Impressões luso-brasileiras
por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal
Decidi-me a cursar um mestrado em direitos humanos, na Universidade do Minho, na bi-milenária cidade de Braga. Nove em cada dez pessoas a quem comuniquei o intento estranhou a escolha. Enfim, por que não Coimbra? Porque a Universidade do Minho é muito boa – embora não seja conhecida no Brasil – e porque a vida em Braga custa muito menos.
Dez em cada dez pessoas a quem comuniquei o intento considerou-me maluco, apenas porque tirei uma licença não remunerada. De nada adiantou dizer que vale à pena trocar dinheiro por qualidade de vida ou pela realização de uma vontade. A renúncia pareceu à maioria tão extravagante que – ainda bem – ninguém pensou que estivesse fazendo gênero. Pensaram em maluquice mesmo. Pode ser.
Chegados em Braga, Olívia e eu, depois de dois vôos e dois trens, tratamos de nos acomodar no hotel, tomar banhos e, óbvio, sair para andar. Isso também ajudou a diminuir um pouco a raiva da perda das malas. Sim, as malas não chegaram. Mas, foram entregues no hotel à noite conforme prometido pela TAP e não acreditado por mim.
A cidade é encantadora, no sentido mais simples que esse adjetivo em desuso tinha. Poderia alinhar um bocado de lugares-comuns e aparentes obviedades: limpa, organizada, de arquitetura bonita, segura, silenciosa, com um clima agradável, preços menores que o imaginado…
Outra coisa que chama bastante a atenção, principalmente para quem somente tinha estado no Porto e em Lisboa, é a simpatia das pessoas. Não é uma simpatia pegajosa, como de regra a nossa, mas é bastante diferente do que se vê nas cidades maiores. Acho que é o ritmo de vida, mais lento por aqui, embora trabalhe-se bastante.
Outra impressão fortíssima é de riqueza material. No início falei em cidade bi-milenária e não era metáfora, invenção ou poesia. Esta é a cidade mais antiga de Portugal e sabe-se de um bispo desde o ano 45 d.C., por registros confiáveis. Então, trata-se de uma urbanização muito antiga e intensa, além de enorme profusão de equipamentos urbanos. Praças e mais praças, mais igrejas que em dez Olindas, jardins, ruas estreitas e grandes avenidas.
É terrível, mas vamos falar do que interessa tanto à enorme maioria, além de ser utilíssimo a comparações, é claro. Uma cidade de cento e setenta mil habitantes (meio Caruaru, portanto) tem dois centros comerciais do tamanho aproximado do complexo Plaza Shopping e Hiper de Casa Forte, cada um.
A todos os lugares pode-se chegar caminhando, desde que se tenha alguma disposição. O clima ameno, as calçadas íntegras, o trânsito organizado e a segurança ajudam. De bicicleta é melhor, mas isso fica para se pensar depois, quando se pesarem os custos.
As partes mais novas da cidade lembram, para quem conheceu, certos lugares do Rio de Janeiro de vinte e cinco anos atrás, como as Laranjeiras, Catete e Flamengo. Prédios residenciais, uns pegados aos outros, com o pequeno comércio em baixo e as calçadas de pedras portuguesas.
Para mim, um dos indicadores informais do nível de civilização de um lugar é a presença de idosos nas ruas. Ser possível aos idosos andar na cidade, dignamente, é difícil. Aqui, vêem-se nas ruas, praças, cafés, em todos os lugares, normalmente, sem temores, nem empregados a ajudarem.
Outro indicador é a convivência entre estilos e gerações. Esta é uma cidade em que quase dez por cento da população é de estudantes da Uminho. A coisa foi proposital. Em 1975, depois da Revolução dos Cravos, portanto, instalou-se a Universidade aqui e em Guimarães. Era uma cidade de velhos e, além disso, beata e conservadora. Hoje, é a cidade mais jovem do país, proporcionalmente. Vê-se de tudo.
Bem, acho que já vou me alongando muito e soltando uma avalanche de impressões. O contraste com certas coisas da vivência brasileira é proposital e deve-se a uma crença – provavelmente vã – de que ainda se pode fazer do nosso um país mais acolhedor. Se não for possível, pelo menos pode fazer ver que andamos mal e tratamos mal a nós mesmos. Vivemos na caverna, mas há sol e realidade fora dela.
Ia esquecendo, fórmula um sem Galvão Bueno não tem preço. E eles gostam sem disfarces de Massa, mas sem o besteirol e sem que o espectador sinta-se um oligofrênico.
Braga, 12 de outubro de 2008.
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* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada no Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.
Estamos muito satisfeitos com essa parceria, e temos certeza que renderá bons textos aos leitores deste blog.
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Postado em: 
A solução pro Brasil é a re-colonização.
Realmente não é difícil encontrar lugares mais civilizados do que o Brasil. É muito fácil.
Atualmente estão tratando de tornar bonito a eutanásia… É uma propaganda muito boa para diminuir a necessidade de gastos com o idoso, o improdutivo.
Quando o idoso é reintegrado na sociedade, como existe lá em Portugal, quando uma equipe visita e demonstra afeto com os idosos Não os tratam como tem sido cultuado, a idéia de eutanásia volta a ser absurda. Uma palestrante de um Congresso de Direito Penal e Processual Penal que aconteceu nesse ultimo fim de semana na paraíba retratou muito bem essa problemática.
Andrei, uma pequena correção, o bispado de Braga vem de algo entre 45 e 60 d.C., segundo as lendas. Antes de Cristo seria meio difícil de se ter um bispado.
O difícil vai ser se reacostumar ao Brasil, em geral, e a Recife, em particular, após morar um tempo por aí.
Márcio,
Obrigado pela correção. De fato, li na lista que há na Sé de Braga 45 d.C e escrevi 45 a.C.
Seria uma óbvia incoerência um bispado anterior a Cristo!
Sei que o espaço de comentário não é o mais adequado, mas sempre se pode acrescentar.
Será muito difícil readaptar-se, mesmo. Hoje, embora seja assunto para a próxima, inscrevi-me na saúde pública e tirei o equivalente ao CPF. A burocracia existe, mas é menor que no Brasil.
Esperei dez minutos para tomar uma vacina anti tetânica e uns cinco para o cartão de contribuinte. Não sei se inspiro cordialidade ou se é assim mesmo, mas todos têm sido muito cordiais.
Andrei,
Qual é o problema para uma reintegração ao Brasil?
É muito oportuno lembrar estando em época eletiva, nos acostumamos a ver nossas cidades, representadas pelo paraíso quase perfeito, que virá a se tornar perfeito em mais quatro anos, seja qual for o resultado…
Então, não esqueças que ao retornar, provavelmente já não estarão te esperando:
Às filas, pareceres, carimbos, e toda aquela burocracia;
Toda a violência, a formal e a disfarçada de malandragem;
O déficit de abrangência da saúde publica…
É tudo muito simples de ser resolvido, pelo menos é o que alguns me fazem crer!
Reginaldo,
Todo período eleitoral é a mesma coisa. A se acreditar no que se escuta, o mundo vai ser diferente dentro de poucos dias.
Não é realmente simples resolver problemas seculares, mas já seria de bom tamanho começar.
Andrei,
Boas comparações! Gostei muito do texto, todavia, não concordei com algumas passagens. Inicialmente, não acho que a nossa simpatia seja pegajosa, a bem da verdade, acho uma de nossas maiores virtudes “pra não dizer a única”! O problema é que ela se alastrou, e nós ficamos sorrindo com tudo, até das desgraças que nos acontecem habitualmente.
E a bagagem? Esse problema é universal! Mas, eu com minhas paixões consumeristas, fiquei a pensar se Portugal tem uma legislação de consumo tão boa quanto a nossa… De toda forma, o que adianta ter uma lei tão boa se o judiciário não funciona!
Caro Andrei,
Sou um lusófilo assumido. Apraz-me saber que você encontrou na terra de Fernando Pessoa tanta coisa boa. Todo dia agradeço a Deus pelo fato de termos sido colonizados pelos plásticos e líricos portugueses( e não por ingleses, holandeses, ou coisa equivalente). A exaltação pelo mundo contemporâneo de valores como juventude, força e vigor – e o desprezo pelo que é antigo e ancrônico( em suma pelo velho) – dá prova forte de como tem sido difícil a pugna pelo respeito e gratidão aos cabelos brancos da experiência e tradição. Parabéns aos nossos irmãos portugueses pelo tratamento respeitoso e humano dispensado aos idosos.
Caro Ênio,
O desprezo que temos pelo anacrônico e o culto pelo rápido, recente, novo, nos põem na vala comum da superficialidade. Adotamos o modelo de vida norte-americano com tudo que ele tem de ruim e de bom. Mais o ruim que o bom, porque não somos objetivos.
Um povo sem história, sem memória e sem dar importância a isso é o que vemos: um povo no precipício da barbárie.
Andrei parabéns por você poder realizar seu sonho. Aproveite !
Mas, também ficar provocando inveja, não vale. estar livre do Galvão bueno….blin blin !!!
forte abraço e muito sucesso
Andrei,
Fico satisfeita que suas malas tenham chegado… mesmo vocês tendo viajado pela TAP (T ake A nother P lane)…. se tivessem viajado pela TAM receberiam, daqui há um ano, 125 dólares do seguro das bagagens.
Laura
Fico feliz em saber da presença dos idosos nas ruas, pois para mim este também é um belo indicador. Sinto pena dos nossos idosos aqui no Brasil! Oxalá, um dia possam ter uma qualidade de vida semelhante.Ah! Malucos são aqueles que te acharam maluco, pois esta é uma oportunidade que toda pessoa de juízo deveria aproveitar na vida. Parabéns pelo artigo e pela “maluquice” de sair para novos horizontes.
[...] 1 – Impressões luso-brasileiras. [...]
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Prezado Dr. Andrei,
Foi uma alegria saber, que está a gostar da milenar “Bracara Augusta”, da UM, do povo e dos seus costumes! Igualmente, apreciei os comentários publicados, que demonstram um grande apreço por Portugal e pelo seu estilo de escrever. Quero lembrar-lhe, apenas, que no rodapé do seu artigo, consta que está em Minho, quando o melhor seria dizer “no Minho”, pois, trata-se de uma Província, que equivale em termos, a um Estado no Brasil, porém, sem a autonomia em igual nível. Administrativamente, uma Província, tem Distritos e estes, cidades, vilas e aldeias, agrupadas em Concelhos, com suas Câmaras = a Prefeiituras, no Brasil.
Saudações Lusíadas,
Caro José Miranda,
Como redator deste blog, faz mister dizer que se houve equívoco, não foi de nosso cronista, Andrei, senão meu próprio, que edito esta coluna.
Farei a correção indicada. Sugiro que leias as demais crônicas de Andrei, cuja série já vai em 43 textos.
Para acessar a mais recente das crônicas, onde também estão disponíveis os links para todos os demais textos, basta clicar logo abaixo:
http://acertodecontas.blog.br/cultura/impressoes-luso-brasileiras-feira-medieval/
Um forte abraço!
Muito bom, pena que o seu texto será totalmente inócuo para os brasilóides, para aqueles bairristas, que não aceitam a diversidade, e que tem uma tendência a lusofobia.