Aeronáutica tem cartas de Lamarca

mar 1, 2010 by     3 Comentários    Postado em: Economia

AULAS COM O GUERRILHEIRO – O ex-capitão Lamarca ensina prática de tiro a funcionárias de um banco.

por Felipe Recondo e Marcelo de Moraes
de O Estado de S.Paulo

Nos documentos, ex-capitão do Exército mostra preocupação com a ‘parada’ dos grupos de combate à ditadura

Os arquivos do Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica (CISA) contêm três cartas inéditas escritas em 26 de novembro de 1970 por Carlos Lamarca e apreendidas num aparelho da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no Rio de Janeiro. Nas cartas, destinadas a companheiros de guerrilha, Lamarca mostra preocupação com o que chama de “parada” de outros grupos de combate à ditadura militar.

Ex-capitão do Exército, Lamarca tinha trocado a vida do quartel para integrar grupos de combate ao governo militar que comandava o Brasil. Acabou sendo morto pelas tropas do Exército em 17 de setembro de 1971, na cidade de Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia.

As cartas estão entre os documentos entregues pela Aeronáutica ao Arquivo Nacional, conforme o Estado noticiou ontem. A força aérea havia informado antes que esses papéis haviam sido destruídos.

Na época em que escreveu os textos, Lamarca tinha se tornado o principal líder dos grupos armados, principalmente depois da morte de Carlos Marighella. Ele reclamava, porém, da resistência de outras siglas, que desejavam mais tempo para organização política e montagem de sua infraestrutura.

Nas cartas, Lamarca faz críticas pesadas a esse tipo de comportamento da esquerda e informa, por código, que nos próximos dias seria feito um novo sequestro de diplomata.

De fato, isso aconteceu 15 dias depois, com a ação tendo como alvo o embaixador da Suíça Enrico Buscher. Depois de muita discussão, o governo aceitou libertar 70 prisioneiros em troca do embaixador, mas vetou vários nomes pedidos pelos guerrilheiros.

“CLÁUDIO”

Segundo o informe número 079, transmitido pelo CISA em 15 de janeiro de 1971, as cartas comprovam que “persistem as divergências entre as esquerdas, continuando a VPR a ser acusada de militarista, ou seja, continua a ser acusada de relegar para um segundo, terceiro ou quarto plano o trabalho de massas e a organização do Partido do Proletariado que, segundo os marxistas-leninistas é indispensável para fazer a revolução”, narra o documento guardado pela Aeronáutica.

Os textos de Lamarca foram redigidos à maquina e ele se identifica como “Cláudio”, um dos codinomes que usava. É um momento especialmente difícil para a guerrilha, uma vez que o governo intensificara as prisões e vinha conseguindo obter informações sobre a identidade de seus integrantes, com tortura e infiltração.

O próprio Lamarca enfrentava problemas com o cerco pesado da ditadura. A despeito disso, Lamarca cobrava mais ações, lamentando que seus colegas preferissem ter tempo para fortalecer uma recém-formada frente reunindo várias siglas de combate ao governo.

“Penso que a solução para o impasse da esquerda seria o estabelecimento de uma Frente que se fortalecesse na prática. Não vejo como se fortalecer parada”, escreve Lamarca num dos textos. “Estamos vivendo um momento histórico fundamental para o processo. A classe dominante está em ofensiva política – temos de desmascarar essa ofensiva. Não podemos dar o tempo à burguesia, tempo que ela precisa para, através da propaganda, neutralizar o proletariado”, acrescenta.

E nos textos expõe todo o racha que os grupos de esquerda vinham enfrentando, reflexo, especialmente, da prisão e desaparecimento de alguns de seus principais militantes.

“CONVERSA ANTIGA”

“A colocação que a VPR faz do sequestro um fim e não um meio não aceitamos. Mas não vamos acusar nenhuma Org (organização) de fazer da ação de numerário um fim e não um meio. Não vamos acusar porque seria jogada. Colocamos a questão em votação aqui, apenas um militante discordou. Estamos pois de cabeça erguida – vamos executá-la porque politicamente é correta”, diz, em referência aos preparativos para o sequestro do embaixador.

“Esta questão de parar para montar infra existe desde março – é conversa antiga – e não vamos entrar nessa. A infraestrutura nunca será permanente, terá sempre de ter flexibilidade. No mais, não se executa ação todos os dias, sempre será hora de montagem de infra estrutura – e sempre é hora de ação”, afirma. E dispara, preocupado com os efeitos negativos da propaganda do governo: “como a massa vai ver essa questão só de assalto? O governo vai acabar conseguindo nos projetar como bandidos”.

AÇÕES ARMADAS

Em seguida, Lamarca anuncia que pretende continuar com as ações armadas, apesar da resistência de alguns grupos.

“É hora de avançar e vamos avançar. O povo deu a demonstração de que está descontente, pelo grande número de votos em branco, nulos e abstenções. Essa de dizer que a massa não entende nada não cola mais. A prova que entende está aí. Agora está na hora de explorarmos isto – ficar parado numa hora dessa é imaturidade. Quando teremos uma oportunidade como essa?”, escreveu ele.

3 Comentários + Add Comentário

  • Assassino terrorista.

    • Que pena que ainda há pessoas que confundem luta por liberdade e democracia com banditismo.
      Era exatamente isso que Lamarca tinha medo. De ser confundido como bandido.
      Admiro estes homens e mulheres que morreram lutando por nossa democracia.

  • Chega-me dar nojo ver um governo corrupto tratar assaltantes e assassinos como heróis da pátria, isso é repulsivo

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).