Raul Seixas: a formiga só trabalha porque não sabe cantar

ago 21, 2008 by     7 Comentários    Postado em: Cultura

http://br.youtube.com/watch?v=vtKoB3EBne4

Há 19 anos, partia num disco voador para ganhar as galáxias do infinito-vazio, o maluco beleza, Raul Seixas. Certamente deixou muitos fãs aqui na terra. Eu sou um deles.

A recordação mais primeva que tenho de Raul Seixas é quando tinha uns 8 anos de idade, e gostava de escutar “Mosca na Sopa”. Ainda lembro que tinha um vinil de Raul na minha casa, e eu vivia dizendo à minha mãe: “Bota a música da mosca, mãe!” E, completava: “Mãe: quando eu crescer, quero ser uma mosca! Igual esse cara de barba aí!” Será que eu consegui?

Talvez Gregor Samsa tenha sido mais bem sucedido que eu, embora não tenha atingido o estado de mosca, por mais que incomodasse a sopa da família e a do patrão… Além da sopinha de letras de nós, leitores de kafka.

É muita letra para pouca sopa? Talvez. Que importa?

O fato é que Raul incomodou muita gente, mas também cativou outros tantos. “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta…” Ops, isso é Chico Buarque, o queridinho de olhos bonitos e de voz suave. Antípoda de Raul? É arriscado dizer. Deixa isso pra lá…

Depois da Mosca, passei a gostar do ista: “Se você acha o que eu digo fascista / Mista, simplista ou anti-socialista / Eu admito, você na pista / Eu sou ista, eu sou ego / Eu sou egoista”

Já vi pessoas dizendo que “Raul Seixas foi um filósofo.” Sem querer ofender Raul, claro. Tratava-se de um elogio. Ele deve ter se contorcido muito na cova quando ouviu isso! Será “Rock and Roll” um prelúdio de sua sensação nessa hora? “Há muito tempo atrás na velha Bahia / Eu imitava Little Richard e me contorcia / as pessoas se afastavam / pensando que eu tava tendo um ataque de epilepsia.”

Acredito que Raul está mais para Teólogo da pós-modernice que para Filósofo… É dele (?), por exemplo, a tese de que o Diabo é o pai do Rock: “Enquanto Freud explica as coisas, o Diabo fica dando os toques…” Essa tese agregou muito valor ao pensamento nonsense. Mas, não entremos nesses méritos pseudoepistemológicos.

Já ouvi dizerem também que se tratava de um sábio chinês, desses Tao-Budistas. Tudo conversa fiada.

Na verdade, Raul Seixas era um Moleque Maravilhoso, o curinga de todo baralho: “Eu nunca cometo pequenos erros / Enquanto eu posso causar terremotos”. “Moleque da rua, moleque do mundo, moleque do espaço. / Eu exijo o meu osso!”

Agora, como não poderia deixar de ser, o clichê mais pacóvio de todos: era uma metamorfose ambulante!

A grande verdade é que Raul Seixas era muito chato. Não fez nada que preste, e ainda era metido à alquimista: transformava lixo em ouro! E ainda tinha a idéia louca de criar uma Sociedade Alternativa! Acredito que ele queria plantar batatas, digo, rizomas de toda sorte (entenda aí no link o que é um rizoma). Propulsor de cultura inútil, Rauzito não passou de um doido esquizofrênico-vagabundo que não gostava de trabalhar, e ainda passava o dia cantando, bebendo e fazendo filhos.

No entanto, a formiga só trabalha porque não sabe cantar, não é mesmo? Não! Pois, trabalhar dignifica o homem. Pois é, apenas o Homem se dignifica com o trabalho. Ele foi mais que isso, foi um grande criador.

Raul foi um compositor medíocre. Divertia-se, como gostava de dizer, em ficar jogando suas ‘bombinhas’ pela janela de casa e ouvindo o eco de suas micro-explosões. Trata-se de um caso típico de traidor de movimentos: muita gente tem motivo para não gostar dele. “E o jornalista, ele quer bajulação / Pois, new old é a nova sensação / A burrice é tanta, tá tudo tão a vista / E todo mundo posando de artista. / Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação / O problema é muita estrela, meu nêgo, pra pouca constelação…”

Não é por nada, não. Mas parece que essa música (Muita estrela, pouca constelação – composta em parceria com Marcelo Nova) já captava o que seria a música brasileira nos anos 90 e 2000: muita estrela, pouca constelação…

Devem estar se perguntando: “André, este texto confuso e contraditório não tem fim?” Creio que não… Melhor eu mesmo dar este fim. Agora mesmo. Cantarei para a morte deste texto, pois eu “tô trancado aqui no quarto de pijama porque tem visita estranha na sala, aí eu pego e passo a vista no jornal: um piloto rouba um “mig”; gelo em Marte, diz a Viking, mas no entanto, não há galinha em meu quintal… E, fim de papo.”

É melhor deixar o Carpinteiro do Universo sossegado, senão ele vem puxar meu pé na cama essa noite…

Se quiserem saber de quem Raul Seixas era eleitor incondicional, assistam o vídeo aí de baixo.

http://br.youtube.com/watch?v=FVndPQVU6DQ

7 Comentários + Add Comentário

  • Grande Rauzito!

    Poucos conseguem olhar a sopa pela ótica da mosca!

    Para quem gostar, a MTV fará uma homenagem a ele hoje às 22 horas.

    Não sei se vai ser boa, mas fica a dica.

  • Salve Kafka e a Metamorfose Ambulante de Seixas.

    Raul, um poço de surpresas.

    De “…amor só dura em liberdade…” ao “Rock das Aranhas”…

    …um amálgama de posições aparentemente contraditórias…

    …mas tão talentosamente postas em forma de música.

    Viva Raul e sua sociedade alternativa !!!!!! KKKKKKKKKKK

  • A formiga só trabalha pq n é parente de político, nem de juiz!

    VIVA,
    VIVA,
    VIVA A SOCIEDADE NEPOTISTA!

  • Muito Cruel seu texto… certo ele, viveu nas intensidades, foi herói e ídolo de milhares, morreu na merda, desprezado por todos…

    com toda certeza, sua “passada” valeu muito a pena, Raul é um dos melhores compositores que já existiram nessa terra…

    pena que os Raus não são maioria…ou pior, pena que eles são marginalizados.

  • Viva a Sociedade Alternativa, ou busque uma alternativa de sociedade, pois esta em que somos forçados pela necessidade a trabalhar e pagar tudo para todos já encheu.
    A formiga só trabalha porque não saber cantar, vivas para a cigarra.
    Ah, veja se gostam deste: O TRABALHO DANIFICA O HOMEM!

    • O trabalho escraviza o ser humano .A origem do termo trabalho vem de tripálio tripalium, um instrumento de agricultura e também de tortura de escravos. Ou seja trabalhar é um mal necessário, uma opre$$ão nece$$ária.Cito o humor, mas que faz sentido do “filósofo” Ramón Valdés, O Seu Madruga. “Não há trabalho ruim, ruim é ter que trabalhar”. Podemos estar até satisfeitos com nossas profissões, mas todas são obrigações sociais. Em tempo, cantar ou tocar um instrumento,m fazer arte em geral são trabalhos que podem dar muito mais trabalho.

  • Salve Raul, salve Kafka e salve Chico também!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).