"Pobreza não gera violência, mas desigualdade, desordem urbana e impunidade sim"

dez 18, 2008 by     17 Comentários    Postado em: Economia

murilo

Em 30 de janeiro de 2003, um fato mudou para sempre a vida do então empresário da noite Murilo Cavalcanti, que à época exercia o cargo de diretor de Fernando de Noronha no Governo Jarbas.

Sua irmã, Mosana Cavalcanti, após sair de um banco, foi assaltada às 15 horas, em plena Avenida Boa Viagem, e levou um tiro que a deixou paraplégica. A partir daí, Murilo passou a coordenar o Movimento Brasil sem Armas, e foi conhecer várias experiências de redução da violência. Tornou-se parceiro de Hugo Acero, o especialista em segurança mais conhecido e respeitado da América Latina.

Convidado pelo prefeito eleito de Petrolina para ser secretário de Segurança Cidadã, Juventude e Esporte, tem agora o desafio de coordenar as ações de segurança de uma cidade com 270 mil habitantes, com uma cidade vizinha muito mais pobre (Juazeiro), com quase a mesma população.

O blog conversou com Murilo no domingo, mas a entrevista só está indo ao ar no momento do anúncio do secretariado por parte do Prefeito.

Segue a entrevista.

Você tem sido um crítico das políticas de segurança pública implantada nos últimos 15 anos em Pernambuco, agora vai ser Secretário de Segurança de Petrolina, está preparado para as críticas?

Houve uma sucessão de erros, equívocos, omissões de todos os Governos que estiveram no Poder a partir dos anos 90, diante da segurança pública.

Joaquim Francisco não tinha um programa, Arraes não gostava do tema e ao Governo Jarbas faltou gestão. Além do mais os prefeitos da RMR não ajudaram, ou melhor, se omitiram completamente, fazendo de conta que o problema não era com eles.

Há cinco anos venho estudando profundamente este assunto, fui 5 vezes a Bogotá e Medellín na Colômbia, que eu reputo como a mais exitosa experiência de segurança cidadã e transformação social da América Latina. Vou tentar replicar em Petrolina a experiência de Bogotá. Já conversei com Hugo Acero (ex-secretário de segurança de Bogotá por 9 anos), que é o maior especialista do mundo em Segurança Pública Cidadã. Ele vai nos ajudar.

Vou bater na porta do Governador Eduardo Campos, do Ministério Público e do Judiciário para firmar parcerias. O prefeito Julio Lóssio está muito disposto a fazer de Petrolina uma referência nacional. A sua liderança e carisma serão fundamentais para que o plano venha a dar certo.

Mas no Governo Jarbas, do qual você fez parte (como Diretor de Noronha), se investiu muito em segurança, e o resultado está aí. O que deu errado?

O Governo Jarbas começou mal com a greve da Polícia Militar. Uma greve dura, longa e radicalizada. Delegaram a Lucia Pontes (ex-secretária de Governo) a negociação com o comando de greve. Lucia era uma inexperiente neste assunto. Até hoje as feridas estão abertas. Faltou gestão no Governo Jarbas nessa área.

Mas você é muito amigo dele, por que não falou isso a ele?

Porque nunca fui chamado…. Voltando ao assunto, faltou uma liderança forte, que deveria ter sido o próprio Governador, para liderar um pacto metropolitano e republicano em defesa da vida.

Mas João Braga era conhecido como uma pessoa dinâmica, e um engenheiro competente, e foi colocado como uma espécie de esperança para resolver…

Braga entende de obras, foi um excelente secretário na Prefeitura, mas como Secretário de Segurança de Pernambuco foi um “Odara”… era Pernambuco se acabando em violência e ele dizendo para o Governador e para a sociedade que estava tudo sob controle.

Mas Eduardo Campos não está fazendo este Pacto (Pacto pela Vida)? Tem um policial federal à frente da Secretaria, e um intelectual (Ratton) que formula as ações e coordena.

O Pacto é um bom programa, contempla integralidade de ações. Ratton entende do roçado, mas é preciso ouvir mais as entidades sociais, IACE,OAB, ADECON,inclusive disse isso a ele. Além disso, o Pacto precisa de algumas correções. Primeiro, são ações demais para dinheiro de menos. Segundo, precisa ter uma liderança que o comande, e esta deve ser o Governador. Terceiro, é preciso mais transparência e mobilização da sociedade em torno de um projeto comum pela vida. Por fim, é preciso resolver urgente o problema prisional.

Mas o Governo está fazendo um novo complexo prisional através de uma PPP…

É um excelente projeto, mas tem que sair do papel urgente. Não tem Pacto que se sustente, com bandidos comandando as ações criminosas de dentro dos presídios.

Recentemente tivemos uma audiência pública na Assembléia Legislativa, que me pareceu muito politizada.

Realmente a corda está esticada de ambos os lados. O líder do Governo, por exemplo, no lugar de discutir os acertos e erros do Pacto, foi fazer uma denúncia que nada tinha com o objetivo da audiência. Segurança pública não pode ser politizada, não é uma questão de direita, esquerda ou de centro.

Por que a esquerda tem dificuldade em tratar da questão da violência e da segurança pública?

Na ditadura militar, o Estado passou a ser policial, perseguindo políticos e lideranças populares, daí vem essa deformação. A ditadura acabou, a violência não, e setores da esquerda continuam romantizando a questão da violência. Por exemplo, agora virou moda no Brasil o conceito de polícia comunitária, que é a polícia boazinha, que não prende, não mata e não faz nada. Em Pernambuco se investiu R$ 80 milhões em Núcleos de Polícia Comunitária, mas esqueceram de avisar aos policiais o que é ser policial comunitário. Foi dinheiro jogado fora.

Polícia tem que ser polícia: honrada, respeitada e sabendo respeitar os direitos do cidadão, o resto é clichê.

Mas e como está a corrupção policial?

É um problema grave no Brasil, e há um corporativismo muito grande dentro das próprias instituições policiais. Em 16 anos de Plano Bogotá, 15 mil policiais foram demitidos por comportamento inadequado. O Brasil tem que fazer uma limpeza geral nas diversas polícias, e valorizar o bom policial com bons salários e rede de proteção social e dignidade.

Mas Petrolina tem um tipo diferente de violência. Aparentemente não é a bagunça que está na Região Metropolitana.

Petrolina tem dois tipos de ocorrência distintas, uma nos núcleos dos perímetros irrigados, causados mais por bebida e desavenças pessoais e comportamento machista, e uma violência urbana caracterizada pela migração de pessoas de diversas regiões do Brasil que acabam se envolvendo na delinquência urbana. Vamos começar por esta última. Em 90 dias teremos um plano concreto, e apresentaremos para as autoridades e a sociedade petrolinense.

Vamos garantir que ao final da gestão de Julio Lossio, Petrolina seja muito mais segura do que é hoje.

Muita gente comenta que é um erro pensar que o Poder Público municipal tenha força para implementar ações contra a violência, já que a Polícia é estadual.

Violência não é só um problema de polícia. Iluminação pública de qualidade, construir parques, bibliotecas e praças nos bairros mais pobres não é problema de polícia. Monitorar jovens fora de sala de aula e em situação de risco é um problema do Prefeito, e não da Polícia. E essas são as principais causas da violência urbana.

Em Petrolina nossas ações contemplarão duas vertentes. A mão dura, com fortalecimento da guarda municipal, ordem pública e punição exemplar aos delinquentes, e para isso preciso da ajuda do Judiciário. E por outro lado, a mão amiga, que são as melhores obras, as melhores escolas, os melhores postos de saúde, para a população mais pobre.

Você foi várias vezes à Colômbia. Acha que aquele modelo pode ser implantado aqui?

Claro, o problema é igual em todo lugar da América Latina. Biblioteca e escola pública de alta qualidade (ver fotos abaixo), hospitais e assistência social decentes motivam a população de qualquer lugar a ter um comportamento cidadão.

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Biblioteca pública na favela de Bogotá

Em Medelin, em 1993, chegou-se a uma taxa de 381 assassinatos por cada 100 mil habitantes. Em 2007, essa taxa caiu para 26 para cada 100 mil, uma redução fantástica. Em Bogotá, em 1993 era 80 para 100 mil, hoje é 18 para cada 100 mil. Em 1993, foram assassinadas 4.352 pessoas em Bogotá, que é o que morre hoje em Pernambuco.

Essa redução só foi possível graças a um plano integrado com o prefeito à frente, assumindo a liderança. Uma cidade não pode estar partida, não pode querer que a população pobre tenha uma atitude cidadã quando se oferecem os piores serviços públicos e as piores obras para ela.

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Escola pública dentro de favela colombiana

Pobreza gera violência? Estive em La Paz, na Bolívia, que parece a Favela da Maré, e mesmo assim podia andar de madrugada a pé pelas ruas. Não me pareceu a guerra que vivemos aqui, mesmo com muito mais pobreza.

Pobreza não gera violência, porque senão Bolívia, Cuba e Egito seriam os países mais violentos do mundo, e não são. O que tem levado a uma violência desenfreada é a combinação de drogas, desigualdade social, exclusão econômica, impunidade, falta de controle de armas de fogo por parte do Estado, e obras e programas que construam a cultura cidadã junto à população.

Inclusive a violência gera um problema econômico, não é verdade?

É verdade Pierre, a competitividade das cidades está diretamente relacionada com a segurança que ela possa oferecer a seus habitantes. Cidades violentas perdem investimentos privados, portanto perdem emprego e renda. Embora Petrolina tenha sua pujança econômica ligada ao agronegócio, é preciso ter uma segurança que garanta aos investidores e aos seus executivos, e à população de um modo geral segurança, habitabilidade e uma cidade saudável.

Recife é a capital mais violenta do Brasil e a segunda mais violenta da América Latina, só perdendo para Caracas. Se você tivesse de dar um conselho ao futuro prefeito João da Costa para reduzir a violência urbana em Recife, que conselho daria?

Prefeito, assuma suas responsalidades diante da violência que impera em Recife. Diga claramente a população que ao invés de gastar 38 milhões de reais com o carnaval do Recife, portanto com festa, vai gastar somente 18 milhões. Os 20 milhões economizados serão gastos em uma política integrada e eficiente de combate à violência urbana. A vida agradece!

17 Comentários + Add Comentário

  • Sucesso para você Murilo.

    • violencia é culpa da fome, a fome,é culpa da desigualdade,a desigualdade,é culpa dos politicos, e os politicos? é culpa do eleitor votando com a emoção;;;;se votar com a razão isso vai mudar;; votar com razão é fazer valer o voto. valer o voto como? Brasil é um país que tem muita violencia, pobreza,desigualdade;;;e muita paz no congresso, nunca houve um manifesto forçando eles fazerem o que presisa;;; não podemos reclamar

  • Ele fala em dois pontos fundamentais, que usualmente são tangenciados por quem aborda o problema. Siginificativamente, os dois pontos são caros ao que seriam abordagens esquerdistas e direitistas.

    Primeiramente, pobreza, do ponto de vista absoluto, não implica necessariamente em violência. Quem quiser defender a relação seriamente – respeitando os próprios neurônios – ficará numa encruzilhada se considerar a Índia, a Bolívia ou o Equador.

    Em segundo lugar, falta de pancada tampouco é a causa da hedionda violência vivida no Brasil. Quem quiser sustentar a proposição de que falta truculência, observe os países subsaarianos.

    Faltam percepção de justiça social – que é muito mais que distribuição de rendas – de previsibilidade da punição – lembremos de Cesare Beccaria – e, o principal, a cabeça das pessoas não ser um HD vazio.

    Uma pesquisa qualquer, ou entrevistas, com os criminosos que diariamente matam pessoas em Recife a troco de um celular, ou de nada, permite ver o que chamo de HD vazio.

    Tais criminosos não têm princípios deformados. Eles não têm coisa alguma. Acho que vou morrer sem ver isso mudar e continuar falando a mesma coisa. O sujeito incapaz de calcular uma relação de custo e benefício é o mais perigoso que existe.

    Isso é a barbárie, o vale-tudo. Enquanto isso, somos obrigados a ouvir discursos sobre o crime organizado. Ora, o crime organizado é uma maravilha que existe porque consentimos. Como qualquer coisa organizada, sua extinção obedece a formas conhecidas e também organizadas.

    Com relação a crime organizado, basta fechar as lavanderias de dinheiro, as entradas de armas e estupefaciantes. Essas coisas não entram e saem por meio de desmaterializações. Não chegam metralhadoras anti aéreas no Rio por meio de discos voadores invisíveis.

    Os dinheiros ilegais não são lavados em países de nomes desconhecidos. São lavados no Vaticano, na Suiça, nos Estados Unidos da América do Norte, no Uruguay…

    Difícil é atingir o crime desorganizado, que ceifa a vida do cara que está no sinal, num Volvo C 30 e do cara que está voltando para casa, em Nova Descoberta, num ônibus lotado.

  • bOM COMENTÁRIO!

  • Apoiado; a violência está nas cabeças, HDs que tendem a ser preenchidos com ilusões de poder, prazer e grandeza. Isto, aliado ao revanchismo — especialmente do pernambucano — acaba transformando a cidade em uma panela de pressão social.

  • Moro em SP agora e aqui me sinto muito mais seguro do que em Recife. Só qnd alguem sai de Recife é que percebe o quanto nós somos reféns da violencia. Se esse problema fosse reduzido, Recife seria um dos melhores lugar para se morar no Brasil, sem sombra de dúvidas!

  • Bruno,

    Recife superou os parâmetros de percepção de insegurança e de hostilidade. Além de superar as outras capitais em números também.

    É possível andar sem muito estresse no centro de São Paulo, parar naquelas bancas da São Luís. Passar dez vezes por aqueles nigerianos da São João, ir ao inerno da 25 de março.

    Andei em bairro pobre de Lima, onde se vê um e outro mal encarado. Andei em Quito – que é pobre – e aí a sensação de periculosidade é mínima.

  • Desculpe a sinceridade, mas estou enxergando um novo fracasso, apesar da violência em Petrolina não ser algo tão desafiador quanto na RMR.

  • o discurso é pura demagogia…..
    violencia, desigualdade social…..
    quer mesmo resolver o problema do Brasil?????????
    Então qualquer gesto publico, quer seja municipal, estadual e federal…., basta simplesmente aprender a usar a MATEMATICA….
    sim matematica…..pois pelo que sei é uma ciencia exata..
    Portanto, é so contabilizar todos e qualquer recurso(tributos, taxas e imposto em geral)… e aplicar racionamentte em todo e quaquer plano social…
    por exemplo:
    somos em torno de 200 miilhoes de habitantes o Brasil, divida este valor por quatro e acharemos uma estimativa de 50 milhoes de familias….
    caso a renda de cada familia ficasse em torno de 1 mil reais, teriamos um resultado proximo dos 50 bilhoes mensais……..
    sim 50 bilhoes de reais mensais distribuidos a toda familia indistintamente……….
    voce acha que nosso pais nao tem estrutura para tanta cifras……
    estas enganado……
    infelizmente nossos governantes(Adminstração Publica em geral, nao quer distribuir o pao em fatias iguais….
    nao venha com a desculpa que somos um pais capitalista….
    ao meu ver…tudo é uma questao de aplicar a nossa MATEMATICA…..
    E QUEM SABE NUM FUTURO PROXIMO……TEREMOS MELHOR DISTRIBUUIÇÃO DE RENDA….
    CASO CONTRARIO…….TEREMOS QUE VOLTAMOS PARA O BANCO DA ESCOLA……
    E INDAGAMOS PRA QUE SERVE A MATEMATICA…..????????????????

  • comentaris otimos pq muito pansão pela pessoa ser pobre “classe media” é ladrão mais ñ é em assim.

  • achei isso uma bosta!!!!!

    • achou uma merda porque vc é ignorante e burra

  • achei isso muito legal pois aprendi muito sobre isso,e esse comentario ai em sima nao e meu ,e de outra thaline!!!!

  • Eu irei fazer um trabalho de pesquisa e minha monografia:A pobreza e as políticas públicas. Nesse caso eu gostaria de orpotunidades de manter informações sobre alguns fatos etc.
    Ficarei grata pela oportunidade…

  • achou uma bosta porque vc é ignorante e burra

  • Com pequena exceção achei excelentes os comentários, apesar da violência se destacar em alguns Estados, e Municípios do Brasil, ela está presente com maior intensidade em todos os Municípios Brasileiros. Sou solidário com afirmações de que a violência está na cabeça e quando vazia, segundo um velho ditado, se torna instrumento do diabo. Convivi com a violência durante 29 anos,uma das ocorrências entre muitas, que atendi, o homicida desferiu 48 golpes de faca, ou arma branca contra o desafeto. O criminoso após alguns dias, apresentou-se espontâneamente, prestou depoimentos na Delegacia local e foi liberado. Fiquei surpreso e converssei com o Delegado de Polícia e a resposta foi de que o criminoso liberado não era de alta periculosidade. Imaginem se fosse perigoso! poucos meses recebi mandado de prisão contra o referido criminoso, com grande frustração passamos a correr atráz do prejuízo. Nesse intervalo o pequeno homem que que segunda a Autoridade Policial afirmou não ser perigoso, ceifou a vida de outros dois, nesses últimos homícidios as vítimas sofreram todo tipo de requinte de perverssidade: queimaduras, decaptação só não houve ocultação de cadáver porque abandoram os corpos em uma estrada rural. Participei do sepultamento das tres vítimas e tive satisfação de agir no estrito cumprimento do dever legal e prender dois criminosos. Nesse último crime o primeiro criminoso encontrou um comparsa, para ser colega de cela. Hoje estou velho com a satisfação do dever cumprido e triste por ver tantas injustiças e tantos crimes impunes. E pior de tudo isto é a prevalência de influências Políticas Econômicas no julgamento, homens que deveriam ser exemplos de boa conduta nos furtam milhões e descaradamente tentam esconder nas meais e cueca. O dia que inverter as punições, ou seja, maior rígor e revogação de privilégios aos que nos representam ou nos servem representando o Estado, acredito que algo mudará para melhor, pelo contrário somente os três PPPPPP prevalecerão. Se trata de duas ocorrências registradas em um pequeno Municipio de São Paulo.

  • Comentários interessantes, apesar de não concordar plenamente com todos. Acho que, falar de gestões passadas e projetos de outros países, identificando erros e, principalmente, acertos é salutar e auxiliam na formação de programas mais aproximados daquilo que acreditamos ser o Ótimo para nossa cidade.

    Observo que, o primeiro comentário da entrevista com Murilo foi em 18/12/2008, assim como o último foi em 03/10/2010. Nesse ínterim, muita coisa aconteceu, mas nem por isso a nossa realidade de medo desapareceu.

    Ironicamente, exatamente naquela data, minha família e eu estávamos “escondidos e acuados” num quarto de hotel do Recife, tentando nos recuperar, após termos sido vítimas de um seqüestro, quando minha filha, à época com 12 anos, e eu fomos retirados de nossa casa por 02 homens encapuzados e levados a um cativeiro numa mata, onde permanecemos por mais de 10 horas, abraçados e sentados no chão, cada qual com um capuz fedorento na cabeça. Vocês não têm idéia do que é para um pai ficar com o seu maior tesouro, a sua filha primogênita, no início de sua tenra juventude, ainda vestida de camisola, e sob a mira de bandidos fumando maconha.

    Mas, não tenho a pretensão de discorrer sobre este nem outros episódios de violência pelos quais já fomos vítimas, pois acredito que, dentro da banalização generalizada da violência, conforme vivenciamos hoje, poucos pernambucanos ainda permanecem “virgens” de ataques criminosos.

    Venho, pois, levantar alguns temas, para reflexão de todos, na tentativa de somar às ações e análises apresentadas, e começo com algumas questões, seguidas das respostas “possíveis”:

    1) O que faz a “roda” de uma empresa girar? Resposta: o capital.

    2) Portanto, se tratarmos o crime como negócio, veremos que o mesmo é alimentado por capital (vejam os ataques recorrentes aos caixas eletrônicos, com uso de explosivos, e às agências bancárias, com “fragilidade pontual” no sistema de segurança). Mas, de onde vem a maior parte desse capital? Resposta: das fontes de capital intensivo (grandes volumes de dinheiro em espécie).

    3) Quais são essas fontes? Resposta: Agências e correspondentes bancários; Tesourarias das empresas de transporte de valores; Carros-fortes; Caixas eletrônicos.

    4) Como impedir o acesso do crime a essas fontes? Resposta: TECNOLOGIA e inteligência.

    5) Existe tecnologia capaz de estancar todo esse “repasse institucionalizado de dinheiro” para o crime? Resposta: SIM.

    6) Essa tecnologia já está funcionando em algum lugar? SIM, e muito bem.

    7) As autoridades e gestores sabem da existência dessa tecnologia? Resposta: mais do que SIM.

    8) Quem mais conhece essa tecnologia? Resposta: governo estadual; ministérios públicos estadual e federal; ministério da justiça; polícias civil e militar do estado; polícia federal; todas as instituições financeiras brasileiras e seus fiéis depositários; e, principalmente, a mídia.

    9) Então, por que não indicam e promovem a sua utilização? Resposta: aí é que a porca torce o rabo!

    10) Mas, e a mídia, ciente desse recurso tecnológico, com toda a sua capilaridade e poder de notícia, por que não auxilia fortemente no combate a esse “repasse autorizado de capital” para o crime? Resposta: SUBMISSÃO aos poderes político e empresarial-econômico.

    11) Sendo assim, a quem interessa a violência? Resposta: entre vários atores: às empresas de segurança, pois, caso não houvesse violência, não teriam matéria-prima para trabalhar (o que seria dos produtores de carne se todo mundo virasse vegetariano?); aos políticos (conhecidos, mas invisíveis como Gasparzinhos), que são custeados pelo crime organizado. Portanto, manter a violência dentro de patamares “controlados” é confortável e satisfatório para alguns poucos que detêm esse poder nas 03 esferas.

    Eu não deveria estar tratando publicamente do tema, em função do risco da exposição. Mas, estou farto de viver acuado e “preso”, por trás de cerca elétrica em casa, ou de vidro com filme escuro no carro, em pânico cada vez que o semáforo está fechado, enquanto os bandidos tomam conta da cidade, da nossa cidade, que ajudamos a construir, com nossos impostos e taxas e, principalmente, com nosso trabalho honesto.

    Sendo assim, venho apelar aos mantenedores do blog, ao próprio Murilo Cavalcanti, aos autores dos comentários, enquanto formadores de opinião e cidadãos, que não se calem, apesar de manterem a cautela, e busquem informações sobre os pontos que levantei, pois verão a procedência das afirmações, assim como tentemos criar mecanismos de pressão política e social para mostrar à sociedade que existem antídotos para o veneno do crime, porém os donos das “seringas” não querem deixar usá-las, ou “cobram caro” pelo uso das mesmas.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).