o energúmeno político

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No Brasil do novo século foi criada uma figura singular, retrato da falta de senso crítico e inteligência da participação política brasileira: o míope ideológico.

O míope ideológico é aquele que não consegue enxergar um metro além do espectro partidário a que se submeteu por livre e espontânea vontade. Qualquer coisa vinda de sua oposição é ruim, e qualquer coisa vinda do seu líder é boa.

O míope ideológico normalmente é feroz, e não deixa espaço para a discussão política. Ou as coisas são brancas, ou são pretas. Para ele não existe o cinza. Ele não consegue pensar. Vivem apenas para esculhambar o vizinho. Não importa o que é bom ou ruim, pois se vir do outro não presta. Esquece o míope que perde totalmente a credibilidade quando age deste jeito. Serve de bajulador fiel quando está na situação, e de pitbull feroz quando está na oposição.

Para o míope ideológico, tudo o que é feito contrariando os interesses do partido ou do patrão está errado. Vejamos o caso da Senadora Marina Silva. Depois que resolveu sair das asas petistas, é acusada o tempo todo de estar fazendo o jogo de Serra. Ciro Gomes seria acusado da mesma forma, mas como não aparece ninguém de peso político com coragem suficiente para falar, pois sabe que levará um belo coice, todos se calam. Mandar um Zé Bedeu vociferar algo contra ele não daria em nada.

Infelizmente a blogosfera está virando um espaço de míopes. Não faltam exemplos de míopes de situação ou de oposição. Reproduzem o que há de pior na imprensa brasileira. É a democracia ao avesso. O que deveria ser o auge do senso crítico se transforma na república dos quadrúpedes. São espaços para promoção de candidaturas, ou mesmo para desqualificação pessoal, sem o debate de idéias. Natural que em alguns momentos as coisas saiam do controle, mas isso deveria ser algo pontual, e não a regra.

SEITA

Quer coisa mais míope do que a democracia brasileira, onde a politicalha se entrincheira em três grandes grupos: os situacionistas de primeira hora, os adesistas patrimonialistas e os oposicionistas a qualquer custo? Para o primeiro grupo, tudo que sai da boca do governante está certo. Para o segundo grupo, nada importa, contanto que o pagamento seja feito. E para o terceiro grupo, tudo que sai do Governo está errado. Na cabeça dos míopes tudo deve ser combatido.

Esquece o parlamentar que ele foi eleito para legislar representando quem o elegeu, e também para pensar. Não foi eleito para servir de bajulador oficial, e muito menos para ficar servindo de despachante comunitário. Ele está ali para legislar, fiscalizar e representar uma parcela da população. Mas cada vez é mais difícil encontrar alguém que seja independente, que não esteja na oposição ou situação. Casos como o do Senador Pedro Simon, dos ex-deputados Maurílio Ferreira Lima e Cristina Tavares, ou do falecido Jeferson Perez, são cada vez mais raros. Estes defendem (ou defendiam) o que pensavam, não importando quem estavam contrariando.

Vejamos um fato curioso que ficou evidente aqui no blog: alguns meses atrás descobriu-se que Roberto Freire seria conselheiro de empresas em São Paulo, e que ganharia jeton por isso. Como muitos petistas e afins não gostam do PPS, isso virou rapidamente uma imoralidade. Qualquer coisa que o presidente do PPS escreva aqui no blog provoca a ira de alguns.

Mas o míope ideológico é assim. Acredita que tudo que vem do outro está errado, e tudo o que seu chefe faz está certo.

E nesta miopia que é a política brasileira, fica difícil para o cidadão diferenciar se o que está certo vem de Agripino ou Isaltino.

A eleição deste ano caminha para um desfecho triste.

Os dois lados estão míopes.

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* Post publicado originalmente às 18h12 de ontem.

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