BNDES financia quem não precisa

fev 18, 2008 by     13 Comentários    Postado em: Economia

klabin
Klabin pega emprestado a 8,6% e empresta a 11,25%

No post anterior (clique aqui), falava do aporte que o Governo fez no BNDES, de R$ 7,3 bilhões.

Em poucas palavras, para fazer isso, o Governo pega emprestado a 11,25%, e repassa ao BNDES a 6,25%. Logo, tem 5% de prejuízo na operação, sob a forma de "subsídio" à produção.

Nada mais normal, se não fosse por um motivo.

Em anos anteriores, o BNDES não conseguia emprestar todo o seu recurso, porque a TJLP ainda estava muito alta. As empresas não teriam projetos disponíveis que tivessem mais retorno que isso.

Porém hoje a situação é outra, e o BNDES não dispõe de tanta oferta de recursos no FAT, e recorre ao Tesouro.

Mas muitas empresas estão simplesmente pedindo dinheiro emprestado no BNDES, e ao mesmo tempo compram os mesmos títulos que o Governo teve que vender para financiar o próprio BNDES.

A empresa tem dinheiro em caixa, mas prefere comprar títulos do Governo a 11,25%, e pegar dinheiro emprestado no BNDES a 8,5%. No final, o Governo está "dando"dinheiro a quem não precisa.

Vamos ver o caso mais gritante: a empresa Klabin.

A Klabin é a maior produtora de papéis do país. possui 200 mil hectares de florestas plantadas. É um empresa que merece respeito por praticar boa governança, e por ter uma política ambiental decente.

A Klabin, em seu balanço de 2006 (clique aqui), apresentava R$ 2,258 bilhões em aplicações financeiras. Em outras palavras, está investindo seu dinheiro, em grande parte em títulos públicos, a 11,25%. Está emprestando ao Governo a 11,25%.

Por outro lado, o BNDES empresta à mesma Klabin, R$ 748 milhões, a uma taxa de juros média de 8,6% (conforme próprio balanço).

A atitude da empresa está correta: maximizando seus recursos. Mas o Governo não deveria estar aportando os recursos do Tesouro em situações como essa. A empresa deveria investir primeiro seu próprio dinheiro, para só depois ter direito a pedir emprestado ao BNDES.

Fazendo uma conta grosseira, o Governo paga de juros à Klabin, pelos mesmos R$ 748 milhões, R$ 84 milhões. E a Klabin só paga ao BNDES R$ 48 milhões.

Quer dizer, só com esta empresa o prejuízo é de R$ 36 milhões.

É justo isso?

A empresa investe com recursos do BNDES, mas se nega a fazer os investimentos com seus próprios recursos.

13 Comentários + Add Comentário

  • E por que não seria justo? Nem a Klabin nem o BNDES tem culpa pela necessidade do Bacen em manter as taxas de juros dos títulos públicos em um patamar tão elevado.

    Como você mesmo colocou é uma oportunidade que surgiu recentemente e deve ser aproveitada enquanto durar.

  • Meu caro Pierre,

    Não resta dúvida que o BNDES subsidia os grandes grupos industriais no Brasil. Se eu pudesse, pegaria o máximo de dinheiro emprestado do BNDES, investiria no mercado financeiro, pagaria a minha dívida com este banco e ficaria com o lucro. Parte da captação do BNDES vem na forma de tributos via o FAT. O governo tributa o trabalhador e depois subsidia os grandes grupos industriais.

    Vão argumentar que os investimentos do BNDES criam empregos. Mas quando compramos um apartamento ou um carro financiado também estamos gerando, indiretamente, empregos. Então por que não compramos uma casa ou um carro com a TJLP? Mas, vai mexer no BNDES!?

    Um abraço,

    Tiago

  • Enquanto para se conseguir recursos para a pequena empresa via BNDS, é necessário alêm de um projeto, garantias reais para se conseguir o dinheiro. Levando em conta que as pequenas e médias empresas são a que mais emprega neste país.

    Vale salientar, que para a pequena empresa o custo do crédito torna-se muito alto em razão da necessidade de consultorias e legalização e reavaliação de bens para compor essa garantia.

    Como vê, esta é mais uma prova que afirma: o sistema finaceiro brasileiro empresta via recursos públicos muito mais para quem não precisa.

  • “A empresa deveria investir primeiro seu próprio dinheiro, para só depois ter direito a pedir emprestado ao BNDES” – O argumento é válido, mas como regulamentar exatamente o tempo, quantidade e mesmo as áreas de aplicação deste dinheiro e, assim, definir o “antes” a ser cumprido para poder, então, uma grande empresa pedir dinheiro emprestado ao BNDES?

    A questão está muito mais não na restrição às grandes empresas, mas na desburocratização e facilitação cada vez maior às pequenas e médias empresa exatamente como dito Valter Domingos no comentário anterior.

    Por outro lado, o problema não reside em si no “emprestar a quem menos precisa”, até porque não é totalmente verdade, já que este aumento de margens de lucro são as mesmas margens sobre a qual qualquer investimento privado trabalha em cima a fim de obter uma segurança que virá a fomentá-la a tomar investimentos de maiores riscos.

    Justamente estas grandes empresas, assim se fazem porque conseguem manter uma margem maior de lucro a ser investido em áreas de risco que, dando certo, alavancam o país.

    O médio e pequeno empresário não vai poder investir, por exemplo, em licitações públicas da tecnologia 3G com milhões em infra-estrutura impossíveis de serem desembolsados apenas pelo investimento público. Para fazer isto, é necessário exatamente estar fora da alçada do “pequeno” e “médio”. Ou, então, em parcerias público-privadas de tecnologia de ponta. Na indústria farmacêutica as regras são igualmente cruéis, mas só por falta de uma busca de humanização governamental. No entanto, o governo sozinho não dispõe de capacidade para atuação na área, etc. Os exemplos são inúmeros.

    É preciso, da mesma forma, salientar que os observadores (mídia e oficiais) responsáveis pelos empréstimos via BNDS têm feito um trabalho exemplar. Há alguns anos atrás, principalmente anos 80 e começo dos 90 (vide a roubalheira de monstros aleijados tal qual SUDENE), não havia uma regulamentação de que tipo de empresa recebe os financiamentos e, principalmente, em que área o dinheiro deveria ser aplicado – se realmente visando um desenvolvimento nacional.

    Tem-se que abrir mais espaços para uma tributação menor à base da pirâmide, pôr medidas como o super-simples para cumprir totalmente o seu papel; tira a classe média do sufoco irreal em que se encontra historicamente. São necessárias, por exemplo, medidas como um comprometimento explícito do receituário do BNDES advindo diretamente da tributação do FAT com o fincanciamento a pequenas e médias empresas sob uma questão realmente de priorização.

    Uma interferência restritiva nunca será bem-vinda e aceita pelo mercado. Infelizmente, e me sinto tão velho quanto os tantos outros que eu mesmo critiquei por dizer isto, são os grandes empresários que não só mantêm as rédeas, mas também se encontram hoje, mais preparados para recuperar uma economia em cruéis momentos de oscilação como a atual do mercado internacional. Problemas que no âmbito sequer são realmente nossos, mas que nos atingem de cheio.

    Muito mais, é preciso expandir o acesso a quem precisa, torná-los de uma posse concordante com o poder que realmente representam (a porcentagem de micro, pequenas e médias empresas no mercado brasileiro deve ser muito bem conhecida por todos aqui).

    A urgência não está no levantamento de que o BNDES financia quem não precisa. Mas sim de que o BNDES não anda financiando quem precisa ou o tem feito com um retorno indevido de segurança.

  • Meu caro Pierre,

    Sabemos que a política de financiamento do BNDES, assim como dos outros bancos de desenvolvimento em atuação no país, é submetida à fiscalização dos investimentos pelo banco.
    Essa política adotada pela empresa Klabin como por qualquer outra empresa de porte e com excelente assessoria contábil é correta.Como assim, correta?
    Não observando os valores, mas sim as contas da empresa, e aí é que está a “jogada”, os recursos emprestados pelo BNDES são alocados na linha produtiva de empresa, já que para as outras parcelas do financiamento serem liberadas é necessário comprovar que o investimento anterior foi feito.
    Além disso, os investimentos realizados no aumento da produção e expansão da empresa devem ter sua própria contrapartida, ou seja, mais uma condição para que o dinheiro seja liberado.
    E ainda, se o mercado de títulos públicos está aí, à disposição da sociedade para investimentos, devemos impedir às empresas de diversificarem suas carteiras? De buscar o retorno maior?Elas estão “jogando o jogo” e não há nada de errado nisso!
    Na realidade, contabilmente, o dinheiro tomado não é o dinheiro emprestado!!
    Toda essa questão, no entanto, passa pelo fato dos gastos públicos serem exorbitantes e ruins. Afinal, com aproximadamente 40 ministérios, uma enxurrada de mais de 25 mil cargos comissionados, previdência no prejuízo ano após ano, não há juro que baixe!

  • queria saber a argumentacao do BNDES sobre o assunto. É tao evidente a operacao…e coloca o BNDES numa posicao tao frágil…alguém tem um link para uma reacao do BNDES ao assunto?

  • Prezado Fortunato

    Como disse no próprio post, a empresa está correta em realizar este tipo de procedimento.
    O BNDES é que deveria, neste momento, começar a selecionar os seus possíveis investimentos, já que está começando a faltar recursos do FAT.
    Além disso, como o próprio Tiago falou acima, outros investimentos também geram renda e emprego, como habitação, mas nem por isso conseguimos financiar através da TJLP.

    Abraço!

  • Haverá sempre uma argumentação convincente para justificar a indescência econômica. É da prática do chamado “mercado”. O cinismo já está incorporado ao cotidiano político (via Congresso mensaleiro), social (via Ongs sanguessugas) e econômico (via inadimplências eternamente prorrogáveis).
    Essa descarada tranferêcia de dinheiro público para o empresariado não deve ser gratuita. Por trás de tudo, certamente haverá um propinoduto capaz de manter a operação de forma ininterrupta.
    Não é por acaso que a Educação recebe tratamento marginal, pois quanto mais gente ignorante compuser o universo de cidadania, mais prefeitos corrutos, parlamentares mensaleiros e autoridades venais contribuirão para que esste sumidouro de recursos continue distanciando as faixas de renda no país.

  • Caro Fortunato,
    Em um País onde nós mesmos elegemos nossos legisladores, de onde
    devemos cobrar uma atitude mais correta?, presidentes fracos ou semi-…, deputados corruptos, senadores sonegadores, (desculpe),
    presidentes de bancos públicos indicados, quem poderá cobrar deles, sabemos que em nosso país quem manda são sempre os mesmos donos, a população, ou nós mesmos, não somos donos de nada, pois você compra um carro ou uma casa, mais no entanto estamos só adquirindo o direito de usar, pois se não pagar o IPVA ou o IPTU eles tomam de voce, não consigo nem pegar um emprestimo mixuruca que não me dão credito, porem as grandes empresas…

  • Nao e so o BNDES que fiancia quem nao precisa…….o BB a CEF alias todso os orgaos do governo da para quem nao precisa e pior tambem nao pagam

  • e uma vergonha ???
    estou tentando um financiamento já tem quase um ano , mas sempre falta documento falta isso falta aquilo eo tempo vai
    passando e não consigo alcançar meus objetivos para minha
    empresa , mas dinheiro para os tubarões isso não falta eu
    pergunto sera que eles vão para o céu ou inferno ???
    o que trava o brasil e a ganacia dos bancos que só vizam
    lucro ,lucro . eu aho lindo a propaganda do governo, eu
    gostaria de acompanhar um parente de algum deputado
    presidente , ou seja essa turma de pilantra que atrapalha o brasil tentando um emprestimo seria até covardia mas eu gostaria de ver …..

  • Meus caros, os grandes culpados de tudo isso somos nós, ignorantes Brasileiros.
    Nós temos o poder em mãos na hora de votar e temos o direito e o dever de acompanhar o que de foi de fato prometido em campanha e qual era ou é o plano de governo de cada um dos candidatos. Será que estão cumprindo, se sim OK, mereceu meu voto. Não estão, por que votar neles novamente.

    Temos ferramentas para ver que os presidentes dos bancos governamentais e do BNDS é amigo intimo de grandes empresários ou governantes do país.

    Infelizmente o brasileiro não é curioso, e olha para o próprio umbigo, queremos “ganhar” sempre, falo de nós brasileiros, e não é diferente de grandes empresários e governantes.
    Vamos levar a política com mais seriedade e assim quem sabe elegemos quem realmente pode fazer do Brasil um país mais justo.

    Ao invés de ganhar panetone de Governadores ou uniformes de futebol, para justificar “votos” tentam negociar empréstimos ou planos de governo mas sérios e justos.
    O Voto não se negocia, mas se da a quem merece e negocia por nós brasileiros a um país mais justo!

    OBS: Fato é que o Governador do DF SR. Arruda vai sair limpo disso tudo e que o Presidente do Senado Sr. Sarney continuará na política do Senado. E ai??
    Não votarei nele e em quem certamente também em quem colocá-lo de volta ao poder.
    Mas sempre irá haver brasileiros que darão e depois irão querem empretismos a jusros baixo nos bancos e etc….. Só nos resta rir disso tudo.

  • Já que levantaram o assunto, a dois anos atrás sai uma reportagem bem pequena, nos jornais, de que uma empresa, do Sr. Eike Batista, que ocupava a posição de 5º homem mais rico do mundo, liberou cerca de 1,7 bilhões no BNDES, para construção de um super porto, que até hoje não saiu do papel.
    Lembrando que alem de filho de ex-ministro de minas e energia e amigo pessoal do do nosso ex-presidente.
    Mas por outro lado o povo merece, elege de novo seu sucessor (Dilma), que segue a mesma metodologia do Lula, que muito difícil ensinar a pescar (investi em educação e saúde), e melhor da bolsa família.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).