Um desastre muito mais que monetário

dez 1, 2007 by     2 Comentários    Postado em: Artigos e Análises, Economia

grande depressao 
Em pouco tempo, a crise se espalhou pelos Estados Unidos e ganhou o mundo, ceifando riquezas, destruindo empregos, roubando esperanças, escurecendo o futuro

Este artigo de Renato Perim é a continuação do texto que apresentamos abaixo, do debate entre Krugman e Schartz (leia aqui).

Este assunto vem à tona justamente no momento em que muitos acadêmicos discutem se a crise no mercado imobiliário americano vai nos levar a um processo de destruição de valor, semelhante ao que foi observado na Grande Deperssão americana.

Segue o excelente artigo.

Renato Perim Colistete, para o Valor

A hipótese de Friedman e Schwartz (leia aqui) continua sendo considerada pelos historiadores econômicos uma das explicações clássicas para a Grande Depressão. Ainda assim, há fortes evidências de que o que ocorreu posteriormente à Crise de 1929 – queda livre do produto, níveis elevadíssimos de desemprego, queda acentuada nos preços das commodities no mercado internacional, ondas sucessivas de falências bancárias, enfim, fatos que constituem o que chamamos de Grande Depressão – dificilmente pode ser explicado exclusivamente ou primariamente pelas decisões do FED. A extensão no tempo, a profundidade em termos de setores envolvidos e a abrangência internacional da crise que se sucedeu ao colapso da Bolsa de Nova York parecem ser evidências de que algo mais do que erros eventuais de política monetária se encontra entre os determinantes básicos da Grande Depressão.

Há uma tendência da historiografia para enfatizar duas questões gerais que teriam sido decisivas para a dimensão assumida pela crise nos anos 1930.

Primeiro, o contexto herdado da década de 1920. A recuperação dos efeitos da I Guerra Mundial revelou-se muito mais problemática, tanto por razões econômicas quanto por fatores institucionais. A Inglaterra saiu da I Guerra Mundial definitivamente marginalizada no cenário econômico pela concorrência dos EUA e outros países nos mercados internacionais. A capacidade ociosa na indústria, os elevados níveis de desemprego e a estagnação das exportações foram apenas um reflexo da perda de poder econômico da antiga potência hegemônica de uma época áurea do capitalismo, a era da Pax-Britannica. Por sua vez, a Alemanha foi derrotada e submetida a um programa de reparações dos Aliados que, se não foi tão devastador como queriam os líderes franceses, foi suficientemente inflexível para minar fatalmente as condições da recuperação econômica alemã na década de 1920.

Na época, a restauração do padrão-ouro foi vista como a saída para uma situação de baixo crescimento econômico e persistência de desemprego em vários países. Ou seja, em meados da década de 1920, a maioria dos países havia retornado a um regime monetário internacional que privilegiava o equilíbrio externo por meio de princípios rígidos de gestão da política monetária e fiscal. Se esse sistema funcionou relativamente bem durante o período da hegemonia britânica, agora, sob novas condições econômicas, a restauração do padrão-ouro tendeu a agravar a situação já crítica de vários países. Isso é particularmente verdadeiro no caso da Inglaterra, que retornou ao padrão-ouro com a mesma paridade ouro/libra esterlina vigente no pré-guerra, o que reforçou as tendências de baixo crescimento e desemprego, refletindo-se negativamente no conjunto internacional.

Apesar do esforço do Banco da Inglaterra, os demais bancos centrais e governos não demonstraram empenho em coordenar políticas monetárias e prestar solidariedade em casos de dificuldades de liquidez no caso de fuga de capital. Em outras palavras, condições básicas de operação relativamente bem-sucedida do padrão-ouro antes de 1914 (vigor econômico da Europa, coordenação e cooperação de políticas) não se observavam mais na década de 1920, ao mesmo tempo que persistiam baixo crescimento econômico e desemprego elevado. Em resumo, então, o contexto institucional e econômico era adverso e problemático em escala internacional.

Além disso, pesquisadores têm investigado vários fatores individuais que podem ter se reforçado mutuamente, de modo a produzir conseqüências catastróficas. Por exemplo, com as primeiras evidências de queda persistente das ações na Bolsa de Nova York, houve forte retração das operações de crédito dos bancos comerciais, o que afetou adversamente os gastos de investimento e consumo, com reflexos negativos sobre o sistema econômico. As incertezas dos consumidores, muitas vezes endividados, também parecem ter levado a uma retração das decisões de consumo de bens duráveis, com reflexos diretos e negativos sobre a demanda corrente das empresas.

Em junho de 1930, o Congresso americano aprovou uma elevação geral de tarifas de importação de milhares de produtos manufaturados e agrícolas ("Smoot-Hawley Tariff Act"), com vistas a proteger os produtores domésticos da crise que se alastrava. A retaliação de parceiros comerciais veio rapidamente, levando a um aumento geral das barreiras comerciais em escala global e reduzindo, assim, o papel das exportações como um meio pelo qual as economias nacionais poderiam ser estimuladas.

Os diversos autores que têm contribuído para as investigações das causas primárias da Grande Depressão dão preferência para um ou outro desses fatores citados, entre outros. Por exemplo, a hipótese de fracasso da restauração do e as restrições impostas pelo padrão-ouro (Barry Eichengreen), retração do crédito e geração de uma espiral deflacionária (Ben Bernanke), incerteza dos consumidores (Christina Romer). Mesmo assim, é provável que, sem as condições estruturais adversas da economia internacional e com a simples atuação isolada de algum desses fatores citados, dificilmente a Crise de 1929 se desdobraria no enorme desastre econômico que foi a Grande Depressão. Da mesma forma, a hipótese de Friedman e Schwartz também não parece sustentável enquanto explicação primária da Grande Depressão.

Renato Perim Colistete é professor de história econômica do departamento de economia da FEA/USP

2 Comentários + Add Comentário

  • Olá , tudo bem ? Meu nome é André , achei o artigo muito interessante , gostaria de saber se de fato a crise de 1929 é algo fora de questão , pois eu tenho aplicado tudo na bolsa de valores . Obrigado e aguardo retorno

  • Acredito que o colapso do sistema monetário está próximo. É hora de se proteger com ativos que tenham lastro real.

    O governo americano está mentindo sobre estatísticas de inflação e desemprego; a situação é muito pior do que se imagina. Após a deflação causada pela queda no consumo, ocorrerá uma perda de confiança no dolar e consequente hiper-inflação ou moratória.

    O governo sabe disso e já está prevendo grande inquietação social, mas irá continuar imprimindo mais dinheiro para manter o show rodando por mais algum tempo e extrair o máximo da classe média (que já vive de crédito).

    Um estado fascista já foi implantado nos EUA, as pessoas só não perceberam ainda. Pesquise sobre o Patriot Act (que suspende o Habeas Corpus), o DMCA (que permite a retirada de qualquer conteúdo da internet via alegações de violação de copyright) e, finalmente o PCNAA (que permite que o executivo assuma o controle de qualquer rede). Informe-se.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).