Impressões luso brasileiras. Uma ópera.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Braga deve ser uma cidade com população à volta de cento e cinquenta mil habitantes. Bem, isso é uma estimativa minha a partir de números antigos, visando a dar uma idéia de tamanho segundo critérios usuais para brasileiros. Sim, porque essa ênfase em quantidade de habitantes não é comum por aqui.
Outro dia, tive ocasião de ouvir um interessante comentário de uma colega portuguesa, que achou muito peculiar nosso conhecimento e as referências fáceis às quantidades de habitantes dos locais. Ela disse que sempre sabemos as populações das cidades e que ela, por exemplo, não tinha a menor idéia de quantas pessoas vivem no Porto.
Para completar, perguntou a que se poderia atribuir isso. Há perguntas difíceis e as mais elementares – com relação ao que pertence aos hábitos mais inconscientes – são as mais desconcertantes. Obrigam-nos a pensar sobre o que fazemos por hábito e que, por isso mesmo, nunca pensamos. Afinal, creio que se deve aos repasses de dinheiros federais – entre outras coisas – essa nossa obsessão com habitantes.
Mas, voltando à Braga de seus poucos habitantes, há por aqui um bonito teatro. É um prédio de estilo eclético, deve ter pouco mais de sessenta anos, pintado em vermelho escuro, sem muitas extravagâncias decorativas. Foi recentemente restaurado e localiza-se na avenida principal da cidade. Como em muitas outras casas, o Theatro Circo é mais bonito por dentro que por fora. Deve ser pelos excessos decorativos, cuja ausência é louvável nas fachadas.
Dentro a sala é repleta dos dourados e dos espelhos bem ao estilo neo clássico e alguma coisa herdeiro do que os franceses disseminaram a partir do século XIX. A sala em si não é pequena, há quatro pisos de camarotes, um belo lustre descendo do ponto culminante da cúpula, cortinas vermelhas e pesadas. Apenas o palco e a orquestra são pequenos. Bem, essa questão de tamanho é relativa ao espetáculo que se queira encenar.
Para encenar Aida o palco é muito pequeno. Essa ópera de Verdi é daquelas peças de encomenda, em que se deve celebrar forçosamente alguma coisa. No caso específico, foi encomendada para celebrar a abertura do canal de Suez e fica claro que deveria cantar a grandeza de um egito meio faraônico, meio copta, meio abissínio e meio romântico, afinal Verdi não conseguiria ser um compositor atemporal.
No final, as personagens da escrava etíope e do general egípcio saem unidos pela morte dignificadora. Depois da guerra, o amor improvável reúne simbolicamente os contendores numa morte trágica e redentora. Aida não é marcante musicalmente, senão pela conhecida marcha triunfal, que é daquelas melodias de se sair assobiando sem saber-se porque.
O fato é que Braga, além de Lisboa, Porto e Coimbra, teve uma encenação da Aida, pela companhia da Ópera de Kazan, russa. Deve ter sido bom para uma significativa parte do elenco, que ficou a descansar, pois a adequação ao tamanho do palco implicou uma drástica redução dos recursos cênicos empregados. É, afinal, uma ópera mais para se ver que para se escutar. Mas, valeu a pena de qualquer maneira.
Claro que um palco grande permite toda aquela loucura cenográfica grandiosa concebida por Verdi. No Metropolitan de Nova Iorque, por exemplo, colocam-se elefantes no palco. Como elefantes não cantam, alguma disciplina mental pode levar-nos a minimizar sua ausência no palco. Mais difícil é esquecer dos muitos trompetistas que se alinham para tocar a marcha triunfal. Aqui, tivemos apenas quatro.
O teatro estava repleto de um público cioso da oportunidade, que afinal não é tão comum assim. E estava ansioso por aplaudir os desempenhos operísticos dos cantores de uma forma tal que, às vezes não dava tempo de o pano descer completamente e já espocavam os aplausos. E houve aplausos mais contidos também no meio de um ato, ao fim de um canto mais marcante, algo que a ortodoxia dos apreciadores não permite.
Afinal não é somente no Brasil que se aplaude fora de hora, pois é relativamente difícil lotar-se um teatro apenas de especialistas. Talvez em Milão, ou em Moscou chegue-se próximo desse ideal de platéia especificamente educada, ou contida. Todavia, à parte os aplausos fora de hora, a platéia revelou-se bem educada. Se ninguém é obrigado a ter conhecimentos ritualísticos específicos, todos sentem-se minimamente obrigados por algum código de educação doméstica básica.
Terminada a ópera, já lá pela doze e meia da noite, rumamos em busca de um táxi. Havia ainda bastante gente nessas ruas centrais e táxis numa praça adjacente. Entramos no carro e o motorista, bastante falante e simpático, pergunta se afinal houve a procissão. Não, digo, viemos de uma ópera que houve aí, no Theatro Circo. Ele pára um pouco, diz: uma ópera, sim. Entretanto, não deu a mínima para a ópera e veio todo o caminho falando das belezas da páscoa nas aldeias. Cada qual com seus rituais e teatros, afinal.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.
22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.
24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.
25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.
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Andrei
Parece que a Páscoa por ai é realmente importante e imagino como foram as celebrações da semana santa. Quanto a platéia do teatro ,não pode haver coisa melhor do que poder assistir uma peça e ter um público bem educado para partilhar ,não importando se as pessoas entendem do assunto ou não .
Estes detalhes da vida cotidiana dos Portugueses tem sido muito interessante .Até a próxima ,abraços
Aghata
Andrei,
O Tabosa de meu nome é originário de Braga. Você já encontrou algum Tabosa por aí ?
Creio que ao visitar a Catedral de Braga seja tomado pela mesma emoção, embora lá não se desenrole nenhuma ópera. É um espaço especial em Portugal. Sob aquelas paredes não há quem não se sinta tocado a refletir sobre o por quê da aventura humana e em particular sobre as peculiaridades da chamada “alma lusa”.
Espero que tenha sentido algo parecido.
Aghata,
Realmente, a páscoa por aqui é importante. Vem gente do resto do país e tembém de outros locais da europa, principalmente da Espanha.
As procissões são conhecidas e acontecem todos os dias.
Daniel,
Ainda não conheci Tabosas aqui. Mas, a maioria das pessoas que se conhecem não dizem seus nomes de família.
Posso perguntar pela sua família aqui?
Reci,
Fico realmente encantado todas as vezes que entro na Sé.
Duas coisas principalmente me chamam a atenção quase sempre. A primeira é o órgão, que é fantástico.
Outra é a luz coada pelos vitrais. Não que sejam vitrais especiais, mas é muito bonita a projeção colorida nas paredes internas, que muda conforme a hora do dia.
Andrei,
Interessante, essa prática de não se interessar pela quantidade de cidadãos do burgo. Aqui, realmente buscamos essa informação amiúde. Quer me parecer que a estabilidade de que desfrutam as cidades de praticamente toda a Europa seja a grande responsável por isso. É que se não mudam velozmente, as pessoas já sabem como é cada cidade. Aqui, no Brasil, as cidades crescem fortemente. Um amigo do correio francês com quem trabalhei, comentava que tinha dificuldades para projetar alguma coisa além de cinco anos no Brasil, enquanto na França, um planejamento para vinte anos é coisa que não é tão difícil de fazer. Atribuo à pouca velocidade de mudança. Por isso, procuro saber as populações das nossas cidades. Elas mudam muito rapidamente. Não seria esse o motivo de os portugueses não se interessarem por essas estatísticas?
Abraço
Luciano
Luciano,
Acho que estás com a razão. No texto, falei de repasses federais de forma meio irônica.
De fato, o crescimento populacional por aqui é reduzidíssimo. Então a informação passa a ter pouca importância, ante a estabilidade.
A gente pergunta muito isso de população das cidades e quase ninguém sabe, outros fazem cara de estar ouvindo uma pergunta tola. É curiosa mesmo essa diferença.
No Brasil, o crescimento tem sido vertiginoso, daí a informação torna-se importante. Como você bem salientou, é importante para planejamento de trabalhos.
Andrei,
Pelo que sei, um português de Braga, conhecido como Monsehor Tabosa, veio ao Brasil e se casou com uma índia no Ceará. São ascendentes de minha avó materna. Essa é a história que conheço.
Abraços e boa estadia em Braga.
Caro amigo Andrei…
Tive uma oportunidade parecida aqui em Salamanca, mas a opera que foi era um misto de musical e comédia, não sei nem se isso é possível…hehehehe…
Imagino que Severiano já tenha lhe feito o convite, mas teremos uma exibição da Flauta mágica, com a orquestra sinfônica de Varsóvia, que acontecerá no Liceo(teatro mais famoso aqui de Salamanca)…

Pretendemos ir…Se o amigo quiser, sinta-se convidado…
abração!!!
Andrei,
Permita-me um breve deslocamento, mas tentando manter o platô. Até onde sei, Giuseppe Verdi (Itália), assim como Richard Wagner (Alemanha) eram indivíduos bastante ligados aos anseios políticos nacionalistas de suas recém-unificadas Nações (1871).
No mesmo contexto, uma figura importante para analisar o processo nacionalista das obras destes compositores é F. Nietzsche.
Ele foi um grande amigo e admirador de R. Wagner.
Em um certo momento de sua vida, Nietzsche vivenciou um rompimento com o amigo. Algumas obras de Nietzsche são fundamentais para compreender o quiprocó entre os dois, como “O Caso Wagner”, “Nietzsche contra Wagner” e, claro, “A origem da tragédia no espírito da música”.
O ponto central era o forte nacionalismo wagneriano. Nietzsche repugnava o I Reich (inclusive, até hoje me pergunto de onde tiraram a ideia bisonha de que Nietzsche foi o “teórico” do nacional-socialismo – hoje em dia sabe-se mais amiúde que a responsável por esse feito torpe fora a irresponsável de sua irmã.), bem como repugnava o trânsito de Wagner com os homens dos altos escalões do Império Alemão.
As críticas de Nietzsche são muito argutas. Reconhecendo em Wagner um grandioso compositor, Nietzsche vai mirar suas críticas justo no uso que Wagner fez de suas magnânimas composições para inserir silenciosamente temas e ideologias subreptícias que legitimavam o nacionalismo alemão.
Nietzsche escrveu que Wagner encantava as plateias. E que este encantamento e deslumbramento causava uma espécie de torpor romântico em seus espectadores, de tal forma que, maravilhados com as grandezas da óperas wagnerianas (que costumam ter longas horas de duração), pouco sobrava das almas que “aquilo” experimentavam.
A palavra-chave seria “sedução” e “embasbacamento”.
O efeito torpe: a traição do grande espírito da música pela sua contaminação com as políticas sectárias e o antisemitismo do Reich.
Ler os textos de Nietzsche e ainda crivá-lo como antisemita ou é fruto de muita má-fé, ou de estupidez atroz.
Ademais, assisti recentemente a um filme (que não gostei, senão por uma mera e imperceptível frase) chamado “Operação Valquíria”. Creio que ainda esteja em cartaz. Em determinado ponto do filme, Hitler (ridiculamente falando em inglês…) diz frase mais ou menos assim: “Não é possível compreender o nacional-socialismo sem que se compreenda a obra de Richard Wagner.”
Thiago,
Eu me sinto convidado, sim. E gostaria muito de ir, com ou sem a flauta mágica.
Mas, é necessário considerar várias outras circunstâncias além da vontade.
A propósito, Thiago, quando será a mesmo a Flauta Mágica?
André,
Depois de alguma leitura de Nietzsche e da releitura do que primeiro lera dele fiquei a pensar isso que tu apontas.
A relação entre as idéias do autor e o nacional-socialismo inexiste. Isso foi criado e, como quase tudo nesse campo, facilmente criado.
Uma vez li numa introdução – creio que a Além do Bem e do Mal – que foi a irmã de Nietzsche que impulsionou essa associação.
Tampouco vê-se algo especial que autorize a identificar anti semitismo no autor. Se há nele anti semitismo, há também anti germanismo, anti britanismo, anti francesismo e tudo o mais.
A música, wagneriana e verdiana, essa identifica-se muito ao espírito do tempo, cantando grandezas nacionais. Deu no que deu. A primeira invasão promovida por Mussolini foi da Abissínia.
Mas, mudando de assunto, acho que o cinema norte americano deveria ser interditado aos temas históricos. Ficaria muito bem com a ficção pura, com a vantagem de não violar memórias históricas.
Andrei, segundo a Wikipédia, Braga conta com 175.063 habitantes, citando dados de 2007 do Instituto Nacional de Estatística.
Quanto a esse comentário de sua colega, sobre o interesse que temos pela quantidade de habitantes, creio que isso se deva mais a um misto de provincialismo com esnobismo do que qualquer outra coisa.
Provincialismo porque não querem admitir que moram numa cidade pequena. Esnobismo porque, apesar de a cidade ser pequena, eles se sentem importantes (e muitas vezes, as cidades de fato são importantes, apesar da pequena população). Como por população eles não impressionam, para que levar em conta esse critério.
Andrei,
Boa crônica!
A análise de André Raboni sobre o poder de sedução da música de Wagner está tanbém muito boa e esse poder de sedução chegou até a provocar uma polêmica em Israel, onde ele e a sua música eram considerados malditos.
Um maestro israelense tocou Wagner em um teatro de Israel e quase que “limpou a barra” da música de Wagner ser tocada irrestritamente no país…. mas “não limpou a barra” da biografia do compositor.
Com relação a Nietzsche, divirto-me de vez em quando em provocar um pouco algumas mulheres mais chatas, citando o seu misoginismo expressado abertamente no capítulo “Das mulheres: velhas e novas”, do livro “Assim falou Zaratustra”, onde uma velhinha sábia ensina a Zaratustra: “Vais ter com as mulheres? Não esqueças de levar o chicote!”.
No mais, em termos de música gosto muito mais de jazz instrumental acústico – bateria, baixo, piano e metais – do que de música de ópera e estou lendo e degustando devagar “Uma história íntima da humanidade”, de Theodore Zeldin, um historiador de Oxford, um livro um tanto quanto de generalidades mas bastante interessante, bem traduzido e de leitura fácil para engenheiros.
Um abraço,
Sidarta