O mapa da mamata no serviço público brasileiro

mar 17, 2010 by     37 Comentários    Postado em: Política

O Ministério do Planejamento divulgou hoje um levantamento revelador da situação de mamata em que se deleitam mais de 150 mil servidores públicos no País. Para ser mais preciso, foram detectados 164 mil indícios de irregularidades. O levantamento foi realizado em parceria com o  Conselho de Secretários Estaduais de Administração (Consad), e resultou do compartilhamento das bases de dados de servidores da União e 13 unidades da federação, realizado pela Dataprev. O cruzamento tem como objetivo a criação de um cadastro único de servidores públicos do país.

Foram identificados 53.793 servidores com mais de dois cargos. 47.360 servidores com contrato em regime de dedicação exclusiva e com mais um cargo. Além disso, o levantamento encontrou 36.113 registros de servidores com indícios de acumulações ilícitas. Existem ainda, segundo o site do Ministério, outros 26.898 registros que se enquadram em outras situações irregulares, precisando passar ainda por uma auditoria mais detalhada. O estudo analisou 3.080.040 registros de servidores. Em números percentuais, 164 mil representa 5,3 % do total.

Pra se ter uma ideia do que subtraem do povo brasileiro esses milhares de servidores, alguns deles verdadeiros chupistas, o Ministério fez uma estimativa de que a resolução das irregularidades resulte numa economia de R$ 1,7 bilhão aos cofres públicos por ano.

Alguns casos são melindrosos: por exemplo, foram encontrados 17 servidores com cinco vínculos (esses devem trabalhar feito condenados!), 252 com quatro vínculos (esses também…) e 3,8 mil servidores com aposentadoria por invalidez em um órgão e com vínculo de ativo, aposentado, ou afastado em outro. Pra completar, 341 servidores ativos, aposentados ou afastados em um órgão, e que figuram como instituidores de pensão em outro – o que, em tese, significa que se tratam de servidores falecidos.

E isso nem é tudo.

A adesão ao projeto não foi obrigatória. Alguns Estados que figuram entre os que apresentam maior número de servidores públicos do País, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, não foram contabilizados. Os Estados analisados foram Pernambuco, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Maranhão, Rio de Janeiro, Espírito Santo e o Distrito Federal.

Porém, entretanto, no entanto, nenhum tipo de punição foi recomendado pelo Ministério. Os Estados receberam o estudo, e deverão analisar os dados para tomar futuras ações de correção.

Em outras palavras, pode-se dizer que muitas águas vão rolar. Dito sem metáforas, muita grana ainda vai descer pelo ralo e cair direto no bolso dessa turma – que, no final das contas, vai se fazer de doida, de que não sabia dessas irregularidades todas, não vai devolver dinheiro algum aos cofres públicos, e tudo volta a ser como dantes, na terra de Abrantes.

Fica a pergunta: será que aquela conhecida casta recifensis de chupistas da Prefeitura da Cidade do Recife, que além de acumular cargos comissionados, furam o teto salarial do município (amparados na esquisita lei Nº 16.954, aprovada no início do segundo mandato do ex-prefeito João Paulo), constam nesse levantamento?

Outra pergunta que fica: será que esse assunto um dia vai ser pauta do movimento grevista dos explorados fazendários do Recife e de Pernambuco, representados no Sindifisco e no Afrem, que esta semana está em franca campanha salarial?

As perguntas estão aí. Mas as respostas, como diria Bob Dylan, is blowin’ in the wind

37 Comentários + Add Comentário

  • André, citar a classe dos fazendários como se fossem barnabés por causa do ex-secretário de finanças que furava o teto salarial da prefeitura de maneira irregular é uma generalização desleal. O movimento “grevista” é motivado por um descumprimento de uma promessa da prefeitura para o ano passado. Não venha, por favor, querer tirar a legitimidade da luta desse pessoal.

    • Zeka,

      Você está distorcendo as coisas. Em nenhum momento eu generalizei os fazendários como barnabés – que mais precisamente, pode-se chamar de chupistas. Releia com mais atenção o texto, por favor. Falei especificamente dos auditores fiscais que acumulam cargos comissionados na PCR, questionando se isso algum dia entrará na pauta dos zelosos sindicatos.

      • Na prefeitura do Recife, os representantes do maravilhoso sindicato dos auditores fiscais, indagado se tomaria alguma providencia contra o passado escatológico de um ex-secretário e de um atual diretor-geral, ambos acumuladores de empregos públicos como essa turminha retratada no artigo, saiu-se com essa “o sindicato não joga contra, só a favor”!?

        É isso caros blogueiros. É essa “gente digna” que ganha 15 mil por mês na prefeitura do recife e acha pouco!

        E ainda protegem seus “compadres”……….

      • André,

        no penúltimo parágrafo de maneira indireta você, ao menos, sugere que aqueles sejam barnabés, sim.

        “…movimento grevista dos ‘explorados’ fazendários do Recife…”

        De fato são os maiores salários da prefeitura, mas insinuar que os mesmos não trabalham… Reconheço ainda que existe uma grave distorção na distribuição da folha da PCR. O injusto são as outras classes ganharem muito menos que os fazendários, mas isso não significam que eles ganhem “DEMAIS”.

  • É auspicioso que se façam esses cruzamentos de dados entre as administrações das diferentes esferas federativas.

    Tem muita coisa a ser encontrada nas cessões de servidores de um poder a outro. Geralmente, do executivo para os diversos legislativos, com ônus para ambos.

    Outra situação muito curiosa é a docência por servidores em entidades privadas, mas no horário de expediente. Não há acumulação de cargos públicos, evidentemente, mas é ilegal.

    • É verdade Andrei.
      Muitas universidades já flexibilizaram a DE, permitindo atividades esporádicas com taxação do servidor, que contribui para a instituição, mas isso não tem relação com vínculo contínuo com instituições de ensino.

  • Mamata é o que não falta no serviço público. Aliás, o serviço públio É a mamata em si, personalizada.

    • Não sei em que dados ou conhecimento de causa sobre todos os servidores, mas você afirma com uma certeza tão grande! Que deve ser verdade! Eu como servidor público não me vejo em nenhuma mamata, mas posso está errado!

      • Nem eu, Giancarlo! Ralo pra caramba!!!

        • Encontro-me na mesma situação dos colegas…
          Caro robson de abreu, qual orgão trabalhas?
          Quem sabe não peço uma transferência prai?!
          A mamata deve ser maior..

    • Mamata? Onde? Não aqui na Petrobras, com certeza. Eu e meus colegas estamos trabalhando.

      • Às 9h (da manhã) escreve o comentário e diz que está trabalhando??? Hehehehhe!

    • Robson
      Quem generaliza peca, se eu disser que todo mundo é ….. estarei generalizando, mas isso não corresponde com a verdade e estarei jogando na cala comum as pessoas responsáveis, dignas e trabalhadoras, seja no serviço público ou privado.

  • Quantas horas/dia trabalha um auditor da prefeitura?
    Quanto produz?
    Quantos chefes para quão poucos subordinados!
    Quanta mamatinha delícia papai!

    É o céu: tudo azul e querendo mais.

  • 80% dos trabalhadores administrativos da secretaria da educação é composto por terceirizados, por que governador? Danilo Cabral, responda! E o resto dos concursados quando serão chamados?

  • Se fosse um pobre, ladão de margarina, já estava no xilindró.

    Quanto menos Barnabés, melhor.

  • André,

    Não é papel do Ministério do Planejamento recomendar punição. Os servidores do Executivo Federal serão chamados a se explicar e serão forçados a optar por apenas uma remuneração.

    Se os Estados não se mexerem, cabe uma ação dos Tribunais de Contas e do Ministério Público.

    A adesão ao projeto não foi obrigatória porque os Estados tem autonomia. O Governo Federal não pode impor isso.

    Esses cambalachos foram descobertos com o cruzamento das bases de dados do Governo Federal e Estados. E essa é uma prática que vai continuar. Infelizmente, isso veio um pouco tarde.

  • O que São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm em comum, além de um grande número de servidor público e de não terem participado desse cruzamento de dados?

    • Um, deixe-me ver??? O PSDB? Acertei? Mas será que isso é relevante?

      • Este comentário foi feito por alguém do PT. Acertei??? : )

  • Em um País que paga por exemplo a um Técnico da Justiça Federal mais que um Médico do Serviço Público, com o detalhe de que o Médico tem que trabalhar 8 horas por dia e o Técnico apenas 6, só pode terminar assim. Muitos servidores precisam de outros empregos pra manter uma qualidade de vida. Um Juiz recebe 19 mil, um médico pra trabalhar mais horas que o Juiz recebe 6 mil. Um policial federal recebe mais que um professor da UFPE com doutorado que atende no Hospital das Clinicas, e ai ? Acho que o Governo deveria pagar melhor seus funcionários. Um Oficial de Justiça Federal ganha 14 mil, vai ver quanto ganha um professor com doutorado com 30 anos de casa na UFPE ?

    • É inegável que as remunerações da justiça e do ministério público federal são escandalosas.

    • O médico não trabalha 8 horas por dia, e sim 4 (exceto os dos PSFs, mas aí o salário também aumenta). Um técnico da justiça federal trabalha 8 horas, não seis. Estou apenas esclarecendo a carga horária, não avaliando salários. Aliás, o salário de qualquer cargo de nível superior no judiciário federal é igual, mas apenas os médicos tem carga horária de 4 horas.

  • É por estas e outras que eu faço concursos. Tudo o que eu quero na vida é ter tempo e segurança para poder também me dedicar a projetos meus, e não de donos de meios de produção que reconhecem na exploração 24h/dia como única forma de assegurar a rentabilidade, e ainda se achando “empreendedores.” Ninguém aguenta mais isso

    • E ainda acham que o resultado financeiro vem do capital aplicado. Perderam as aulinhas sobre a mais-valia de Marx.

      • Eles NUNCA se coçaram pra aprender isso.

        Só querem cultivar o “VERDE”…

  • No início dos anos 80, o jornalista Eduardo Ferreira,que era professor da Católica,fez pesquisa mostrando que a maioria dos jornalistas pernambucanos possuiam dois ou tres empregos. E sabe por que ? Salários baixos. Quanto ao servidor público digo : tem gente de mais e salário de menos.

  • O tom do blog com o funcionalismo público é sempre desproporcionalmente agressivo.

    O serviço público no Brasil é sim uma tragédia: muito pelos servidores, mão não só por eles.

    Instituições de excelência não são obra do acaso. Trata-se mais do resultado de um processo histórico de marchas e contra marchas do que do empenho puro e simples dos nobres “barnabés”.

    Qual o papel da população como um todo nesse processo? Será que não fomos educados (e educamos nossos filhos) para trabalhar muito e não fazer nada? Será que o empresariado também atua de forma digna, com respeito aos usuários dos seus produtos, com responsabilidade e empenho na construção de uma sociedade digna?

    O problema está nas pessoas, nos cidadãos, nos homens e mulheres. Vigora um descompromisso total com a coletividade.

    O estado em que se encontram as instituições públicas são muito mais a consequência do que a causa.

    • Perfeito. E como servidor público, casado com uma servidora pública, posso dizer q essa definição de Raboni passa muito longe de nossa realidade…

  • André,

    Acho que o título do seu post deveria ser: “O Mapa da incompetência administrativa do estado brasileiro”. Servidor público não é culpado da mamata, mas sim a administração pública que permite que ele seja. Ora, você contrataria alguém para trabalhar na sua casa e deixaria esse alguém ter outro emprego ao mesmo tempo? Ou será que você nem notaria a ausência de seu empregado?

    E sabe por que essa incompetência? Porque ela atende as necessidades dos poderosos de plantão, só isso. Porque para derrubar um servidor público corrupto, faltoso, incompetente, vai ter que derrubar todos, inclusive os achegados politicamente e geneticamente. Daí não sai ninguém. Não há inocentes nessa história, nem a sociedade, uma vez que esta sempre sonhou com um carguinho providenciado pelo padrinho e hoje sonha em passar em concurso para não trabalhar muito. Nossa sociedade prefere chamar de heróis aquelas criaturas expostas no BBB e não professores como minha tia, que ensinou durante 25 anos, sem faltar um dia e sem deixar de alfabetizar nenhuma criança, mas que hoje recebe uma aposentadoria de R$ 900,00. Isso é que é uma mamata!

    Como servidora pública sinto muita vergonha pela realidade do serviço público no Brasil, mas com muita traquilidade lhe digo que essa carapuça não me cabe, assim como acredito que não caiba em Pierre. Mas essa “mamata” da qual você falou não vai cabar nunca enquanto tratarmos o serviço público da forma como você tratou no post, ou seja, generalizando. Essas generalizações não contribuem em nada para mudar esta realidade, se é que realmente queremos mudá-la.

    • “Servidor público não é culpado da mamata, mas sim a administração pública que permite que ele seja.”

      Ele é culpado sim. Não carrega a responsabilidade sozinho, mas tem parcela significativa.

    • “Não há inocentes nessa história, nem a sociedade, uma vez que esta sempre sonhou com um carguinho providenciado pelo padrinho e hoje sonha em passar em concurso para não trabalhar muito”

      Exato, o servidor público, como políticos também, é reflexo da sociedade e não o oposto!

  • É muito servidor público enviando post’s para o acerto de contas durante o horário de expediente…

    • É uma pena como servidor público sei que muitas coisas erradas ocorrem, mas posso dizer onde começa o problema, quem são os presidentes desses empresas? quem os indica?

      Escandaloso para mim é isso. Como pode um presidente de uma empresa pública pertencer a partido x ou y? É isso que o avalia como competente? E que autonomia ele vai ter? vai poder mandar e desmandar na empresa?

      E agora a pergunta menos realizada: De que forma eu poderei medir essa administração? Através de que resultados?

      • Oziel, mas isso é X da questão. Os caras que “gerenciam” são indicados por partidos e geralmente não endendem PN do que fazem. E ainda querem dar uma de Napoleão. Também têm aquele que, por não endender bulhufas, negligencia tudo. E assim vamos indo : o sistema existindo só para o sistema!

  • Nem é preciso acumular empregos:

    na prefeitura tem um ex-secretario famoso, muito citado aqui no blog, lotado hoje numa assessoria de secretaria

    ….

    com um detalhe: parece que o bom moço nunca deu um dia sequer de trabalho por lá.

    Cadê o MP-PE?

  • Essa mamata tem que acabar. É desleal. Temos que derrubar esse privilegio.

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MARCO BAHÉJornalista
É formado em Jornalismo e pós-graduado em História Contemporânea e História do Nordeste do Brasil. Foi repórter da Gazeta Mercantil para os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também atuou como repórter do Jornal do Commercio, editor da Folha de Pernambuco e repórter especial do Diario de Pernambuco. É correspondente da revista Época no Nordeste desde 2003. Tamb´m atua com publicidade e marketing eleitoral desde 2004.
PIERRE LUCENADoutor em Finanças
É doutor em Finanças pela PUC-Rio e mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco. É professor adjunto de Finanças da UFPE e foi secretário-adjunto de Educação de Pernambuco. É autor de vários trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre o mercado financeiro, e participa como revisor de várias revistas acadêmicas na área. É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi comentarista de Economia do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (TV Jornal e Rádio CBN). Atualmente é coordenador do curso de administração da UFPE, e Coordenador do Núcleo de Estudos em Finanças e Investimentos do Programa de Pós-graduação em Administração da UFPE (NEFI).