Impressões luso brasileiras. Uma procissão.
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Não sou institucionalmente religioso. Tampouco sou anti-religioso, desde que não seja alvo de tentativas de cooptação. A verdade é que não gosto de publicidade ostensiva, daquelas que pretendem fazer alguma coisa ser assimilada ou consumida, com a exposição de vantagens e a promessa de decepção caso não se adquira o produto.
Essa postura, por aqui, é bastante praticável, ou seja, é possível ficar-se em paz com suas práticas. De forma geral, o assunto não é proposto em abordagens diretas e agressivas, exceto por meia dúzia de evangélicos que se vêem nas ruas. Em sua maioria, as pessoas comportam-se como se assumissem dois pressupostos. Ou o indivíduo é católico romano praticante e vive sua religiosidade sem se intrometer na vida alheia, ou é adepto desse catolicismo só formalmente, não o pratica, nem se interessa pelas práticas dos outros.
Claro que esse estado de coisas não é gracioso e não se atingiu por arroubos de tolerância das hostes católicas de Roma. Séculos de intolerância e assassinatos pela fé conduziram à presente situação de relativa tolerância e de laicidade do Estado. Essas coisas se conquistam mais que se ganham e as fogueiras andam hoje apagadas porque não é possível acendê-las.
A religiosidade finda por ser mais um elemento de identificação cultural, um hábito transmitido quase automaticamente e um conjunto normativo social, que propriamente uma expectativa salvífica. E a rejeição a ela – ou seria melhor dizer a não adesão à sua ritualísitca – apenas uma não participação ativa. Há certo consenso de que as partes não se devem hostilizar, nem tentar seduzir-se mutuamente e isso já é bastante.
O Estado tem obtido êxito em garantir relativa paz nestes assuntos, pelo menos quando se trata de catolicismo e não-catolicismo, até porque esta última forma é um contraponto à primeira e a ela faz referência. Ser-se adepto, ou não, de algo são posturas muito mais parecidas que aderir a uma terceira coisa diferente.
Os problemas surgem quando se opõem cristianismos entre si e estes a outras religiosidades monoteístas ou politeístas. É curioso como os discípulos do Galileu sentem-se à vontade com os não praticantes ou proclamadores de agnosticismo. A mesma situação não se verifica com relação aos seguidores de outros profetas e deuses. Estes, algumas vezes, ainda têm experimentado violências consideráveis.
Quem quiser abordar tais assuntos de religiões pode bem fazê-lo. Todavia, ao convidar algum interlocutor a tais searas convém estar preparado para ouvir de tudo, desde a rejeição da conversa aos posicionamentos mais extremados, tanto na direção da religiosidade, como na de sua rejeição. Por cautela, somente converso sobre tais coisas com quem conheço minimamente. Na dúvida, até a política é menos arriscada.
É certo que as corporações cristãs legaram, principalmente na Europa, na Rússia, na Anatólia e em partes da América um belíssimo patrimônio arquitetônico, pictórico e estatuário. Não sei se poderiam ter feito mais, à vista dos imensos recursos materiais e humanos que puderam mobilizar, mas o que se fez é bonito de se ver. Não me canso de visitar as igrejas de Braga, que são muitas e bastante belas.
A semana santa, aqui, é um período movimentado por muitas celebrações, procissões e exposições. Há um calendário apontando todos os eventos, distribuído fartamente na cidade. E as pessoas frequentam essas manifestações católicas massivamente. As procissões são vistas e acompanhadas por muita gente e apresentam um interessante espetáculo. Hoje, fomos à procissão do Senhor dos Passos, que percorre o centro antigo da cidade, parando em várias igrejas.
Como tínhamos escutado falar, as ruas e praças do centro ficam repletas de pessoas, de tal forma que é possível imaginar toda a população presente. Não se compõe uma atmosfera de veneração, de tranportes de religiosidade ou de misticismo. É mais como uma grande celebração cívica, inserida num patrimônio cultural bem sedimentado. Obviamente, há pessoas de firmes convicções e com perceptível motivação religiosa.
Muitos turístas tiram fotografias dos longos cortejos processionais e as pessoas cuidam de se acomodar nas calçadas ao longo do trajeto, trazendo mesmo banquinhos para sentarem-se. Há muitos castelhanos, que se distinguem facilmente pela sonoridade peculiar de seu falar. Creio que o Bispo encontrava-se no cortejo, mas meus poucos conhecimentos litúrgicos não me permitem afirmar que seja o único a usar uma grande mitra branca.
Trata-se, enfim, de algo bem marcante em Braga e pretendo ir às outras e principalmente à grande celebração do domingo da ressureição, na Sé Catedral. Missas solenes costumam ser bonitas, principalmente se houver cantos e se funcionar o magnífico órgão que lá está. De certa forma chego a concordar com o atual Bispo alemão de Roma. Que importa que se rezem missas em latim ou na língua local? Desde que seja bonito.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada em Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Clique nos links abaixo para ler cada uma das crônicas já publicadas:
1 – Impressões luso-brasileiras.
2 – Impressões luso-brasileiras. O prego no pão e outras coisas.
3 – Impressões luso brasileiras. A surdez e os barulhos.
4 – Impressões luso brasileiras. Fatos e factos.
5 – Impressões luso brasileiras. A feijoada e o tamanho do abismo.
6 – Impressões luso brasileiras. O hábito
7 – Impressões luso brasileiras. Como os brasileiros veêm a si próprios.
8 – Impressões luso brasileiras. Riqueza e muito trabalho.
9 – Impressões Luso brasileiras. Cinema com lugar marcado.
10 – Impressões Luso brasileiras. Saramago, aquele escritor…
11 – Impressões luso brasileiras. A procura por um peru de natal.
12 – Impressões luso brasileiras. A obviedade dos trens.
13 – Impressões luso brasileiras. Cadê as serviçais?
14 – Impressões luso brasileiras. O jornalismo onisciente.
15 – Impressões luso brasileiras. A arquitetura política espanhola.
16 – Impressões luso brasileiras. O canto de ossanha.
17 – Impressões luso brasileiras. Tapioca com vinho.
18 – Impressões luso brasileiras. Descida da ladeira.
19 – Impressões luso brasileiras. Falar português.
20 – Impressões luso brasileiras. Pedro, Maria, Joaquim, João…
21 – Impressões luso brasileiras. O hábito, novamente.
22 – Impressões luso brasileiras. Esses espanhóis são muito estranhos.
23 – Impressões luso brasileiras. A gata das orelhas amarelas.
24 – Impressões luso brasileiras. Recebi Vergílio Ferreira e ofereci Zé Lins.
25 – Impressões luso brasileiras. Auto-complacência e a falta dela.
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Postado em: 
Andrei,
Vi alguns momentos da religiosidade ibérica turistando por Barcelona na semana santa anos atrás. Como as procissões atrapalhavam o transito em uma cidade grande, confinavam o percurso ao entorno das igrejas.
Quando morava no interior, na minha infancia e juventude, ia às vezes à procissão na semana santa para ver e paquerar as meninas internas do colégio das freiras, vestidas de anjos, piedosas e sexy com asas brancas afixadas nas costas e um sorriso safado nos rostos puros.
Com todo o respeito aos que gostam de procissão, mas impecável e inesquecível mesmo é a letra da musica.. (é de Gilberto Gil???)
“olha, lá vai passando a procissão,
se arrastando que nem cobra pelo chão,
as mulheres cantando tiram versos
os homens olhando tiram o chapeu…
.. eles vivem penando aqui na terra
esperando o que Jesus prometeu
… e Jesus prometeu coisa melhor…”
No interior cantávamos uma versão profana de um refrão religioso:
“Comadre Maria mais alta do que eu
repare na pedra o bicho que deu
Ave, Ave, Ave avestruz
Ave, Ave, Ave avestruz”
ou outra versâo de bar:
“Os anjos desceram e sentaram à mesa
chamaram o garçon e pediram cerveja
Abre, abre, abre a cerveja
Abre, abre, abre a cerveja”
As procissões noturnas, com velas acesas nas mãos são mais lembradas por mim pelo evidente sincretismo do culto ao fogo, esse bastante hipnótico e bonito em uma cidade escura.
Não gosto do desfile de imagem de cadáver na semana santa, uma prática copiada do mito de Osiris no Egito e praticada pelo clero de Amon (que também inspirou o Vaticano atual e o de outrora), com ressurreição e todo o resto do componente mágico e místico de um “mistério exterior” para as massas não questionadoras da motivação e da utilidade dos rituais religiosos.
Formar fila para beijar os pés de uma imagem de um cadáver de madeira ou de gesso ultrapassa para mim os limites da idolatria e deve ser um ótimo veículo de transmissão de herpes labial… no mínimo.
Um abraço,
Sidarta
Caro Sidarta,
Quando estava escrevendo, lembrei-me exatamente dessa música. Resisti a procurar quem é o autor, só me lembro de Gilberto Gil cantando-a. É uma música bonita. As pessoas vivem esperando na terra o que jesus prometeu.
Mas, se continuarmos a propósito dessa música, acabaremos acusados de marxiszadores do que jesus eventualmente teria prometido. Deixemos a acusação para Gil, que tem melhores meios de responder.
A parte da celebração a mitos cadavéricos também não me seduz. Mas a celebração cívica é fascinante.
Muita gente na rua é interessante. Senta-se num café qualquer, toma-se um expresso, uma água das pedras, doce de tão carbonatada e vê-se o tempo passar. O tempo e as pessoas.
…. no interior eu era ainda muito jovem e preferia ver as pessoas na procissão caminhando ao lado delas; as pessoas que para mim interessavam ser vistas eram mesmo as meninas internas no colégio das freiras, vestidas de anjos bons….
Naqueles tempos eu ainda não entendia que o tempo passava.
Quanto à celebração cívica, é mesmo fascinante por alguns momentos mas, como bem disse Karl Marx, “tudo o que é sólido desmancha no ar”.
Sobreviveram na mente as imagens das meninas do colégio, óbvio, de senhoras ricas da cidade pagando promessas para ficarem mais ricas ainda, e seguindo a procissão de pés descalços, dos meninos do seminário enfileirados de batina e com olhares piedosos e lascivos uns para os outros, e das ruas cheias de gente assustada com medo da danação eterna, proclamada pelos padres pregadores.
Essa multidão “de obreiros” era também emprenhada com a sutileza do antisemitismo primordial do catolicismo, quando o padre dizia em alto e bom som no sermão: “e os judeus o mataram!”.
dá um sono, certas leituras……..zzzzzzzzzzzzzzzzz
Andrei
Deve ser muito interessante e bonito estas celebrações.Gostaria de ver as praças repletas de pessoas e ficar apenas de observador dos movimentos da multidão de adultos e crianças.Aqui na nossa terra gosto de ir aos mosteiros e escutar os cantos gregorianos e não importa se eles são em latim ,mas provocam um estado de bem estar.Não são mantras mas atuam como se fossem,acalmam e
deixam uma sensação de paz.Aproveitem as próximas celebrações desta semana.Voce falou que foi a procissão do
Senhor dos Passos ,pensei que domingo tivesse sido a procissão de Ramos (aquela do jumentinho)?????
Aghata
Esse Sidarta andava muito concupiscente pelas procissões. Ao meu ver, um dos aspectos interessantes das manifestações religiosas públicas é esse fator de reunião social, que em algum momento apresenta viés cívico, visto que no fundo representa ainda uma forma de expressão bem popular, malgrado as opiniões contrárias.
Aghata,
Posso estar realmente confundindo as coisas. As pessoas vinham quase todas com ramos de oliveira. É a parte significativa da entreda do Galileu em Jerusalém.
Mas, aproveitando o ensejo, lembro que existe aqui uma procissão jamada da Burrinha. Acontece na quarta.
Gostaria de acrescentar algo que soube depois e achei interessantíssimo.
Dizem que a Municipalidade paga figurantes para as procissões. Por aí, compreende-se o quanto a semana santa é um episódio turístico por aqui.