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Muro da embaixada, onde se lê: "Chegou o dia de suas mortes, seus golpistas miseráveis". Foto: AP

Pensar que Manuel Zelaya foi deposto porque teria simplesmente  “violado” o artigo 239 da Constituição de Honduras não é suficiente para entender as forças políticas que estão por trás do golpe. Que Zelaya foi eleito, democraticamente, com apoio das oligarquias hondurenhas, isso é notório e sabido.

O que incomodou as elites dirigentes das Honduras foi o fato de que Zelaya, ao longo de seu governo, deu uma guinada da centro-direita para a centro-esquerda, conduzindo a política nacional para uma valorização de setores historicamente relegados à condição secundária.

Ter elevado o salário mínimo em 60% provavelmente foi um de seus maiores “crimes”.

Outro de seus “crimes”, estopim do golpe de estado verificado naquele país, foi tentar convocar um referendo no qual o povo hondurenho decidiria sobre a possibilidade de se agregar às urnas das eleições de novembro uma quarta pergunta sobre a convocação de uma Assembléia Constituinte, com vistas à uma reforma do texto constitucional.

O fato de a consulta popular ser prevista para o dia das próximas eleições inutiliza os argumentos de que Zelaya buscava sua reeleição, pois uma suposta reforma da constituição não englobaria seu mandato.

Acontece que as elites dirigentes de Honduras perderam força após as seguidas mudanças das posturas políticas de Zelaya (muito bem vistas pelas classes populares), que deixou de lado a parte reacionária da plataforma política liberal de seu partido, e passou a empreender uma maior valorização da classe trabalhadora.

Essa valorização ainda é tímida, mas conjura destinos imprevisíveis, e isso causa assombro em qualquer elite que almeja manter seus postos e privilégios. Agradar as classes mais populares é um risco político enorme para quem controla historicamente as instituições e riquezas de qualquer país.

Restou aos defensores da elite hondurenha o argumento de que o golpe se deu com o suporte jurídico da Corte Suprema de Justicia, referendado pelo poder Legislativo, e empreendido pelas forças armadas do país.

Ou seja: estaria tudo dentro dos conformes legais, e o golpe não seria um golpe.

A este argumento pseudolegalista, pouco se tem a argumentar, pois se trata de uma mentira política.

Os adeptos dessa mentira deliram sob seus tetos, imaginando que a América Latina é um paraíso histórico do Estado Democrático de Direito.

Na areia movediça desse delírio, os poderes que ditam as ordens são completamente independentes, e seus representantes nunca agiriam orquestradamente na deposição de um governante que vai contra os interesses de quem conduz as instituições a rédeas curtas.

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