Impressões luso-brasileiras

out 13, 2008 by     18 Comentários    Postado em: Cultura

por Andrei Barros Correia*
Procurador Federal

Decidi-me a cursar um mestrado em direitos humanos, na Universidade do Minho, na bi-milenária cidade de Braga. Nove em cada dez pessoas a quem comuniquei o intento estranhou a escolha. Enfim, por que não Coimbra? Porque a Universidade do Minho é muito boa – embora não seja conhecida no Brasil – e porque a vida em Braga custa muito menos.

Dez em cada dez pessoas a quem comuniquei o intento considerou-me maluco, apenas porque tirei uma licença não remunerada. De nada adiantou dizer que vale à pena trocar dinheiro por qualidade de vida ou pela realização de uma vontade. A renúncia pareceu à maioria tão extravagante que – ainda bem – ninguém pensou que estivesse fazendo gênero. Pensaram em maluquice mesmo. Pode ser.

Chegados em Braga, Olívia e eu, depois de dois vôos e dois trens, tratamos de nos acomodar no hotel, tomar banhos e, óbvio, sair para andar. Isso também ajudou a diminuir um pouco a raiva da perda das malas. Sim, as malas não chegaram. Mas, foram entregues no hotel à noite conforme prometido pela TAP e não acreditado por mim.

A cidade é encantadora, no sentido mais simples que esse adjetivo em desuso tinha. Poderia alinhar um bocado de lugares-comuns e aparentes obviedades: limpa, organizada, de arquitetura bonita, segura, silenciosa, com um clima agradável, preços menores que o imaginado…

Outra coisa que chama bastante a atenção, principalmente para quem somente tinha estado no Porto e em Lisboa, é a simpatia das pessoas. Não é uma simpatia pegajosa, como de regra a nossa, mas é bastante diferente do que se vê nas cidades maiores. Acho que é o ritmo de vida, mais lento por aqui, embora trabalhe-se bastante.

Outra impressão fortíssima é de riqueza material. No início falei em cidade bi-milenária e não era metáfora, invenção ou poesia. Esta é a cidade mais antiga de Portugal e sabe-se de um bispo desde o ano 45 d.C., por registros confiáveis. Então, trata-se de uma urbanização muito antiga e intensa, além de enorme profusão de equipamentos urbanos. Praças e mais praças, mais igrejas que em dez Olindas, jardins, ruas estreitas e grandes avenidas.

É terrível, mas vamos falar do que interessa tanto à enorme maioria, além de ser utilíssimo a comparações, é claro. Uma cidade de cento e setenta mil habitantes (meio Caruaru, portanto) tem dois centros comerciais do tamanho aproximado do complexo Plaza Shopping e Hiper de Casa Forte, cada um.

A todos os lugares pode-se chegar caminhando, desde que se tenha alguma disposição. O clima ameno, as calçadas íntegras, o trânsito organizado e a segurança ajudam. De bicicleta é melhor, mas isso fica para se pensar depois, quando se pesarem os custos.

As partes mais novas da cidade lembram, para quem conheceu, certos lugares do Rio de Janeiro de vinte e cinco anos atrás, como as Laranjeiras, Catete e Flamengo. Prédios residenciais, uns pegados aos outros, com o pequeno comércio em baixo e as calçadas de pedras portuguesas.

Para mim, um dos indicadores informais do nível de civilização de um lugar é a presença de idosos nas ruas. Ser possível aos idosos andar na cidade, dignamente, é difícil. Aqui, vêem-se nas ruas, praças, cafés, em todos os lugares, normalmente, sem temores, nem empregados a ajudarem.

Outro indicador é a convivência entre estilos e gerações. Esta é uma cidade em que quase dez por cento da população é de estudantes da Uminho. A coisa foi proposital. Em 1975, depois da Revolução dos Cravos, portanto, instalou-se a Universidade aqui e em Guimarães. Era uma cidade de velhos e, além disso, beata e conservadora. Hoje, é a cidade mais jovem do país, proporcionalmente. Vê-se de tudo.

Bem, acho que já vou me alongando muito e soltando uma avalanche de impressões. O contraste com certas coisas da vivência brasileira é proposital e deve-se a uma crença – provavelmente vã – de que ainda se pode fazer do nosso um país mais acolhedor. Se não for possível, pelo menos pode fazer ver que andamos mal e tratamos mal a nós mesmos. Vivemos na caverna, mas há sol e realidade fora dela.

Ia esquecendo, fórmula um sem Galvão Bueno não tem preço. E eles gostam sem disfarces de Massa, mas sem o besteirol e sem que o espectador sinta-se um oligofrênico.

Braga, 12 de outubro de 2008.

________________________________

* O Procurador Federal Andrei Barros Correia está passando uma temporada no Minho, Portugal, realizando atividades de seu mestrado em Direitos Humanos, e durante sua estada naquele país irá enviar crônicas semanais ao Acerto de Contas, com o relato de suas impressões sobre aquela cidade e país, comparativamente com o cotidiano brasileiro.

Estamos muito satisfeitos com essa parceria, e temos certeza que renderá bons textos aos leitores deste blog.

18 Comentários + Add Comentário

  • A solução pro Brasil é a re-colonização.

  • Realmente não é difícil encontrar lugares mais civilizados do que o Brasil. É muito fácil.

  • Atualmente estão tratando de tornar bonito a eutanásia… É uma propaganda muito boa para diminuir a necessidade de gastos com o idoso, o improdutivo.

    Quando o idoso é reintegrado na sociedade, como existe lá em Portugal, quando uma equipe visita e demonstra afeto com os idosos Não os tratam como tem sido cultuado, a idéia de eutanásia volta a ser absurda. Uma palestrante de um Congresso de Direito Penal e Processual Penal que aconteceu nesse ultimo fim de semana na paraíba retratou muito bem essa problemática.

  • Andrei, uma pequena correção, o bispado de Braga vem de algo entre 45 e 60 d.C., segundo as lendas. Antes de Cristo seria meio difícil de se ter um bispado.

    O difícil vai ser se reacostumar ao Brasil, em geral, e a Recife, em particular, após morar um tempo por aí.

  • Márcio,

    Obrigado pela correção. De fato, li na lista que há na Sé de Braga 45 d.C e escrevi 45 a.C.

    Seria uma óbvia incoerência um bispado anterior a Cristo!

    Sei que o espaço de comentário não é o mais adequado, mas sempre se pode acrescentar.

    Será muito difícil readaptar-se, mesmo. Hoje, embora seja assunto para a próxima, inscrevi-me na saúde pública e tirei o equivalente ao CPF. A burocracia existe, mas é menor que no Brasil.

    Esperei dez minutos para tomar uma vacina anti tetânica e uns cinco para o cartão de contribuinte. Não sei se inspiro cordialidade ou se é assim mesmo, mas todos têm sido muito cordiais.

  • Andrei,
    Qual é o problema para uma reintegração ao Brasil?
    É muito oportuno lembrar estando em época eletiva, nos acostumamos a ver nossas cidades, representadas pelo paraíso quase perfeito, que virá a se tornar perfeito em mais quatro anos, seja qual for o resultado…
    Então, não esqueças que ao retornar, provavelmente já não estarão te esperando:
    Às filas, pareceres, carimbos, e toda aquela burocracia;
    Toda a violência, a formal e a disfarçada de malandragem;
    O déficit de abrangência da saúde publica…

    É tudo muito simples de ser resolvido, pelo menos é o que alguns me fazem crer!

  • Reginaldo,

    Todo período eleitoral é a mesma coisa. A se acreditar no que se escuta, o mundo vai ser diferente dentro de poucos dias.

    Não é realmente simples resolver problemas seculares, mas já seria de bom tamanho começar.

  • Andrei,

    Boas comparações! Gostei muito do texto, todavia, não concordei com algumas passagens. Inicialmente, não acho que a nossa simpatia seja pegajosa, a bem da verdade, acho uma de nossas maiores virtudes “pra não dizer a única”! O problema é que ela se alastrou, e nós ficamos sorrindo com tudo, até das desgraças que nos acontecem habitualmente.

    E a bagagem? Esse problema é universal! Mas, eu com minhas paixões consumeristas, fiquei a pensar se Portugal tem uma legislação de consumo tão boa quanto a nossa… De toda forma, o que adianta ter uma lei tão boa se o judiciário não funciona!

  • Caro Andrei,

    Sou um lusófilo assumido. Apraz-me saber que você encontrou na terra de Fernando Pessoa tanta coisa boa. Todo dia agradeço a Deus pelo fato de termos sido colonizados pelos plásticos e líricos portugueses( e não por ingleses, holandeses, ou coisa equivalente). A exaltação pelo mundo contemporâneo de valores como juventude, força e vigor – e o desprezo pelo que é antigo e ancrônico( em suma pelo velho) – dá prova forte de como tem sido difícil a pugna pelo respeito e gratidão aos cabelos brancos da experiência e tradição. Parabéns aos nossos irmãos portugueses pelo tratamento respeitoso e humano dispensado aos idosos.

  • Caro Ênio,

    O desprezo que temos pelo anacrônico e o culto pelo rápido, recente, novo, nos põem na vala comum da superficialidade. Adotamos o modelo de vida norte-americano com tudo que ele tem de ruim e de bom. Mais o ruim que o bom, porque não somos objetivos.

    Um povo sem história, sem memória e sem dar importância a isso é o que vemos: um povo no precipício da barbárie.

  • Andrei parabéns por você poder realizar seu sonho. Aproveite !
    Mas, também ficar provocando inveja, não vale. estar livre do Galvão bueno….blin blin !!!
    forte abraço e muito sucesso

  • Andrei,
    Fico satisfeita que suas malas tenham chegado… mesmo vocês tendo viajado pela TAP (T ake A nother P lane)…. se tivessem viajado pela TAM receberiam, daqui há um ano, 125 dólares do seguro das bagagens.
    Laura

  • Fico feliz em saber da presença dos idosos nas ruas, pois para mim este também é um belo indicador. Sinto pena dos nossos idosos aqui no Brasil! Oxalá, um dia possam ter uma qualidade de vida semelhante.Ah! Malucos são aqueles que te acharam maluco, pois esta é uma oportunidade que toda pessoa de juízo deveria aproveitar na vida. Parabéns pelo artigo e pela “maluquice” de sair para novos horizontes.

  • Prezado Dr. Andrei,
    Foi uma alegria saber, que está a gostar da milenar “Bracara Augusta”, da UM, do povo e dos seus costumes! Igualmente, apreciei os comentários publicados, que demonstram um grande apreço por Portugal e pelo seu estilo de escrever. Quero lembrar-lhe, apenas, que no rodapé do seu artigo, consta que está em Minho, quando o melhor seria dizer “no Minho”, pois, trata-se de uma Província, que equivale em termos, a um Estado no Brasil, porém, sem a autonomia em igual nível. Administrativamente, uma Província, tem Distritos e estes, cidades, vilas e aldeias, agrupadas em Concelhos, com suas Câmaras = a Prefeiituras, no Brasil.
    Saudações Lusíadas,

    • Caro José Miranda,

      Como redator deste blog, faz mister dizer que se houve equívoco, não foi de nosso cronista, Andrei, senão meu próprio, que edito esta coluna.

      Farei a correção indicada. Sugiro que leias as demais crônicas de Andrei, cuja série já vai em 43 textos.

      Para acessar a mais recente das crônicas, onde também estão disponíveis os links para todos os demais textos, basta clicar logo abaixo:

      http://acertodecontas.blog.br/cultura/impressoes-luso-brasileiras-feira-medieval/

      Um forte abraço!

  • Muito bom, pena que o seu texto será totalmente inócuo para os brasilóides, para aqueles bairristas, que não aceitam a diversidade, e que tem uma tendência a lusofobia.

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).