por Andrei Barros Correia*
para o Acerto de Contas
Deve existir alguma relação entre sabedoria e pudores quanto a certos assuntos. Não falo de moralidades triviais, mas de cuidados que as pessoas mais delicadas têm em abordar aspectos sensíveis. Um deles, para quem está fora do país de origem é extamente a conduta dos compatriotas. Enfim, só os tolos acham simpática uma primeira abordagem que consista simplesmente em falar mal ou ridicularizar o país e seus nacionais.
Mas, entre pessoas que se comunicam de forma clara e com balizas estabelecidas – ainda que implicitamente – os assuntos sensíveis tendem a ser possíveis. E são exatamente essas pessoas que podem e conseguem falar as verdades mais cruas sem resvalarem para a grosseria.
Aqui em Braga, fiz conhecimento com um indivíduo que se dedica aos estudos acadêmicos e a ser professor de universidade. Como a enorme maioria das pessoas em Portugal, este professor conheceu e conhece muitos brasileiros. E não desconhece absolutamente como são as coisas no Brasil, até porque já esteve por lá e já esteve em meia dúzia de sites com informações e dados estatísticos tabulados.
Um dia desses, conversávamos sobre amenidades e o diálogo foi-se encaminhando para o Brasil e os brasileiros. A certa altura, meu interlocutor contou que tinha estado, há três anos atrás, em um almoço com personagens brasileiros dignos de uma peça de Moliére. Não era propriamente uma questão de ridículo, ele teve cuidado de apontar, era um caso de ignorância, presunção e afetação evidentes.
Três dos convivas do repasto eram brasileiros em funções superiores na burocracia estatal, que estavam cursando doutorados em não sei o quê na universidade local. Um era juiz de alguma coisa e os outros o meu interlocutor não sabia exatamente que função ocupavam. Mas eram pessoas cheias de si e muito falantes, como assaltados por uma loquacidade que a distância estimula. E os cursos deviam mesmo ser em direito.
A conversa do almoço andava pelas dificuldades da integração européia, mas tomou o rumo do atlântico sul, até porque as presenças brasileiras tinham dificuldades de articular posições sobre o tema. Estavam em situação de ficar apenas reproduzindo lugares comuns sobre o assunto e convinha, portanto, encaminhar a palestra para coisas mais apetecíveis e ao alcance dos estrangeiros.
Os assuntos passaram então às favelas e outras obviedades nacionais, até que chegou um momento em que um dos funcionários graduados achou oportuno fazer a defesa da maior concessão de bolsas de estudo de quatro anos. Seria essa uma forma de se investir na capacitação das pessoas que, de uma forma ou de outra, decidem os rumos do país. Então, a conversa passou a girar em torno de meia dúzia de idéias pré-concebidas de pessoas que pareciam querer apenas se auto promover.
A essas alturas, o tal professor já tinha se resignado ao silêncio e ao diálogo consigo próprio. Ele que viajou por vários lugares, inclusive visitando a Índia e o Paquistão e para quem Europa, África lusófona, Brasil, Argentina, Perú, eram quase obrigatórios, evidentes e naturais destinos. Ficou ouvindo o desfile das superficialidades e dos pretensos brilhos adquiridos em revistas e achou que o espetáculo pararia por alí. Enganou-se, contudo.
Parou o relato, acendeu um cigarro, aspirou esses fumos demonizados algures e me disse: mas, ainda tinha mais bobagem por vir. Não me surpreendi e pedi-lhe que contasse o resto. O resto – ele disse – foi quase trágico e certamente dramático. Foi como se um espetáculo de presunção e atrevimento de ignorantes devesse ser finalizado com a exposição despudorada da projeção nos outros da estupidez que se traz em si.
Um dos culturetas brasileiros – continuou meu interlocutor – virou-se para mim e disparou: você, que já esteve na Índia, deve gostar muito mais do Brasil, porque lá não se vê tanta miséria! Devo ter ficado com cara de desconcertada estupidez e reforcei-me no silêncio, pois não havia saída. Aliás, a única saída era a porta de entrada do apartamento. A única escapatoria era deixar de ouvir funcionário pago por um país pobre a fazer discurso de revista de fofoca, enquanto goza férias na Europa para aprender nada de útil ao seu miserável país.
Nessas alturas, as mentes pesavam. A minha, que escutava a estória sem vergonha, mas com pesar, e a do professor, que se lembrava desse patético almoço. Pesavam de um peso triste, não de inconveniências ou gafes de sociedade. De ver o absurdo e não precisar comentar ou tentar teorizá-lo. Eu vinha prestando muita atenção no relato do tal almoço e tinha percebido a palavra cultureta, duas vezes repetida. Perguntei o que era.
Cultureta é um termo castelhano – explicou-me o acadêmico. Eles chamam assim as pessoas que fazem tipo de intelectual, aventuram-se em todos os assuntos superficialmente e não estão interessadas em conhecer nada a fundo. Afetam modos. Mas, na verdade, esses fulanos que conheci no tal almoço eram mais que isso, o caso é que a palavra foi a primeira que me veio à cabeça. Eram uns parasitas de um país pobre, falando tolices e despudoradamente revelando seu parasitismo, como se os ouvintes não conseguissem perceber a farsa.
A minha vontade – concluiu o professor – era dizer que passassem suas férias calados. Que não precisavam juntar à iniquidade o embuste. Mas, afinal era um almoço e não uma oportunidade de brigar à toa. Não adiantaria e ofenderia o anfitrião.
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* Andrei Barros Correia é Procurador Federal e editor do blog A Poção de Panoramix.





Pois é, figura bem comum, esse tipo de falso intelectual.
Intelectuais profissionais são poucos no brasil. Desses que gostam (e realmente o fazem) de passar de 9 a 10 horas na biblioteca todo dia, fazem ficha de leitura, publicam artigos em boas revistas, escrevem livros.
Mas, o que fazer, num país que tem na conta de intelectuais figuras como Ronaldo Azevevedo, Mainardi, Jô Soares, Magnoli e Kamel…
Nesse ponto, ao menos nas universidades (onde estão os intelectuais no centro da sociedade mundial, seja na europa, seja nos EUA, seja na china ou no Japão), acredito que, desde o governo FHC, com uma visível melhora no governo Lula, há uma tendência ascendente. As avaliações da capes e políticas como o Qualis, o currículo Lattes etc dão seriedade, publicidade e profissionalismo aos processos. Com todas as críticas que esses programas podem sofrer são avanços.
O que aqui na alemanha eles estão lutando para estabelecer (processos de avaliação e lista padrão de publicações e periódicos), nós conseguimos institucionalizar razoavelmente em alguns poucos anos. Claro, partimos bem debaixo e de uma situação em que as instituições não têm tanta tradição e força de barganha.
Mas o caminho é esse mesmo. Estimular hora de bunda na cadeira e talento, tem outra saída não.
Mas o que andei lendo sobre a academia espanhola e portuguesa tampouco é muito alvissareiro, para eles. E se comparamos universidades (e, volto a dizer, é nelas que estão os intelectuais europeus), não estamos tão mal na fita – talvez sim nas humanidades, mas em outras áreas menos.
Pablo,
Parece que a Espanha anda ainda pior que Portugal nesse assunto de universidades. Dizem que lá é menos rigoroso. Não sei bem, mas inclino-me a concordar.
As humanidades, no Brasil, estão hipertrofiadas. Não que haja pouco a estudar, pelo contrário. Mas é que há muitos, notadamente em direito.
é, na verdade li um artigo sobre a situação na espanha: com muitos professores se aposentando, vagas de doutorado sobrando, pouquíssimas defesas e professores extremamente desmotivados para pesquisar. O cara fazia uma ilação de que isso tinha a ver com o boom econômico dos anos 90 e inícios dos 2000, com o fato de que os jovens não queriam ficar na universidade porque a economia estava atraente. O risco é que países de capitalismo avançado baseiam sua competitividade, exatamente, na tecnologia e no conhecimento… no longo prazo…
A generalização para portugal ficou por conta da minha imaginação e preconceito. corrigido.
Há um livro interessante sobre isso:
Intelectuais e vivaldinos, de Pedro Demo (infelizmente parece que fora de catálogo)
Giovanni,
O livro está mesmo descatalogado, mas tem na estante virtual. Fiquei curioso.
Já leste a Traição dos clérigos (a tradução capenga é minha), de Benda? Julgo que deve ter alguma coisa com o livro de Pedro.
Andrei,
Em 2007 eu conheci um brasieiro que estava fazendo doutorado nos EUA com bolsa do CNPq. Uma vez ele me disse, após passar um tempo falando mal do Brasil, que não tinha a menor intenção de voltar e que se tivesse oportunidade de emprego lá, não a deixaria passar. Então eu perguntei se iria devolver o dinheiro que o governo brasileiro estava investindo nele e ele respondeu que não. Na hora eu não sabia se tinha mais raiva dele ou do Brasil, porque provavelmente ele sairia impune mesmo.
Tenho uma amiga que mora no Canadá e ela e contou que quando encontra a comunidade brasileira lá eles passam o tempo todo a falar mal do Brasil, de Lula e do bolsa família. Detalhe: a maioria deles vive com dinheiro do governo canadense, e não são bolsas de estudos, são como pensões.
Estes são mais dois excelentes exemplos de culturetas; gente medíocre que ajuda a tornar o mundo medíocre. A propósito, adorei o termo cultureta; só ele valeu o post.
Arthemísia,
Pois é. Quando ouvi essa palavra, cultureta, fiquei encantado.
Os brasileiros fora oscilam numa bipolaridade de esculhambar ou glorificar o país. Chega a ser estranho.
Então, sempre que se deparam com alguém mais informado sobre o Brasil, que em Portugal são até muitos, eles acham que o espetáculo não está sendo percebido.
Arthemísia, esse tipo de raciocínio é típico da maioria dos Brasileiros. Não é à toa que estamos nessa situação. É por isso que eu costumo dizer que, no fundo, a maioria dos que reclamam de políticos, queriam era estar na mamata!
Sinceramente, eu gosto do brasil, e quero voltar (faço doutorado na alemanha com bolsa alemã, ou seja, se quisesse ficar, não precisaria devolver dinheiro nenhum). Mas somente pelo fato de que nasci aí, e meus amigos estão aí, e prefiro me expressar e escrever na minha língua. Mas dizer que o BRasil é o melhor país do mundo, o grande país, o país do futuro, que caruaru tem o maior cuscuz do mundo, a maior fogueira, o centro de convenções é o maior da america latina, que nós temos o melhor astral, o melhor molejo, blábláblá, etcetcetc… é tudo uma grande besteira. Coisa de nacionalismo velho e, de fao, uma farsa pra encobrir os problemas.
A verdade é que nossa qualidade de vida é baixíssima. Vivemos em cidades enormes com um trânsito insuportável e com uma péssima infra-estrutura. As pessoas são extremamente mal-educadas: ninguém para na faixa de pedestres, ninguém respeita fila, todo mundo quer tirar uma pequena vantagem. Temos uma urbanização extremamente mal equipada, todos querem ter um carro e a classe média odeia andar de transporte público. A educação é de péssima qualidade, tudo funciona apenas pra quem tem dinheiro, e existe uma parcela da população considerável que é temida, porque é uma ameaça constante.
Mais. A verdade é que pensar de modo nacionalista, radicalmente nacionalista, numa sociedade que se reproduz de modo transnacional, não faz o menor sentido. Poucos problemas podem ser resolvidos, na atual sociedade mundial, nacionalmente. E mesmo que sejam, eles vêm; os problemas sempre vêm; quero dizer, eles voltam da periferia ao centro e se produzem exatamente porque as formas de diferenciação e reprodução social são globais e não nacionais. Não mais, ao menos.
Bem, temos um consolo. Nosso clima é bem agradável. E nada melhor do que um carnaval e uma boa praia de água morna.
Mas a gente há de convir ainda que nossa cerveja é uma das piores do mundo… Isso é uma dificuldade. Talvez só por esse motivo pensasse em ficar na alemanha. hehe
(a piada que faço com os alemães é que a maior cerveja alemã agora pertence à Inbev, a Beck’s, logo é uma cerveja brasileira).
Ótimo!
Obrigado, devo-te muito do conhecimento do episódio.