crônica

escrita22

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

O título do texto, isso eu bem percebo, reclama mil explicações que o deixem compreensível na medida exata do que aconteceu. Todavia, como não cabem aqui tantas explicações e as medidas exatas de exatidão só têm o nome, por enquanto ficarei apenas no verbo. Ele pode significar uma apreensão pequena, média ou grande de alguma realidade. Pode dizer que se viu, se ouviu ou se leu alguma coisa.

Pode ainda apontar que se foi apresentado a alguém, entreteve-se uma conversa, mantiveram-se contactos, enfim, que se estabeleceu uma amizade de muitos anos. Ou que se foi apresentado a alguém, apertaram-se mãos, trocaram-se cumprimentos e foi-se embora. Ou, ainda, que as pessoas viram-se brevemente, a uma curta distância, nada disseram, não se apertaram as mãos e uma foi e outra ficou.

É um verbo difícil este “conhecer”. Melhor diria que é um verbo com muitos significados, pois não é propriamente difícil, senão meio ambíguo, caso não apresentemos um contexto que o receba e permita descobrir em que extensão encontra-se usado. Claro que pode mesmo chegar ao difícil, se enveredar pelas filosofias, teorias da coisa, do sujeito, do ser e por aí vai.

Por aqui os problemas são menores, somente escrúpulos meus de poder estar dizendo coisas que pareçam mentiras. Alguém poderia ler o título e dizer – olha lá o fulano, quer dizer que conheceu o Saramago, esteve com ele a conversar, tomaram um café, trocaram impressões sobre um livro qualquer. Mas, a culpa é mais dos verbos que minha, pois se dissesse que vi o Saramago a imprecisão persistiria. Antes eu já o tinha visto em fotografias! Por isso fiquei com o conhecer, pois imprecisões, umas pelas outras, o melhor é ficar com o mais comum.

O caso é que tivemos que ir ao Porto em busca de algumas informações, em Organizações não Governamentais e entidades oficiais. Umas estavam longe das outras e foi preciso caminhar bastante, o que sempre é agradável para mim desde que esteja nublado e o calor não seja muito. Acontece que a busca por uma das ruas mostrou-se meio tortuosa e tivemos a impressão que a Antero de Quental era para um lado, mas ela estava para outras bandas.

Para ganharmos tempo – curiosa expressão absolutamente destituída de sentidos, rigorosamente falando – partimos para tomar o metro, com destino à Lapa, onde fica a Antero de Quental. E lá chegamos rapidamente, ficando provado que afinal a distância não era tão grande. Mas, quando é necessário perguntar onde se está, procurar um mapa, descansar um pouquinho das subidas, os trajetos tornam-se mais longos e demorados. Afinal, foi uma decisão acertada, a de recorrer ao metro. O bairro, se não é feio, está longe de ser bonito. É um bairro meio residencial, meio comercial, comum, situado em um alto. Bastante diferente da Lapa lisboeta, de mansões e palacetes que fariam a delícia dos novos-ricos brasileiros.

Essas cidades de relevo meio acidentado e cortadas ou delimitadas por um rio oferecem aos maníacos por orientação – como eu – uma fantástica possibilidade de andar sem mapas e perder-se muito pouco. Até que se revoguem as leis naturais e não duvido que a constelação de juristas brasileiros já trabalhe com a hipótese, o rio sempre corre na parte mais baixa. Resulta que se o centro encontra-se perto do rio e nós estamos na parte alta, precisamos descer. E descer sempre cansa menos.

Essas considerações levaram-nos a dispensar o metro na volta e empreendermos uma caminhada lenta, dessas em que se reparam nas folhas no chão. Claro que era necessário ir adivinhando o caminho até a estação de São Bento. E foi facílimo e vimo-nos com pouco tempo na Avenida dos Aliados, no meio da Feira do Livro do Porto. Auspicioso encontro a que não se pode chamar de fortuito porque a feira já estava lá e sabíamos disso, embora estivéssemos esquecidos.

Lá pelas tantas, anuncia-se que às cinco horas e meia o escritor José Saramago estará em sessão de autógrafos. Um escritor autografando livros é como um futebolista chutando bolas, ou seja, alguma coisa que não devia surpreender. Mas surpreendeu e fomos averiguar se era aquilo mesmo. E era, e seria dali a vinte minutos, pois eram já cinco e dez. Bem, se queríamos autógrafos precisávamos de livros, pois esta assinatura datada precisa de um suporte material e então compramos dois.

Formou-se uma fila de ansiosos portadores de livros do Saramago. Alguém mais atento pode até perguntar porque chamei portadores e não leitores. Ora, chameio-os assim porque o próprio desconfiou da condição de leitor seu de um jovem que ia à nossa frente. Por conta dessa desconfiança, este jovem deve ter sido dos pouquíssimos distinguidos com cinco ou seis palavras do Saramago. Mas já leste algum desses livros? Esses, não, mas outros. Está bem, então.

O escritor é uma figura séria, sóbria, alta, elegante, magra, frágil, pontual, calada, de caligrafia forte. Deve ser um estorvo sentar-se a assinar livros, de leitores ou futuros leitores que lerão o livro e não a assinatura. Deve ser estranho para o Saramago, sendo quem escreveu as obras que aí estão, entregar-se a um ritual de beija-mão, que afinal é extamente em que consiste uma sessão de autógrafos. Mas, talvez seja eu a complicar as coisas, deve ser cansativo, mas também a coisa mais normal do mundo dar aos leitores o que eles querem, autógrafos, além de livros.

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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.

26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.

27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.

28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.

29 – Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.

30 – Impressões luso brasileiras. O sol de Lisboa.

31 – Impressões luso brasileiras. Dois dias em Coimbra.

32 – Impressões luso brasileiras. Dormindo no aeroporto.

33 – Impressões luso brasileiras. O Brasil sabe que será protagonista?

9 comentários para 'Impressões luso brasileiras. O dia em que conheci Saramago.'


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