse melhor….
Sidarta,
Se vossa amiga for fluente em árabe, inglês, francês e alemão, creio que pode empregar-se na rede hoteleira de Dubai. Claro que deverá tomar todos os cuidados que o paraíso em terras islamitas requer.
Ou seja, certo recato no falar, no agir e no trajar-se. Enfim, a entrada no paraíso tem seu preço também.
Papagaio velho não mais aprende a falar…. nem português. Penso que é melhor a amiga ficar onde está….