A porta dos fundos da Guerra Fria: saindo da Alemanha Oriental pela Bulgária

mar 25, 2008 by     Sem Comentários    Postado em: Economia

por Nicholas Kulish
Em Munique, Alemanha
para o The New York Times

Duas cercas de arame farpado assombraram Olaf Hetze por mais de um quarto de século, desde sua tentativa fracassada de escapar do bloco comunista, não pulando o Muro de Berlim, mas o contornando por uma rota pouco conhecida pela Bulgária.

Hetze ainda acredita que ele e sua namorada, Barbara Hille, teriam conseguido se tivessem coberto melhor os seus rastros, arrumando as pontas soltas após cortar o arame farpado de uma cerca na fronteira. Se tivesse, Hetze disse em uma entrevista em sua casa em Munique, no início deste ano, ele possivelmente nunca teria visto as estrelas cadentes dos sinalizadores cortando o céu noturno, ou visto sua namorada girando no ar e caindo no chão, com sangue jorrando de um grave ferimento em seu ombro.

Mas o arame farpado não foi o único motivo para terem fracassado.

Graças ao trabalho de um dedicado pesquisador alemão, a plena extensão das tentativas de fuga pela Bulgária, e o risco, agora está vindo à tona. Pelo menos 4.500 pessoas tentaram escapar pela fronteira búlgara durante a Guerra Fria, estimou o pesquisador, Stefan Appelius, um professor de ciência política da Universidade de Oldenburg. Destes, ele acredita que pelo menos 100 foram mortos, mas jamais foi realizada uma investigação oficial.

Olaf e Barbara Hetze, que tentaram fugir da Alemanha Oriental pela Bulgária, em sua casa - Foto: UOL


Olaf e Barbara Hetze, atualmente casados e com dois filhos adultos, decidiram que sua fuga seria mais fácil longe das atenções das forças de segurança de seu país natal, a Alemanha Oriental. Eles escapariam pela Bulgária, um procurado destino de férias no Leste Europeu, com as ensolaradas praias do Mar Negro e cenários montanheses de tirar o fôlego, onde esperavam atravessar para a Grécia não-comunista.

“Eles tinham a mentalidade do sul”, lembrou Hetze. “Tudo parecia mais relaxado.” E tecnologicamente, ele disse, os controles de fronteira na Bulgária não eram tão sofisticados quanto os da Alemanha.

O que Olaf Hetze e Barbara Hille não sabiam é que milhares de seus conterrâneos da Alemanha Oriental pensavam o mesmo. E o governo búlgaro, com a ajuda ativa da polícia secreta alemã oriental, conhecida como Stasi, estava pronto para defender suas fronteiras.

A investigação de Appelius sobre as fugas pela Bulgária, descrita por especialistas mas não documentadas, é pioneira e quase totalmente autofinanciada. Hans-Hermann Hertle, que lidera a pesquisa sobre as mortes ao longo do Muro de Berlim no Centro de Pesquisa de História Contemporânea em Potsdam, disse que ficou impressionado com o trabalho de Appelius e que o centro espera cooperar com ele em relação à Bulgária assim que o estudo deles sobre o muro for concluído.

Appelius tropeçou nesta história em 2005, quando ele pesquisava os arquivos do governo alemão e se deparou com um relatório de autópsia de um homem jovem alemão, morto na Bulgária.

“Eu fiquei realmente chocado com aquilo”, ele disse. “Eu nunca tinha ouvido sobre um caso semelhante. E pensei, se havia um caso desses, provavelmente havia mais.”

As histórias que ele descobriu são angustiantes. Por exemplo, um jovem casal de Leipzig foi morto em 1975 por uma tremenda saraivada de balas, com o homem baleado 37 vezes e a mulher 25 vezes, tudo à queima-roupa. A última morte conhecida, a de Michael Weber, 19 anos, em 7 de julho de 1989, ocorreu a menos de quatro meses da queda do Muro de Berlim.

Ajudado por voluntários na Bulgária mas atrapalhado, segundo Appelius, pela relutância das autoridades em desenterrar uma história nada lisonjeira, ele encontrou evidência concreta de 845 tentativas de fuga, incluindo 18 mortes onde conseguiu documentar claramente a identidade das vítimas. Appelius disse que baseou sua estimativa de mais de 100 mortos e 4.500 tentativas de travessia em parte pelas entrevistas com patologistas e ex-guardas de fronteira búlgaros.

Appelius estimou que 160 pessoas conseguiram chegar ao Ocidente.

Em comparação, o centro de pesquisa em Potsdam diz que 134 pessoas morreram tentando escapar pelo Muro de Berlim, apesar da pesquisa estar em andamento e o número ser contestado por aqueles que dizem que deve ser mais alto. No geral, dizem os especialistas, mais de mil pessoas morreram tentando fugir pela fronteira alemã oriental.

A Stasi tentou encobrir algumas das mortes na fronteira búlgara, lacrando caixões e declarando que as mortes ocorreram em acidentes de trânsito. E até 1975, as autoridades búlgaras freqüentemente enterravam às pressas os corpos das vítimas nas zonas de fronteira onde tombavam.

O atual governo búlgaro não é acessível e o governo alemão não o pressiona a se abrir.

“Não são apenas cidadãos alemães, mas pessoas de muitos outros países, tchecos, poloneses”, disse um funcionário de um hospital militar búlgaro em Sófia, a capital da Bulgária, que ajudou Appelius ao procurar os relatórios de autópsia arquivados. Ele se recusou a dar seu nome por temer perder o emprego. O acesso aos arquivos foi bloqueado em fevereiro de 2007, depois que um artigo de Appelius foi publicado.

Foi um artigo desses que chamou a atenção de Barbara e Olaf Hetze. Ele trouxe de volta as lembranças do apuro deles, “provocando um calafrio em nossas costas”, eles escreveram para Appelius em junho de 2006.

Em setembro de 1978, Barbara estava em uma festa em uma discoteca, onde ela perguntava aos garotos ao seu modo desconcertante se algum deles tinha um capacete extra para motocicleta. Olaf Hetze tinha dois. Eles começaram a andar juntos de moto na área montanhosa perto de Dresden, que os alemães chamam de Suíça Saxônica.

De muitas formas, Hille e Hetze não podiam ser mais diferentes. Ela vinha de uma família contrária ao governo da Alemanha Oriental. Ele trabalhava em uma siderúrgica onde um alto forno não tinha sido concluído a tempo para a inauguração oficial. As autoridades trouxeram aço pronto e desviaram o vapor para fazer o alto forno parecer operacional. “Nos bastidores, aquela era a economia planejada”, disse Hetze. Ele resolveu partir se pudesse.

Hille estava profundamente magoada com o fato do governo não lhe permitir seguir a carreira de preservação histórica por causa de posição política de sua família. Ainda assim, ela ficou insegura e com um pouco de medo quando Hetze a convidou a fugir com ele. No final, ela decidiu que valia a pena correr o risco.

O casal -ela tinha 22 anos e ele tinha 20 quando fizeram sua tentativa- não era destemido. Eles concordaram que se fossem descobertos, eles seguiriam as instruções e acreditavam que na pior das hipóteses iriam para a prisão.

Eles tentaram escapar pelos Montes Rhodope, ao longo da fronteira grega, uma área onde, diz a lenda, nasceu Orfeu.

“Era um segredo público”, disse Bozhidar Hadzhidiev, 64 anos, um búlgaro que vive perto da fronteira e que disse estar ajudando Appelius por querer que seu governo preste contas por seus crimes. “Todas as pessoas sabiam que os jovens alemães vinham para cruzar a fronteira.”

Se as defesas de fronteira búlgaras careciam da tecnologia mais recente, elas mais que compensavam com um exército de guardas e informantes recrutados. As chances estavam contra os Hetze; até mesmo os mapas da área próxima da fronteira eram propositalmente incorretos ou incompletos.

Um policial à paisana os parou e interrogou quando estavam a meros 24 quilômetros da fronteira. Eles disseram que se perderam enquanto caminhavam, mas decidiram deixar seu carro, um Trabant alemão-oriental, estacionado em um local que não atrapalhasse na cidade de Rudozem. Nas duas noites seguintes, eles caminharam a pé, dormiam durante o calor do dia e caminhavam nas noites claras.

Eles estudaram as patrulhas daquele que consideravam ser um posto de fronteira por 24 horas antes de decidir às 23 horas da noite clara, estrelada, de 17 de agosto de 1980, em tentar sua fuga.

Hetze cortou o arame farpado no alto da cerca porque percebeu cabos elétricos na parte de baixo, possivelmente de um alarme. Ele então empurrou Barbara por sobre a cerca. Se distanciando para pegar impulso, ele saltou, sem primeiro cortar o excesso de arame farpado pendurado, visível nas fotos mantidas em seu arquivo da Stasi.

A vigilância não teria se importado muito se tivessem atravessado a fronteira e estivessem seguros em território grego. Mas eles ainda estavam no lado búlgaro da fronteira e na verdade tinham entrado em uma zona proibida de fronteira, onde soldados eram autorizados a atirar.

“Nós ouvimos sinais de alerta distantes, sirenes”, disse Hetze. Eles ouviram o latido de cães e correram por um leito de rio para tentar ocultar seu rastro. “Quando me virei, eu vi alguns sinalizadores voando perto de nós e ao mesmo tempo vi minha esposa se erguendo no ar, seu corpo esticado horizontalmente, e depois caindo no rio”, disse Hetze.

Ele permaneceu ao lado dela, rasgando sua camisa em bandagens improvisadas. Quando os guardas de fronteira os pegaram, eles dispararam balas no chão aos pés deles e deixaram os cães de guarda cravarem seus dentes na sua coxa.

Cada um deles foi sentenciado a dois anos e cinco meses de prisão. Hille foi solta após pouco mais de um ano. O governo Alemão Ocidental pagou cerca de US$ 75 mil em valores atuais, segundo estimativas de especialista, para libertá-la da Alemanha Oriental.

Quando Hetze foi libertado no ano seguinte, e sua liberdade também foi comprada pelo governo da Alemanha Ocidental, Hille ficou tão empolgada que ela deixou uma visita sentada à mesa de jantar de sua casa para pegar um trem até Giessen, uma cidade alemã-ocidental, e o centro de entrada pelo qual também passou.

Ela o encontrou no centro, vestindo a mesma calça jeans azul com buracos na perna da mordida do cão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).