Análise

 por Luiz Sérgio Guimarães
do Valor Econômico

O comportamento dos mercados brasileiros em novembro dependerá mais da reação que os investidores estrangeiros tiverem em relação aos indicadores sobre a economia americana do que dos dados sobre a inflação e a atividade domésticas.

Isso porque não há informação nenhuma, por mais otimista que seja, capaz de persuadir o Copom do Banco Central (BC) a diminuir o prazo de vigência de sua ” pausa monetária ” e voltar a cortar a Selic já na reunião de 5 de dezembro.

Mesmo se o IPCA – o índice oficial de inflação que serve de referência para o sistema de metas de inflação – referente a outubro, que será divulgado na quarta-feira, vier muito abaixo das previsões dos analistas, cujo consenso é de uma alta de 0,21%, nem assim o Copom irá se convencer do equívoco cometido com a interrupção do ciclo de cortes da Selic num momento de derrocada assustadora do dólar e de perda de vigor da indústria. O principal dado industrial será divulgado amanhã.

Está prevista para amanhã a divulgação pelo IBGE do seu relatório sobre o desempenho industrial em setembro. O dado é fundamental para a comprovação da tese do Copom de que a economia brasileira, em expansão potencialmente inflacionária, deve merecer uma política monetária pautada pela prudência. O consenso do mercado dá razão ao BC. A expectativa é de que a indústria tenha crescido 7,1% em relação a setembro do ano passado e avançado 0,5% sobre agosto. A LCA Consultores, que acompanha nove indicadores coincidentes da produção industrial, discorda. Para a consultoria, a produção da indústria brasileira teve ter registrado uma variação positiva de apenas 5,7% ante setembro de 2006. ” Essa taxa de crescimento interanual corresponde a uma queda marginal – ou seja, sobre agosto – de 0,5% na série sazonalmente ajustada pelo procedimento utilizado pelo IBGE ” , diz estudo da consultoria. Entre os nove indicadores coincidentes acompanhados por ela, em setembro quatro apresentaram quedas significativas, dois apontaram alta e dois ficaram praticamente estáveis.

Outro dado que sustenta a projeção da LCA de queda marginal da produção fabril em setembro é o Indicador de Nível de Atividade (INA) apurado pela Fiesp, que vem sinalizando desaceleração da atividade manufatureira paulista, que responde por aproximadamente 40% da indústria de transformação nacional. A variação da média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada do INA desacelerou de 10,7% em agosto para 5,1% em setembro, movimento que deverá ser compartilhado pela indústria de transformação nacional. ” Confirmada a nossa projeção, a variação da média móvel trimestral dessazonalizada deve ter desacelerado para 6,4% ao ano em setembro, depois de ter se situado em 9,6% em agosto e 10,4% em julho ” , diz a LCA.

Como não há perspectiva de mudança do sinal emitido pelo Copom, de que manterá a Selic em 11,25% até o segundo semestre de 2008, a tendência para os mercados locais dependerá do fluxo de capital estrangeiro. Quando o cenário mostra-se propício a uma diminuição da aversão externa ao risco, como aconteceu nos três primeiros dias da semana passada, a Bolsa sobe e o dólar e os juros futuros caem. Quando a aversão cresce, os pregões domésticos sofrem, como na quinta-feira. A ressaca pós-Fomc (o Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve, que na quarta-feira reduziu o juro básico para 4,50% mas sinalizou que não pretende fazer outro corte em dezembro), o rebaixamento da recomendação de compra das ações do Citigroup pelo banco de investimentos CIBC World Markets, a queda de 31% registrada pelos lucros do Credit Suisse em função da crise imobiliária americana desencadearam uma ” realização ” de lucros mundo afora.

O dólar, após acumular desvalorização de 3,92% em cinco quedas ininterruptas, fechou a semana em alta de 0,63%, cotado a R$ 1,7480. O risco-Brasil, como reflexo do aumento da aversão – o juro do título de 10 anos do Tesouro americano despencou de 4,4718% para 4,3487% – saltou 9,04%, para 181 pontos-base. Os juros futuros, em pregão da BM & F cuja maior característica ainda é a falta de liquidez, subiram. O contrato para janeiro de 2010 evoluiu de 11,54% para 11,62%.

Nesta semana, a escassez de indicadores relevantes acerca da economia americana – os principais são o ISM de serviços, os estoques no atacado e a produtividade no terceiro trimestre – será compensada por discurso que o presidente do Fed, Ben Bernanke, fará no Congresso na quinta-feira. Espera-se detalhamento maior sobre a rota do juro americano.

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