Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

mar 2, 2009 by     10 Comentários    Postado em: Cultura

escrita221

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Estava agora pensando no que escreveria e apanhei-me repentinamente supreso ao constatar que estou em algum lugar que é um fora de casa para mim. Surpreendi-me porque subitamente isso não fazia sentido algum, ou seja, estar em algum lugar pode ser absolutamente usual, ou indiferente, até o preciso instante em que se recobra o pensamento crítico e saie-se do devaneio subjetivo.

Dentro de casa, lendo, escrevendo, comendo, tomando vinho, a normalidade da situação destaca-se por ser incontrastada. O contraste está fora do observador, mas não me proponho aqui a discorrer sobre o sujeito e os objetos, que seria chatice demais até para uma despretenciosa crônica. O fato é que o hábito não muda as pessoas, ele apenas se instala nelas.

Mas essa percepção de nada diferente desanuvia-se com a concentração da razão. Ora, tudo é diferente quando se considera o conjunto das situações e das relações. E com a concentração forçada, tudo são contrastes em qualquer lugar. Perceber é basicamente distinguir diferenças, uma atividade muito binária, portanto. Uma atividade quase computacional, que pode ser ligada e desligada.

Essa percepção é imediatamente ligada quando nos deparamos, no dia-a-dia, com a curiosidade das pessoas sobre o Brasil. E muitas vezes revelamos muito mais coisas àquelas que não manifestam diretamente a curiosidade. Parece que o pudor na abordagem apresenta um interlocutor mais digno de ouvir sobre o assunto. Confesso que o país onde se nasceu é assunto importante, merecedor de cuidados, mas não de inverdades. É assunto para ser falado, e profundamente, mas há uma liturgia.

E tenho tido a sorte de não ter que escutar perguntas despudoradas, nem jocosas, nem depreciativas, nem simplesmente bobas, o que me dá a satisfação de evadir-me pouco. Não gostando da mentira, nem do ufanismo vazio e tolo, sirvo-me da evasão sempre que a abordagem do assunto não me agrada. Tenho tido ocasião de falar à vontade com pessoas de curiosidade bem intencionada, sejam elas mais simples, sejam professores e acadêmicos.

A violência que existe no Brasil impressiona todas as pessoas que já se entregaram a pensar, por mínimo tempo que tenha sido, no país. É assombroso ver a questão abordada fora da costumeira dicotomia falta de repressão, por um lado, e excesso de pobreza, por outro. Acho que é o assombro das abordagens inconcludentes, algo fantástico e sedutor quando não procede de alguém fazendo gênero de pessoa em dúvida. Nesses casos, o artificialismo põe por terra o encanto da dúvida.

E o indivíduo refém das análises vê-se premiado às vezes com as mais autênticas percepções sobre sua realidade natal, vinda de quem não está submetido às amarras intelectuais e culturais do vivente no Brasil. Tive ocasião de escutar curioso paralelo com as ex-colónias de África, que têm níveis elevados de violência, nomeadamente Angola.

Meu visionário interlocutor ainda fez a sapiente observação de que no Brasil não tivemos as violentas guerras da descolonização, fator que instilou muita violência em África. Realmente, as guerras deixaram um péssima memória e uma marca profunda da violência portuguesa nas memórias angolana e moçambicana. A polícia de repressão política do regime de Salazar, a PIDE, deu aulas de torturas no ultramar africano. Tais exemplos, infelizmente frutificam, são copiados e assimilados muito rapidamente, até bem depois da ida embora dos professores.

Não tivemos guerras civis. Não nas tivemos com os vizinhos, para além da já distante do Paraguai. Mas temos muita pobreza, digo. Ora, isso há em África mais que no Brasil, redargue o neutro observador. E há também no resto da América, acrescento por dever de relatar o que já vi. E há mais que no Brasil até, reforço. E menos violência! Não seria falta de repressão, indaga. Respondo que certos batalhões de polícia brasileiros podiam estar no Afeganistão sem muitos embaraços.

E justiça? Tenho vergonha então de dizer quanto custa esse aparato no Brasil, seria escandaloso. Ela existe, digo, está lá julgando, tem suas deficiências, mas não é o ponto central da questão. Nessa altura, convém deixar o assunto para lá, o que se faz com a sempre possível ajuda do noticiário. Lá estará provavelmente uma grande apresentação de algum jogador de futebol brasileiro e a situação estará salva, falaremos de futebol.

Há complacência e um pouco de distância, além de surpresa, nessas opiniões. Ainda bem que é assim, ao menos com quem conversei. Do contrário, iríamos para uma busca de causas e ante causas, acusaríamos o colonialismo, acusaríamos o clima, acusaríamos a coisa abstrata que são as classes sociais, acusaríamos os Estados Unidos da América do Norte e terminaríamos nos absolvendo.

No final e ao cabo, terminamos por nos absolver e avançamos na construção das análises em que só há vítimas. Triste rumo esse. Vamos portanto ao futebol, que nem as novelas servem para desviar-nos das visões de uma sociedade tumultuada por conflitos só de vítimas.

______________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

10 Comentários + Add Comentário

  • Vejamos se entendi seu ponto de vista. Assim, para termos melhor clareza de percepção da realidade brasileira é preciso se distanciar e atentar para observações feitas por quem não está envolvido e diretamente interessado.
    O problema de nós brasileiros é que não há culpados explícitos ou confessos, todos tem sua parcela de inocência. É isso?
    A outra parte do problema está no fato de que quem é menos inocente não tem o menor interesse em mudar isso, prefere se locupletar de uma sociedade tulmutuada. Ainda que isso lhes traga algum ônus.

  • Andrei, não existe isolamento dos problemas da sociedade, viva voce ou eu no castelo do isolamento, todos nós estamos realmente ligados a tudo e todos!

    Nem a esquerda, quer mais o isolamento do capitalismo, ela gosta tambem de ser servida!!!

  • Fred,

    Não me parece que isolamento ou distanciamento sejam condições de uma boa análise.

    Mas, é origem de percepções diferentes. É isso.

  • Andrei,

    Aqui o assunto mais importante da semana foi Ronaldo Fenômeno ter levado uma multa do Corinthians por ter ido a boate e faltado ao treino.

    Além, é claro, do eliminado no paredão do BBB.

    O mais triste é perceber que a imprensa se mediocrizou e ainda não se deu conta disso.

    Ou será que nós é que ainda não nos tornamos medíocres, mas que isso seria uma mera questão de tempo ?

    Dúvidas, dúvidas…

  • Daniel,

    Acho muito preocupante que esses assuntos sejam os únicos a merecerem as grandes abordagens midiáticas. Que mereçam, também, abordagens é normal.

    Nossa grande mídia não ajuda a pensar o país. Quando supostamente está a fazê-lo, descamba para a política partidária, só e apenas.

  • Andrei,
    É isso mesmo. Quando saimos da nossa rotina de casa e já adotamos outra, com uma rotina que nos preenche o tempo, a atenção, parece-me mesmo que continuamos a ver tudo como se normal fosse. Parece-me que o esforço de adaptação ao viver do novo ambiente facilita esses fatos. Aí, vem alguém e quebra isso. Traz um sentimento, uma percepção diferente e percebemos de repente o que nem percebíamos mais, por ter se banalizado. É isso? Diria que as coisas repetidas e sem solução por longo tempo, terminam, talvez por necessidade de bem viver, não sendo percebidas, ou percebidas como normais. É muito desconfortável encontrar pessoas de outros países que terminam exteriorizando uma percepção crítica que nos machuca por entendermos como nos vêem e concluirmos o quanto poderíamos ser melhores. Sempre sou pego naquela de afirmar que “o Governo devia ver isso…” mas, o Governo não somos nós? Essa abstração que nos inocenta e nos faz esperar pelo governo, que somos nós, nos tira a culpa e nos deixa imobilizados, pois a culpa passa a não ser nossa, quando a busca não deveria ser focada em culpados, mas em soluções onde todos devem ser chamados.
    Abraço
    Luciano

  • Luciano,

    Às vezes as impressões de quem vê de fora são surpreendentes, desconcertantes até. Claro que isso acontece desde que não sejam carregadas de preconceitos e sejam manifestadas de boa-fé.

    Há inúmeros pontos para que simplesmente não costumamos prestar atenção.

    A tendência que temos a culpar um elemento externo a nós mesmos – o governo, por exemplo – como se ele não fosse uma opção nossa, transparece, a meu ver, imaturidade. Concordo contigo nisso.

    Abraços

  • Andrei

    O Brasil da violência e da impunidade está na boca do mundo.Todos comentam a beleza ,a gramdeza , as riquezas naturais o futebol ,o carnaval e a grande violência que atinge o pais inteiro.Não sei quem culpar nem como sair deste sufoco.
    Aghata

  • Andrei,

    Aghata,

    Fica no ar um pouco de desesperança.

    Este é meu sentimento já há alguns quanto ao Brasil. Só espero dois tipos de solução para a (nossa) pátria: uma pela força do sangue e das armas, ou por algum fato sobrenatural. Enfim, em qualquer das hipóteses, uma revolução!

    Se não for assim, pelo andar da carruagem, talvez precisemos de mais uns 300 para atingir um nível melhor de decência social.

    Até lá, conforme permitem os esforços de sobrevivência, é preciso continuar os esforços de honestidade, individuais ou coletivos.

  • Andrei,

    Esse tema dessa sua crônica está bastante relevante e vi que você a escreveu com muita sutileza e meditação.

    Sei que vou atrair porradas nos comentários mas “não me proponho a fazer boa e incondicional propaganda do Brasil” nem aqui dentro nem quando estou fora daqui.

    Não que seja melhor ser suéco ou sudanês mas, como continuo sendo brasileiro aqui ou alhures, acabo sofrendo um certo patrulhamento de outros brasileiros para, se questionado, não falar mal das coisas más da terrinha, que conhecemos bem.

    No frigir, é como botar perfume francês sobre um corpo com o banho vencido; o cheiro do perfume tende a se evaporar e o odor do banho vencido tende a aumentar…. e a sujeira subjacente aparece.

    Praticar esse tipo de ufanismo gratúito é praticar falsidade ideológica, um tanto contrária às minhas pretensões budistas.

    Também não me ufanaria se tivesse outra nacionalidade, há buracos nas estradas de todos os países do mundo.

    Só temos uma vida a viver e o compromisso que temos para conosco e para com aqueles para quem podemos passar algumas boas informações e valores é o de tentar ser ético e fiel com a verdade das coisas.

    Ora, o meu problema não é a corrupção no Paquistão, a sujeira nas ruas do Cairo ou a violência com intensidade, data e local marcada para acontecer em uma cidade dos paises bascos; o meu problema é logo ao sair de casa, pior ainda se a sua casa é em uma cidade pobre, abandonada e insegura como o Recife.

    Está na Bíblia: “para que caiar o sepulcro?”

    Creio que podemos contribuir para que um dia alguem possa realmente se ufanar de ser brasileiro se, quando questionados, tivermos a coragem de dizer abertamente como são as coisas aqui, mesmo que isso reduza a vinda de turistas enganados pelas fotos das belezas naturais do Brasil divulgadas pelas agencias de turismo.

    Está também na Bíblia: “a verdade vos salvará!”.

    A sujeira da realidade brasileira, mesmo sendo o país onde nascemos, não pode continuar sendo varrida e escondida para debaixo do tapete; logo começa a provocar alergias nos que moram na casa e também nos visitantes.

    Nos tempos da ditadura militar, viajei para fora do Brasil com passaporte azul do governo e instruções “superiores” para, ou ficar calado ou pintar um quadro bonito aqui da república; por obrigação, optei por ficar calado, em um esforço danado para mim que gosto de conversar muito. Meu passaporte agora é comum…

    Se a intenção do questionador for mesmo a de se bem informar FALE!!!; se for má recuse a provocação, dê um sorriso do gato Garfield e fique calado.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).