Se o preço de um título do Tesouro Direto caiu no extrato, isso não significa automaticamente que o Tesouro Nacional deixou de pagar ou que o investimento “parou de render”. O efeito costuma ser a marcação a mercado: o valor de venda é atualizado conforme as taxas praticadas no mercado naquele momento.
O ponto decisivo é este: quem mantém o título até o vencimento recebe o fluxo previsto nas condições da compra, respeitados os critérios do papel. Quem vende antes troca esse fluxo pelo preço de mercado do dia. É nessa antecipação que pode aparecer uma perda — ou um ganho — mesmo em um investimento de renda fixa.

O que é marcação a mercado
É a atualização do preço de um ativo para refletir quanto ele valeria em uma negociação naquele dia. No Tesouro Direto, as taxas e os preços divulgados são baseados no mercado secundário de títulos públicos federais. O Tesouro Transparente informa esses dados em série diária e identifica o preço-base usado para valorizar os títulos adquiridos no programa.
Isso cria duas referências diferentes para o mesmo investimento:
- Rentabilidade contratada para o vencimento: é a remuneração definida pelas regras do título e pelas condições da compra, desde que o investidor siga o fluxo previsto.
- Preço de resgate antecipado: é quanto o Tesouro paga na venda antes da data final, conforme as condições de mercado e os custos aplicáveis.
Por que o preço cai quando os juros sobem
Imagine que você comprou um título com uma taxa fixa. Se as taxas para títulos semelhantes subirem depois, um novo investidor só aceitará comprar o seu papel se ele oferecer uma vantagem equivalente. Como a remuneração original não muda, o preço precisa cair para compensar a diferença.
O movimento é inverso quando as taxas de mercado recuam: um título antigo com uma taxa maior pode ficar mais valioso, porque entrega uma remuneração melhor do que a disponível em novos papéis equivalentes.
| Exemplo didático | Taxa de 10% ao ano | Taxa de 12% ao ano | Queda do preço |
|---|---|---|---|
| Título sem pagamentos intermediários, prazo de 2 anos | R$ 826,45 | R$ 797,19 | 3,54% |
| Título sem pagamentos intermediários, prazo de 5 anos | R$ 620,92 | R$ 567,43 | 8,61% |
A tabela usa um valor de face de R$ 1.000 e a fórmula preço = valor de face ÷ (1 + taxa)prazo. É uma ilustração matemática, não uma cotação do Tesouro Direto. Títulos reais podem ter correção pelo IPCA, juros semestrais, convenções de cálculo, impostos, taxa de custódia e outras características. O exemplo mostra por que prazos mais longos tendem a reagir mais às mudanças nos juros.
Quais títulos oscilam mais
| Título | Como a oscilação aparece | Principal cuidado |
|---|---|---|
| Tesouro Prefixado | A taxa é definida na compra, mas o preço muda se as taxas de mercado mudarem. | Uma venda antes do vencimento pode resultar em valor menor ou maior que o esperado. |
| Tesouro IPCA+ | O preço combina a expectativa de inflação, a taxa real e o prazo restante. | Não confundir proteção contra a inflação no vencimento com estabilidade do preço no caminho. |
| Tesouro Selic | Também tem preço de mercado, mas costuma apresentar oscilação menor em condições normais. | Liquidez diária não elimina custos, impostos nem a possibilidade de pequenas variações. |
Quanto mais distante estiver o vencimento, maior costuma ser a sensibilidade do preço às taxas. O prazo, porém, não é o único fator: pagamentos de juros, inflação esperada, liquidez e condições específicas do papel também entram na precificação.
A perda só existe se eu vender?
Para a decisão de caixa, sim: a oscilação negativa vista no extrato só vira uma perda financeira realizada quando o título é vendido por um preço inferior ao valor de referência da compra. Antes disso, ela é uma variação de mercado da posição.
Isso não transforma o vencimento em uma garantia de lucro em qualquer situação. O resultado líquido ainda depende da inflação quando ela faz parte da remuneração, dos impostos, da taxa de custódia e de eventuais custos da instituição. O que muda é a forma de saída: no vencimento, o investidor segue o fluxo do título; antes dele, aceita o preço disponível no mercado.
Como evitar uma venda antecipada por necessidade
- Separe a reserva de emergência: dinheiro para imprevistos não deve depender da cotação de um título longo. Veja também a comparação entre Tesouro Reserva, Tesouro Selic e CDB com liquidez diária.
- Escolha o vencimento pelo objetivo: uma meta com data próxima não combina com um título cujo prazo vai muito além dela apenas porque a taxa anunciada parece atraente.
- Planeje parcelas: dividir aportes em títulos com vencimentos diferentes pode reduzir a chance de precisar vender toda a carteira em um único momento.
- Leia o preço, não só a taxa: a taxa futura pode parecer melhor, mas a troca exige considerar a perda ou o ganho já acumulado, os custos e o prazo restante.
O guia sobre como funciona o Tesouro Direto detalha os tipos de título, os custos e os riscos gerais. Para acompanhar as taxas e os preços diários divulgados pelo Tesouro Nacional, consulte o Tesouro Transparente.
Custos que entram na conta
A venda antecipada não deve ser avaliada apenas pela diferença entre o preço de compra e o preço de venda. O resultado líquido pode incluir Imposto de Renda sobre os rendimentos, IOF em resgates muito curtos, taxa de custódia da B3 e eventual tarifa da instituição financeira.
A B3 divulga taxa de custódia de 0,20% ao ano para os títulos sujeitos à cobrança, provisionada diariamente, com regra específica para o Tesouro Selic: não há cobrança sobre até R$ 10 mil por CPF, conforme as condições da tarifa. Regras de produtos e tarifas podem mudar; confira a tabela vigente antes de comparar alternativas.
Perguntas frequentes
Se o Tesouro Direto tem liquidez diária, por que posso perder dinheiro?
Liquidez diária significa que existe possibilidade de venda nos dias e horários previstos, não que o preço será sempre igual ao da compra. Na venda antecipada, vale o preço de mercado do dia.
A marcação a mercado desaparece no vencimento?
A oscilação diária deixa de definir o valor de saída quando o investidor chega ao vencimento e segue o fluxo do título. Até lá, o preço pode subir ou cair no extrato.
Juros maiores sempre são ruins para quem investe?
Não. Juros maiores podem reduzir o preço de um título já comprado, mas também podem oferecer taxas melhores para novos aportes. O efeito depende do prazo, do objetivo e de o investidor precisar ou não vender.
Como reduzir o risco de precisar vender antes?
Monte a reserva de emergência separadamente, alinhe o vencimento à data do objetivo e mantenha liquidez para despesas previsíveis. Assim, a decisão de vender fica menos dependente de um momento ruim dos juros.
