“(…) Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita, depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras. Depois desses suplícios, Damiens, que gritava muito sem contudo blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.”
Alguns classificaram o autor do livro Vigiar e Punir, o historiador e filósofo francês, Michel Foucault, de sádico.
O argumento era por Foucault ter aberto o livro com a descrição crua e em detalhes de um suplício (como vocês leram acima).
No entanto, sádico ou não (eu vejo como uma questão de estilo), o fato é que o livro já nasceu como um clássico sobre a história das prisões.
Mesmo achando que o melhor é comprar o livro, ou pegar em alguma biblioteca (é de fácil acesso), você pode baixar o e-book de Vigiar e Punir, clicando aqui.
Foucault faz uma historicização de como se deram as transformações nos modelos de punição para os criminosos, dos suplícios até o surgimento do sistema prisional no século XIX, passando pelo modelo do panóptico de Jeremy Bentham (veja ilustração abaixo).
Você pode observar que o modelo panóptico significa dizer que o observador central vê tudo e todos, enquanto os prisioneiros apenas vêem a torre de observação (veja abaixo)
Abrangindo outras dimensões, a obra de Foucault que estou indicando a leitura, não nasceu de um delírio de um autor acadêmico. Foucault foi um dos membros fundadores do GIP (Grupo de Informações sobre as Prisões), que fez importantes estudos sobre as prisões.
O GIP surgiu depois da dissolução do movimento de inspiração maoísta chamado Esquerda Proletária, quando muitos militantes foram presos, e iniciaram atividades políticas no interior das prisões, reivindicando direitos e status de prisioneiros políticos.
Para o caso de o leitor se interessar pelo assunto, indico também o Volume IV da coleção Ditos e Escritos, de M. Foucault (Estratégia, Poder-Saber), organizado por Manoel Barros da Mota.
Foucault considera que o sistema penintenciário (sistema que consiste em internar pessoas em estabelecimentos fechados até que elas se emendem) fracassou totalmente.
A perspectiva do autor é que esse sistema compõe um outro sistema mais vasto e mais complexo, que é o sistema punitivo. Para Foucault, vivemos dentro de um sistema no qual as crianças são punidas, os operários são punidos, os alunos são punidos, os soldados são punidos, enfim, é-se punido durante toda a vida.
Hospitais, asilos, orfanatos, hospícios, colégios, reformatórios, usinas e prisões, todas essas instituições, segundo Foucault, fazem parte de uma espécie de grande forma social do poder, estabelcido no início do século XIX, e que forneceu as condições necessárias para o funcionamento da sociedade industrial, ou, o sistema capitalista.
Talvez Vigiar e Punir seja o livro no qual está mais evidente a grande influência de Karl Marx em sua obra, apesar de muitos marxistas não conseguirem enxergar isso. Certa vez, Foucault declarou que “se os marxistas não conseguem ver Marx em meus textos, esse é um problema dos marxistas.” Bem entendido, isso não significa dizer que ele fosse marxista.
Enfim, são obras que valem a pena ler. Estamos em plena crise do sistema prisional brasileiro, com uma CPI do sistema carcerário em andamento, comprovando a falência de nosso sistema prisional.
A leitura dessas obras certamente contribuem para uma visão mais crítica sobre a falência de nossas prisões.
Elas não “emendam” ninguém; apenas têm-se mostrado uma escola e fábrica de profissionais do crime.
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* Hoje (26 de junho) estão completando 24 anos da morte de Foucault. Em virtude disso, trouxe de volta esse post, publicado originalmente no dia 6 de março de 2008.





Que rapaz inteligente!!! Seus textos sempre me impressionam, por acaso você é marxista?
comentário idiota…
André, o blog poderia ter moderação porque, de vez em quando, aparece alguns incautos infelizes querendo diminuir o nível dos comentários. Mas aí seria uma atitude anti-democrática. Ou não ?!
Com relação ao livro, acredito que ele seria bastante útil para os agentes da administração pública responsáveis pela execução penal do país. A tortura nas prisões é uma realidade nossa, com imagens tão fortes como essa do trecho do livro.
Prezado Daniel Tabosa,
poderíamos sim moderar os comentários, até excluí-los, se quiséssemos.
E, isso não seria nem um pouco anti-democrático.
A Constituição Federal assegura alguns limites à liberdade de expressão, como por exemplo, o veto do anonimato.
Outra penalidade é se utilizar do nome de outrem, o que se configuraria em falsidade ideológica.
Que tipo de penalidade se instituiria à uma figura tal? Um suplício, como o de Damiens? Uma prisão panóptica? ou a simples exclusão de seu comentário?
Creio que não. Seria radical demais. Embora a última opção não fosse anti-democrática.
Achamos por bem deixar tais comentários, sob a pena de serem apenas ignorados.
Não respondi a tão elogioso comentador, por isso mais parecer ‘coisa de troll’, aqueles que invadem sites e blogs apenas que atazanar a vida dos outros. Simplesmente não devem ser levados à sério.
O único ‘filtro’ que fazemos diz respeito à linguagem de baixo calão que vise denegrir ou caluniar alguém. Nesse caso, sim, fazemos uma edição do comentário, apenas trocando palavrões por símbolos.
Quanto ao livro, seria sim de boa utilidade para as autoridades da administração pública, bem como para os parlamentares da CPI do sistema carcerário.
As denúncias publicadas pelo GIP, para além do livro Vigiar e Punir, seriam também de muita utilidade.
Mas, creio que a utilidade desses trabalhos podem atingir o público em geral.
Mas, imagina se os próprios presos daqui começarem a ler Foucault, e entrarem em contato com a história dos ativismos políticos que emergiam no interior das prisões na França?
O que o Dr. Drauzio Varela diria disso?
rsrsrs. É uma brincadeira…, mas, imagina?
No entanto a sociedade brasileira é bem distinta da Sociedade francesa nas épocas das Revoluções de 1848, da comuna de Paris em 1870, e mesmo de maio de 68.
Dos presos só se busca, aqui no Brasil, a exclusão. Preso bom é preso excluso. Incluso apenas entre as paredes que buscam emendá-los. Isso pode ser um erro.
Qual será o motivo da falência do nosso sistema prisional?
Não sei a resposta.
Mas, tenho certeza que é algo bem mais complexo que apenas as sub-penas impostas no interior das celas fétidas.
Pensemos todos juntos…
Abraço!
André, o conteúdo de Vigiar e Punir é muito bom, e sua “resenha” está muito boa, mas esse é o livro mais chatos que eu já li na minha vida (e olha que eu leio um bocado – esse eu li todo porque ia fazer uma prova sobre ele). A única parte cuja leitura é agradável (se a pessoa não tiver um estômago sensível) é o suplício de Damiens.
Por favor desconsiderar o plural em chatos. Inicialmente eu ia dizer que Vigiar e Punir era um dos livros mais chatos que eu já tinha lido. Quando decidi colocá-lo como o mais chato, me esqueci de cortar esse “s” ao final de chatos.
nossa, comentáris aos niveis das “réplicas”… sem a presença de esses em demasia…
o que diz o conteúdo? Tudo…ahuhuahuauhahua… o conteúdo trás em si a forma de sua composição…
aí esta a diferença entre o texto e o sentido, entre a palavra e o corte?
aí o problema da forma….
alias , a sua… ta muito boa visse… ao nível das melhores excritas produzidas … (no espaço, nelas mesmas…) cada vez mais originais e interrogativas, sem deixarem-se de tanger a generalidade do pensamento comunicativo…
muito bom mesmo…
André,
Acho que uma das muitas respostas para a afalência do nosso sistema prisional é a de que preso NÃO vota, por ter perdido os direitos políticos; nunca vi uma promessa de campanha para melhorar a vida do detento.
No Brasil existe o preceito constitucional de que não haverá penas:
- de morte;
- de caráter perpétuo;
- de trabalhos forçados;
- de banimento;
- cruéis.
É mais um exemplo de direitos individuais que não saíram do papel.
Apesar de o Estado não executar as penas acima, é negligente e permite que elas aconteçam, tendo, portanto, responsabilidade indireta.
“imagina se os próprios presos daqui começarem a ler Foucault”
Eles sabem ler?
Que pena que não existem essas penas:
“- de morte;
- de caráter perpétuo;
- de trabalhos forçados;
- de banimento;
- cruéis.”
e aí os presídios viram depósitos de vadios.
O tal Foucault sugere alguma solução para o problema?
Isso é o que me preocupa “não nasceu de um delírio de um autor acadêmico”, será mesmo? E pior, vi o nome capitalismo ser citado, mas a mesma coisa aconteceu e outros sistemas econômicos. E afinal, falam, falam, falam, mas ninguém parece discordar que bandido bom é bandido morto.
Não gosto de Foucault, o queridinho dos pós-modernos, mas devo reconhecer que – apesar da leitura massante – Vigiar e Punir é uma obra excelente. Apesar da declaração de Foucault, seus leitores deploram o marxismo e os marxistas desprezam os foucaultianos… mas voltando ao tema:
Sim, nosso modelo de sociedade é basicamente punitivo, sendo assim, há penalidades sobre tudo. Em nosso caso particular, no Brasil, sequer há condições de punir ninguém! A questão é que além das profundezas intelectuais e reflexivas sobre a questão, há um entendimento generalizado que autoriza, requer e legitima a prática punitiva.
Tenho realizado um trabalho onde posso lidar com esta questão. Leciono Sociologia (apesar da formação em História) na rede pública estadual e mais do que trabalhar teorias, busco promover debates. Um tema que sempre exploro é a violência, culminado com um debate sobre um aspecto chamativo: a pena de morte. Em geral, o público (alunos do 3º ano) aprova e defende a pena de morte. Esta opinião dos alunos reflete um entedimento reforçado pelo noticiário e pelo dia-a-dia, que ressalta o fato de que vivemos em um meio violento no qual a criminalidade domina e atormenta os cidadãos.
Será que esta percepção que prega a punição mais radical é completamente ilegítima? Não creio nisso, apesar de não defender a pena de morte. Com ou sem pena capital, a população, em geral, reivindica a efetividade do sistema punitivo. Isso ocorre em qualquer lugar, em qualquer país e há muitos séculos!
Punir não é de hoje. Vale lembrar que o primeiro código punitivo do qual temos notícia é o famoso Código de Hamurábi, praticado pelos mesopotâmicos nos idos do século XVIII a.C. Repelir o crime é uma das contingências do convívio em sociedade, pois há a necessidade da existência de regras e de meios de fazer com que elas sejam cumpridas, embora as regras regularmente reflitam o universo dos grupos ou classes que dominam as sociedades.
Fazer esta leitura de Foucault é útil para obter mais uma perspectiva sobre as noções e as práticas punitivas que historicamente são empregadas particularmente no mundo ocidental. O autor associa a consideração de que a tendência punitiva não está apenas nas prisões – na verdade, esta é a grande sacada do livro.
Ler não custa nada (mesmo que o livro seja um tanto desgastante). Acho que o propósito dessta postagem foi basicamente esta!
PS. Embora defenda a noção de que deveríamos reestruturar nosso modelo social ao ponto em que o banditismo onipresente seja preventivamente diminuído, continuo defendendo a idéia de que lugar de bandido é na cadeia – e, em muitos casos, durante todo o tempo de vida que lhes restam!
Sabe que devemos ficar mais atentos aos “resgates mediúnicos” do RANBONI?
Dos blogueiros ele foi o único a não “aderir” a batalha eleitoreira dos prefeitos. Por conseguinte ficou mais livre para nos oferecer boas (e más) culturas.
Vez por outra, nos brinda com personagens controversos.
Consideremos que para Foucaut, o poder não pode (ou não deveria) ser localizado numa instituição, o estado, por exemplo.
Certa feita, fui compulsoriamente solicitado a degustar a “Teoria da Instituições Penais”.
Mandei de presente, anonimamente claro, ao Diretor do Anibal Bruno.
Nossa… tá difícil. Não sr. Francisco, segundo Foucault, a analítica do poder não pode passar pelas análiticas institucionais, pois, o poder atua fora das instituições, ou melhor ele se institucionaliza em menores unidades, em acordos pequenos, por fora, pelos lados, atravessadamente… ou poder só existe nas intituições júridicas, assembléias, etc…? enfim, acho que não dá pra explicar a você sr. Francisco Filho… e quanto as boas (e más) culturas, só com muita tacanhice de espírito!
Fiz um comentário que cabia ao Raboni, se o desejasse, a contradita.
Mas parece que a reação veio por procuração, via “fantoche virtual” .
Previsível.
Afinal o Brasil é um competente produtor de “laranjas”….
Em defesa da realidade do personagem
Se dissesse virtual, estaria não digo mentindo, mas cometendo um deslize, pois, virtualidades são anteriores à própria internet. Então minha existência, talvez imaterial, pois não de todo, preciso de corpos, hóspedes e hospedeiros que suportem meus enunciados. Pois, me regozijo, como personagem, de ter sido escrito por mais de uma mão, jovens bêbados com delírios megalomaníacos de grandeza, também os misantropos cheios de desprezo no coração, os viciados em morfina, frios, lânguidos, vêm me procurar e se aconselhar. Saem em estado mais lastimável que entraram, descobrem o que já sabiam: a tragédia não tem sentido. Sou como o ultimo beatnik que jamais existiu. Mas aproveito agora para registrar que aquela fama de velho xamã é, e sempre foi lorota, papo furado, falácia, esse papo orientalista era moda na época, e eu precisava de desculpas para me drogar a vontade, e ter as ninfomaníacas mais neuróticas ao meu lado. Hoje, penso, deve ser por esse motivo que tantos me procuram ainda, que sou retomado, feito emergir tal qual um espírito louco, Dionísio, Pã, ou a Besta-fera. Uma reposta velhaca a tudo que é velhacaria do mundo. Já fui um poeta juvenil a ter devaneios com vizinhas; fui velho bêbado trocando ofensas com calçadas e postes; também já vivi quase como um monge, quieto, absorto, esperando em vão o que jamais aconteceria; sentei em inúmeros bares, desejei, e despejei meu desejo; li os grandes, me envolvi na atmosfera de tempos mortos, li também os pequenos, alguns jóias mínimas, por isso mais raras ainda. Sou denso como um vômito, crivado e duro como palavras em um papel e idéias fixas em uma cabeça.
È preciso dizer, sr. Filho de Francisco, que um personagem tem que ter ao menos estilo. Então, sr., “fantoche virtual” e “laranja”, bem, pra pouco entendedor…
E pra não dizer que as criticas só foram negativas, tenho que agradecer ao sr. Filho de Francisco, já há muito estava inerte, isolado em algumas lembranças apenas. Quando sua escrita (não exatamente a sua escrita, mas o escrito mesmo, você pouco importa, em verdade, pois, como em Foucault, que talvez o sr. devesse tentar ler: “o que é um autor” afinal?) me fez emergir de novo. Tirou o velho de sua alcova, o fez dar um belo vômito antes de seu retiro, mais uma vez…
Sr. Anísio
A carapuça coube na medida e de quebra ofereceu um apetitoso suco de “karanja”
Caro krishnamurti, tem alguns lugares fora das prisões que tb estão cheios de vadios. E se afinal existissem as penas de:
- morte;
- de caráter perpétuo;
- de trabalhos forçados;
- de banimento;
- cruéis.”
E se além disso todos os criminosos fossem dessa forma punidos. Digo TODOS os criminosos, pq existem muitos que tem poder suficiente para não sofrerem as consequências da “lei”. Se isso realmente ocorresse muita “gente boa” não estaria mais aqui para contar estória.
PS: Adorei o comentário do Daniel Tabosa
Gostei das informações. Muito bom e bem escrito.