Tragédia grega está muito longe do fim

fev 15, 2012 by     38 Comentários    Postado em: Economia

Greece-Economic-Ruins

O que está acontecendo na Grécia era uma previsão realizada por alguns economistas durante a formação do Euro. Era impossível colocar tantos países diferentes dentro de um mesmo sistema monetário.

Muita gente se pergunta como isso está acontecendo a apenas um país, mesmo com as dificuldades que outros vivenciam, como Espanha e Portugal, por exemplo.

Para entender isso é preciso voltar ao início da Comunidade Européia.

No momento da formação da Zona do Euro, vários países com produtividades muito diferentes se alinharam dentro do mesmo regime monetário. Dentro do mesmo sistema foram colocados países altamente produtivos, como a Alemanha, e países de baixíssima produtividade, como a Grécia e Portugal.

Desde a formação do dinheiro, os Governos gastam mais do que arrecadam. Isso é uma máxima capitalista que nunca foi modificada. A emissão de títulos sempre foi um subterfúgio para os Governos cobrirem o seu deficit corrente.

E quando o título vencia, qual era a solução?

Ou se imprimiam mais títulos para rolar as dívidas, ou em casos extremos se emitia mais papel moeda. Essa era uma solução feita por muitos Governos.

Na Europa não foi diferente. Até a chegada da Comunidade Européia.

Ao imprimir uma única moeda, foi estabelecido que os países na prática perderiam a liberdade para ter sua própria política monetária, já que não poderiam mais emitir títulos em euro de forma desordenada, muito menos emitir dinheiro.

Além disso, com a entrada dos países na Comunidade Européia, um punhado de grandes bancos se ofereceu para emprestar dinheiro a juros baixo para a adaptação dos países à Nova Europa. Por isso entenda-se transporte público de qualidade e reforma de edifícios históricos. E no caso da Grécia ainda tivemos a construção de muitos equipamentos públicos de esporte para as Olimpíadas.

Neste momento formou-se uma bomba relógio.

A maioria dos países se endividou muito, já que Governos adoram receber dinheiro hoje para pagar no futuro, e agora chegou a hora de pagar.

Só que os antigos mecanismos não estão mais disponíveis. Não se pode mais emitir dinheiro e os títulos estão com taxas de juros impagáveis, devido ao crescente risco.

No fundo ninguém pode reclamar do que vem acontecendo porque de uma hora para outra vários países construíram metrô, tiveram museus restaurados, viram o turismo explodir e ganharam melhores serviços públicos. Mas isso tem seu preço.

Teoricamente o sistema de moeda única é muito mais correto, pois evita-se que os Governos atuem de maneira escandalosa em gastos, mas na prática as coisas têm se mostrado bem diferentes.

A Grécia deve hoje 160% do seu PIB. A dívida está em 350 bilhões de euros, sendo 150 bilhões ao setor privado. Como gasta muito mais do que arrecada (sem contar os juros da dívida), tendo déficit primário, a situação tornou-se insustentável.

Quer saber o mais curioso?

O setor privado, prevendo a desgraça da derrocada grega, aceita reduzir sua dívida em até 70%. Não está pensando no bem-estar grego, mas apenas na tragédia econômica que pode vir no futuro. O setor privado é muito pragmático quando se trata disso.

Mas o restante da dívida é que parece não ter jeito. Parte significativa dela é com o Irã, que ameaça suspender o fornecimento de petróleo para a Europa, além de dívidas com outros países que nada tem com isso.

Restaria à Europa ajudar a zerar a dívida grega, mas quer alguma contrapartida mínima, que seria a redução de gastos.

Hoje a Grécia não consegue nem mesmo pagar seus gastos correntes. Está fazendo um corte drástico nas despesas públicas, reduzindo salários e demitindo 15 mil funcionários públicos. Neste momento isto é cruel mas não tem outra saída. Em pouco tempo nem mesmo conseguiria pagar sua folha de pessoal e importar petróleo. E sendo honesto, este é o limite máximo que dá para exigir. Além disso é pedir por uma guerra civil.

Outra solução seria a saída da Zona do Euro. Poderia ser algo menos traumático no curto prazo, mas ao invés de colocar no longo prazo a Grécia economicamente perto da Alemanha, a deixaria mais próxima da pitoresca Moldávia.

Mas o mais preocupante na saída da Zona do Euro nem são os problemas econômicos, mas os imprevisíveis problemas políticos, ainda mais se o país for expulso da Comunidade Européia. Isso tornaria o povo grego um pária social dentro do próprio continente.

Menos mal para a população mais jovem, que ainda tem como fugir da bancarrota indo buscar emprego em outros países europeus. O fato de ter passaporte europeu é um escape que já está sendo utilizado por muita gente. O lado ruim disso é que saem os melhores profissionais, deixando o país ainda menos produtivo.

Erra quem quer apenas ideologizar o problema. Isto é muito mais uma questão de finanças. Aliás, a Grécia dá uma aula de como não administrar bem as finanças públicas.

O pior é que mesmo com toda a austeridade e ajuda bancária, muita gente duvida que vá resolver.

E para um sistema financeiro, pior do que a quebra de um Governo é a quebra de confiança, pois tudo gira em torno dela. E é justamente por isso que a Europa está tentando achar uma solução, já que a quebra da Grécia não interessa a ninguém.

Por outro lado, ninguém quer colocar dinheiro ali e saber que daqui 5 anos a situação será a mesma.

A verdade é que a tragédia econômica grega está muito longe do fim.

38 Comentários + Add Comentário

  • Uma ótima análise Pierre, como sempre. Já já aparece um querendo demonizar o capitalismo malvado que tá deixando os pobres trabalhadores sem empregos e na miséria, mas não falaram mal do Irã que quer cortar suprimento de combustível, lógico Irã é anti-EUA e qq um contra o império deve ser tratado como amigo

    • Elderson, o capitalismo é sim o fermento de sua própria decadência. O problema é que como ele é o melhor que o ser humano conseguiu inventar em termos de sistema financeiro, temos que aturar seus (inúmeros) problemas.

      A quase totalidade dos problemas que ameaçam o capitalismo são criados pelo próprio sistema. Ele é praticamente autofágico, já que gera fortes desigualdades e concentração de renda no bojo de si mesmo e isso termina sendo insustentável, já que, de um jeito ou de outro, quem vai pagar a fatura são sempre aqueles que criaram o monstro (os ricos). Veja o caso da Grécia. Fatalmente, quem vai TER que socorrer a Grécia são os países ricos do mundo. Quem sabe até os EUA vão ter que entrar nessa, mesmo sem querer, já que os EUA não tem o menor interesse de que essa tragédia grega se espalhe pelo mundo. A crise é como um vírus que tem que ser contido o mais rápido possível. E quem banca isso é quem tem dinheiro.

      O fato é que no capitalismo, no final das contas, os ricos criam os problemas e depois sobra pra eles mesmo. Veja a dor de cabeça que a rica Alemanha está tendo com a Grécia. Quem manda ser a mais rica e poderosa do continente? Vai ter que pagar a conta, se não, caso a Grécia venha a “falecer”, o bicho vai pegar pra Alemanha também. E dona Merkel está com medo que isso aconteça pois pode afetar a sua imagem política e a de seu partido. Ela não quer ser conhecida como a mulher que deixou a Grécia quebrar. Ou seja, tá todo mundo no mesmo barco.

      No final das contas, a conta é sempre dividida nesse mundo econômico globalizado. Não tem essa de blindagem como queria fazer crer nosso ministro da Fazenda. Se a Grécia quebrar, é ruim pra todo mundo. Na teoria, pode até existir recursos, meios e artifícios que evitem os efeitos negativos de um capitalismo selvagem, predatório, bruto, globalizado e desvairado. Eu quero ver é na prática quando a coisa ficar feia de verdade e não apenas nos livros de economia. Papel aceita tudo. Nos livros você escreve o que quiser. Quero ver se as mirabolantes teorias desses economistas arrogantes vão, de fato, salvar o mundo, afinal, o cara que conseguir apontar uma solução VERDADEIRA, EFICIENTE, EFICAZ e EFETIVA para essa crise merece um Nobel. Um não, dois. Vamos ver se os muitos anos que esse pessoal passa estudando dentro das universidades levam a algum lugar real.

      • É piada dizer que os ricos pagam as contas das suas besteiras. Até onde eu saiba rico não recebe salário mínimo, não depende de transporte público e nem sofre com os cortes nos empregos.

        O custo disso tudo vai para o trabalhador, para o pobre e para a classe média que passa a engordar as estatísticas de pobreza. Isso na Grécia ou qualquer país do mundo.

      • É óbvio que os ricos não pagam a conta. O sistema é feito com várias linhas de proteção antes de um problema atingir os ricos. Poupe-me… os trabalhadores, funcionários públicos, a classe média, os pobres e a população em geral e que pagará as contas, com seu sofrimento, pobreza e humilhação.

  • Pensei que a Grécia estava muito bem, aliás sediaram as Olimpíadas em 2004, será que o Brasil vai pelo mesmo caminho? Aqui tem um agravante Copa + Olimpíadas, se fosse pelos menos um evento esportivo, mas logo 2, fico com muito medo de virar uma Grécia.

    • já li comentários dizendo que parte da crise grega se deve sim às Olimpíadas pq o governo grego gastou mais do q devia sem falar nos casos de corrupção e desvio de verba… soa familiar?

    • Isso é porque a Grécia não tem um estado como Pernambuco. Se o Brasil quebrar, Pernambuco sustenta. Ainda mais com excelente modelo de gestão by Dudu que temos!!!!

      • hahahahahahaha!!!

        É capaz Dudu aparecer pra dizer que Pernambuco vai salvar a Grécia. Os gregos devem estar implorando pela ajuda de PE. A Alemanha está contando com Pernambuco para a Europa voltar a prosperar.

        Depois da Grécia, Pernambuco vai reerguer a economia americana.

        Já foi marcada uma reunião no Banco Central europeu e estão todos esperando a presença de Dudu e sua equipe que vão coordenar um plano de crescimento para a Europa nos moldes do pernambucano.

      • kkkkkk! Muito bom o comentário!

        Se o mundo começa em Recife, nada mais “lógico” que ele termine na Grécia!

        • Recife salvaguarda do mundo

  • Boa análise…

    Pecou muito no “Desde a formação do dinheiro, os Governos gastam mais do que arrecadam. Isso é uma máxima capitalista que nunca foi modificada.”

    Isso nunca foi uma máxima Capitalista (O capistalismo na essência, o Lasses faire)

    • Verdade, nunca foi.

      Os governos usaram os mercados quando perceberam que não precisavam controlar gastos já que era mais facil “jogar” no mercado de titulos (bonds) e pagar a conta depois..

  • Pierre, vou guardar essa sua análise para o futuro.

    Sinceramente, tudo que você falou aí é como eu vejo o Brasil no futuro. Talvez daqui a 10, 15 ou 20 anos. O fato é que: para quem vive gastando mais do que pode um dia a casa cai. Isso vale para famílias, para empresas e para governos. Não tem para onde correr. Dinheiro não dá em árvore nem nasce do chão.

    O que a Grécia fez com o dinheiro foi tudo que qualquer guru de finanças pessoais desaconselharia. Desde o euro, ela sempre preferiu andar na contramão da boa gestão financeira. Em 2004 eu já lia alguns especialistas em economia de governos dizendo que a situação da Grécia estava mal. E, claro, essas pessoas são sempre mal vistas já que esses caras são sempre vistos como pessimistas e “do contra”.

    O erro foi a Europa ter ignorado as avaliações mais negativas, talvez iludida por uma situação aparente de bonança que mais lembra um castelo de cartas. Basta uma brisa um pouco mais forte… E parece que o nosso país vai no mesmíssimo caminho. O Brasil dorme em sono profundo num conto de fadas criado pela máquina de propaganda do governo (que faz inveja a Goebbels) e tenta iludir o povo com esse papo de que o brasileiro está rico e o mundo inveja o Brasil. Gasto público elevado, sobretudo com funcionalismo, contratações, folha de pagamento, altos salários e demais extravagâncias bem conhecidas do setor público. É muito dinheiro jogado na lata do lixo.

    Além disso, tem esses gastos colossais da copa e das olimpíadas e com a corrupção nesses eventos que também vai ser braba. Sem contar que o combustível para manter essa fábula de cinderela é o crédito, o que é péssimo no longo prazo (vide a crise hipotecária nos EUA) e, na prática, dá as pessoas a idéia que elas tem muito dinheiro e podem viver a vida fácil de milionário de novela.

    A pergunta que fica é: será o Brasil a Grécia do futuro?

    • temos a “vantagem” de poder emitir nosso próprio dinheiro em caso de extrema crise

    • Mas e a inflação?

    • A situacao brasileira é bem mais confortável do que a grega, e é bem improvável que nós não viremos uma Grécia em 10 ou 15 anos.

      Acho que a analogia não pode ser feita apenas com base em Olimpiadas ou Copa do Mundo. Por exemplo, Pierre falou na produtividade Alemanha Vs Grécia, mas não enfatizou que, pela ótica monetária, o que ocorreu foi que o marco alemão desvalorizou-se quando transformado em euro, enquanto o dracma grego valorizou-se enormemente, assim como as moedas espanhola e portuguesa.

      Por conta dessa alteração, a Alemanha ganhou duas vezes. Seus produtos ficaram mais baratos e a população ficou com “menor poder de compra” para importar, incentivando ainda mais a produção interna, enquanto que os PIIGS foram tentados a comprar produtos mais “baratos” do exterior, e que além de tudo já eram melhores (aqui entramos na produtividade).

      é por essas e outras que o Brasil e mesmo o BRICS lutam para evitar uma guerra cambial, como a que os EUA quase (ou de fato) provocaram com sua política emissionista. A composição mais diluida da cesta de moedas internacionais, ou mesmo mecanismos de comércio por moeda local, são possibilidades que o BRICS considera de maneira muito forte (vamos lembrar, hoje eles sao 20% da economia mundial ou 25%, se considerarmos a paridade de poder de compra).

      Afora isso, é bom lembrar que o Brasil tem Lei de Responsabilidade Fiscal, e a gastança, apesar de mal feita, é ainda controlada. não dá pra rolar as dívidas de forma tão escancarada como antes (por exemplo, o “presente” que JK deu para Jango ou o que o Médici deixou para o Geisel.

      Só pra registrar, a relacao dívida/pib brasileira vem descendo há uns bons anos, e só aumentou um pouco quando da crise, porque Lula incentivou o comércio para manter a economia aquecida (aquela do Pibão e da inflação querendo sair da meta). agora, a tendência de queda está de volta.

      “III – Dívida líquida do setor público

      A dívida líquida do setor público atingiu R$1.508,5 bilhões (36,5% do PIB) em dezembro, reduzindo-se 0,2 p.p. do PIB em relação ao mês anterior.

      No ano, a relação DLSP/PIB apresentou redução equivalente a 2,7 p.p. do PIB. O superávit primário acumulado no período contribuiu para essa redução com 3,1 p.p. do PIB; a desvalorização cambial de 12,6% acumulada no ano, com 1,6 p.p.; a variação na paridade da cesta de moedas que compõem a dívida externa líquida, com 0,2 p.p.; e o efeito do crescimento do PIB corrente, com 3,5 p.p. Essas reduções foram compensadas, parcialmente, pelos juros nominais apropriados, equivalentes a 5,7 p.p. do PIB.

      A Dívida Bruta do Governo Geral (Governo Federal, INSS, governos estaduais e governos municipais) alcançou R$2.243,6 bilhões (54,3% do PIB) em dezembro, reduzindo-se 0,3 p.p. do PIB em relação ao mês anterior, em função, principalmente, dos resgates líquidos de operações compromissadas. No ano, houve elevação equivalente a 0,9 p.p. do PIB.”

      Ou seja, calma antes de fazer qualquer comparação precipitada.
      abs

      • Perdão, quis dizer “é bem improvável que nós viremos..”

      • A atual crise grega pode ate acontecer com o Brasil, mas nossos fundamentos sao bem diferentes dos gregos. Dizer que gasto de Olimpiada foi o q provocou toda a crise é um raciocinio extremamente simplorio. Entao a Australia e a China deveriam estar em crise, alem da Alemanha, por exemplo.

        • Dizer que foi só pelas olimpíadas é simplório sim. Agora,que os gastos nos jogos foram um dos pilares da quebra grega isso foi. Só pra vc ter uma ideia, o Canadá se livrou em 96 das dívidas com as Olimpíadas de Montreal em 76. 20 anos. Lembrando que o Canadá de 76 era mais organizado que Brasil e Grécia atuais!!!!

        • Austrália, China e Alemanha tinham (muito) dinheiro para fazer o evento.

          A Grécia não tinha. Para ter o dinheiro suficiente, endividou-se muito e deu no que deu.

          É exatamente sobre isso que o texto de Pierre fala. Não pode dar certo uma nação se envividar como a Grécia se endividou. Contrair dívida que se sabe ser impagável mesmo no longo prazo é suicídio.

        • O México fez DUAS Copas do Mundo em 16 anos e não me consta que esteja ferrado.

  • Parabéns pela análise! Um dos melhores artigos que já li aqui no Blog!

  • Muito bom artigo, Pierre. Bem objetivo e simples. Obrigado!

  • Bom texto.
    Educativo.
    É isso: não dá pra ter vida de alemão sem trabalhar.
    Equilíbrio dinâmico, este o princípio que põe a bicicleta em pé. O resto, é ilusionismo.

    • ” não dá pra ter vida de alemão sem trabalhar.” (2)

      • Vocês por acaso querem dizer que os gregos não trabalham?

        • Não trabalham. São funcionários públicos. Só se preocupam em arrumar um jeito de sugar o máximo que puderem e ficar rico às custas da sociedade.

          Quer saber como era a Grécia há 10 anos? Visite um órgão público brasileiro.

        • Generalizações nunca são boas (inclusive essa)

          Mas se a Alemanha é considerada a “indústria” da Europa, comparativamente a Grecia ta bem longe mesmo..

      • Cartas entre um grego e um alemão
        Enviado por luisnassif, sex, 18/11/2011 – 10:40
        Por cesar s viegas

        Nassif, o texto abaixo reproduz duas cartas publicadas na Revista alemã Stern nos últimos dias. A primeira é de um alemão que se dirige a um grego reclamando na falta de honestidade dos gregos. A segunda é de um grego que responde a carta do primeiro. É imperdível.
        p>

        Um dos perigos da Crise da Dívida e do Euro na União Europeia, é precisamente o de criar um clima de hostilidade entre os europeus, despertando fantasmas e sentimentos negativos que em nada ajudam a superar os problemas. Julgo até que estas coisas não estão a acontecer por acaso… Alguém quer ver o circo a arder e não mede as consequências…A carta aberta de um alemão ao povo grego e a respectiva resposta de um grego, ambas publicadas no Stern, são o exemplo desse perigo… Há em ambas um equivoco fundamental: não são os povos responsáveis pelas opções politicas não escrutinadas, mas os respectivos governos, que cada vez mais obedecem a desígnios deletérios ditados pela Elite Global. Abraços.Artur Rosa TeixeiraP.S. – Absolutamente a ler até ao fim, esta resposta de um grego a uma carta enviada para a revista Stern escrita por um alemão que se sente ofendido com o “estilo de vida” grego.

        “Carta aberta” de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a “caros gregos”,

        Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia. Os gregos, que primeiros fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves.

        Caros gregos,

        Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E.Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.

        No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional. Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!

        Na semana seguinte, o Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Walter Wuelleenweber:

        Caro Walter Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.

        O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!… não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.

        A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.

        Estimado Walter,

        Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.

        Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:

        1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;

        2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.

        3. Os empréstimos em obrigações que contraiu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.

        4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.

        5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., etc.).

        6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o.Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.

        Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia? Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.

        Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.

        E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia: EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM! Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nosos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.

        E EXIJO QUE SEJA AGORA! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados. Cordialmente,Georgios Psomás

        Enviado por Artur Rosa Teixeira, correspondente da redecastorphoto em Portugal, Ultramar e arrabaldes

  • Trabalhar e poupar. Isso dói nos ouvidos da maioria dos Brasileiros.
    O importante é pegar crédito fácil e torrar tudo pra ter vida de galã da Globo.
    E ainda votar em governantes que usam essa ilusão para enrolar a população.
    Quero ver quando a conta chegar!!!!! Quem vai pagar ? Que vai sofrer mais ?

    • Tá bom, então, vocês me convenceram que “os gregos não trabalham”.

      • Tá se fazendo de ALFiel é Martins ?

        • Não, estou apenas repudiando comentários tronchos como o que disse que os gregos “Não trabalham. São funcionários públicos. Só se preocupam em arrumar um jeito de sugar o máximo que puderem e ficar rico às custas da sociedade”.

    • Alexandro, quer dizer que a culpa é do povo que não quer trabalhar e poupar.

      Meu caro, o capitalismo atual cobra exatamente das pessoas o endividamento. Há décadas, desde que os neoliberais destruíram o estado de bem-estar social é o endividamento dos trabalhadores que faz o mundinho da economia girar, e os banqueiros baterem recordes de lucros.

      • Pois é. Não estou negando isso. Só quero dizer que depois não adianta chorar o leite derramado.
        E quem mais sofre sem leite são os mais pobres!!! A mentalidade da maioria é essa : Se endividar e gastar o que não tem para levar vida de personagem de novela das 8. Depois, quando o negócio aperta, ninguém assume a cagada. A culpa é dos outros, eu sou o coitadinho, ou seja, o velho mimimi de sempre!!

  • Souberam que o petista Dilson Peixoto ganhou 3 mil (isso mesmo, R$ 3.000,00 – três mil reais) a título indenizatório por danos morais em face de um conhecido blogueiro da cidade?
    A decisão foi de 2009, mas só agora o ex-Presidente do Grande Recife Consórcio de Transportes foi autorizado pelo Juiz a solicitar o levantamento da quantia via Alvará Judicial.
    Isso só porque o pobre jornalista foi falar da baixa estatura moral do político.
    De fato, ele não é tão alto assim, deve medir uns 1,65m.
    Não mais que isso…

  • Discordo Pierre, não é uma questão de ideologizar, mas de criticar o funcionamento de um sistema econômico que termina por onerar os trabalhadores.

    Ou você crê que o vínculo promiscuo do Goldmann Sachs com a elite financeira e governista grega é algo meramente ideológico?

    Os mesmos caras que afundaram a Grécia são os que agora estão no poder.

    Reduzir tudo a argumentos técnicos é mais ideológico do que qualquer crítica de esquerda, pois esconde (propositalmente ou não) as verdadeiras origens dessa crise.

    http://www.espacobanal.com.br/2011/11/da-democracia-debitocracia.html

  • Excelente post, Pierre!
    Abs!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).