Impressões luso brasileiras. O sol de Lisboa.

mai 6, 2009 by     8 Comentários    Postado em: Cultura

escrita22

por Andei Barros Correia*
Procurador Federal

Há duas expectativas opostas dos viajantes quanto ao clima nestas plagas e ambas se revelam exageradas e equivocadas, na maioria dos casos. As pessoas – agora explico-me melhor – geralmente imaginam que impera em Portugal, ou um frio constante, ou um calor também assíduo e imutável. Na verdade, essas realidades existem extremadas e em constante revezamento.

Todos andam a dizer que o tempo está maluco e alinham os exemplos mais recentes dessas maluquices climáticas. Ora temos os invernos mais rigorosos, ora temos o verão antecipado, outras vezes ainda o calor aparece depois do habitual. Chove constantemente um mês inteiro e depois enfrenta-se outro sem a mínima, escassa, gota do líquido transparente. Deuses sedentos retém todas as águas para si. Depois de fartarem-se por trinta dias, devolvem com sobras no mês seguinte.

Habitualmente, os meses mais quentes em Portugal são junho, julho e agosto, com temperaturas atingindo facilmente os quarenta graus. Acontece que esse maio está muito para julho, não há uma nuvem no céu e o calor está intenso. A primavera tornou-se um verão antecipado e muito bonito. As sombras são espaços preciosos e as brisas – que não chegam ainda a serem bafejos quentes – um verdadeiro regalo.

Estivemos, neste auge de calores, cinco dias em Lisboa, sempre em busca da vista mais bonita e da sombra mais próxima. Fomos nos encontrar com um amigo e companheiro de outras expedições platinas e andinas, que se resolveu a passar uns dias nestas terras em que não precisamos fazer de conta que falamos castelhano. E caminhamos longamente por uma Lisboa repleta de europeus do norte, todos, sem excepção, vermelhos como camarões passados em água fervente.

A cidade é belíssima e tem um ar nostálgico e vibrante ao mesmo tempo. Vibrante do sol intenso nas árvores e nas pedras do calçamento e dos prédios e no céu absolutamente azul. Para mim, que aprecio ir ao mesmo sítio várias vezes, é fantástico. De cada vez que vejo a mesma coisa, o mesmo edifício, a mesma paisagem, percebo algo diferente sobreposto à impressão anterior. Sinto-me confortável com essa impressão de estar a ganhar hábito e no fundo devo ser um nostálgico também.

Tive a prazerosa ocasião de encontrar as primas Patrícia e Mila, sempre cheias de atenção conosco e prontas a compreender minhas desatenções, minhas peculiaridades de relacionamento com os telemóveis. Se o julgamento da alma de um ser fosse pautado integralmente pela sua aptidão a lembrar datas e manter os contactos constantes e habituais que os usos recomendam, creio que a minha estaria irremediavelmente perdida e sentenciada à danação eterna. Espero sinceramente que os céus adoptem mais de um critério.

E cheguei à conclusão que uma senhora de postura firme e resoluta terá a palavra final frente a um meio jovem, de barbas e cabelos grandes. Bem, novamente começo pelo fim e devo explicar-me melhor. Depois de um belo jantar de agradáveis conversas, chega à nossa mesa o solícito e simpático garçom, trazendo a conta, e peço-lhe que ma entregue. A este pedido, sucede-se o de Mila, sereno com a serenidade de quem sabe de antemão o desfecho. O garçom, sorrindo timidamente, entrega-lhe a conta e eu fico a pensar que já não se fazem garçons machistas como antigamente.

Na terra brasilis, onde o atraso das convenções socias existe julgando-se moderno, raro seria o garçom que deixaria de entregar uma conta ao homem que a pedisse, ainda que seus recentes cabelos longos inspirassem uma bem vinda juventude e um ar de estudante. Este daqui é mais sábio, embora tenha me deixado desconcertado, pois é já a segunda vez que isso acontece. Bem, se vier a merecer alguma reprimenda da minha mãe, quando souber do episódio, não hesitarei em por a culpa, toda ela, no garçom.

Esta narrativa curta e trivial é a forma tímida que me ocorre de revelar o encantamento que certos momentos têm. A delicadeza dos encontros raros, como os que tive com Mila e Patrícia, abreviam-me as palavras, como a recomendar algum pudor de objetividade. Em todo caso, já penso em trazer os cabelos mais bem cortados e a barba melhor aparada para o próximo jantar.

Retornamos exaustos a Braga, de tanto sol e tanta caminhada. E aqui encontramos o mesmo calor a inspirar algumas saudades do final do inverno. Mas, essa alternância de estações é algo que põe na vida um ritmo que não sentimos nas terras tropicais, onde alterna-se o calor com e sem chuva, mas invariável calor. As estações, por mais que seus limites estejam se tornando mais tênues, marcam curiosamente um ritmo de vida, ligando as pessoas ao meio.

__________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.

26 – Impressões luso brasileiras. Uma procissão.

27 – Impressões luso brasileiras. Uma ópera.

28 – Impressões luso brasileiras. Quero ser rei na minha terra.

29 – Impressões luso brasileiras. Cravos brancos.

8 Comentários + Add Comentário

  • Andrei,

    Em João Pessoa muito chove nos últimos dias, embora a intensidade do calor persista, como habitual. Este insistente calor – além de afastar qualquer tênue possibilidade de interação entre as pessoas e o meio – serve como catalisador aos meus instintos homicidas, controlados mediante profundas respirações e pelo receio do encarceramento.

    Falando em clima, imagino que tens notícias da loucura em que se encontra o Brasil. Os deuses despejaram as águas que os nordestinos clamaram ao longo de todo o século passado; por outro lado, sujeitaram os pretensiosos sulistas à estiagem. Se não fosse trágico, seria realmente cômico.
    Não vou romper a suave narrativa da crônica com tragédias e descasos aos quais estamos acostumados. Permita-me, mais uma vez, transcrever os versos da “Súplica Cearense“ do saudoso Luiz Gonzaga.
    Abraços
    “Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
    Que de joelhos rezou um bocado
    Pedindo pra chuva cair sem parar
    Oh! Deus, será que o senhor se zangou
    E só por isso o sol se arretirou
    Fazendo cair toda chuva que há
    Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
    Pedir pra chover, mas chover de mansinho
    Pra ver se nascia uma planta no chão
    Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
    Eu acho que a culpa foi
    Desse pobre que nem sabe fazer oração
    Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
    E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
    Pro sol inclemente se arretirar
    Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
    Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
    Que sempre queimou o meu Ceará”

  • Ubiratan,

    Se refreias ânimos homicidas com respiração e temor ao encarceramento és um ser civilizado.

    Realmente, a distribuição do precioso líquido obedece a critérios meio confusos e uns ficam com muito e outros com nada. Como adotamos a imprevidência, não escapamos aos terríveis efeitos do ânimo dos deuses.

    Aproveita o calor como bom pretexto para te hidratares com uma cerveja gelada, se for o caso de lançar mão de pretextos.

  • Andrei que bom voce estar de volta com suas agradáveis crônicas.Já estou a me preocupar com o calor de agosto quando estarei indo por ai.Espero que comece a ficar mais ameno pelos meados de agosto .Espero também ter outras sensações ao rever esta terra tão agradável que não nos cansa as repetidas visitas.
    Aghata

  • Aghata,

    Realmente, acho um tantinho difícil que o clima esteja ameno em agosto. Costuma ser o mês mais quente de todos.

    Mas, como andam as coisas muito malucas mesmo, pode até se revelar um período agradável.

    De minha parte, começo a pensar em comprar um chapéu, daqueles panamás equatorianos.

  • Andrei,

    Vejo que a sua longa estada em Portugal está a mudar o seu estilo de escrever, a ortografica e as concordâncias gramaticais. É inevitável e o “cuidar com a qualidade” é para os budistas um objetivo a ser sempre perseguido.!

    Tem me agradado também a sua derivação para textos de escrita mais cheia de imagens poéticas, onde as sombras, o calor fora delas, o céu azul, as mudanças bruscas de estações, o convívio com a sua parentada, as sutilezas dos garções, etc criam temas interessantes para serem observados e comentados.

    São, sem dúvidas, temas que levam a menores polêmicas e surtos de iras pessoais e que promovem uma melhor iluminação da mente.

    Gosto também de experimentar o “dejà vu” e de repetir lugares antes já visitados, para conferir se as percepções e as sensações mentais de outros momentos ainda são as mesmas…. é como repetir a peregrinação a Meca ou a Jerusalém.

    Está nos meus planos fazer uma redentora peregrinação a Lisboa e a outros lugares de Portugal (só estive até agora em Lisboa).

    Com relação às chuvas recentes por aqui, por uns dias parecia uma cena de um filme francês no VIETNAN, onde só se via chuva e mais chuva em Recife, e rios subindo e inundando casas no Maranhão.

    Grande abraço.

    Sidarta

  • Sidarta,

    Realmente, há que se escrever algo que não pareça artigo de opinião. Às vezes as impressões são fortes e não conduzem a comparações. Pode tornar mais leve o texto.

    Todavia, de tempos em tempos, lembrar-se dos absurdos brasileiros é inevitável.

    A repetição de visita a lugares é uma mania minha. Desde que sejam agradáveis, é claro.

  • Andrei,

    Falas do sol de Lisboa enquanto eu me deparo com a questão de como inserir os evidentes efeitos de mudanças climáticas (regime de chuvas e de temperaturas) no desempenho futuro de obras antigas (barragens para irrigação, abastecimento de água, geração de energia; sangradouros; pontes; estradas; drenagem urbana, etc.) e no planejamento e cálculo de obras novas (deve-se ou não agregar mais segurança e custos de construção a essas obras para que suportem os supostos e eventuais efeitos danosos de mudanças climáticas???).

    Por mais ao largo que passemos dessas questões, a leitura do livro “A lógica do cisne negro” (The black swan) tem me levado a olhar melhor alguns indicadores de tendência de aumento de irregularidades da natureza dentro da minha pequena experiencia de vida – 60 anos – e a imaginar como inserir essas subjetividades no meu planejamento de vida até o horizonte dos bisnetos.

    Enquanto isso, vamos vivendo o dia a dia como se nada disso existisse e sem querer entender as razões porque o carro consome tanto combustivel e não conseguimos mais desligar o ar condicionado nem em casa.

    Grande abraço,

    Sidarta

  • [...] de outras expedições platinas e andinas, que se resolveu a passar uns … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).