Ninguém vota em quem defende a Educação

jun 4, 2015 by     4 Comentários    Postado em: Educação

Por Artur Brito
para o Acerto de Contas 

A educação é, para o eleitor brasileiro, mais ou menos o que o América é para o torcedor carioca: o segundo time de todo mundo. Ao final do dia (ou das eleições), assim como ninguém torce de verdade pelo américa, ninguém vota em quem defende a educação. A votação de Cristovam Buarque nas eleições presidenciais de 2010 foi uma prova disso. De qualquer maneira, virou clichê se dizer que a base de todos os nossos problemas (e soluções) estão na nossa educação. Eu também acho. Mas, na hora de votar, nosso dedo invariavelmente digita números sem levar isso em consideração.

Educação não dá voto.

Talvez, por termos vivermos nessa falsa priorização da educação, permitimos que os governos sejam tão incompetentes com a condução das políticas da área. especialmente, da nossa educação básica. sim, porque um país marcado pela desigualdade social, não vai a lugar nenhum se não educar, especialmente seus indivíduos mais vulneráveis: os mais pobres.

Nossa herança educacional elitista vem de longa data. Os países de cultura protestante, desde muito cedo, educam (todas) as suas crianças para ler a bíblia. desde a reforma protestante, um dos pilares da nova religião era a leitura da bíblia na língua nativa de cada país. em cada igreja protestante alemã, suíça ou americana havia junto uma escola para ensinar as crianças a ler. O Brasil tem raízes culturais indiscutivelmente católicas. Na igreja católica, a ordem mais ligada à educação foram os jesuítas. enquanto os protestantes construíam escolas, no entanto, os jesuítas construíam universidades e poucas escolas para os filhos da nobreza. O protestantismo educou as massas, o catolicismo, as elites.

Mas, vivemos no século XXI e tudo isso é passado. será?

Há poucos dias, o ex-ministro da educação e atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad Afirmou em reunião da USP que gostaria que a instituição, onde é professor, adotasse o ENEM para selecionar os seus alunos. Ele disse que a competição pelas suas vagas aumentaria e alunos de outros lugares do Brasil poderiam desfrutar do sonho de estudar na meca do ensino superior brasileiro. Faz sentido. Para concluir soltou essa: “Como talento não escolhe classe social, você efetivamente acaba atraindo pessoas de mais baixa renda para a universidade”. Faltou o ex-ministro dizer que talento pode não escolher classe social, mas os cofres do MEC, sim.

Os governos petistas sempre mostraram como sua principal conquista na área da educação o aumento do acesso ao ensino superior. Assim como Washington Luís um dia disse “Governar é construir estradas”, os petistas deveriam dizer “Educar é colocar na universidade”. Só precisam ser mais claros quanto à realidade dos fatos. Essa política mira a classe média. não os pobres. O orçamento do MEC, em dez anos, saltou de 33 para 101 bilhões de reais, dos quais nada menos do que 80% são destinados ao ensino superior. Vários programas foram criados como o PROUNI, política de cotas, fortalecimento do FIES (esse criado no governo FHC). Tudo com a intenção de “colocar o filho da empregada na USP”. O que conseguimos, de fato?

Hoje, 8,8% dos alunos daquela universidade possuem renda familiar menor ou igual a 2 salários mínimos. Para que o leitor tenha ideia da desproporção, essa faixa de renda engloba impressionantes 72% da população brasileira. Enquanto isso, e a despeito do espetacular aumento de gastos, nosso IDEB (índice que avalia a qualidade da educação básica) pouquíssimo avançou, seguimos em posição lamentável nos rankings internacionais de educação (quem tiver interesse e estômago forte pode olhar a situação do Brasil no PISA ou no education at a glance) e não conseguimos sequer erradicar o analfabetismo (proposta de Lula na agora longínqua campanha de 2002. a ser realizada em 4 anos) que ainda atormenta 8,5% da população brasileira, no nordeste, região mais pobre, 14,5%.

O estado brasileiro, mesmo que governado por quem veste vermelho e usa tanto a palavra “povo” e “trabalhadores”, assim como os jesuítas tanto tempo atrás, segue educando a elite.

Haddad sabe que não existe nada mais importante para um povo pobre do que a erradicação do analfabetismo e a construção de uma educação básica sólida. Mas, ele também sabe que educação não elege ninguém. Melhor construir ciclovias… vai ver dá voto!

4 Comentários + Add Comentário

  • O último relatório da UNESCO nos reprovou no tocante a uma política que considerada de “segunda categoria” mesmo nos governos da coalizão petista: o combate ao analfabetismo entre a população adulta. No momento, exitem 13 milhões de analfabetos nesse universo, um índice considerado alto mesmo para os padrões latino-americanos. O comprometimento dos recursos da educação para o ensino superior é histórico. Aqui o Estado “acerta”, provavelmente para atender aos interesses da elite, que tiveram acesso ao ensino privado nos estágios anteriores. Uma lógica perversa.

  • Mais de meio milhão de zeros no ENEM 2015 já demonstra como anda a educação no Brasil. Segundo especialistas, o Brasil vai pagar caro por isso, …ou já está pagando?
    http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/01/mais-de-meio-milhao-de-estudantes-tiraram-zero-na-redacao-do-enem.html

    Realmente, não há prioridade na educação, professores desvalorizados, escolas sucateadas, faculdades sem qualidade em cada esquina, estatísticas falsas para receber recursos, enfim…..caos total…..corrupção forte com recursos repassados para a educação……desvios de verbas……
    Aqui em Pernambuco, o salário dos professores da rede pública é o pior do país, e os professores se encontram atualmente em greve. Os professores da rede particular se encontram em estado de greve, que também não ganham lá essas coisas. Claramente não há prioridade em educação. Também não vejo saída, sem investimentos maciços em educação.

    Estou de volta ao Acerto de Contas! rsrsrsrs Saudades do Blog. Insubstituível, sem dúvidas. Estou sentindo falta de outros comentaristas……..bem hilários….kkkkkk Um abraço a todos do blog.

  • Sugestão de livro: Por que as nações fracassam.

  • E como atua sobre o assunto os candidato em que você votou?

    É bom que mude a consciência do povo mas é um assunto que pouca gente quer saber.

    As classes altas que precisam pagar o ensino básico dos filhos e as classes baixas que não conseguem, na maioria das vezes, gerenciar o estudo dos filhos e que obrigados a frequentar a rede pública de ensino.

    Fora isso, o nível dos professores caiu por conta dos baixos salários e condições de trabalho.

    O que é mais grave: professor perdeu o status e importância social e é maltratado e ameaçado em sala de aula e o “coitado” do aluno ganha um sermãozinho e pronto.

    Uma amiga em uma escola particular foi agredida verbalmente, xingada e por pouco não sofreu agressão física e, no final, foi advertida pela direção para não provocar confusões. Ou seja: passar todo o mundo pois não se pode perder os fregueses.

Tem algo a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).