Impressões luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…

dez 15, 2008 by     12 Comentários    Postado em: Cultura

por Andrei Barros Correia
Procurador Federal

José Saramago nasceu em família pobre, no ribatejo, na década de 1920. Oriundo de meio rural, viveu em Lisboa e estudou curso técnico. Trabalhou no Diário de Notícias, jornal lisboeta antigo e ainda bom. É uma figura sem receio de proclamar seu ateísmo e participação no partido comunista. E, de uma sinceridade desconcertante.

Um grandíssimo escritor – isso nada tem a ver com os períodos sumarissimamente biográficos, acima – que foi premiado com o Nobel, em 1998. Parece-me de humor extremo, embora ele mesmo sempre o negue. Deve estar certo ele, afinal é mais provável estar-se certo sobre si mesmo que estarem os outros. Talvez, pareça-me assim porque as coisas ditas diretamente, com talento, são realmente cômicas.

Este cavalheiro não é assim tão apreciado nestas terras lusitanas, um pouco como também não foi Eça de Queirós. O Nobel deve ter obrigado muita gente a ler, ou dizer que leu, e a ter uma opinião pronta a manifestar. Mas, este prêmio sueco não obrigará os portugueses a aceitarem seu retrato pintado com ironia ou crítica mordaz. Ora, que se retratem como pobres, merecedores e esperadores da misericórdia divina, mas como medíocres e hipócritas, nunca.

Se não bastasse ser um traidor de classe – uma figura que ousou deixar de ser o típico pequeno burguês do Portugal impregnado de salazarismo, para ser um escritor que deve contas a ninguém – ele fala heresias. Não, a heresia aqui não é contra o deus de Moisés, anunciado pelo profeta galileu e tornado universal por Paulo, é contra o anseio de Portugal de não ser Espanha.

Saramago disse que achava plausível Portugal tornar-se parte da Espanha. Foi um escândalo. E foi porque é realmente plausível, haja vista Espanha ser uma ficção política que tem coisa mais rica que Portugal, como é o caso da Catalunha. Ora, o autor não disse que isso era desejável ou que fosse algo iminente, simplesmente cogitou. Assim como cogitou muita coisa que fez a igreja de Roma julgá-lo herético.

Recentemente, à vista das comemorações dos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, Saramago, indagado a respeito – os perguntadores devem saber o querem ouvir – disse que era papel molhado. Não obstante, tem todo o texto da declaração no seu blog e não se furtou a apontar a importância histórica desse pequeno consenso que se autoproclama universal.

Eis que, além de traidor de classe, ele mexeu com os brios e melindres de outra igreja: a academia. Em qualquer curso de ciência política ou direito haverá professores doutores dispostos a aceitar essa proposição de que os direitos humanos são papel molhado. Contudo, essa aceitação obedece a um ritual, a uma liturgia, e proclama-se com toda uma série de circunlóquios, em linguagem codificada, somente acessível aos iniciados nos mistérios acadêmicos.

Papel molhado, pura e simplesmente, sem solenidades, sem restrições de ouvintes, sem eufemismos, sem citações a colegas autorizados, sem notas de rodapé, sem introdução, sem abstract, sem antíteses, sem menções a Kant, Hegel e outros sofistas tedescos, simplesmente não dá.

As reações de que falo são palpáveis e deixam o observador maravilhado com o constrangimento a que as pessoas são obrigadas por se tratar de um escritor consagrado e nobelizado. Fica a impressão de que se pudessem lançariam impropérios, mas não podem. Não podem porque não são livres como seu alvo.

Estávamos almoçando e conversando com o João, dono do restaurante da esquina. Puxei o assunto de espanhóis, porque sei que, em geral, ninguém aqui gosta muito de espanhóis. Conversa vai, conversa vem, o João diz: inclusive já disseram que devíamos ser Espanha, foi aquele escritor, aquele famoso….como se chama? Saramago, disse eu. É, esse aí mesmo, completou o João.

Ele sabia o nome, pelo menos acho que sabia. A rejeição era patente e sincera. Aquele escritor, que além de desdenhar dos destinos normais da vida de quem nasce no interior de Portugal, imagina que devíamos ser Espanha! Um diletante, sem respeito por Deus, sem respeito pela pátria!

Outro dia, em uma aula de mestrado, o professor doutor teve uma reação menos engraçada, menos sincera, mais patética e mais invejosa. Registro, antes de esquecer, que ciúme de classe social nunca é tão ridículo como ciúme ou inveja de intelectual. E registro em homenagem ao João.

O professor doutor – que evidentemente sabia da definição de Saramago para o objeto de seus estudos – deu um chilique em arial 12, com dois centímetros de margens, notas de rodapé tamanho 10 e referências bibliográficas. Ou seja, acusou alguém, que não nominou, de conspurcar um assunto reservado à academia e ao tratamento acadêmico. Isso, em um discurso longo, indireto e repleto de pausas.

Por essas coisas, não estou gostando mais, nem menos, de Saramago. Mas, por seu último livro, sim, que, segundo o próprio, é irônico. A Viagem do Elefante é prosa elegantíssima, irônica, clara, sincera. Enfim, mais um Saramago e penso que o último.

______________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:

1 – Impressões luso-brasileiras.

2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.

3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.

4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.

5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.

6 – Impressões luso brasileiras. O hábito

7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.

8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.

9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.

12 Comentários + Add Comentário

  • ANDREI

    LI ALGUNS LIVROS DE SARAMAGO E SABIA APENAS DAS INFORMAÇÕES CONTIDAS NO PRIMEIRO PARAGRAFO DESTA CRONICA.
    FIQUEI SURPRESA COM A REAÇÃO DOS LUSITANOS E PELOS MOTIVOS DESTA REAÇÃO.
    POR OUTRO LADO A SUA OPINIÃO SOBRE SEU ULTIMO LIVRO DEIXOU-ME CURIOSA.NÃO VOU DEIXAR DE LE-LO.

  • é verdade que os portugas não gostam de sexo?

  • Andrei,

    A crônica desta semana faz-me lembrar como, freqüentemente, somos julgados mais pelos cargos que ocupamos ou religião que pregamos, do que realmente somos como seres humanos individualizados.

    Lembra-me, também, como os discursos podem ser menosprezados – independentemente do grau de razoabilidade das palavras – ou divinizados (inobstante a coletânea de debilidade proferida), dependendo, unicamente, de quem seja o locutor.

    O curioso é que quando o locutor é consagrado, como é o caso de Saramago, tenta-se rejeitá-lo, como o faz parte dos lusitanos, por ser aquele sincero e verdadeiro, não mais um encenador. Daí, presenciamos a vaidade traduzida na tentativa cômica de rejeição, que nada mais é do que a mais verdadeira expressão da inveja intelectual contida.

    Lembra-me, ainda, que aqui no Brasil prefere-se, também, denegrir do que entender, infamar a analisar o conteúdo, prefere-se tachar de herege sem jamais folhear os deixados de Paulo.

    Lembram-me, por fim, os desencontros espanhóis x portugueses, dos nossos com os argentinos, mas, ao que parece, a maioria deve acreditar que Maradona recebeu recentemente as rédeas do país vizinho. E lá é apenas um lugar para comer bem e dançar um tangozinho, apenas.

    Aceito a sugestão, procurarei, quem sabe, o último Saramago.

    Abraços

  • Andrei,
    Gostei muito da sua crônica de hoje; o seu estilo e percepção estão ganhando a cada semana mais profundidade, fluidez e refinamento. Parabéns!
    Li alguns livros de Saramago, um até em estilo difícil de ler (sem pontação e que cansa o leitor sem necessidade, não me lembro agora do nome); no geral, gosto dos temas e da escrita.
    Quanto a ser herege e a continuar levantando questões como a fusão de Portugal com a Espanha, admiro também Saramago. Nos anos 1700 o também admirado, irreverente e anticlerical, mas não tão herege, Voltaire, arriscou-se a falar do clero e de alguns nobres na França católica e teve que se mudar para a Inglaterra para poder continuar vivo a fazer o seu discurso. Não será que Saramago mora em território estrangeiro por precaução???
    Não resisti e fiz uma associação superficial e talvez não apropriada do comentário do seu amigo “João do Restaurante” sobre “aquele escritor patrício famoso mas que fala irreverências como a de nos submeter ao rei de Espanha” com as falas do recente personagem conservador adotado pela campanha de John McCain nos USA, “Joe the Plumber”, ou “Zé Encanador”, que emitiu para a imprensa dos USA opiniões que supostamente representavam o pensamento dos trabalhadores da pequena livre iniciativa conservadora nos USA na questão do desemprego e da mão-de-obra barata com a invasão de imigrantes…ou de deixar os USA se encherem de mexicanos.
    Será que não há nenhum paralelo entre as posições patrióticas defensivas de João com as da xenofobia de Joe ou ambos temem que as suas pátrias amadas e idolatradas sejam dominadas pelo idioma espanhol???
    Grande abraço, Sidarta.

  • Aghata,

    Realmente, Saramago não é uma unanimidade por aqui. Isso é até bom.

    Penso que se deve ao ateísmo e à sinceridade com que pinta o ridículo de certas situações.

  • Ubiratan,

    As reações da academia são trágicas. O sujeito destacar-se sem pedir licença às liturgias acadêmicas é uma enorme heresia. Eis que o cidadão diz o que quer, magistralmente, e desdenha do círculo de auto homenagens e auto referências. Está condenado ao fogo eterno.

    E fica difícil atacá-lo, por conta dos livros vendidos e do tal nobel. Aí é que é engraçado mesmo.

    Direitos humanos, se compararmos o que está escrito e o que se pratica – em qualquer lugar – é papel molhado mesmo. Imagine você o esforço para dizer que não é, sem mencionar quem disse e numa linguagem científica!

  • Sidarta,

    Boa comparação com Voltaire. A diferença, acho eu, está apenas na ânsia de protagonismo, nomeadamente político, que tinha Voltaire. Se o arcebispo de Paris era o melhor combatente nas hostes do bispo de Roma, Voltaire era o melhor nas hostes contrárias.

    Saramago saiu de Portugal sem lamúrias, sem dizer que quem perdia era Portugal.

    Lembra-me o caso da inserção de um movimento cantado na nona sinfonia de Beethoven. A ode à alegria é realmente uma inovação, pois não havia vozes humanas em peças sinfônicas.

    Conta-se que conversavam dois conhecidos de Beethoven – musicófilos – e um disse que aquilo infringia os cânones. Ao que o outro teria redarguido: pior para os cânones!

  • Na academia as “estrelas” ficam batendo as astes, realmente as vezes decepciona.

    Tivemos o brinde de Ensaios sobre a Cegueira sair em filme por aqui. Ainda não tive a oportunidade de ver estou curiosa, ainda que o filme nunca supere o livro sempre fico curiosa.

    Vi uma nota e lembrei-me de você, desculpe entrar no blog, mas esse é o único contato que tenho seu.
    O link é
    http://www.fisepe.pe.gov.br/cepe/materias2008/dez/exec01051208.htm

    Depois me passe seu e-mail. Estamos mudando pra Porto Alegre (Dani e Lú).
    Abraço

  • Belíssimo texto, Andrei.

  • Sobre este tão polêmico e, por isso mesmo, tão interessante autor, admito que conheço pouco e apenas li “Ensaio sobre a cegueira”, que, por sinal, possui uma densidade temática que nem de longe foi alcançada pelo filme homônimo. Aliás, limitação esta bastante comum em Hollywood…
    Creio que infelizmente aqueles profissionais membros de determinadas áreas de conhecimento, nas quais é perfeitamente admissível a exposição de pensamentos um pouco menos ortodoxos, tem o poder de emitirem opiniões um tanto controvertidas com maior liberdade. Concordemos ou não com elas, mas é inegável que um escritor, um jornalista ou, até mesmo, um artista da Globo é muito mais livre para falar o que lhe passa pela cabeça do que um pobre cidadão assalariado brasileiro.
    Justo não é, mas, ao menos, esses privilegiados são livres para expressar idéias que muitos cultivam, mas que, por “n” motivos, não as divulgam.

  • Andrei,
    Gostei muito de sua crônica sobre Saramago, escritor tão procurado no Brasil. Li poucos livros dele como “”Ensaios sobre a cegueira”"e fiquei presa ao texto do começo ao fim. Depois de sua crônica fiquei mais interssada em outros, apesar de sua linguagem difícil porém muito peculiar.

    Abraços

  • [...] 10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor… [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).