Pra cada ação existe uma reação. Na política, pra cada omissão, também.

jul 2, 2015 by     17 Comentários    Postado em: Política

Por Pedro Jácome

Um ditado resume perfeitamente a política brasileira hoje:

Quem ri por último… é Eduardo Cunha.

Após a primeira derrota na PEC da redução da maioridade penal, o Presidente da Câmara revotou o texto legal e aprovou o projeto de Emenda.

Eu não vou falar aqui se sou contra ou a favor da redução da maioridade penal. Já falei sobre isso neste mesmo AdC.
Tampouco vou falar se a manobra de Cunha foi legal ou não. Existem fontes com mais autoridade que eu pra falar sobre o assunto.

Pra mim, o que interessa é: de onde surgiu essa derrota política avassaladora pra esquerda brasileira?

Por que a esquerda vê agora cair na Câmara uma posição que há muito tempo era rejeitada pela sociedade?

A resposta é simples: porque a esquerda nunca debateu o problema da criminalidade do Brasil em concreto, mas sempre em abstrato.

Todas as instâncias do nosso debate público estavam mais interessadas em saber o que Foucault pensava sobre a criminalidade do que o que pensavam seu José e dona Maria, que tiveram o filho assassinado ou a filha estuprada.
Veja, não estou aqui abordando o problema num viés ético, faço isso em outra oportunidade. Estou abordando aqui o problema num viés político, onde é necessário fazer concessões ideológicas para alcançar os fins desejados. Isso, aliás, não é imoral, nem uma deformação. Política é a arte do consenso e o consenso consiste em abdicar aqui pra ganhar ali.

A esquerda tentou impor à sociedade a idéia de que a cadeia não resolveria o problema do criminosos. Mas a sociedade (e quando eu digo isso, não imaginem a alta bourgeoisie de seus edifícios espelhados, mas a população pobre que é quem mais sofre com a violência) não está interessada em saber se a cadeia resolve o problema do criminoso. Ela está interessada em saber se a cadeia resolve os problemas da sociedade.

Repito, não é uma discussão ética. É uma discussão política.
O Brasil tem hoje mais de 50 mil homicídios/ano, oficialmente. Minto, hoje não. Há mais de uma década, os homicídios vêm nessa ordem de grandeza.

A esquerda tinha o poder político e o poder ideológico pra atenuar o problema. Não o fez. É evidente que, mais dia menos dia, o sentimento de 87% da população (como é o caso da maioridade penal) iria encontrar eco em alguma instituição e as consequências seriam imprevisíveis e, possivelmente, indesejadas.

O PT, por exemplo, podia ter se aliado ao PSDB em torno da proposta de José Serra, que aumentava o tempo máximo de internação de menores que cometesse “crimes” hediondos. Isso acalmaria o clamor social contra a alegada impunidade dos menores. Não o fez.

As universidades e os formadores de opinião poderiam ter argumentado que a política de encarceramento não faz sentido para a maioria dos tipos penais, que não envolvem violência ou grave ameaça à pessoa. Desse modo, reduzindo a superlotação dos presídios e melhorando o investimento na população carcerária. Preferiram argumentar que o cárcere não faz sentindo pra ninguém

A esquerda poderia ter acolhido e escutado a voz dos mais pobres, que veem seus filhos serem vítimas diariamente do crime. Seja como vítima direta, seja sendo aliciado por traficantes ou organizações criminosas.
Preferiu botar o combate a violência nas costas dos mais ricos.

(Na pesquisa do Datafolha , entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, a proporção A FAVOR/CONTRA a redução é de, respectivamente 3 em cada 4. Entre os que ganham menos de 2 SM’s é de 11 em cada 12)

A esquerda virou as costas para o mais grave problema do Brasil. Preferiu propagar (para si mesma) as benesses da sociologia francesa.

Acontece que quando você nega a um povo amedrontado e humilhado uma solução para o seu problema e quando você faz isso durante décadas… ele vai acabar se apegando à primeira solução que oferecerem.

Eduardo Cunha que é o melhor player político da nossa geração, tão brilhante quanto calculista, viu na medida mais populista (e mais ineficaz) uma ótima oportunidade de auto-promoção. Eduardo Cunha é agora a cara que o Brasil verá ao lado da notícia da redução da maioridade penal, apoiada por quase 9 em cada dez brasileiros.
Ótimo. Pra Cunha.

A redução da maioridade penal pode ser vista (ou não) como uma tragédia.
Se for, há de ser vista como uma tragédia anunciada.

Anunciada pela falta de vontade da esquerda, que desde a ascensão de Lula ao poder até o começo do declínio do governo Dilma, teve a hegemonia de todos os ambientes de formação de opinião e de decisão. E que mesmo assim, não deu ouvidos aos clamores da esmagadora maioria do Brasil.

Newton, em sua 3a lei, afirma que para toda ação existe uma reação.
Na política, para cada omissão também.
E a reação do povo à omissão do Estado e ao cinismo da razão pública é exatamente o que estamos vendo hoje no Brasil.

17 Comentários + Add Comentário

  • Em julho de 1990 a esquerda ainda governava o país? Como pudemos regredir décadas tão rápido.

    • Depois da Nova República já tivemos governos que não foram de esquerda?

      • “Depois da Nova República já tivemos governos que não foram de esquerda?” (2)

  • A esquerda ideológica é uma bosta, seja na economia, em assuntos sociais, etc. E não caia em espantalhos, meu jovem: a redução da maioridade não está sendo vendida como “a solução” da criminalidade. Trata-se de uma medida para punir com mais rigor jovens criminosos. E é fato que reduzirá a criminalidade, embora muito marginalmente, seja por que jovens criminosos estarão presos, seja pelo desincentivo a cometer crimes graves em razão de uma maior punição. E O CHORO É LIVRE, ESQUERDALHA.

  • Se a esquerda se identificar com a transformação política e social, acho que de fato nunca tivemos um governo de esquerda, apenas fizemos uma pequena curva.

  • Quanto embasamento.

  • Como “pensa” os esquerdopatas brasileiros

    Quando o projeto anterior não passou = Uma vitória dos progressistas contra os reacionários, homofóbicos, elites e etc.

    Novo projeto aprovado = Golpe.

    A esquerda brasileira (essa mesma que defende bandidos como Fidel e Maduro mas passa férias em Orlando) é cômica. Comediantes!!

    • Golpe pelo simples fato de a segunda votação ter sido uma afronta à Constituição. O parágrafo 5º do artigo 60 é bem claro, nem precisa de juridiquês pra entender: “§ 5º A matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa.”

      Se tivesse sido aprovada na próxima sessão legislativa continuaria sendo um retrocesso, mas não seria golpe. Do jeito que foi, passando por cima da lei máxima do País é golpe.

      • Que porra de golpe, zé xoxota. Se houve inconstitucionalidade, o STF anula e pronto. Retrocesso é deixar os vagaba-mirim na impunidade.

        • Se houve inconstitucionalidade e foi adiante então houve golpe, zé xoxota. Pode espernear à vontade aí, isso não muda nada. É um fato. Teu herói, o Cunhão, é um golpista.

        • Quem diz se houve inconstitucionalidade é o STF. Você já está afirmando que houve. Logo, você está usurpando uma função exclusiva do STF. Vamos mandar todos os bandidos ( = esquerdistas) pra cadeia… Vamos fazer a limpeza. Chora, zé priquito kkkk

        • Quem diz se houve inconstitucionalidade é o texto da Constituição, que, tá lá claro pra quem quiser ler e, nesse caso específico, sem margem pra outras interpretações (ou tu consegue inventar outra além da óbvia, zé xibiu?). Nem o STF está acima da Constituição.

          Agora, claro, se quiserem rasgar a CF e viver felizes para sempre financiando presídio privado, fiquem à vontade. Os donos da Umanizzare e o Cunhão agradecem: http://www.umanizzarebrasil.com.br

          Esse presídio do site é tão bom, mas tão bom, que em vez de mandar os pessoal dos Direitos Humanos levar vagabundo pra casa, os coxinhas vão preferir ser presos.

        • Por sinal, tem outra galera querendo usurpar a função exclusiva do STF. Uma tal de OAB. Pode uma coisa dessas?

  • Dá para trocar o tema “maioridade” por reforma política, reforma tributária e tantos outros…o resultado vai ser o mesmo: esse governo de 13 nunca té e interesse em resolver esse problemas…

  • * de 13 anos

  • Como sempre, um ótimo texto!

  • “A sociedade não está interessada em saber se a cadeia resolve o problema do criminoso. Ela está interessada em saber se a cadeia resolve os problemas da sociedade.” Hoje, cadeia é outra escola de crime (quando deveria ter outra lógica de atuação), em que facções pagam bolsas para criminosos, organizam crimes, corrompem o estado/servidores e impõe seus “valores” aos iniciados. O crime se estrutura tão bem na cadeia, quanto fora dela. Se não melhor. Isso é resolver o problema da sociedade? Talvez resolva o problema de quem organiza o crime.
    Resolver o “problema do criminoso”, também é resolver o “problema da sociedade”. Se não, vc está pregando a lógica da segregação total. Se a estrutura penal lida apenas com criminosos sem solução, para quê julgamento, para quê tipologia de penas? Basta a investigação. Em última instância, basta a pena de morte para criminosos e um manicômio judicial para os demais, pois doença ainda é digna de respeito.

    Vc atribui um custo para a esquerda que não é própria dela. Ela tinha um discurso e entendimento, talvez não exatamente essa pintura que você faz. E ela “perdeu”, não pelo seu discurso em si, mas porque a sociedade achou um discurso melhor ou “pior, mas pragmático”. Acho que não se pode colocar para a esquerda um custo que está além de seu discurso. Se não, vamos colocar também para a “direita” a pertinência e exatidão de seus argumentos e sua capacidade de explaná-lo. Vamos colocar esse custo nas costas dos moderados ou de uma terceira via ou dos criminalistas que não articularam suas fundamentações e não convenceram a sociedade.

    Fico a me perguntar sobre qual é o problema mesmo que estamos lidando? Criminalidade crescente ou falta de percepção de punição? E o que discutimos: porte de arma, redução da maioridade, pena de morte, custo das cadeias…. E agora? A justiça continua desigual, o menor continua traficando e não sendo preso, a cadeia continua superlotada, as policias continuam sem gestão, sem investigação e sem condições, os grandes criminosos continuam soltos ou preso, mas no comando, o crime continua aliciando jovens melhor do que o estado ou as igrejas. Mas eu tem arma, meu filho é maior aos 16 anos e se sobreviver a cadeia, o cara morre na cadeira elétrica.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).