Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
por Andrei Barros Correia
Procurador Federal
O prego no pão é o triunfo da racionalidade alimentar. Como a carne de sol com macaxeira. Um bife, de vaca ou de porco, com um ovo frito de gema dura em cima, uma porção de arroz e batatas fritas. Alguns vêm com um pouco de alfaces, ou couve flor em conserva, porque até o prato mais simples comporta variações.
Obtém-se, em dualidade bem proporcionada, uma suficiente ração de proteínas e de hidratos de carbono. Claro que um nutricionista radical poderá dizer que isso não é tudo. Eu sei, mas é o básico, o mínimo de que se necessita para estar-se alimentado. Claro, já deve ter dado para notar, é barato.
Na verdade, quase tudo que não envolva serviços mais elaborados é barato. Comprar comida em supermercados, comprar roupas em lojas simples, ou em supermercados, deslocar-se em transporte urbano. Quanto a isso arrisco-me a dizer que estamos sendo flagrantemente roubados no Brasil. Esqueçamos a objeção da carga tributária, porque ela é mais alta por aqui, qualquer que seja o parâmetro utilizado.
Caro é comprar ou alugar imóvel, energia elétrica e qualquer coisa sofisticada. Aí, lembro-me de algo que sempre me chamou bastante atenção. De regra, o produto sofisticado é refinado, tem maior qualidade que o comum e, por isso mesmo, é mais caro. Contudo, o nosso Brasil é o país da empulhação e dos preços definidos pelas embalagens.
Muita gente esperta, por exemplo, abre um restaurante com aparência bem bacana, decoração atual, cardápio extravagante, garçom com ares de gourmet e preços estratosféricos. Do cardápio extravagante, dois de vinte pratos preparam-se bem. Da clientela, dois de vinte clientes percebe que não vale a pena e um tem coragem de dizer.
Fizemos a matrícula e assistimos a conferência inaugural do curso. Pareceu sério e bem organizado. A parte engraçada foi um trote que estava acontecendo com os calouros da graduação. O ritual é tão inocente que chego a pensar que na USP não se dão trotes, mas lutas campais com mortes freqüentes.
Os alunos do último ano, vestidos com uma roupa que daria um ensaio – entre ridícula, engraçada e bonita – faziam os calouros cantarem, pularem e correrem em roda com umas camisetas com os dizeres eu sou um jumento.
Quase me deu incontinência urinária quando vi uma fila indiana de autoproclamados jumentos, com um veterano a conduzi-los, vestido todo de preto, como uma mistura de desembargador em sessão solene com mestre sala de escola de samba.
Cheguei à conclusão que os fabricantes de cremes de cabelo deveriam pagar royalties a Cristiano Ronaldo. Quase todo jovem de menos de vinte e cinco anos tem os cabelos à Ronaldo. Tem Ronaldo alto, baixo, gordo, magro, vestido de terno, vestido de jeans furado. É impressionante o que um jogador de futebol pode vender, além das camisas de seu time. E jogar mal pela seleção, em casa.
Por falar nisso, acho até verdade que o Brasil é o país do futebol. Mas, até agora não tinha visto em bancas de revista dois ou três diários dedicados apenas a futebol. Os europeus são loucos pelo esporte e consideram ainda que a copa do mundo é a eurocopa com Brasil e Argentina.
A seleção portuguesa jogou, aqui em Braga, contra a Albânia, pelas eliminatórias da copa. Deu uma péssima partida, parecendo um time desconcentrado e sem inspiração. Pensamos em ir, mas o estádio é muito distante e os ingressos caros. Foi melhor ver pela televisão, tomando um bom alentejano de três euros e percebendo que Scolari faz falta à seleção nacional.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
* * Para ler a primeira crônica, publicada no dia 13 de outubro, clique aqui.
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Postado em: 
Vejo flashes de muita nitidez, numa linguagem que estimula ver pessoalmente esse ambiente tão bem descrito. Vou continuar acompanhando esses artigos, já pensando na possibilidade de ir ao local comparar e viver um pouco disso tudo.
Muito legal.
Luciano Lapa
Luciano,
Se estiveres pensando em vir, comparar e viver um pouco disso, tenha certeza que serás bem recebido.
Se for no período em que estivermos aqui, poderás ter uma recepção brasileiro-lusitana, também.
Abraços
MUITO BOM UM TROTE INOCENTE COMO TINHAMOS NOS VELHOS TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS NO BRASIL DE HOJE.
Caro Andrei,
Com muito prazer tenho conhecimento das suas experiencias. Afinal de contas, ainda somos terceiro mundo, onde um jogador de futebol vira referência da garotada.
Sinto muita saudade dos tempos em que acreditavamos poder mudar o mundo, através da nossa crença na justiça.
Hoje está cada vez mais raro você encontrar discernimento no que se compra e no quanto se paga.
Pois a maioria segue a regra do “mais caro é sempre melhor “.
E por essas e outras continuamos comendo : arroz, feijão e ovo.
Prezado Lapa,
Você saboreará uma miríade de acepipes lusitanos de dar água na boca, pois a boa cozinha não está necessariamente associada à sofisticação. A crueldade dos trotes universitários- registrados em faculdades paulistas – não é herança portuguesa com certeza. Ainda bem que você constatou isso em solo ibérico.
Um abraço
Andrei…
Que bom saber que vamos poder compartilhar dessa experiência maravilhosa que vocês estão vivendo em Portugual. Melhor ainda pelas suas crônicas irreverentes e incontestavelmente realistas!!!
Beijos imensos a você e a Olívia.
Prezado Andrei,
Com primos portugueses e vivendo em várias cidades de Portugal, aprecio muito as suas crônicas de viagem pois, além de me deixar saudosa dos costumes mais inocentes e ainda não selvagens que praticam muitos portugueses, as suas impressões mostram uma realidade que nós brasileiros ignoramos ou não queremos conhecer: a enganação que é o Brasil e a ignorância arrebatadora de muitos dos brasileiros que ainda imaginam que Portugal não é Europa.
Um abraço,
Laura
Andrei,
Não preciso dizer que compartilho em muito de tuas idéias. A propósito do momento de crise financeira, seu comentário me fez pensar sobre o lucro que o empresariado tem no Brasil e sobre nosso costumes “brasiliani”. Ninguém, de fato, duvida que os tributos “pesam” no preço dos produtos que se vendem a cá. Mas também ninguém duvida que o “caixa dois” é regra também no fechamento das contas. Aliás, por isso a carga tributária ainda continua alta. De fato, ninguém paga tudo. Se fôssemos honestos e pagássemos o que manda a lei, diante dos serviços prestados, já teríamos nos rebelado!!!! Honestidade… talvez seja isso, honestidade no comer, no vestir, no pagar, no cobrar etc etc. Tudo bem. Os portugueses têm parcela de culpa histórica nisso, mas eles já deram o salto de qualidade, por bem ou por mal…
Pois é, Laura, a maioria de nós brasileiros ainda tem uma postura muito ignorante relativamente a Portugal.
Ou não se tem opinião, pura e simplesmente, ou se tem aquelas folclóricas. No fundo, é a mistura de arrogância com ignorância.
O Brasil está muito mal e continua achando-se o centro do mundo!
Daniel, a maioria dos serviços aqui é concessão. Mas, deve haver órgãos reguladores de verdade. Muito ao contrário do Brasil, onde a Anatel parece comprada pelos regulados e por aí vai.
Que bom mesmo poder dividir um pouquinho disso tudo com vocês… melhor ainda é tentar imaginar tudo que você vem descrevendo, fico rindo sozinha só em pensar em tantos “à la Ronaldo”… mas assuma, você tá com saudade da terrinha, até as coisas não tão agradáveis às vezes são nostálgicas rsrsrsr… um beijo bem grande em vc e em Olívia, se cuidem porque eu já tô morrendo de saudade de vocês.
Caro Andrei,
uma questão está me deixando inquieto…
Como é o cheiro do lugar (claro, comparativamente a alguns lugares do Brasil, como Recife, por exemplo)?
PS: se puder comentar algo acerca do saneamento e da limpeza urbana, fico agradecido!
Forte Abraço!
Caro Andrei,
Não querendo ser repetitivo, mas enfático, quero reafirmar o que foi dito no início.
Em primeiro lugar, através dessas crônicas, viajo pelos lugares que em breve gostaria de conhecer. Contudo com essa crise econômica, acho que demorará mais do que o esperado!
Porem, enquanto isso, já senti o clima de serenidade e agora os sabores e aromas de um comida simples e tradicional do interior de Portugal!
Essas impressões estão sendo capazes de nos fazer viajar, sentados aqui no interior da Paraíba!
um abraço
André,
Fizeste a pergunta mais fantástica. Eu e Olívia estivemos pensando – melhor se diria falando – nisso.
O centro da cidade, onde ainda estamos até sexta, cheira a comida. Há muitos restaurantes, cafés, pastelarias, snacks, um atrás do outro.
Os apartamentos que visitamos para alugar cheiram a comida, nos halls e corredores, ou seja, nas áreas comuns. Cheiro de alho sendo refogado, de gordura de porco e de bacalhau pouco.
Dentro dos apartamentos, não cheirava a comida.
Alguns lugares – poucos, é verdade – cheiram a urina de cachorro.
Aqui chove demais, muito mesmo. Tem mês com 200 mm. Para ter-se uma idéia, Recife, onde chove muito, tem média anual de 2000 mm.
Quando chove, agora, por exemplo, evidentemente há o cheiro da chuva. Mas, é um cheiro de chuva diferente do que estamos habituados, porque ela cai no chão frio. Tem um certo cheiro de mato, pois há muita vegetação.
Reginaldo,
Para teres uma idéia. Estamos almoçando quase todos os dias num pequeno restaurante e pastelaria. Sempre há dois pratos do dia, a 3,5 euros.
Hoje, comemos macarrão à bolonhesa com a carne bem temperada, sabendo a alho refogado. Um prato até farto. Tomamos uma garrafa de um vinho branco genérico e baratíssimo. Ácido, bom para digestão. E dois cafés expressos. Pagamos 9,8 euros – os dois – e comemos bem.
Grande Andrei,
Será você o novo Arnaldo Jabor? Seu texto é muito bom, gostoso de se ler. Irônico, reflexivo e ao mesmo tempo figurativo. Boa sorte em seu novo passo na carreira profissional, que será, de certo, brilhante.
e já que estamos falando de gostos e cheiros…delicia de texto!
bela linguagem sem ser pretenciosa.
Caro Andrei,
Não há como esconder a inveja. A Europa é o Eldorado para quem aprecia arte, história, cultura e, claro, uma excelente gastronomia. Você está apenas na porta do Velho Mundo. Séculos e séculos de pura história te aguardam em Roma, Praga, Atenas… Eles te convidam a desvendá-los e desfrutá-los. É uma oportunidade de ouro ao alcance de um bilhete de trem ou de uma passagem aérea tão barata quanto bolo de goma.
Boa sorte, bons estudos e bons passeios. Um dia, ainda os farei.
Andrei,
A comparação do trote foi boa, principalmente ao lembrar daquele pobre coitado que morreu na piscina la em São Paulo. A selvageria é grande demais. Hoje aqui em Campina Grande, houve mais uma demonstração desse comportamento animalesco, só que em razão de embates “políticos”. As duas hordas que seguem os candidatos à reeleição quase se enfrentaram nas margens do açude velho. Uma lástima!
Rafael,
O único desfecho positivo desse embate de hordas políticas seria um confronto aquático, com a extinção voluntária de todos, sob as poluídas águas do bonito açude velho.
Ninguém os teria empurado.
Daniel,
Antes de vir, pensava em périplos europeus, entusiasticamente. Aquela viagem baratinha, por albergues e trens acessíveis.
Contudo, não é exatamente assim. Para quem se instala, aluga um apartamento, raciona os euros e tem compromisso com aulas, qualquer deslocamento apresenta certos problemas de logística.
Claro que as redondezas serão visitadas e a Galícia é um exemplo. O norte de Portugal e a Galícia formam uma poderosa região econômica, muitíssimo integrada. A similitude cultural é evidente e as línguas parecidíssimas. Os lusos se reconhecem galegos de segunda geração, ao menos aqui no norte.
Por falar em história e cultura, ontem visitamos as ruínas das termas romanas, do sec. II d.C!
Arnaldo Jabor?
Ah…
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Meu caro Andrei,
parabens e sucesso no novo ofício. Dê notícias.