Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
A improvável mistura do título dá bons resultados, por estranho que pareça. Mais estranho ainda foi encontrar as tapiocas, estas sim bastante improváveis. Mas, isto deve-se à minha pouca fé, o nome mais comprido para cepticismo. Depois de comer arrumadinho de charque não sei por que raios achava difícil comer tapioca.
No mesmo local do tal arrumadinho, encontramos as tapiocas de côco e queijo. Já andei falando desse restaurante antes, ainda que de passagem. Encontra-se aqui perto, com o sugestivo nome de Brasil Tropical e um tucano estampado na frente. Dentro, fotos bonitas de um Rio de Janeiro que ainda encanta as pessoas e está no imaginário de muita gente. Nas fotos, o Rio continua muito bonito mesmo.
Já se disse, acho que com muito acerto, que não existem culinárias nacionais, mas sim regionais. Por acreditar nisso, o cardápio do restaurante chamou minha atenção. Excepto pelas indefectíveis picanhas e a feijoada, lá reinavam o escondidinho de charque, a tapioca, o arrumadinho, o baião-de-dois, o cuscuz. Pensei que isso era coisa de conterrâneo. Devo explicar que, fora do Brasil, os regionalismos podem até fazer mais sentido que estando nele, principalmente quando se convive com outros brasileiros.
Não estava errado. Perguntamos à gentil dona do estabelecimento de onde ela era. Da Paraíba, e parou. Da Paraíba, de onde? E paramos. De Campina Grande, e entreabriu um pequeno sorriso, como se isso fosse a coisa mais exótica do mundo. De Campina? Nesse ponto, os três já tinham compreendido tudo. Daí em diante foi a sucessão dos lugares-comuns imagináveis, dos quais aquele o mundo é muito pequeno é o campeão absoluto.
É bom encontrar um conterrâneo, ainda que por adoção. Para mim é indistinto ser-se campinense, recifense, petrolinense ou pessoense, pois acho que esses pertencimentos geográficos englobam-se por uma semelhança cultural muito forte. Para a proprietária do restaurante pareceu agradável também, quem sabe por estar sendo campinense antes de ser brasileira da marca do tucano tropical e da foto do Rio. As marcas nacionais nem sempre servem bem a todos, que o digam os gaúchos, absolutamente despudorados em afirmarem-se como tal, antes de se dizerem brasileiros.
A tapioca e o escondinho de charque estavam bons e ficam muito bem com um vinho maduro alentejano. Mas o sucesso entre os frequentadores bracarenses quem faz é o rodízio de carnes, que não pedimos por ser caro e por não representar uma saudade propriamente falando. Essa estória do rodízio, com os vários níveis de sofisticação e preço, realmente é algo exportado pelo Brasil. Penso que dá uma idéia de extravagância, de comezaina sem limites.
Já a feijoada, essa maravilha culinária é objeto de mitos culturais nossos. A maioria sempre ouviu dizer que era um prato das senzalas, que se preparava com o que era desprezado nas casa-grandes. Não sei se Gilberto Freyre andou falando disso, mas tem a cara das coisas dele. O fato é que a feijoada sempre esteve aqui, principalmente em Trás-os-Montes. Quase a mesma coisa da brasileira, mas com feijões brancos e sem charque.
Não sei quem foi o iluminado que imaginou o conceito de comidas desprezadas na casa-grande e tampouco imagino que as casas coloniais brasileiras, grandes ou pequenas, pudessem desprezar o que quer que fosse, principalmente feijão e carnes. Ambos eram ingredientes caros e apreciados e carne salgada era comum, por óbvias razões de conservação.
Lembro aqui, também, da estória das mangas com leite, mistura propaladamente indigesta. Para mim, o leite sozinho, sem as mangas, já é indigesto. Fala-se, na ânsia de formular uma explicação, que isso foi difundido para que os escravos não comessem as mangas e não tomassem o leite. Parece-me, contudo, muito poético fazer ameaças com diarréias, quando se utilizavam as chibatadas por muito pouco.
É curioso como foi necessário traçar uma genealogia dos pratos, dos costumes e dos ingredientes, muitas vezes com pouquíssimo compromisso histórico, servindo às conveniências do arqueólogo gastronômico da ocasião. No mais das vezes, são mitos. Nada demais com mitos, que geralmente revelam-se mais bonitos que os fatos. Imitando a arte, a vida concretiza-se. Mas, imitando a mentira, deforma-se.
Isso tem sido assim de ambos os lados do atlântico, pois quase nada se fala do fato das bases alimentares do velho continente serem importadas. O milho, a batata e o arroz permitiram que vivessem aqui quatrocentos e cinquenta milhões de pessoas e eles vieram de fora. Se a europa quisesse depender só do trigo teria de aceitar o desaparecimento de um em cada dois europeus, no mínimo.
Bem, fico por aqui senão começarei a sucumbir à tentação de fazer outras referências a Levi Strauss, além das que estão no parágrafo anterior. Ainda sou um leitor compulsivo que se delicia com os livros e fica querendo falar deles. E voltarei no restaurante do tucano, porque a dona disse que o escondidinho de macaxeira com carne-de-sol era melhor que o de charque.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
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zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
ôpa. acordei.
Andrei, a crônica desta semana é, para mim, uma das melhores. Digo isto, talvez, pelo contentamento compartido do inusitado encontro campinense. Impossível conter o sorriso após o relato.
A prevalência lógica das chibatadas sobre a ameaça diarréica foi de uma sutileza absoluta. Dissipa-se a poesia, se no folclore havia.
A idéia de extravagância, de comezaina sem limites, é incrivelmente curiosa em contraste ao que nós somos em essência; mas, se as fotos do Rio ainda encantam, na gastronomia não poderia ser diferente.
Parabéns.
Andrrei
Que bom que você encontrou este restaurante com comidas que são tipicas do nordeste e estão ai antes de tudo como comidas brasileiras.Gostei da sugestão do vinho com tapioca,valeu….
Aghata
Andrei,
Oportuna, objetiva, informativa e divertida a sua crônica de hoje; a descrição da culinária regional abriu o apetite agora um pouco antes da hora do almoço e vou ser breve, além disso, o provocante cheiro da carne de sol está invadindo o meu escritório aqui em casa.
Também não encaro manga nem leite… e tapioca só sem côco ralado, uma intolerância alimentar que herdei do meu pai.
Da mesma maneira que os monges dominicanos na idade média, em mosteiros no alto das montanhas na Itália, decretaram que coelho tinha a mesma textura do peixe, para não terem que fazer abstinência de carne na semana santa (eles lá em cima também não tinham o permitido peixe), negociei com o meu orientador de zen que carne de sol com molho vinagrete é comida vegetariana.
Sugiro que você contribua para uma melhor personalização do restaurante campinense em Braga; há boas fotos de Campina na internet e até uma imagem do Google Earth pode ajudar na ilustração da localização da cidade.
Claro que um poster do Rio é muito mais conhecido e chamativo do que uma imagem mais desconhecida de Campina mas eu, a título de honestidade, adicionaria a esse poster do Rio um aviso enigmático do tipo: “Atenção: ao nível do solo as imagens do Rio podem ser diferentes”
Andrei, me parece que moras em Portugal ?
Outras deliciosas opções são: Tapioca com côco e leite condensado Cuscus com côco ou com sardinha, o tradicional cozido ou a buchada de boi, charque com macaxeira, etc.
Tudo isto está disponível no Nordeste, especialmente em Recife onde moro, mas para quem entende pode ser feito em casa.
Andrei,
O Rio continua lindo e não é só em fotos. Para minha surpresa, ao visitar a cidade em novembro, percebi que a tensão da violência é menor por lá do que por cá, em REcife. Claro que turista vê tudo de forma diferente do morador da cidade, mas eu circulei bastante, inclusive de madrugada e não vi tanto medo nas ruas, assim como não vi crianças pedindo, como aqui vemos aos montes. Mas eu sou sempre uma defensora da cidade maravilhosa mesmo, assim como sou de Recife; adoro as duas.
Feijoada de feijão branco sem charque não é dobradinha não? Desculpa aí, mas feijoada de responsa é de feijão preto e este é, sim, um prato nacional, talvez o único.
Já que você está com sorte, pergunta se não tem queijo coalho de Campina Grande, um dos melhores do nordeste. Aí sim, a felicidade gastronômica está completa.
Só faltam os mercados publicos daqui de Recife, eu os adoro!
Artemísia,
Acho mesmo que estou ficando velho e covarde. Morei dois anos no Rio de Janeiro, bem instalado em um apartamento no Flamengo, em 1977/1978 e a violência urbana era mesmo muito menor do que por aqui.
Atualmente sinto-me ainda relativamente seguro dentro do aeroporto do Galeão esperando o avião para sair de lá.
Estresse mesmo dá se tiver que ir ou vir para o Galeão tarde da noite e a “meninada mais afoita” das favelas próximas à rodovia elevada resolver fazer um arrastão ou algum exercício de tiro livre indireto (o que provoca bala perdida sem ter para onde correr…. e eventual perda do vôo, sem ter para quem reclamar).
Alguns detalhes divertidos desses eventos podem ser obtidos conversando-se com os motoristas dos taxis enquanto passamos “a jato” pelo elevado.
Aproveite e dê também uma olhada pela janela do carro para o estado de total decadência do concreto da própria rodovia e dos prédios na região e que podem ser vistos de dentro do carro…. aquilo já foi bonito e bem diferente da Bagdad atual.
Há, na verdade, uma certa sensação de segurança nas duas primeiras avenidas de Copacabana a partir da praia, onde está bem instalada e presente a polícia do turista; na terceira avenida, mais perto do morro e dos túneis, já é território quase livre para o assalto…. e para mendigos com famílias instalados nas calçadas também.
As coisas estão muito globalizadas mas, por aqui, pelo menos, sabemos para onde correr e mais provavelmente onde poderemos ser assaltados.
Sidarta,
Creio que o morador sempre leva vantagem por conhecer a cidade, disso não tenho dúvida.
Sempre que puxava conversa com os taxistas, eles minimizavam a violência, diziam que a coisa é feia nos morros, mas normalmente é tudo tranquilo nas outras áreas. Fui ao Galeão de madrugada, assim como estive na Lapa, no Flamengo e Leblon altas horas e, felizmente, tudo bem.
Uma coisa eu vi mudar: há dez anos atrás, estive no Rio e a polícia fazia um trabalho muito ostensivo; naquela ocasião, por duas vezes fomos parados em blitz e os caras enfiavam as metralhadoras no carro com a maior naturalidade, e isso ocorreu exatamente no Flamengo. Dessa vez não vi uma blitz, muito menos metralhadoras, mas não me pergunte por que.
Por enquanto, prefiro continuar com a ótima impressão que tenho da cidade.
Olá Andrei,
Tenho me deliciado com teus escritos e no de hoje dei inicialmente boas risadas, lembrando de um primo que foi morar em Portugal e depois de um tempo já falava ora pois, gajo e muito mais . Um verdadeiro lusitano, pá. Agora te vejo grafando palavras no mais puro lusitano. (Excepto pelas …). Já estás a falar o lusitano, pá???
Abraço
Luciano
Caro Lapa,
Caro Lapa,
O restaurante brasileiro ( campinense ) em portugal é uma prova da capacidade e tenacidade do povo nordestino. Não há algo de mais mentiroso e sórdido do que o “mito” de superioridade cultural do povo do sul em face do nordestino ( propagado pela imprensa do sul e, pasme, que encontra eco entre algumas mentes atrofiadas nordestinas), tudo amparado no sofisma de que o desenvolvimento econômico é o único critério válido para aferir o grau de desenvolvimento de uma determinada cultura.
Uma cultura que pariu Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Castro Alves- dentre tantos outros- não deve nada, em refinamento e profundidade de pensamento , a qualquer região brasileira.
No que diz respeito a maior força da chibata para a dissuasão do que a poesia da diarréia( em relação à proibição do leite com manga), tenho a impressão de que o pratriarcalismo escravocrata brasileiro foi mais brando na utilização dos açoites e maus tratos do que o registrado em outras colônias( britânicas, holandesas, francesas etc.). A quantidade de escravos que morava e habitava a casagrande( amas secas e de leite, moleques que faziam companhia ao senhorzinho, mucamas etc.) era tamanha que, talvez, essa poética invenção tenha almejado mais afastar os negros da casagrande – do que os do eito – do leite e da manga.
Gilberto Freyre foi pródigo em apontar os fortes laços de intimidade e afetividade que uniam os senhores e os escravos que trabalhavam nos serviços domésticos da casagrande. A crueldade e maus tratos não foram a regra entre os senhores de escravos no Brasil, tendo existido em casos pontuais que não chegaram a comprometer a marca da não brutalidade e crueldade( abstraídas às ínsitas a qualquer forma de escravidão) que caracterizou o regime escravocrata brasileiro.
A propósito, a tese universitária do Mestre( e Grande Brasileiro) Gilberto Freyre , publicada em inglês nos albores de sua profunda e profusa produção intelectual, foi sobre o Brasil, e nela sustentou que a situação do escravo no Brasil Patriarcal fora superior à do operário europeu no começo do século XIX, ou seja, a situação laboral e o padrão de vida dos brancos operários europeus nas fábricas durante a Revolução Industrial( salários baixos para adultos e simbólicos para crianças de 6 a 14 anos, jornada de trabalho de 14 horas, maus tratos e espaçamentos por parte de inspetores e fiscais do trabalho nas indústrias etc.) foram inferiores aos dispensados aos escravos pelos seus senhores no Brasil Patriarcal.
Um abraço,
Ênio Matos
Caro Luciano,
Ainda não estou falando à lusitana, mas é danado como se pega o hábito das consoantes mudas (ou aparentemente mudas), como no excepto.
Foi um deslize.
Abraços
Caros Sidarta e Arthemísia,
Parece-me que o Rio anda realmente muito melhor que o Recife.
Recife tem violência dispersa e muito à toa. No Rio é mais concentrado. Com relação è mendicância nunca vi algo como Recife.
Pois é Ênio,
Essa fartura cultural nordestina passa a fazer mais sentido quando se está longe do Brasil e se convive com brasileiros, em sua maioria do sudeste ou do sul.
Eles, em sua maioria, ignoram a produção intelectual oriunda do nordeste e acham estranho quando o indivíduo não se resigna ao estereótipo do nordestino coitadinho.
Muitos estranham quando ve ouvem falando com sotaque nordestino. Engraçado é ouvir dos portugueses que nosso sotaque é mais bonito que os do sudeste e do sul.
Viva o Nordeste.
Viva o Nordestino Antonio Ermírio de Moraes
Viva o Nordestino Dr. João Santos
Viva o Nordestino João Carlos Paes Mendonça
Viva os Nordestinos, Ciro Gomes, Chico Anísio, Renato Aragão,Tom Cavalcante…etc…etc.
Viva as melhores Praias do Brasil que estão no Nordeste.
Oh! quanta gente precisa ainda conhecer o magnífico Nordeste.
Ah! ia me esquecendo, é que são tantos…
Viva o nordestino o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Obrigada.