Evasão: o maior problema do ensino superior brasileiro

jun 25, 2015 by     16 Comentários    Postado em: Educação

Semana passada participei de um seminário em São Paulo, promovido pela Universia, onde se discutiu a enorme evasão e abandono nos cursos superiores espalhados pelo Brasil.

A conta é alarmante: de cada 100 alunos que entram nas instituições, aproximadamente 60 abandonam as instituições antes da conclusão do curso. Atinge tanto as instituições privadas como públicas. O desperdício de recursos pode girar na casa do R$ 20 bilhões, quando levamos em consideração os custos de manutenção destes alunos.

No caso de instituições privadas, salas vazias acabam na prática aumentando os custos por aluno. Na prática há aumento de mensalidade a ser dividido entre os alunos restantes. Já no caso de instituições públicas, o drama é ainda maior: como o custo por aluno é muito mais elevado, o Governo acaba investindo em algo que efetivamente não oferece retorno a sociedade. Além disso, no caso das federais, como o aluno demora a se formar e não sofre punição alguma por isso, os números de evasão acabam sendo aparentemente menores do que realmente são.

As razões são muitas:

  • falta de orientação vocacional
  • horário de trabalho incompatível com o curso
  • reprovações e incapacidade de acompanhamento do curso
  • atendimento ao aluno
  • sentimento de abandono por parte da instituição
  • problemas financeiros
  • falta de perspectiva profissional

Neste último ponto apresentado, algo chama a atenção: enquanto no curso de Medicina, de cada 100 estudantes, 95 concluem o curso, em Matemática apenas 8 acabam se formando.

De certa forma isso mostra que a falta de perspectiva profissional acaba influenciando na evasão nas universidades brasileiras. O profissional que escolhe a docência como profissão inevitavelmente acaba descobrindo durante o curso a dura realidade que encontrará quando formado.

Dada a realidade das instituições, especialmente as públicas, não há saídas para a diminuição da evasão no curto prazo. Mas alguns paliativos poderiam ser apresentados, pelo menos para diminuir a ineficiência.

A evasão se mostra mais forte no primeiro semestre dos cursos (em alguns cursos chega a 50%). Neste caso, uma possível solução seria uma maior oferta de vagas, já esperando a evasão média dos primeiros semestres. Não resolveria a evasão, mas pelo menos evitaria salas vazias mais à frente.

Abaixo uma tabela de evasão por cursos. Apesar de desatualizada, mostra exatamente a realidade de hoje.

16 Comentários + Add Comentário

  • Algumas considerações:

    1) O excesso de regulação impõe uma grade curricular muito rígida;
    2) Os professores universitários, nas universidades públicas, se acham verdadeiros deuses ocasionando no alunado toda forma de arbitrariedade;
    3) Limitação do aluno em trabalhar rigorosamente na área de formatação, ops, correção: formação; e
    4) Mercado de trabalho desmotivante e perspectiva de empreender quase nula;

    Agora, vá ver uma sala de cursinho para concurso? É cheia!! E não ensina nada de útil. Só decoreba. Nós precisamos de uma reforma geral na sociedade, mas, em tempos que os maiores empresários do país são perseguidos pelos deuses do judiciário e mp, fica difícil o jovem se atrever a buscar conhecimento para empreender…

    • Concordo! Acho que a estabilidade do cargo nas universidades públicas e a falta de uma averiguação no desempenho do professor fazem com que alguns professores se destaquem de forma negativa!
      Acredito que o que faz tantas pessoas desejarem um concurso público é a famosa estabilidade dos cargos públicos. Com o péssimo ambiente que temos para negócios o resultado só podia ser esse.

      • É verdade, Melo. Mas o péssimo ambiente no setor privado é resultado do excesso de regulação e/ou invasão do estado (políticos e barnabés), podando a inovação e a liberdade do empreendedor. Ninguém consegue inovar ou empreender aqui no Brasil porque os barnabés não deixam.

        Esse cenário feudal e medieval implica em uma completa desorientação dos jovens em relação ao futuro profissional. Aí, na universidade pública, eles se deparam com super-barnabés totalmente incapazes de inovar, criar ou deixá-los com algum nível de liberdade/criatividade/autonomia.

        Mas, indo ao ensino do setor privado, talvez seja a única solução (privatização das universidades públicas, já!!). Vou apontar algumas perspectivas, ou seja, foco na solução e não no problema.

        (1) Abertura dos campus aos domingos para reposição de conhecimento (entrada de R$ 20,00). Não se trata de repor aula, mas de repor conhecimento através de monitores com atividades para os alunos fazerem. Nada de assistir. O lance é FAZER.

        (2) Esquecer a lógica do “Assisto logo existo”. Claro que a maioria dos alunos precisa assistir aulas, pois a transmissão oral é mais rápida e fácil. Mas o conhecimento não pode ficar preso e confinado nas aulas. Alias, o conhecimento é livre e jamais será privatizado pelo professessauro da disciplina. Em suma, tem que haver um plano B para o alunado concluir as disciplinas.

        (3) Bonificar o professor com alto rendimento. Ou seja, o cara que honestamente faz os alunos aprenderem e não desistirem. Por outro lado, punir o professor que complicar desnecessariamente a vida dos alunos, bem como os assediadores.

  • Será que Marketing e Publicidade, Administração, Processamento da Informação e Ciências da Computação tem a mesma falta de perspectiva profissional que Matemática? Será esse sua comparação mais estética do que outra coisa? Mas mesmo assim, o problema colocado é gritante.
    Muitos desses problemas vêm do pré-universidade. Não se prepara aluno para a universidade, o que vai resultar em reprovações e incoerência entre escolha e vocação. Fora que você sai de uma lógica escolar do “Tudo na mão. Venha cá que contornamos”, para uma outro “Se vira. Dá os seus pulos”. Sai de um colégio que é um prédio, para uma Universidade que é uma “cidade”.
    Esse contexto se insere em outro: ter que trabalhar, pois ninguém faz 18 anos e vive só de estudo. As finanças familiares não deixam. E neste embate, o estudo na maioria das vezes fica em segundo plano. Dinheiro traz o alimento, o lazer, a moradia etc. Trabalho também é fonte de conhecimento e ascensão. Os resultados são mais imediatos e “práticos”, embora não tão significativos.
    Por isso, eu fico a pensar: como andam os cursos técnicos e tecnológicos em termos de evasão? Será que as universidades, principalmente as públicas, estão preparadas para redução de vagas? Redistribuição de vagas por cursos?

  • Os alunos chegam ao curso de graduação sem base, pique dificulta bastante o acompanhamento do curso. Além disso, é bastante comum que logo no primeiro ano os alunos comecem a estagiar (muito comum os casos que excedem o máximo de 6 horas regulamentares) ou trabalhar, deixando a graduação em segundo plano. Essa situação acaba afastando os alunos da universidade e a obtenção do diploma passa a ser apenas uma mera formalidade. Acredito que a evasão dos cursos de medicina seja baixa porque é um curso que é integral por uma boa parte da graduação, faz com que os alunos de fato vivam na universidade e aproveitem o curso.

    Sei que muito precisam complementar a renda familiar, mas acho que o caminho para diminuir a evasão é fazer com que os dois primeiros anos, pelo menos, sejam em período integral, principalmente no caso das universidades públicas. Assim, a graduação passaria a ser, de fato, a prioridade das pessoas.

  • Os alunos chegam ao curso de graduação sem base, o que dificulta bastante o acompanhamento do curso. Além disso, é bastante comum que logo no primeiro ano os alunos comecem a estagiar (muito comum os casos que excedem o máximo de 6 horas regulamentares) ou trabalhar, deixando a graduação em segundo plano. Essa situação acaba afastando os alunos da universidade e a obtenção do diploma passa a ser apenas uma mera formalidade. Acredito que a evasão dos cursos de medicina seja baixa porque é um curso que é integral por uma boa parte da graduação. Isso faz com que os alunos de fato vivam na universidade e aproveitem o curso e as oportunidades que a universidade pode oferecer.

    Sei que muito precisam complementar a renda familiar, mas acho que o caminho para diminuir a evasão é fazer com que os dois primeiros anos, pelo menos, sejam em período integral, principalmente no caso das universidades públicas. Assim, a graduação passaria a ser, de fato, a prioridade das pessoas.

  • Pierre, ótima reportagem. Com relação aos cursos citados na área de exatas, existe um problema muito grande que é a distância entre a teoria e a prática. Alunos de ciências da computação, por exemplo, passam os primeiros semestres visualizando teorias e conteúdos que não os remetem a prática. São jovens conectados, loucos por tecnologia, mas não conseguem fazer a ponte entre o que aprendem e o mundo que esta lá fora. Minha singela opinião? Precisaríamos de uma reforma na educação pública enorme. Como acontece com grandes centros de educação nos EUA (que tem as melhores faculdades no ranking mundial): precisamos construir mais pontes entre o mercado e a academia. Precisamos menos conceitos “qualis” e mais adição de resultados para a sociedade. A área tecnológica, sem dúvida, é a base de muita coisa que esta acontecendo hoje no mercado de trabalho, nas pesquisas, etc. E por que os cursos que mais atraem alunos hoje ainda é “medicina” e “direito”?

  • Eu particularmente desisti da faculdade de engenharia de telecomunicações pelos seguintes fatores:

    1) O curso nos dois primeiros anos é praticamente o mesmo de 30 anos atrás, ou seja, dá impressão de que você voltou no tempo. Devido a isso muita gente desiste por falta de motivação.
    2) Cursos extremamente exigente em exatas. Nos primeiros períodos só tem cálculo. Eu tinha muita dificuldade nessas cadeiras por ter tido uma formação de baixa qualidade na escola pública.
    3) Falta de reconhecimento profissional – Na setor que eu trabalho (Telefonia/Redes/CFTV) um vendedor com segundo grau que mal sabe escrever é muito mais valorizado (salários e reconhecimento) que um engenheiro.
    3) Curso muito longo.

    • 4) Os professore com disseram anteriormente, se sentem um Deus. A maioria não vai lá pra ensinar, vai para botar o assunto e aplicar provas.

    • Excelente comentário, Alfredo. Os professores barnabés-jurássicos são assim mesmo. Com certeza você estava em uma universidade pública, pois é lá onde se permite toda sorte de abusos e uma ausência completa de controle externo. Esses professores nunca fizeram NADA na vida. Fazer não existe em seus dicionários. Nós precisamos exigir que se privatize as universidades públicas para o mercado porque, atualmente, a instituição já é privada em função do patrimonialismo desses professores barnabés que agem como o órgão público fosse deles.

      Mas, não desista. Sempre tem solução quando se tem vontade.

      Ah, mais um ponto, os professores do ensino médio são uns enroladores. Não ensinam p. nenhuma, não é?

  • Imaginava que Economia estivesse entre os cursos de maior taxa de evasão.

  • Façam “mea culpa”, Pierre. Estou com dificuldades em colar grau graças ao desrespeito e omissão do meu orientador de monografia em meu curso numa das federais de Recife. Escrevi meu TCC em dois meses, enviei para o professor, esperei mais de 30 dias pela primeira revisão, reenviei, esperei mais 20 dias pela segunda correção, tive a data de apresentação marcada e no dia dela foi cancelada, por motivo de saúde de um dos membros da banca (segundo meu orientador, particularmente não acredito), sem nenhum perspectiva de data até o momento, 10 dias depois da data inicial de defesa. Nisso tudo, em 4 meses, vi meu (des)orientador apenas 2x. Nisso já perdi uma seleção de mestrado do qual estou de olho há tempos, no IFPE, e outras seleções como a do IPA, pois só posso colar grau depois dessa burocracia acadêmica de ter que defender oralmente minha monografia. Já me prejudicou muito. Depois vocês se perguntam tanto do por quê da evasão de alunos do curso superior e os poucos que chegam ao final dele, são solenemente ignorados por vocês. Tá tudo errado na academia.

    • As universidades públicas são praticamente privadas. O aluno não paga diretamente, a sociedade paga, mas o descaso e patrimonialismo mostra quem são os seus donos.

  • Bem lembrado, realmente é de questionar a participação de alguns professores nas bancas de defesa de TCC, Mestrado, etc. O (des)orientador de Federal é um semideus que muitas vezes complica a vida dos alunos. Já vi orientador mandar o aluno procurá-lo na sua casa, na pizzaria, no aeroporto, para fazer uma revisão no trabalho. Uma vergonha! O aluno se rastejando para um dia de boa vontade do professor e sem ter como reclamar. Realmente, o patrimonialismo é uma constante nas federais. Desculpem meu desabafo, acredito não ser regra geral, mas existem essas figuras no meio acadêmico.

  • Governo socialista petista criou cotas raciais e sociais, encheram as universidades públicas de alunos despreparados , muitos semi analfabetos em nome da inclusao, criaram o FIES principalmente para ajudar as faculdades particulares, vai ser a maior inadimplência a ser vista, enfim a ptzada quer gente ignorante.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).