política internacional

Cesare Battisti

Cesare Battisti

Ontem, o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu o direito de asilo político e refúgio humanitário ao escritor italiano e ex-ativista de esquerda, Cesare Battisti.

O governo italiano, já há algum tempo, vem solicitando a extradição de Battisti à Justiça brasileira. A versão do governo italiano foi ‘comprada’ por algumas organizações brasileiras, como o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) e também pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza.

Curioso é que até mesmo a revista Carta Capital publicou, na metade do ano passado, um artigo em que praticamente dá uma espécie de sentença condenatória a Battisti – usando de vocabulário chulo e conteúdo duvidoso -, em uma matéria esdrúxula (bem apropriada à imprensa do PIG) que parece ter levado em conta apenas as informações da embaixada italiana.

Mesmo sendo condenado por crimes políticos, o governo italiano apresenta uma tola versão de que Battisti teria cometido crimes comuns. Outra estratégia para comover a opinião pública e o governo brasileiro, é usar do argumento de “combate ao terrorismo”.

Esse discurso nunca calhou tão bem a um governo que busca realizar uma perseguição política. A nota do Ministério de Relações Exteriores da Itália atesta esse discurso de forma bastante clara.

Um trecho da nota diz o seguinte: “A Itália faz um apelo ao presidente do Brasil, Lula da Silva, para que sejam tomadas todas as iniciativas que possam promover, no quadro da cooperação judiciária internacional na luta contra o terrorismo, uma revisão da decisão judiciária adotada”.

A intenção é pressionar a Justiça brasileira para autorizar a extradição.

Como eu disse, nunca caiu tão bem o discurso do combate ao “terrorismo internacional”…

Talvez até mais do que para justificar os bombardeios norte-americanos ao Afeganistão e ao Iraque (defendidos de forma ferrenha, à época, pelo atual primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi).

Battisti foi enquadrado na chamada “Lei Cossiga” (nome do ex-presidente democrata-cristão, Francesco Cossiga) – uma legislação de exceção promulgada em 1981 (anos após os crimes de que foi acusado) e que foi aplicada de forma retroativa contra Battisti.

Uma das principais acusações é a do assassinato de Aldo Moro (ex primeiro ministro, um dos líderes da democracia-cristã italiana na década de 1970). Moro teria sido sequestrado pelas Brigadas Vermelhas em março de 1978, e morto depois de 55 dias de cativeiro.

A argumentação de Tarso Genro para conceder o refúgio a Battisti é bastante clara, e para mim, convincente. As sentenças condenatórias de Battisti mostram de forma evidente o caráter político dos crimes que são atribuídos a ele. Logo, é uma falácia querer enquadrá-lo em crimes comuns.

Segundo Tarso Genro, as modalidades penais são integrantes de “um só projeto criminoso, instigado publicamente para a prática dos crimes de associação subversiva constituída em quadrilha armada, de insurreição armada contra os poderes do Estado, de guerra civil e de qualquer maneira, por terem feito propaganda no território nacional para a subversão violenta do sistema econômico e social do próprio País”.

Evidentemente, as Brigadas Vermelhas não iriam adotar para si um “projeto” pessoal de Cesare Battisti – também ex-militante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo).

Existem alguns rumores de que a negação da extradição de Battisti é uma espécie de revide à não extradição de Salvatore Cacciola pela Itália, no fim do ano passado. Cacciola só foi extraditado quando foi “passear” em Mônaco”…

Independente disso, está certo o ministro em não extraditar Battisti.

Não boto minha mão no fogo por ninguém, e não se trata de compaixão de minha parte com Battisti, mas todos sabem que há mais de 10 anos Battisti renunciou à luta armada, como condição para sua entrada na França, durante o governo de François Mitterrand.

Não quero justificar o injusticável – caso Battisti realmente seja o culpado pelos 4 assassinatos de que é acusado. Mas, seja como for, eu defendo a permanência de Battisti em solo brasileiro.

Casado e pai de duas filhas, não acredito que possa representar nenhum tipo de ameaça ao Estado democrático de Direito brasileiro, nem mesmo internacional.

Como escritor de estórias policiais, pode vir a representar algum risco para a saúde literária de seus leitores… E, só.

Doravante à concessão de refúgio em território brasileiro, provavelmente alguns poderosos da máfia (com suspeitas de ligações com Silvio Berlusconi) e do establishment de ultradireita italiana também parecem estar temerosos.

O que não acho correto é entregar numa bandeja a cabeça de Battisti a um governo que irá o enterrar eternamente em uma cela, com direito duvidoso à defesa jurídica – caso não seja ‘suicidado’ antes de sua “morte morrida”.

Além de tudo, Battisti nega a autoria dos assassinatos de que foi acusado, inclusive em regime de delação premiada por um dos chefes do grupo armado a que pertencia, que se arrependeu foi libertado pela tal “delação premiada”.

Seu direito à defesa junto à justiça de um governo de ultradireita é incerto. Levando isso em conta, é mais do que justa sua permanência em território brasileiro.

Com as devidas ressalvas óbvias, a extradição de Battisti seria uma cretinice política proporcional a do governo estadonovista de Vargas, quando entregou a judia Olga Benário ao regime nazista de Hitler.

Segundo Fred Vargas (pseudônimo da historiadora, arqueóloga e escritora Frédérique Audoin-Rouzeau), que está custeando a defesa de Battisti junto à Justiça brasileira:

“No Brasil, não se extradita ninguém por crime político, então a Itália faz todo o possível para explicar agora que Battisti é culpado de crimes de direito comum”.

Segundo penso, o ministro Tarso Genro demonstrou sensatez ao conceder o refúgio humanitário a Battisti.

Dessa forma, evita a participação brasileira em qualquer tipo de conluio da direita européia na perseguição política a Battisti.

Os advogados de defesa de Battisti entraram hoje de tarde com um pedido de liberdade (Battisti está preso aqui no Brasil) e arquivamento da solicitação de extradição do governo italiano.

O pedido deverá ser julgado amanhã pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

Sintomatologia de um conluio da direita européia

Algumas evidências atestam uma espécie de conluio político internacional da direita européia (ao menos da França e da Itália) para aniquilar Battisti. Ele já havia conquistado o direito de permanecer na França, onde teve duas filhas, e residia em moradia fixa, em Paris, exercendo sua literatura policial e atividades como zelador de imóveis para sustentar a família.

No período da campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy, em 2007, o cerco contra ele se fechou de vez, tendo que fugir – não mais para o México, mas para o Brasil.

O uso político do caso de Battisti na campanha de Sarkozy foi muito óbvio: a perseguição agradou todos os setores conservadores e direitistas do país (que, desde o governo de Jacques Chirac, já clamavam pela extradição), e também da comunidade européia – que, grosso modo, adentrou em um forte contexto político de ultradireita (sobretudo na Itália e na França), nos últimos anos.

A saída de Miterrand do governo, em 1995 (somado às discussões e divergências internas que enfraqueceram o Partido Socialista Francês), criou o contexto desejado pelo governo italiano para catalisar a perseguição a Battisti.

Com Jacques Chirac no poder (em 2002, quando essa questão estava praticamente encerrada), o governo italiano aproveitou para exigir a extradição de vários italianos residentes em território Francês – sob o perdão de Miterrand há vários anos. Entre eles, Cesare Battisti.

Mesmo não realizando a exigida extradição, Chirac reabriu o processo, depois de forte pressão de setores conservadores da direita francesa. Chirac tinha que, de alguma forma, se distanciar de seu antecessor nas questões de anistia política.

Então, o tribunal de apelação de Paris resolveu seguir as orientações do governo, aceitando o julgamento feito na Itália, sem levar em conta as condições (à revelia e o fator retroativo da lei aplicada) em que foi realizado.

Foi violada uma série de direitos adquiridos por Battisti. Para citar apenas dois: o direito de asilo concedido fazia mais de 10 anos, e a violação à Convenção Internacional dos Direitos da Criança – Battisti tinha duas filhas francesas, nascidas em Paris, que seriam privadas de seu pai, no caso de realizada a extradição.

Pouco antes da decisão judicial que o extraditaria, ele fugiu para o Brasil (em 2007), onde está preso até hoje.

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PS: Para ler a carta redigida por Cesare Battisti, no último dia 25 de dezembro, basta clicar aqui.

Para acessar o site Liberdade a Cesare Battisti, clique aqui.

Para assinar um abaixo assinado de solidariedade e contra a extradição de Battisti, clique aqui.

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* Post publicado originalmente às 19:21h de ontem.

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