por Luiz Sérgio Guimarães
do Valor Online
A deterioração da área externa provocou ontem expressiva alta do dólar comercial. A moeda subiu 1,31%, cotada a R$ 1,6890. As transações correntes do balanço de pagamentos estão se degradando mais aceleradamente do que o previsto. O déficit foi de US$ 4,43 bilhões em março – o pior resultado em qualquer mês de março desde 1947, início da série histórica – elevando para US$ 10,76 bilhões o rombo acumulado no primeiro trimestre do ano. Estes números colocam em xeque a projeção de déficit externo de US$ 16,60 bilhões para todo o ano de 2008 formulada pelo Boletim Focus do BC. Ou seja, apenas nos três primeiros meses do ano, as contas correntes amargaram déficit equivalente a 64,82% do esperado para o ano todo.
Para uma parte do mercado, embora em expansão acima do previsto, o déficit externo não será fonte de problemas enquanto o BC armazenar gigantescas reservas internacionais, de US$ 194,79 bilhões pelo último dado conhecido, relativo à sexta-feira. Pode ser. De qualquer forma, ninguém mais poderá, depois dos números do setor externo divulgados ontem, argumentar ingenuamente que o Brasil está desacoplado da crise externa. O déficit externo mostra que a blindagem anticrise não é tão pesada quanto se supunha.
As suas causas também são fonte de divergências. Para uma ala de economistas de instituições, a deterioração da conta corrente reflete sobretudo, via importações e aumento de lucro de multinacionais, um aquecimento econômico acima do equilíbrio potencial. Se é assim, o aperto monetário desencadeado pelo Copom este mês pode contribuir para reduzir o buraco externo. Para outra, ocorre justamente o contrário, pois a raiz do déficit deve ser buscada na apreciação cambial excessiva gerada pela política monetária muito apertada.
Os dados tristes divulgados ontem pelo BC sobre o setor externo foram recebidos com satisfação e alegria pelos investidores ” comprados ” em dólar nos mercados futuros da BM & F. Na reta final para o vencimento dos contratos de cupom cambial e dólar futuro, os ” comprados ” (os que apostam na alta) são os investidores institucionais brasileiros, sobretudo os fundos de investimentos. Eles carregam posição líquida ” comprada ” de US$ 3,71 bilhões, enquanto a posição oposta, a dos ” vendidos ” , é ocupada pelos bancos nacionais (-US$ 1,17 bilhão) e os fundos estrangeiros (-US$ 1,81 bilhão). Mas, faltando dois pregões para o encerramento de abril, no acumulado do mês os ” vendidos ” ainda levam vantagem. O dólar, apesar da disparada de ontem, acumula desvalorização de 3,65% no mês. Abril pode ter encerrado um ciclo.
O quadro deficitário do balanço externo pode estar fechando um período de mais intensa apreciação cambial. Por mais atraente que esteja a taxa real de juros brasileira, a situação precária da conta corrente inibe o carry trade. O especulador se sente desconfortável com a ameaça de neutralização, pela variação cambial, do ganho financeiro proporcionado pela Selic . Trata-se de um risco ponderável em um mundo, em 2008, mais perigoso. O resultado é que o BC não poderá contar com a ajuda oferecida pelo câmbio no combate à inflação. O arrocho monetário será a via principal pela qual buscará trazer o IPCA de volta a sua meta central. Foi por esta razão, mais do que a esperada piora nas expectativas do Focus, que os juros subiram ontem no mercado futuro da BM & F.
Os prognósticos de inflação e juros das cem instituições que abastecem o Focus de dados não surpreendem pois parecem estar sempre ” atrás da curva ” . A expectativa de IPCA para este ano subiu de 4,71% para 4,79%. E a inflação para os próximos 12 meses avançou de 4,37% para 4,43%. A projeção dos tesoureiros que fecham operações no DI iguala-se aos 5% do acumulado dos últimos 12 meses. O Focus elevou o prognóstico de Selic para dezembro de 12,75% para 13%. O ciclo de alta poderá ser mais longo e intenso do que o planejado pelo Copom. Sobretudo se a Petrobras optar por não esperar mais e corrigir de uma vez a defasagem de preço dos combustíveis, sem reajustes há três anos. O petróleo fechou ontem em alta de 0,19% na Nymex, cotado a US$ 118,75. O movimento de alta dos juros futuros foi generalizado. O CDI previsto para a virada do ano avançou de 12,71% para 12,79%. A taxa para janeiro de 2010 – o contrato mais negociado – subiu de 13,67% para 13,83%. E o contrato para janeiro de 2011 evoluiu de 13,75% para 13,93%.
Nos EUA, consolida-se a aposta de que, em sua reunião de política monetária de amanhã, o Federal Reserve (Fed) deverá cortar a taxa de 2,25% para 2%, encerrando o ciclo de baixa iniciado em setembro, quando a taxa estava em 5,25%.




Poderiam esclarecer uma dúvida ? Porque o dolar futuro está mais caro que o dolar a vista ?