O menino maluquinho não era bobo
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O cartunista Ziraldo acaba de ganhar vultosa indenização
e pensão vitalícia por ter sido perseguido pela Ditadura
por Luciano Oliveira
professor da UFPE
Leio nos jornais que Ziraldo, um dos mais famosos cartunistas brasileiros ─ autor do Saci Pererê que alegrou minha infância e do Menino Maluquinho que alegrou a infância da minha filha ─, vai ganhar mais de um milhão de reais e receber uma pensão até o fim dos seus dias pela perseguição que lhe moveu o regime militar há mais de trinta anos. A notícia talvez inspire o mais engraçado bufão da nova direita brasileira, Diogo Mainardi, a escrever que nesse caso só resta esperar que ele não viva muito… Brincadeira à parte, é lamentável que figuras do porte de Ziraldo Alves Pinto, cuja estatura cívica a minha geração tanto admirou, venham agora ingressar na fila de indenizados da ditadura no caixa do estado brasileiro.
O caso mais notável, para mim, é o de Carlos Heitor Cony, não apenas por ser um grande escritor, mas por ter sido, na minha recuada juventude ─ quando estava deixando de ler o Saci Pererê ─, autor de um livro histórico, O Ato e o Fato, no qual investia corajosamente contra o primeiro da série de Atos Institucionais que infelicitaram o país a partir de 1964. Por isso foi perseguido, preso e perdeu emprego. Mas também tornou-se o nosso Voltaire! A exclamação não contém nenhuma intenção irônica. É de admiração sincera pelo que pessoas como ele fizeram naqueles anos de chumbo. Mas também é para lembrar que, com isso, amealharam uma justa celebridade que se tornou parte da sua biografia e, mesmo que pareça mesquinho dizê-lo, do seu patrimônio…
Esclarecendo: houve naqueles anos muitas pessoas que tiveram sua vida pessoal e profissional destroçada pela violência da ditadura, e essas pessoas, ou seus familiares, merecem algum tipo de reparação pelo que sofreram. Cito um caso exemplar. Em 1976, em São Paulo, Manoel Fiel Filho, operário e militante do clandestino ─ mas jamais terrorista ─ Partido Comunista, foi preso e morreu sob tortura. A viúva, com uma filha pequena, teve de sustentar o lar destruído com um salário de cozinheira. Em casos como esse, numerosos e anônimos, só houve perda irreparável na vida dessas pessoas. No caso de personalidades como Ziraldo e Cony, houve também ganhos, porque o fato de terem se tornado personalidades deve-se, em parte pelo menos, à perseguição que sofreram.
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Carlos Heitor Cony, vivo e famoso, recebe R$ 19 mil mensais de pensão.
A viúva do operário Manuel Fiel Filho, morto pelo regime, recebe R$ 900
Carlos Heitor não é apenas um bravo repórter que foi injustamente perseguido e teve sua vida estraçalhada. Não. Carlos é também Heitor Cony, o autor festejado de uma obra de referência na história política brasileira, O Ato e o Fato. É jornalista de sucesso, romancista consagrado e até membro da Academia Brasileira de Letras, onde toma chá com José Sarney ─ que na época em que foi perseguido, aliás, estava do lado dos perseguidores. Provavelmente não é nenhum milionário, mas não deve ter do que se queixar do imposto de renda que paga.
Com Ziraldo é a mesma coisa. Não se trata de nenhum pobre diabo que teve uma carreira interrompida e mergulhou no poço sem fundo do anonimato. Não. Trata-se de um profissional reconhecido e bem sucedido, ostentando no peito várias medalhas, inclusive a de ter sido, ao lado de nomes como Henfil, Millôr e Jaguar (por sinal, outro indenizado) um dos inesquecíveis cartunistas do Pasquim que toda semana fustigava uma ditadura estúpida. Também não deve estar passando necessidades.
As críticas que têm surgido a essas indenizações e pensões vitalícias não diminuem o que essas pessoas fizeram, mas não há como esconder uma decepção. Nós acreditávamos que eles tinham prestado um serviço à nação por civismo. O reconhecimento é a retribuição que tínhamos a lhes dar. Agora, ao virem apresentar a conta, eles mesmos estragaram um pouco a nossa admiração.
Não se pode comparar casos como esses com o da viúva de Manoel Fiel Filho. Em 1997, finalmente, ela conseguiu uma indenização de 300 mil reais, com que comprou uma casa, e uma pensão de 900 reais por mês. A pensão de Cony é de 19 mil mensais. Na ponta do lápis, representa mais de vinte vezes o que recebe a viúva do operário. O Brasil continua o mesmo. O mesmíssimo. O Brasil e sua mesmice.
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ótimo texto. ótimo.
esse artigo no blog do Mello tab foi bom…
Mais uma vez volta ao centro da discussão o que a “grande imprensa” chama de Bolsa-Ditadura, que na verdade é uma indenização a todos os que foram prejudicados pela ditadura militar.
Curioso é ver jornais como O Globo criticarem a concessão das indenizações. Logo as Organizações Globo, que, elas sim, ganharam a Bolsa-Ditadura, cresceram com ela e construíram a maior rede de TV da América do Sul, graças à ditadura militar.
E os jornalistas, economistas, empresários, todos aqueles que serviram e se serviram da Bolsa-Ditadura, enquanto ela imperou no Brasil? Jornalistas como Alexandre Garcia, que foi porta-voz do ditador Figueiredo. Por que não se fala na Bolsa-Ditadura que esses receberam?
Quantos não fizeram fortuna, às custas da Bolsa-Ditadura, mas dessa verdadeira Bolsa-Ditadura, que foi viver e se aproveitar do período de exceção para enriquecer e/ou fazer carreira, como os Sarneys e ACMs da vida.
É repugnante ver hoje nos jornais e nas rádios e TVs gente que, se não colaborou, se omitiu, querer apontar seu dedo ressentido contra a indenização que é garantida por lei, uma lei democrática, votada por um Congresso livre e soberano, pois escolhido em voto direto pelo povo brasileiro.
Viva Ziraldo, viva Jaguar, e obrigado a todos vocês que fizeram o que tinha de ser feito – combater um regime oriundo de um golpe de Estado – com as armas que sabiam ou aprenderam a utilizar, e que exerceram o mais legítimo direito do cidadão livre, o de se rebelar contra a tirania.
De Millôr Fernandes sobre o Bolsa-Ditadura:
“Mas afinal era revolução ou investimento?”
As indenizações são merecidas, mas o valor deve ser discutido caso a caso.
As famílias das pessoas assassinadas pelo Estado devem, sim, em tese, receber indenizações maiores do que as “apenas” perseguidas.
Juan,
A turma do Pasquim “perseguida”??? Os caras fizeram revolução de mesa de bar. O que ficou mais tempo preso não passou de duas semanas. Sem levar um peteleco na orelha.
Cumpriram, sim, o dever cívico de lutar contra a Ditadura. E receberam as merecidas glórias do reconhecimento da sociedade.
Daí a levar alguns milhões pra casa e ficar recebendo pensão vitalícia de marajá, é um pouquinho demais.
Os familiares de pessoas mortas, torturadas, demitidas, exiladas (não as autoexiladas)… Estas, sim, merecem indenização.
Abs
Uma pergunta que não quer calar: quem calcula o valor das indenizações? O Judiciário? Por que alguém que está vivo recebe três vezes mais do que a viúva de alguém que morreu (com o perdão da redundância)? Será que os vivos são premiados por terem sido mais espertos e terem sobrevivido?
Nós bem sabemos que isso tudo já se tornou uma indústria; uma indústria de advogados bem pagos, juizes bem pagos e sentenças mais que bem pagas. Isso nada tem a ver com reparação de atos violentos do estado, senão os familiares dos mortos e torturados seriam os mais bem indenizados.
Além disso, se estas pessoas estão sendo muito bem indenizadas, por que a pensão, se elas hoje são livres e sadias para trabalhar, como assim o fazem? A pensão deveria existir só nos casos de pessoas que foram permanentemente impedidas de garantir seu próprio sustento, por terem sido assassinadas pelo estado ou torturadas a ponto de ficarem incapazes para o trabalho. Pensão para pessoa viva que trabalha e é muito bem sucedida? Como diz Marco, só no Brasil de sempre. Hoje me envergonho de, um dia, ter acreditado nessas pessoas e em certos discursos. Afinal de contas, eles decidiram ser contra o poder da época por sua própria vontade e risco. Hoje eles vendem os ideais por um bom punhado de dinheiro.
As indenizações em si mesmas são justas num caso e noutro, visto que, embora Ziraldo e Cony tenham alçado sucesso posterior e até enriquecido talvez, mas isso foi um desdobramento colateral de suas ações, pois na época da ditadura militar foram, de fato, perseguidos.
O problema está nos valores e nisso Luciano Oliveira tem toda razão, assim como Juan. Não há sentido em estabelecer pensões vitalícias de valor vinte vezes superior a gente como Cony e Ziraldo em comparação com a da viúva de Manoel Fiel Filho.
Se fosse o inverso, ainda vá lá. Não há comparação entre os danos num e noutro caso.
Prezado Marcelinho,
Se rebelar contra a tirania agora tem preço? Se estas pessoas não eram diferentes dos que se deram bem com a ditadura, contra o quê exatamente estavam eles lutando? Só queriam também a sua parte do latifúndio?
No final das contas é isso: todos querem viver sugando do estado no Brasil, seja direita ou esquerda. Estranha democracia essa.
apenas postei um artigo interessante de um blogueiro..
Tive meu avô preso e saiu algemado na frente dos funcionários e clientes de onde ele trabalhava..
Não quero $$$, apesar de saber que minha família pode receber..A única coisa que sou PUTO.. é que,gente da minha família mesmo sabendo da humilhação feita a meu avô , continuam votando na DIREITOSA NOJENTA que mandou prender o mesmo.
Fora meu tio avô que saiu de Recife, mudou de nome, deixou a família etc etc..
O Estado jamais deve se insurgir contra seus cidadãos. Esse é o ponto que se deve ter em mente quando se fala nessas idenizações. O merecimento e valor, como foi falado, devem ser discutidos caso a caso.
É injusto o pagamento de valores nesta monta. Tais quantias devem ter o caráter de indenizatório na proporção do prejuízo que os indenizados sofreram. Cony, especialmente, não suportou um prejuízo tamanho a justificar uma aposentadoria neste valor, já que se consagrou como grande jornalista e cronista apesar da ditadura.
Caso não tivesse sido demitido ou alijado de suas funções provavelmente não receberia, além dos seus ganhos como jornalista e cronista, valores tão elevados.
Marcelinho,
Desculpe, não percebi que que o texto não era seu. Minhas palavras ficam, então, para o autor do texto.
Injusto, absurdo! Enquanto pessoas que sofrem danos pelo estado, passam anos presos injustamente, sofrem acidentes, lutam no judiciário esperando uma indenização, enquanto o estado recorre até o fim nesses casos, esses esquerdistas espertinhos ganham grana as nossas custas!!!
Sem o estado nem brigar!!!!!!!
Cada um que se responsabilize por suas escolhas politicas! E tem mais, estes caras queriam democracia??? Queriam uma outra ditadura, talvez pior!!!
Canalhas…
“Mas afinal era revolução ou investimento?”
Rarará muito bom!
É o estado financiando a vagabundagem…
Caso algum de nós fossemos perseguidos estariamos satisfeitos com essa indenizações???
Acredito que quantia em dinheiro nenhuma paga o que as pessoas passaram naquela epóca.
Se estas pessoas conseguiram essas indenizações foi porque foram atrás de seus direitos.
Acredito que o estado não foi atrás de nenhuma dessas pessoas e concederam por livre e espontânea vontade essas indenizações.
Concordo que realmente houveram pessoas que foram muito mais prejudiacadas do que Ziraldo e outros, mas o fato de vivermos em um país injusto e que marginaliza grande parte de sua população não faz com que a vitória de algumas poucas pessoas se torne um ultraje.
Eu não consigo enxergar o porque de tanta polêmica.
Quem teve seus direitos violados devem receber, mas esse bando de intelektuais esquerdistas de boteco ou escritor como Cony receberem ? O jornal que ele trabalhava fechou 9 anos depois dele ter sido retirado de lá…com base em que se calcula que se ele continuasse lá ele teria o montante que agora dão pra ele bem como p/ esses picaretas Ziraldo e Jaguar??
O Lula passou uma semana no dops sem que sequer encostassem na barba dele e tbem recebe pensão. Se pedisse ao menos indenização, mas nao são pensões!! dinheiro gordo pago mensalmente!!
As vítimas desconhecidas do regime militar não recebem nada ou talvez até o que seria realmente justo, já as vítimas notáveis, que podem render votos ganham um montão de dinheiro e em troca irão prestar seu serviço ao partido!