Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.

mar 23, 2009 by     10 Comentários    Postado em: Cultura

escrita221

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

A academia é muito auto-referente. Gira em torno de si mesma e dos assuntos técnicos de cada área. Sendo esta área direito, parece-me que fica pior, pois tem-se a idéia e a pretensão de ser algo a regular todos os aspectos da vida. Essa regulação tão ampla implicaria que os reguladores tivessem mais conhecimentos das realidades a se regularem.

Todavia, os juristas aqui em Portugal têm-me parecido menos herméticos que no Brasil, além de serem em menor número, o que já é vantagem bastante. De forma geral, são mais interessados nas coisas além do direito e da política cotidiana. Na verdade, o nível intelectual das pessoas que estão nas universidades, seja nas graduações, seja nas pós-graduações, é mais elevado que no Brasil. No resto, pouca diferença nota-se.

O fato é que se podem travar conversas que transcendam dos assuntos jurídicos e profissionais, passando pelas amenidades e indo até as artes, por exemplo. Teremos Aida em abril, no Theatro Circo, aqui em Braga, pela companhia da Ópera de Kazan, russa. E isso tornou-se assunto, muito naturalmente. Dos colegas brasileiros, não chamou a mínima atenção.

Embora Aida seja um espetáculo meio broadway para meu gosto, é certo que a majestosa cenografia e duas ou três marchas bonitas permitem que ela seja algo desejável de ver e de se falar a respeito. Alguma coisa sobre que se pode ser contra ou a favor, mas dificilmente indiferente.

Minha satisfação, contudo, é a possibilidade de falar de literatura e de trivialidades como o clima. E fui distinguido com a enorme gentileza de um colega que me presenteou com um livro de Vergílio Ferreira, Para Sempre. Pareceu-me poesia em prosa, livro composto por altas doses de melancolia e algo que Camus poderia ter escrito se não fosse tão agradavelmente seco.

Ganhei o livro como sempre ganho qualquer coisa, ou seja, cheio de agradecimentos e um constrangimento que deve ser possível ler na minha expressão facial. Fico desconcertado com presentes, principalmente aqueles fora de datas comemorativas, que estas são imposições aptas a espantar o assombro. Um livro é um presente difícil. Quem o oferece, quase diz como pensa, porque um livro dá-se mais a si mesmo que ao agraciado.

Isso tem suas vantagens, sobretudo se o ofertante gosta mesmo de literatura. Porque se gosta, não espera apenas que você goste, espera que você leia e ache qualquer coisa. Se o ofertante não gosta de livros, esperará sempre que o presenteado goste e aí a tragédia está anunciada. Meu colega disse-me eu por mim agrado-me muito de Vergílio Ferreira. E mais não disse. Bons augúrios, portanto.

Gostei do livro, escrito com um manejo tão talentoso da ficção que parecia autobiográfico. Pobre avaliação esta minha, como se somente fosse possível chegar a altas doses de verossimilhança quando se está a falar da própria vida. Mas o que há em comum nas vidas permite-nos ser parte de todas elas. O livro não é triste, mas é melancólico como um existencialismo tardio. Não é narrado linearmente, mas parece sê-lo.

Senti-me inclinado a retribuir, na verdade quase obrigado. E a fazê-lo seguindo a mesma lógica que achei ter guiado meu colega. Ofereceria então algo meu, algo que me agradasse, que dissesse de onde vim, o que remotamente constituiu o ambiente que me gerou. Onde as formas serviram à matéria quase como se fosse impossível contar a estória de outra maneira.

Pensei naquele sebastianismo estravagante e improvável que no sertão pernambucano fez lavar-se uma pedra com sangue inocente, para desencantar-se o mundo, restabelecer-se a harmonia e continuar o reinado d´O Desejado. Episódio que deixou interlocutores lusitanos a quem contei perplexos e encantados, que não imaginavam D. Sebastião tão envolvido em místicas religiosas populares, fermentadas por secas terríveis. Pensei, como está claro, em Ariano Suassuna.

Mas, ainda a propósito do mesmo episódio, lembrei-me de Zé Lins. E, como uma coisa leva a outra, a propósito dele, lembrei-me de Fogo Morto e resolvi deixar o sebastianosmo da Pedra do Reino para lá. Conhecerá portanto o Negro Passarinho e o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o papa rabo. Ficará melhor assim, que de Dom Sebastião já conhecem muito, ainda que nada de suas andanças pelos sertões nordestinos, onde também foi desejado.

O livro deve ter agradado o presenteado, a quem pareceu um retrato. Um retrato em preto e branco, talvez, acrescentei eu, por conta da época. Sim, parece que se está lá. Mas, vou precisar de um dicionário de expressões da região, naquela época, para entender tudo.

Se ele não as tivesse usado, disse eu, não te pareceria estar lá. É verdade. Bem, não há o dicionário que tu queres, mas façamos o seguinte: anotas as palavras e tento traduzí-las. Ficamos assim acertados e arrumei pretexto para ler e falar de Zé Lins novamente, o que me agrada, pois sempre presenteamos a nós mesmos com livros.

_________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.

12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.

13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?

14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.

15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.

16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.

17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.

19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.

20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…

21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.

22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.

23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.

10 Comentários + Add Comentário

  • Adorei o artigo, pra variar, demonstraste a habilidade com as palavras…a leitura é sempre agradável e se entende muito bem o que tu tentas passar…

    No que diz respeito a falta de habilidade em receber presentes, não se preocupe, não é coisa que tudo mundo sabe fazer não, rsssss…

    Aaaah…e Obrigado pelos feijões pretos, muitos bons…rssss

  • Andrei

    O assunto é dos melhores e posso imaginar como você se sentiu sendo assim presenteado.Um livro é realmente um presente dificil mas se o ofertante como voce falou gosta de literatura é o presente ideal.Voce fica livre para ler e comentar a seu gosto.
    No momento estou lendo O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa que parece triste e depressivo mas na verdade são reflexões sobre a perturbação existencial do homem,muito bom.
    Abraços,Aghata

  • Demonstrando alguma arrogância minha, quando presenteio alguém com livros tento sempre imaginar os gostos e os interesses do presenteado. Penso que, se conseguir me aproximar disso, tornarei a leitura mais interessante para o outro. Mas, concordando com você, Andrei, é impossivel não passar algo do nosso gosto e interesse para o outro quando se dá livros.

  • Thiago,

    Podemos usar o pretexto dos feijões para irmos novamente a Salamanca. Ou, quem sabe, podem vocês vir aqui buscá-los.

  • Aghata,

    Fernando Pessoa vale muito a pena. Recentemente, li uma reunião de escritos dele chamada Contra Salazar. Poesia e prosa.

    Inicialmente, ele não foi contrário à ditadura. Posteriormente, tornou-se ácido critico do salazarismo, principalmente quando o regime voltou-se contra a maçonaria.

  • Andrei, está na hora de ter seu proprio blog com um link, com o acerto de contas!

  • Fred,

    Acho que me faltariam assuntos e tempo. Será que não calha bem ficar por aqui, no acerto de contas?

  • Fred,

    Comentei com o nome de Olívia, porque ás vezes usamos o mesmo computador.

  • Andrei,

    Essa, talvez, tenha sido uma das suas crônicas mais flúidas e agradáveis de ler dos últimos tempos.

    Também está muito perspicaz com relação à diferença de interesses culturais entre estudantes brasileiros e portugueses supostamente trabalhando no mesmo extrato de interesses culturais.

    Não me sinto em condições de acrescentar nada mais erudito e/ou elegante ao seu texto, mesmo porque, sofrendo da maldição lançada aos engenheiros, continuo humilde e bastante ignorante em poesia.

    Reconheço que sou mais seduzido pela síntese de conhecimento e de poder de uma equação do tipo E=mc², de Einstein, das três leis de Newton e das leis da termodinâmica, da equação da linha reta, da utilidade da média aritmética e da ainda não superação da utilidade do teorema de Pitágoras para os triângulos retângulos (a²=b²+c²).

    Perdoem-me o orgulho e perdôo também os que não conseguem gostar ou entender a elegância da física e da matemática.
    ______________________

    Tentando me humanizar, estou lendo, emprestado por um amigo com quem intercambio livros interessantes, “Uma história íntima da humanidade”, de Theodore Zeldin, um historiador da Universidade de Oxford, UK.

    O título do original em inglês é “An intimate history of humanity”, escrito em 1994.

    A tradução do inglês para o português do Brasil está boa e o livro tem também boa fluidez de leitura. Penso que poderá lhe agradar, assim como também a Olívia e aos comentaristas das suas crônicas.

    Li, até agora, pouco mais de 20% das quase 600 páginas, estou gostando muito mas não sei se o sabor se manterá agradável até o fim.

    O livro versa, no início de cada capítulo, sobre um caso contemporâneo e verídico da vida real de pessoas comuns.

    Apoiando-se nesses casos, o autor remete aos episodíos da história da humanidade e traça parelelos sobre coisas que se repetem, se modificam ou surgem nas famílias e nas vidas das pessoas.

    É inevitável uma identificação pessoal com algumas das facetas e atribulações de alguns dos personagens reais utilizados para a motivação do desenvolvimento de cada capítulo do livro.

    Também é interessante a percepção de que pensadores mais embasados e antigos viveram situações similares às nossas como pessoas humanas e não simplesmente como personagens da história.

    Não é absolutamente um livro de história, mas dá um ótimo entendimento de percepções e de como a humanidade reage ao tempo.

    Um abraço,

    Sidarta

  • Com certeza deve ficar junto a Pierre e bahé, estava brincando!
    Gosto do ambiente de discussão e informação.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).