Sobre o livro “Josué de Castro: o gênio silenciado”, de Vandeck Santiago

dez 19, 2008 by     6 Comentários    Postado em: Economia

Meu primeiro contato com Josué de Castro foi através da música Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi. Durante anos, entoei aqueles os versos (que se tornaram um clichê midiático sobre Josué) sem saber bem direito do que se tratava.

Só depois de ingressar no curso de História da UFPE, passei a entender melhor a letra daquela música. No segundo semestre, cursei a disciplina Geografia Humana do Brasil, com o professor Alfredo Teles de Carvalho. Foi uma boa disciplina, na qual pude ter um maior contato com a obra de Josué.

Alfredo é estudioso de Josué de Castro, com Mestrado na UFPE e Doutorado na USP, sobre sua obra. As aulas eram proveitosas, e ficava bastante claro que além de saber o que estava dizendo, também gostava muito de falar sobre o trabalho de Josué de Castro.

Foi durante esse semestre que li a Geografia da Fome. Não tinha muita dimensão do alcance da obra de Josué, mas as aulas daquele semestre me foram muito úteis – e, são, até hoje.

Percebi que não se tratava apenas de mais um pesquisador na história intelectual do Brasil. Que ele atuava dentro de um amplo contexto de estudos e práticas políticas, que visavam modificar substancialmente a vida das pessoas mais pobres do país.

Nunca havia me preocupado em saber mais sobre a vida de Josué. Saber de sua obra já me era suficiente, porque me fornecia um bom aparato metodológico e conteudista à minha formação.

A partir de então, meu contato com a obra de Josué de Castro se resumiu às minhas leituras pessoais da Geopolítica da Fome, Sete Palmos de Terra e Um Caixão e Documentário do Nordeste.

Na Universidade assisti, vez ou outra, a apresentações de trabalhos sobre a obra do autor. Até minha conclusão do bacharelado, Josué dormiu como uma sombra, uma tela invisível de Paul Klee ou uma música inaudível de Jonh Cage, nos corredores da UFPE.

Josué de Castro: o gênio silenciado

Este é o ano do centenário de Josué de Castro. Alguns trabalhos sobre sua a obra foram publicados. Entre eles, artigos em jornais, livros e outras publicações.

Um desses trabalhos foi publicado no início deste mês. É o livro do jornalista Vandeck Santiago, intitulado Josué de Castro: O gênio silenciado.

Ontem estava concluindo a leitura do livro, quando resolvi escrever este post. O que posso dizer da minha leitura é a respeito do meu estômago, do meu corpo; das sensações e dos momentos da minha leitura.

O que mais poderia fazer um jovem bacharel em história, que não se pretende crítico tecnicista, para um post como este, além de falar dos efeitos do livro em seu corpo?

Fechado o livro, matutei durante certo tempo… olhando pela minha janela. A palavra que mais me ocorria era: paradoxo.

Posso resumi-lo em uma pergunta, que me martelava o juízo enquanto pensava. “Como se pode conjugar uma escrita tão agradável, com obras tão desconcertantes?”

Foram muitos altos e baixos ao longo da leitura. Risos em uma frase; mergulho anímico de profunda reflexão em outra.

Falando de caranguejos, ainda no início do livro, Vandeck Santiago escreveu com estilo de faca só lâmina:

Para uma criança, [os caranguejos] podem ser um fantástico brinquedo vivo. Para Josué, foram mais que isso: foram os primeiros amigos.”

Essa sensação me percorreu o estômago e o cérebro por boa parte da leitura, principalmente nas partes sobre sua vida, mais especificamente suas angústias com a situação paradoxal dos seus pais: o pai vivendo em certa fartura, e a mãe em certa miséria, impedido de falar sobre um para o outro.

Algumas palavras mais, ainda

Não sem propriedade, e para além da vida pessoal de Josué, o livro de Vandeck é uma excelente iniciação à sua obra, para os que pouco ou nenhum contato tiveram com ela. Mas, também para aqueles que já possuem alguma proximidade com o autor.

No primeiro caso, aos que desconhecem total ou parcialmente a obra de Josué, por tratar de uma forma simplificada com momentos pungentes dos trabalhos do autor.

Um desses momentos se deu à época da primeira pesquisa de Josué de Castro, As condições de vida das classes operárias do Recife. Após voltar formado do Rio de Janeiro, montou um consultório, onde “emagrecia senhoras gordas”, e também trabalhava como nutricionista em uma fábrica. Isso no início da década de 1930.

Josué aplicou mais de 2.500 questionários para avaliar o quê as famílias dos operários comiam, e quanto de seus salários era comido pelas suas necessidades mais elementares (habitação, alimentação e vestuário).

A dieta básica apresentada pela pesquisa era composta por feijão, farinha, charque, pão, café e açúcar (tudo em pequenas quantidades). Frutas e verduras estavam fora do cardápio. Disse, sobre isto, Josué:

“Qualquer pessoa que possua noções gerais de dietética e diante de um regime desta ordem, só tem uma pergunta a formular: ‘Como se pode comer assim e não morrer de fome?’. E só há uma resposta a dar, se bem que um tanto desconcertante: ‘Como? Morrendo de fome”.

Os donos da fábrica que Josué trabalhava queriam saber as causas de tamanha preguiça e baixa produtividade de seus operários. A isso, Josué conclui:

“Comecei (…) a verificar que os doentes não tinham uma doença definida, mas não podiam trabalhar. Eram acusados de preguiça. No fim de algum tempo compreendi o que se passava com os enfermos. Disse aos patrões: sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los, porque sou médico e não diretor daqui. A doença desta gente é fome. Pediram que eu me demitisse. Saí. Compreendi, então, que o problema era social”.

A obra de Vandeck também interessa àqueles que têm já um contato maior com a obra de Josué por trazer alguns materiais interessantes, que resultaram de sua pesquisa. Entre eles, boas entrevistas com a filha de Josué, Anna Maria de Castro (que também prefaciou o livro) e com os pesquisadores das obras de Josué, Renato Carvalheira e, meu ex-professor, Antônio Alfredo Teles de Carvalho.

O livro também traz muitas fotografias. Uma delas do documento do AI-1, que trazia em sua lista o nome de Josué para ser cassado, acima do nome de Leonel Brizola, com uma curiosa descrição:

“228 – Josué Apolônio de Castro, sem qualificação, – médico, professor, ex-deputado, …”

O livro Josué de Castro: o gênio silenciado, de Vandeck Santiago, vem em um importante momento de redescoberta da obra de Josué, neste ano de seu centenário.

Oferece ao público a oportunidade de ter contato com sua obra. É uma boa porta de entrada para aqueles que têm interesse em aprofundar seus estudos sobre a obra de Josué.

Só há uma maneira de alimentar-se pior do que esta: é não comer nada“.
Josué de Castro,
sobre as condições alimentares das classes operárias da cidade do Recife, na década de 1930.

6 Comentários + Add Comentário

  • Sem comentários no momento…

    Belo texto, André. Meus parabéns!

  • Prezado André, lhe recomendo a leitura de “Fatores de localização da Cidade do Recife”, pois creio que se interessa por problemáticas urbanas. Algo interessante quanto a esta obra, é que também significou uma resposta, com todas as particularidades de uma abordagem clássica do possitivismo geográfico, mais antes de tudo uma resposta, aos medalhões da Geografia local que não aceitavam que um médico tivesse capacidade intelectual para “divargar” cientificamente sobre a relação do “homemXmeio”. Vale a pena ler.

  • Andre maravilhoso o texto, e gostaria de dizer que o livro geografia da fome, tem inumeras traduções para países que nem sabia que existia!

  • A Obra de Josué é muito vasta. Parabéns a você por tido a oportunidade de ter Alfredo Carvalho como professor. Além de conhecedor da obra de Josué é um grande mestre.

  • Prezado,

    CAstro é mais um dos muitos intelectuais brasileiros que hoje são tratados com estrondoso silêncio, nesse país de mulher Melancia, Jogador de Futebol amigo de Traficante e deputado com propina na cueca: Celso Furtado, Milton Santos, Manoel Bonfim, Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto, Darcy Ribeiro, Otavio Ianini, Euclides da Cunha, João Nabuco…

    abs,

    Nilson Soares

    • De todos estes, o mais silenciado sem dúvida foi Josué… =/

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).