Por que o Haiti é tão pobre? A História responde

jan 18, 2010 by     39 Comentários    Postado em: Economia

Não estou entre os fãs da comentarista global Miriam Leitão. Mas tenho que dar o braço a torcer para este texto que ela publicou em seu blog sobre as origens da pobreza no Haiti:

Em 1804 parecia que a história tinha afinal sorrido para a rica colonia francesa do Caribe. Uma revolução dos escravos levou-os a conquistar o poder e instalar uma república negra nas Américas, a segunda república independente das Américas, depois dos Estados Unidos.

Até então ela havia sido explorada radicalmente pela França. Era tão produtiva que era chamada “a jóia das Antilhas”. No sistema escravocrata, numa terra altamente produtiva, a França extraiu tudo do que podia da colônia. Lá se produzia café, cacau, tabaco, algodão, indigo entre outros produtos que eram refinados na França e reexportado para o resto da Europa. O cálculo é que a França retirava de lá 50% do seu PIB da época.

A independência parecia ser um brilhante recomeço. Não foi. O mundo inteiro decretou boicote à nova república. As potências coloniais achavam subversivo aquele modelo. Os Estados Unidos que já eram uma ex-colonia independente eram um país escravocrata. O Haiti assustava a todos. Sob boicote do mundo, o país entrou em dificuldades extremas. Não podia exportar nem importar. A França passou a cobrar do Haiti uma suposta divida para indenizar os ex-donos de terras, ex-donos de escravos. A contenda com a França só acabou quando em 1838 o governo haitiano aceitou pagar 150 milhões de francos. Durante 80 anos essa divida, que foi paga incontáveis vezes através de juros intermináveis, drenou a economia haitiana. A dívida só foi considerada paga em 1922.

Mas aí o país já estava sob jugo de outro opressor: os Estados Unidos ocuparam militarmente o país em 1915 e lá ficaram até 1938. Mesmo após o fim da ocupação física, os Estados Unidos apoiaram as escolhas trágicas dos haitianos como o poder à dinastia dos Duvalier, o Papa Doc e Baby Doc que desde os anos 60, por décadas, dominaram a população pelo terror através da mais violenta das polícias políticas de que se tem notícia nas Américas, os Tonton Macoute.

Para completar a explicação da pobreza, os indicadores educacionais são os piores. Todos esses governantes ou líderes, sejam eles de opressores estrangeiros ou opressores locais, jamais fizeram qualquer esforço para educar a população e retirá-la da ignorância.

A democracia quando chegou lá, chegou tarde e vulnerável.

Para completar o quadro produzido por essa história, há ainda os fatores climáticos. A destruição impiedosa do meio ambiente, desde a época colonial, no país que tinha uma intensa biodiversidade, foi empobrecendo o solo, produzindo erosões, aumentando os riscos de desastres ambientais. Hoje restam apenas 2% da rica cobertura vegetal original. Furacões e terremotos fizeram o resto da tragédia haitiana.

Haverá futuro para o Haiti se os haitianos e o mundo aprenderem com essa história. É hora de os países de boa vontade se unirem em torno do Haiti para do meio do caos atual começar a construir uma nova história.

39 Comentários + Add Comentário

  • Realmente o texto está ótimo.

  • Muito bom o texto, Bahe.
    Por falar em Haiti, doei 10 libras para a cruz vermelha internacional para ajudar a galera por la. E ai pessoal, alguem mais ja fez a sua doacao????
    Hoje o The Guardian na parte de obituarios fala sobre Zilda Arns.

    • Eu ajudo os Médicos sem Fronteiras, tem até um banner deles no meu site, sem cobrar nada, claro. É melhor doar direto para essas organizações do que paa campanhas do governo, pelo menos a gente sabe que o dinheiro vai direto para eles.

      • Muito bem Amanda. Bom exemplo.

  • E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE. HAJA EXPLORAÇÃO!

  • Otimo texto Bahé.

    Lembrando que não apenas o Haiti foi explorado pela colonização dos Franceses. Há dezenas de paises Africanos nesta mesma condição (Benin, Congo, Chade), Indochina, Camboja, Laos (Asia), sem falar nos Departamentos Ultramar, como a Guiana Francesa, Martinica, Guadalupe.

    Além disto, há Suriname e dezenas de outros colonizados por Holandeses e por aí vai … Por aí foram anos de exploração e enriquecimento dos colonizadores.

    • Poxa Caio, estava pensando nisso, em outros países que vivem essa mesma situação do haiti, vitima de anos de exploração, quanto a natureza ela faz o papel dela, faz-se necessãrio ai o hoem saber trabalhar para minimizar os efeitos.
      Não devemos esquecer que o crescimento populacional desordenado, fruto de uma falta de controle de natalidade e um ensinamento religioso, tal qual o católico nos países colonizados , aceitando o “ensinamento biblico ” de um contexto histórico do “crescei e multiplicai”desordenadamente.
      Igual ao nosso pais onde ainda predomina esse ensino cego do multiplicai e depois se vire.

      Prá que tanta gente no mundo, deve haver um limite?
      Lembro de um artigo que tem uma entrevista com Hugo Penteado, com o titulo “O perigo do crescimento eterno”

      http://www.consciencia.net/2004/mes/03/penteado-perigo.html

  • “No Haiti, Deus prova mais uma vez que não existe.” Cora Rónai

    • O que as pessoas pedem a Deus ? Roupas, carros, casas, status. Saúde, só a sua e de sua família, lógico. O deus da maioria nada mais é do que um fornecedor de bens. Quem está disposto a “amar o próximo como a si mesmo” ? Quem está disposto a fazer sacrifícios ? Por que todos nós sempre ignoramos os seres humanos do Haiti e , diante de uma catastrofe dessa a culpa é de Deus ? Se a tragédia prova que Deus não existe, também prova que a maioria do seres humanos não existem!

      • Eu acho que o Alexsandro tem razão. Mas se pensarmos bem uma andorinha só não faz verão certo? Todos devem se manifestar para solucionar o problema. Quando digo todos somos nós e todos os político também. Por favor me corrija se eu estiver errada. Valeu!

    • Eu acho que o texto do post deixa bem claro que a culpa não é de Deus….

    • Meu caro, não atribua à Deus responsabilidades humanas. Duvidar a existência Dele é consequentemente negar a sua própria origem.
      “Para todo efeito existe uma causa justa.A sorte é apenas outro nome para a tenacidade de propósito.”(Ralf Waldo Emerson)

  • Sempre gostei de Miriam Leitão. E agora gosto mais!

    • O grande problema da Miriam Leitão é quando ela comenta sobre a economia brasileira (em 2009 ela não acertou uma)

      • Claro, ela, como qualquer pessoa, está sujeita a erros. Menos o grande líder, com 85% de aprovação popular, lógico. Quem sou eu ou a Miriam Leitão para discordar ?

        • Todo mundo pode discordar, mas o problema é quando discordamos com mentiras, jogo de palavras e desconhecimento dos verdadeiros fatos; Ela é profissional nessa área e isso até meu cachorro que é irracional sabe.

  • Texto muito bom.
    Leitura altamente recomendável.

  • Tava assistindo na record a operação de doação de água.
    Sinceramente me segurei para não chorar, desumano, aquelas pessoas feito bichos, brigando por garrafas d’água.

    O pior é que desumanidades acontecem a todo tempo, e a gente ainda pensa que vivemos numa civilização com o mínimo dos direitos humanos…guantánamo tá aí!

    • “Direitos Humanos” é aquilo que cada um deseja apenas para si.

  • Bahé, qual o problema em admitir que concorda com a Miriam Leitão neste tema ? A questão é que não temos um pensamento democrático. As pessoas levam para o lado pessoal divergências de opiniões para o lado . No final, parece discussão de torcedor de futebol.

    • Mas ele concordou. Porra!

    • muito bom texto ggostei bastante

  • Quais são os países de boa vontade?

  • Dizer que gosta do que Miriam Leitão escreve é dá para ela todo apoio quando fez terrorismo com relação ao crise internacional.

    Quem não lembra os seus comentários pessimistas com relação ao Brasil. Quem não lembra que ela e sua turma passaram para os empresários que o Brasil seria fortemente atingido pela crise.
    Foi este um dos motivos que fez com que o empresariado demitisse em massa trabalhadores e logo depois tiveram de os recontratar.

    Não coloco em questão a sua capacidade profissional, mas a sua rejeição declarada a este governo. (trabalha na Globo)Quem analisa economia não pode ser parcial. Ela o faz de forma explicita, muito vezes prejudicando o pais.

  • Não. Dizer que gosta do que Miriam Leitão escreve é exatamente isso: dizer que gosta do que Miriam Leitão escreve.

    Aliás, eu gosto do que ela escreve e também do que ela fala na Globo e na Globo News. É uma das jornalistas mais competentes do país. Posso até não concordar com tudo o que ela diz, mas ela é um jornalista competente e inteligente.

    Não é um PHA da vida que hoje vem com essa história de PIG, mas passou a vida inteira se lambuzando no “chiqueiro” dos Marinho, mamando nas gordas tetas da “porca velha” (a Globo), dando o suor para ajudar a construir a credibilidade da empresa e enriquecendo com isso, tendo a oportunidade de crescer profissional e intelectuamente como jornalista conceituado e correspondente internacional. Agora, depois de velho e RICO, vem dar uma de Jean-Paul Marat.

    PHA é o que há de mais nojento na imprenssa brasileira. Dignidade passou longe dali.

    • “imprenssa” não, “imprensa”

      • Está perigando dos comentários resvalarem da desgraça do Haiti (tema do post) para a gracilidade da Miriam Leitão. Vou começar a ler os comentários da Miriam, já que vocês dizem que eles são tão bons. De fato, outro dia li um no blog do Favre: a Miriam falou por telefone com o Sérgio Guerra depois que ele disse na Veja que ia mudar o câmbio. Aí Sérgio desconversou e garantiu que, se o PSDB vencesse, manteriam o câmbio flutuante. A única mudança é que diminuiriam os gastos públicos. A conversa com Miriam botou a questão em pratos limpos.

  • Minha caríssima Amanda, desarmemo-nos, afinal somos colegas de leitura diária deste “blogaço”, aberto aos nossos palpites e comentários. Miriam Leitão é realmente uma grande jornalista mas tem errado, constantemente, quando partidariza suas análises Não sou possuidor da verdades mas os fatos confirmam os argumentos. Quem analisar o futebol pernambucano não deve ver apenas pelo lado de um único clube, se não ficará uma análise torta e sujeita a erros

    • Lucena, concordo contigo quando vc chama para a questão de partidarizar as análises e opiniões, que quase sempre se torna inevitável quando não nos policiamos.
      Não vi nada demais em Bahé colocar o texto e no ponto de vista dele abrir essa “excessão”.
      O preconceito deve ser colocado no fogo…
      Miriam Leitão tem tantos defeitos quantoo PHA, depende de como olhamos.

      • Em nunhum momento defendi o PHA, nem o acusei de nada, discordo e muito de sua linha de pensamento, acho-o ótimo quando defende os nordestino e quando diz que não gosta do Serra e ” assume “(não por não gostar do Serra – cada um gosta do que quer) e o Bahé foi perfeito quanto ao artigo sobre o Haiti. Continuo achando Miriam uma grande jornalista só que politiza e não assume. Tudo sem qualquer discriminação ou preconceito, meus respeitos a todos os colegas.

  • Muito bom o post. Agora não sei é se o Haiti tem conserto. É possível desenvolver a economia em um país sem recursos naturais e com uma população em sua maioria analfabeta? Os países colonizadores têm uma dívida com suas ex-colônias, mas, terão como pagá-la? Não se trata só de doar dinheiro. É preciso criar, do nada, uma sociedade estruturada. Já se fez isso em algum lugar?

  • [...] Não deixe de ler: Por que o Haiti é tão pobre? A História responde [...]

  • OQUE ME DEIXA MAIS INDIGNADO, E ME PERGUNTO: PORQUE SO AGORA TODO MUNDO QUER AJUDAR, PORQUE N`AO FIZERAO ANTES,OQUE NAO ENTENDO E PORQUE TODOS OS OUTROS PAISES DO MUNDO DEIXA ISSO ACONTECER , MESMO DIANTE DO TEXTO DE MIRIAN FICA DIFICIL SABER ATE AONDE VAI O EGOISMO DO SER HUMANO ATE QUANDO IREMOS PRESENCIAR ESSES ABSURDOS.

  • gostei muito, bem completo,

  • EU acho que todos deveriam ser estrupados e se tornarem escravos sexuais.

  • vai bate punheta e tambem acho que o haiti deveria se tornar o pais do sexo e da masturbacao

  • Sou haitiano, moro no brasil há 21 anos.O texto foi fantástico.Nele estão umas das causas da miséria do Haiti.Não podemos esquecer que todos os governos que assumiram o poder no Haiti foram verdadeiros ladrões e sanguessugas.Eles embolsaram quase ou todas as ajudas vindas do exterior; o poder legislativo fazia leis para o interesse do executivo; o poder judiciário, tampouco não funcionava.Foi uma corrupção organizada.Até hoje, não é diferente.O povo haitiano é um povo egoista.Uma coisa que chama atenção muita atenção no Haiti é facilidade de ganhar dinheiro através de ONGs.Muitas são verdadeiras maquinas de ganhar dinheiro.Monta-se ONG no haiti com muita facilidade.Muitos países passaram por problemas parecdos aos do Haiti mas os seus povos se organizaram para sair.Hoje, estão bem.Porque não, Haiti? Veja um verdadeiro exemplo do outro lado da ilha(os vizinhos dominicanos).

  • Eu acho q tem uma solução pro Haiti e só vejo uma, se chama mercado, enquanto o Haiti tentar depender do seu estado altamente corrupto e opressor nunca sairá dessa situação. Hong kong n tinha nada, começou do zero e veja onde ela está hj.

  • [...] é tão pobre? A História responde. [On-line]. Publicado em 18 jan. 2010. Disponível em < http://acertodecontas.blog.br/economia/por-que-o-haiti-e-tao-pobre-a-historia-responde/ > (Com texto de Miriam [...]

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).