ENEM privilegia leitura e raciocínio em prova de alta qualidade

out 26, 2015 by     15 Comentários    Postado em: Educação

Sábado tive a curiosidade de ler a prova do Enem de forma cuidadosa. Era a prova de Ciências Humanas e Ciências da Natureza. Já no domingo tivemos a redação, além das provas de Linguagens e Códigos e Matemática.

Confesso que fiquei surpreso com a qualidade da prova aplicada. Ao contrário do tradicional vestibular, com bizus bisonhos, a prova qualifica a necessidade de leitura ao invés da decoreba. Obvio que sempre há uma ou outra exceção, como a questão sobre um texto de Milton Santos, mais atrasado e desmoralizado que tudo, que fala que globalização gera desemprego, mas mesmo neste caso era possível interpretar o texto.

Acredito que o recado foi claro: vá se informar e ler ao máximo, ao invés de perder tempo decorando coisas que nunca mais usará na vida. Para quem quiser conhecer a prova, o UOL fez um belo trabalho de comentários das provas, que vale a pena ser lido. Muita gente ficou reclamando de doutrinação de questões ou coisas do tipo, mas o fato é que a prova privilegiou a leitura e o raciocínio. Além disso, obrigou as pessoas a pensarem, o que é raro no ensino brasileiro.

Houve também certo questionamento em relação ao tema da redação do Enem (a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira), sendo questionado sobre um possível direcionamento ideológico, já que a luta contra a violência é uma bandeira do movimento feminista.

Independente de quem luta, este não é um tema ideológico, mas real. Ao colocar a violência contra a mulher em pauta, colocou uma semente importante na cabeça de milhões de jovens, como observou Maria da Penha ao saber do tema.

Apesar disso, algo me preocupa: como a redação deve ser um exercício meramente técnico, e não deve ser diferente, há uma grande possibilidade de correção seletiva pelo critério ideológico, para um lado ou outro, pois não devemos esquecer que quem corrige é gente com posições, apesar da clara desaprovação deste viés.

Quem melhor colocou isso foi o professor Tulio Vianna, da UFMG: “Provas não podem ser concebidas como instrumentos coercitivos para fazerem um aluno defender esta ou aquela ideia. Nunca obriguei aluno meu a defender em provas a descriminalização das drogas, do aborto, das casas de prostituição ou qualquer outra bandeira. Meus alunos reaças não deixam de ser aprovados por defenderem pontos de vista contrários aos meus. Prova é sobre conhecimento, não sobre opiniões. Espero realmente que a correção das provas do ENEM não seja enviesada como muitos por aqui parecem desejar.”

Apesar desta possibilidade, acredito que nada tira o mérito desta mudança de direcionamento na formulação das provas e também na qualidade da prova.

Com isso provamos que quando queremos, somos um país capaz de fazer coisas com qualidade.

15 Comentários + Add Comentário

  • Pierre, daqui a pouco os reaças, as viúvas da COVEST ($$) e toda sorte de gente do contra.

  • Concordo, do que ouvi falar só achei absurda e errada a questão que dizia que a globalização causa desemprego. Qual tua opinião, Pierre?

  • Esse ENEM é mais um lixo doutrinador onde o aluno tem que falar o que o governo esquerdista quer ouvir.

    Se o aluno escrever na redação que esquerdista é tudo filho da puta, algum professorzinho marxista de merda alinhado com o governo vai colocar ZERO no aluno.

    Ou seja: nesse CIRCO chamado brasiu, se o coitado do aluno quiser subir na vida tem que participar da palhaçada e só falar coisas que estejam em concordância com o politicamente correto.

    Se o aluno falar o que realmente pensa, tá fudido.

    • Dizer o que se pensa é errado em todo lugar, não só no Enem. Experimenta ser totalmente sincero numa entrevista de emprego pra ver se vc consegue o cargo.
      É preciso mentir, mas contar boas mentiras que não possam ser detectadas.

      • A questão que utilizou o texto de Simone de Beauvoir perguntava apenas qual movimento histórico estava vinculado àquele texto. Você não precisa concordar para saber que se tratava do feminismo. Assim como você não precisa ser liberal para saber quem foi Adam Smith (e eu já respondi questões sobre A Riqueza das Nações em provas e nem por isso me senti doutrinado).

        Da mesma forma, o tema da redação é uma questão atual. Achar que discutir a violência contra mulher é um tema “de esquerda” ou “do governo” só mostra o nível da nossa suposta direita.

        Sério, querer fazer Fla-Flu ideológico em cima do Enem é muita falta do que fazer.

        PS: chamar seja lá quem for de filho da puta numa redação é motivo pra tirar zero não por divergência ideológica, mas por fuga ao tema/uso de termo inapropriado.

  • Pois entendo justamente o oposto: uma prova medíocre, calcada na busca do acerto de questões fáceis para possibilitar, aos medíocres, o acesso “democrático” à universidade (com u minúsculo, mesmo). Não por menos, esse bando de ‘dôtores’ a saírem por aí com seus ‘dipromas’ dizendo ‘nóis vai’ e ‘nóis fumo’. Além disso, um contexto de claro viés ideológico calcado em figuras desprezíveis. Enfim, o quadro da dor e parte da explicação de porque continuaremos no terceiro mundo por muitos séculos. Ah, que saudade do tempo em que passar no vestibular era prova de grandeza (sim, eu passei de primeira, muito bem colocado, nos vestibulares da Católica, da Fesp e da Federal; e não, eu nunca precisei de cursinho para isso).

    • “…..possibilitar, aos medíocres, o acesso “democrático” à universidade…..”

      Meu Deus

      • Os verdadeiros medíocres são conservadores. Eles não suportam ver os mais pobres tendo acesso aos bens de consumo, saúde e educação. Usarão de qualquer achismo e formalidades para refutar porque, na verdade, não passam de pessoas más.

        • Pelo contrário, Carlos: gosto de ver pessoas ascenderem, crescerem na vida por seus próprios méritos. Gente que, assim como eu, saiu do Ibura e conquistou seu lugar ao sol por meio do esforço, do trabalho e da perseverança. Agora, de fato, ver uma turma entrando no clube porque pulou o muro ou entrou sem ser chamada, disso não gosto não. Afinal de contas, de que vale um dipRoma universitário para uma criatura que não sabe – nem quer e nem vai saber – como se resolve uma regra de três simples, senão para aprofundar a decepção consigo mesma em face de sua continuada derrota pela vida??? Ah, se eu pudesse exprimir como é doce o sabor da conquista, não o do ganho fácil! Abraço.

        • O cara fala merda, aí emenda “sai do ibura” pra consertar. Isso leva a duas situações:

          1 – Tu mentiu sobre de onde você saiu para justificar o teu “não sou preconceituoso, mas…”

          2 – Tu saiu do Ibura e é um abestalhado mesmo.

  • Chamar de “alta qualidade” uma prova com questões gigantescas que leva 5h pra ser resolvida, é zombar do candidato.
    Deveria ser concisa. O Enem é tortura e quem se submete a um abuso desses(quem faz a prova) está realmente perdido na vida, sem opção.

    • É mesmo? Conte-me sobre o ingresso no Colégio de Aplicação, o qual submete crianças de 10 anos a um processo similar.

      Parece que Pierre tá começando a notar que passou muito tempo alimentando Trolls, e agora tá querendo desinfetar o blog! Se for isso, parabéns!

      A colocação foi perfeita no caso do processo de correção deixar de ser balizado em questões técnicas e sim em ideológicas, o qual, acredito, irá acontecer.

      No Enem não se avalia o psicológico do candidato, muito menos sua moral ou falta dela, se isto entrar em discussão é o único erro cometido.

    • Por mim, seriam 130 questões a serem respondidas em 4h. Faria uma melhor triagem elimimando os analfabetos, inclusive os funcionais. Estamos testemunhando a geração de estudantes mais fresca que já existiu!

  • Pierre, tens alguma dúvida que o perfil ideológico será critério? Eu não.

  • Geração pós-mertiolate-que-não-arde não passarão!

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  • A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes.”, Adam Smith.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).