O Blockbuster do Woody Allen: “Meia Noite em Paris” chega aos cinemas

jun 21, 2011 by     24 Comentários    Postado em: Imagem-Movimento

Por Bernardo Queiroz e Kássia Alcântara

Para o Acerto de Contas

Geralmente não tenho paciência para diretores muito prima donna. Gente que só faz filme para si mesmo, do seu jeito. É fácil confundir diretores deste tipo com autheurs de verdade, como Martin Scorsese ou François Truffaut. Esse tipo de diretor é um carinha com a cabeça enfiada no meio dos próprios pés fazendo filmes “para eles mesmos”, como bebês escandalosos chamando a atenção para si.

Esses caras (sim, estou falando com você, Lars von Trier) deveriam parar de filmar e fazer um blog. Ou então aprender a fazer filmes sobre as angustias humanas mais nobres do que simplesmente exercícios estéticos.

Como Woody Allen em Meia Noite em Paris.

Com uma base literária muito sólida, Allen nos leva à Paris, cidade mais filmada impossível, com um roteiro que nos induz ao exercício de olhar pela cidade luz. Um olhar diferenciado, se levarmos em consideração tudo que ecoa em trabalhos de muito diretores apaixonados pelo lugar, desde os casos de Paris Eu te Amo (2006) aos escritos de Walter Benjamin sobre o ato de vagar pela cidade (Das Passagewerk).

É um filme sobre a figura do flâneur boêmio, o ato de olhar a cidade mesmo morando nela, o real significado de ver e viver a urbe. É assim que conhecemos o roteirista Gil, de casamento marcado, passeando em Paris com a Inez (Rachel Mcadams, no papel da esposa megera). Owen Wilson, que claramente interpreta o alter-ego do diretor, está surpreendente em um papel que exige certa sutileza, mostrando um rosto completamente diferente do tipo de papel tolo como o do filme Passe Livre (2010).

Gil está com um romance praticamente terminado, e com muitas dúvidas sobre seus textos, sobre o próprio casamento e sobre si mesmo. Para ele, Paris é também um símbolo de uma cidade elegante em uma era mais civilizada. Sua esposa não o valoriza, preferindo um boçal esnobe para companhia.

Numa noite em particular, naquele estado alcoólico onde a boa conversa flui, ele acaba entrando num carro que o leva a um bar onde grandes símbolos da boa literatura inglesa da época conversam. Fitzgerald, Joyce, Hemingway. Em termos leigos, é como um bar de autódromo onde Ayrton Senna, João Manoel Fangio e Jim Clark dessem dicas de direção.

É em companhia destes que ele é confrontado com o que faz a vida valer a pena, assim como a misteriosa mulher dos seus sonhos (Marion Cautillard, Piaf). Conforme as noites passam, sua esposa Inez vai se afastando dele, enquanto ele passa as noites com as grandes mentes pensantes da paris da década de 20, polindo seus escritos e aprendendo algumas grandes e pequenas verdades. Bons tempos, em boa companhia, como diriam os britânicos.

É um filme que corre o risco de ficar pedante, já que a quantidade de referências aos artistas e intelectuais de todo tipo é imensa, mas Allen se permite discorrer pelo outro lado da trama: a vontade de viver uma época mais romântica, em um mundo que parece fazer mais sentido, um lugar e época onde podemos ser o melhor de nós mesmos e nos livrar de dúvidas.

E isto é algo universal, que independe se quem assiste leu gente como Hemingway. E também é uma declaração literária e cinematográfica a uma cidade/época que já viu todo tipo de  elogio. Vale a pena!

O filme estreou na última sexta-feira, 17, em circuito nacional, com 97 cópias, que, segundo a distribuidora da produção, Paris Filmes, é um recorde no Brasil para um longa do cineasta. Só neste final de semana, o filme já quebrou o recorde do diretor em de público na estreia aproximando-se dos 130 mil espectadores. No Recife, ele pode ser visto no UCI Kinoplex Plaza e Recife.

 

24 Comentários + Add Comentário

  • Não creio que o filme fique pedante pelas referências citadas. Lembro de um filme – Bom dia Vietnã, o primeiro onde vi Robin Williams e Forest Whitaker- onde as referências também eram imensas, mas, curioso que sou, cuidei de descobrir quem eram tantos personagens citados. Só tive a ganhar com isso. Se o espectador não for muito imediatista, pode ir aos pouquinhos sabendo quem foram Faulkner, Picasso, Scott Fitzgerald e tantos outros que pontificaram na Paris dos anos 20.

    • Sim, é verdade, Pimenta. Mas essa foi uma visão de alguém como eu que leu ou viu ao menos algumas coisas de muita gente citada no filme. Nem todo mundo tem a sua disposição de sair correndo atrás dos dados. Não estou defendendo, no artigo que isso não deveria ter acontecido, mas que é algo que eu acho que afetaria a carreira do filme, sobretudo em países como o Brasil, onde Fitsgerald e Hemingway não são autores de currículo obrigatório.

      • Que modestia!

  • Vi o Filme e é excelente !!!

    • Vi o Filme e é excelente (2) !!!

  • Muito curioso em ver esse filme. Wood Allen já conseguiu fazer com que o péssimo Colin Farrell fingisse ser um bom ator em Sonho de Casandra e me pergunto se ele fez o mesmo com outro péssimo “ator”, Owen Wilson (ele ainda tem que lutar muito pra ser considerado um péssimo ator ou até mesmo ator apenas).

    • você trabalha em quê?

  • Acho que Wood Allen foi engolido pela grana do star system hollywoodiano. Nunca vi tanto ator ruim nos filmes de Allen como nos últimos tempos…

  • Não se preocupe, bernardo. Qualquer dia desses, Allen vai citar Machado de Assis, que diz admirar – e esse pelo menos está no tal “currículo obrigatório”

    • O currículo obrigatório que eu falei, Pimenta, é obrigatorio mesmo por que são os livros que, supostamente, temos de ler para passar nas provas de literatura do vestibular. São obrigatórios mesmo. Mas não posso deixar de pensar que um “Dom Casmurro” por Allen não seria nada mal. Ainda sob o olhar de um cara que já falou que acha que “O amor entre duas pessoas é uma coisa linda, e entre 5 é um espetáculo”. :)

  • Lars von Trier faz filmes para ele mesmo????? Só porque vc não conseguiu entendeu nada do O Anticristo; uma grande homenagem a Tarkovisk, e um filme genial e belo; não venha falar besteira sobre o maior diretor de cinema da atualidade!!!

    • Eu nunca disse que ele não era bom, Carlos. Mas todo mundo só achou o filme o anticristo como homenagem a Tarkóvsky por que o próprio Von Triers falou isso, e não por que isso foi reconhecido por quem assistiu. Eu não acredito no cinema de agressão pura sem necessidade, e é isso que Anticristo é. E além do mais…

      “Eu faço filmes para mim mesmo, sem pensar na platéia. Ah, sim, e eu sou o melhor diretor de cinema do mundo”, foi a sua principal pérola. Esta foi a frase do próprio Von Triers, na coletiva de imprensa em Cannes no lançamento do filme O Anticristo…. então, não acho que escrevi nenhum absurdo.

      Abraços

  • O perigo de citar muitos personagens sem dimensão global, e mais conhecidos apenas em certos circuitos é que o trabalho tende a ficar datado. Mesmo dentro dos países de origem e fora do Brasil.

  • Pierre, onde estão as noticias relevantes?

    • Em Gravatá ou Bezerros ou Caruaru…

      • hahahahaha
        É, Pierre é gente como a gente…

      • Eu tava viajando a trabalho

  • Tirando a imperdoável grafia incorreta dos nomes de alguns citados (François Truffaut,
    Ayrton Senna e Marion Cotillard), bem como um gritante
    EXPECTADORES, o cerne da crítica teve seu interesse. Valeu pelo exercício, mas tentem outra vez. Soou risível uma “dupla de dois” a escrever na primeira pessoa do singular!

    • Faltou Juan Manoel Fangio e Rachel McAdams. A maioria esmagadora dos nomes está incorreta!

      Não toma 10 segundos do tempo do colunista ir no Google e checar a correção desses nomes. Como não fizeram isso, o artigo fica com aparência de trabalho de escola.

  • O problema de Von Trier é que ele quer aparecer mais que seus próprios filmes, é um babaca de marca maior, e como é impossível dissociar o autor da obra, isso acaba prejudicando seus filmes. A exemplo de Melancholia, tido como o trabalho mais maduro dele e favorito à Palma de Ouro esse ano, que foi sabotado pela estupidez do próprio diretor, que falou o que não devia durante a coletiva.

    Sobre Midnight em Paris, essa saída de Allen dos EUA fez muito bem a ele, deu um novo gás ao talvez grande diretor americano mais produtivo em atividade. Este aqui só não é melhor que a obra-prima Match Point.

    Acho que mais análise e menos descrição seria melhor da próxima vez. Ah! E é Marion Cotillard, rosto mais bonito do cinema atualmente. ;)

    • Eu não vi Melancholia ainda Radamés, já vistes? Que achou?
      Brigado pelos toques.

  • Esse blog está cada dia mais desatualizado. Não fala de política, muito menos de economia. Os assuntos do Recife foram banidos há tempos, talvez pelos tais banners. Melhor fechar a bodega!

    Quem sabe quando Pierre resolver lançar sua candidatura a vereador a coisa melhore…

    • Hagar! vai procura a Helga!
      Pierre infelizmente, não ganha nem pra síndico do prédio.

  • O pior é que o Acerto de Contas faz falta, passei o feriado todo esperando um post novo e sobretudo interessante. rsrsrsr Faz falta o Acerto de Contas.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).