Cassação de João da Costa

Exilado em terras maranhenses, há tempo não escrevo para o blog. Só que agora, diante da cassação do registro do petista João da Costa, não poderia deixar de me pronunciar. Não vou entrar na seara jurídica, que está sendo muito bem explorada pelo meu amigo Pierre Lucena. Discutamos, então, o que acontece no campo político.

João da Costa tem a seu favor o fato de a cassação do registro não ser automática. Ele recorreu e continua candidato até que a última instância (TSE) se pronuncie. Gostaria de lembrar os dois últimos casos de peso:

  1. No Piauí, o governador Mão Santa concorreu sub judice, ganhou a eleição e governou por três anos, até que o TSE decidiu cassá-lo por uso da máquina e abuso do poder econômico. Só então Hugo Napoleão (segundo colocado na eleição) assumiu.
  2. Na Paraíba, o também governador Cássio Cunha Lima foi acusado de uso da máquina (distribui 30 mil cheques pelo Bolsa Família local às vésperas da eleição e usou o jornal do governo do estado a seu favor), em 2006, mesmo assim foi reeleito. Condenado no TRE, recorreu ao TSE e está até hoje governando.

Ou seja, os candidatos da oposição no Recife sabem muito bem que o caminho jurídico é árduo e demorado. A intenção verdadeira é usar a decisão judicial como fato político que possa forçar um segundo turno.

Para isso, basta que João da Costa perca 3% das intenções de voto. Pelo Datafolha da semana passada, JC tem 48% e os outros candidatos somam 43%. Então, se o petista perde 3%, esse percentual vai para o outro lado e a virada está caracterizada.

Para isso, vão explorar ao máximo da decisão pronunciada hoje pelo juiz Nildo Nery. Essa deve ser a postura que Mendonça Filho (DEM) e Raul Henry (PMDB) devem adotar a partir da amanhã na TV e no Rádio. Como eles estão unidos até agora, devem continuar a estratégia conjunta com uma postura mais dura, dizendo que o PT está maculado, que não tem condições éticas de concorrer, que deveria se retirar do pleito… Em resumo, colocar a candidatura petista em suspeição.

O guia de João da Costa deve aprofundar no discurso de que a oposição quer ganhar no tapetão. Não se surpreendam se o prefeito João Paulo (a figura de maior peso político e eleitoral da campanha governista) aparecer amanhã na TV conclamando a população à defesa da candidatura de JC. É a estratégia de vitimização, dos poderosos contra o povo, etc e tal. Além do mais, a militância petista tem um novo motivo agora pra ir às ruas com mais agressividade e tentar levar a parada no primeiro turno.

E Cadoca?

Bem… Cadoca, se for esperto, não baterá com tanta virulência em João da Costa. A postura correta seria a de ser mais diplomático. Defender a legalidade das eleições. Dizer que o uso da prefeitura como instrumento eleitoral é inadmissível e que a Justiça deve apurar com rigor. Paralelo a isso, lembrar que é a segunda opção de Lula e Eduardo no Recife. Se bater menos, evita atrair para si a rejeição dos ex-eleitores de João da Costa e pode herdar uns votinhos importantes.

Mas, ao final, é cedo para saber como o eleitor vai se comportar. Lembrem-se que o caso é de alguns servidores da prefeitura usando computadores para fazer campanha. Vamos ver se o recifense vai achar o caso tão grave assim a ponto de cair fora de uma candidatura que vinha subindo feito foguete. Ou se vai assimilar o discurso de que João da Costa nada mais é que uma vítima das armações da oposição (coisa que salvou Lula várias vezes).

Lembremos que os eleitores já mostraram ser misericordiosos ( ou lenientes) até com os políticos envolvidos em situações muito mais cabeludas.

PS: este post foi publicado originalmente às 19:13h de ontem.

19 comentários para 'Agora pode acontecer tudo. Ou absolutamente nada…'


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